Alguns Vislumbres do Ocultismo

Antigo e Moderno

Por

C.W. Leadbeater

CAPÍTULO -I-

Introdutório

ANTIGO

CAPÍTULO -II-

Teosofia e Cristianismo

As Três Grandes Verdades

Como surge a divergência

Reencarnação

As Três Hipóteses

A Lei de Causa e Efeito

O Ensinamento Interno

Referências a Ele

O Reino dos Céus

O Caminho que Conduz à Vida

As Dificuldades dos Ricos

São Paulo, o Iniciado

As Três Etapas da Igreja

São Clemente de Alexandria

O que Orígenes Diz

A Teosofia Explica

O Evangelho da Teosofia

CAPÍTULO -III-

Os Mistérios Antigos

Os Mistérios de Elêusis

Os Métodos do Monge

O que eram os Mistérios

Os Mistérios Menores

Os Mistérios Maiores

Os Símbolos Empregados

A Escola Pitagórica

Os Mistérios Egípcios

CAPÍTULO -IV-

Budismo

A Vida do Fundador

Seu Ensinamento

As Quatro Nobres Verdades

A Ordem do Manto Amarelo

A Vida do Monge

Nirvana

O Resultado Prático

O Budismo em Burma

A Oferenda do Templo

Os Três Guias

Os Cinco Preceitos

O Cantochão da Bênção

As Duas Igrejas

Tendências Materialistas

O Ego Permanente

A Teosofia e as Religiões

O Ponto de Vista Teosófico

O Dhammapada

MODERNO

CAPÍTULO -V-

O Mundo Invisível

Estados da Matéria

Os Átomos Últimos

Planos de Matéria Sutil

Os Sentidos Superiores

A Gama de Vibrações

Tabela de Vibrações

Extensão da Faculdade

As Experiências do Dr. Baraduc

Nossos Poderes Mais Amplos

A Verdade sobre o Invisível

A Vida Celestial

Cada um tem sua Recompensa

Interpenetração

Razão e Senso Comum

CAPÍTULO -VI-

A Razão de Ser do Mesmerismo

As Experiências de Reichenbach

Ignorância Invencível

A Natureza da Sensibilidade

A Circulação Nervosa

O que o Mesmerista Dá

Simpatia Magnética

Os Fenômenos

Uma Palavra de Cautela

CAPÍTULO -VII-

Telepatia e Cura Mental

Como Pensamos

Três Tipos de Telepatia

Cura Mental

Algumas Objeções a Ela

O Poder do Pensamento

Como os Homens são Curados

Tipos de Doença

Um Grande Princípio de Cura

CAPÍTULO -VIII-

Magia, Branca e Negra

As Forças Não Reconhecidas da Natureza

Espíritos da Natureza

A Magia do Comando

Quatro Tipos de Magos

Três Tipos de Força

Magia na Religião

Talismãs

Feitiços ou Mantras

Magia Invocatória

Invocações Malignas

A Magia Mais Sombria

Magia Mesquinha

Como o Mal Pode ser Resistido

CAPÍTULO -IX-

O Uso e o Abuso dos Poderes Psíquicos

O Treinado e o Não Treinado

Estudos Não Definitivamente Psíquicos

Mesmerismo e Cura Mental

Clarividência

Uso Escandaloso dela

Formas-Pensamento

O Trabalho da Forma-Pensamento

Pensamento Útil

Sensibilidade

Vibrações Inarmônicas

CAPÍTULO -X-

Vegetarianismo e Ocultismo

Razões Egoístas a Favor de uma Alimentação Digna

Queremos o Melhor

Mais Natural para o Homem

Maior Força

Menos Paixão Animal

Economia

A Degradação do Açougueiro

Razões Ocultas

Veículos Impuros

O Dever do Homem para com a Natureza

O Tempo Melhor que Virá

CAPÍTULO -XI-

Como Construir o Caráter

O Vazio Irresponsável Médio

Conversão

Puritanismo

O Despertar

Sabba Papassa Akaranam

Perturbação Astral

Presunção e Preconceito

Kusalassa Upasampada

A Tolice de se Ofender

O Mal da Agitação Desnecessária

Coragem e Resolução

A Maior Necessidade de Todas

Concentração de Propósito

Sachitta Pariyodapanam

Sem Introspecção Mórbida

CAPÍTULO -XII-

O Futuro da Humanidade

A Condição da Religião

Condições Sociais

O Trabalho da Teosofia

Seu Trabalho no Oriente

As Duas Grandes Igrejas do Budismo

As Lições a Serem Aprendidas

A Preparação do Nosso Futuro

O Desenvolvimento Deve Vir

O Futuro Mais Remoto

O Efeito do Desenvolvimento Astral

A Faculdade do Plano Mental

Possibilidades Ainda Mais Elevadas

CAPÍTULO -XIII-

Teosofia na Vida Cotidiana

O Senso de Proporção

Justiça e Perspectiva

Uma Dita Obscura

O Equilíbrio do Bem e do Mal

A Explicação do Texto

A Destruição do Medo

A Apoteose do Senso Comum

Sem Preocupações Religiosas

A Certeza da Evolução

Nossa Atitude para com a Humanidade

Controle do Pensamento

CAPÍTULO -XIV-

O Evangelho da Sabedoria

Índice

ALGUNS VISLUMBRES DO OCULTISMO

A Convenção da Seção Americana da Sociedade Teosófica em Chicago, Illinois, em setembro de 1902, da qual tive o privilégio de participar, foi para mim o ponto de partida de uma turnê de palestras de dois anos pelos Estados Unidos em prol daquela Seção da Sociedade — uma turnê paciente e laboriosamente planejada e executada até o mínimo detalhe, com carinho e cuidado meticuloso, por seu falecido e incansável Secretário-Geral, Sr. Alexander Fullerton.

Foi decidido que, antes de visitar as Filiais no extremo Oeste, eu passaria seis meses em Chicago, proferindo um curso de vinte e seis palestras no Steinway Hall nas noites de domingo, e falando nas reuniões das Filiais durante a semana.

Este curso de palestras foi concebido para apresentar ao público, em linhas gerais, alguns dos principais ensinamentos da Teosofia, e também para ajudar os homens a perceberem algo de seu escopo e abrangência, mostrando como tudo o mais está maravilhosamente incluído nela – como ela é a verdade poderosa subjacente a todos os sistemas de pensamento religioso, mesmo aqueles que diferem tanto no plano físico quanto o Budismo, o Cristianismo e os Mistérios Antigos, e como também oferece a única explicação racional e coerente dos (Página 10) fenômenos relacionados à clarividência, telepatia, mesmerismo, espiritualismo, sonhos e aparições.

Os títulos das palestras eram os seguintes:

Lista de Assuntos

1. 5 de outubro. O Homem e Seus Corpos

2. 12 de outubro. A Necessidade da Reencarnação

3. 19 de outubro. A Lei de Causa e Efeito

4. 26 de outubro. A Vida Após a Morte – Purgatório

5. 2 de novembro. A Vida Após a Morte – Céu

6. 9 de novembro. A Natureza da Prova Teosófica

7. 16 de novembro. Telepatia e Cura Mental

8. 23 de novembro. Auxiliares Invisíveis

9. 30 de novembro. Clarividência – O que é

10. 7 de dezembro. Clarividência – No Espaço

11. 14 de dezembro. Clarividência – No Tempo

12. 21 de dezembro. Clarividência – Como é Desenvolvida

13. 28 de dezembro. Teosofia e Cristianismo

14. 4 de janeiro. Budismo Antigo e Moderno

15. 11 de janeiro. Teosofia e Espiritualismo

16. 18 de janeiro. A Razão das Aparições

17. 25 de janeiro. Sonhos

18. 1º de fevereiro. A Razão do Mesmerismo

19. 8 de fevereiro. Magia, Branca e Negra

20. 15 de fevereiro. Uso e Abuso dos Poderes Psíquicos

21. 22 de fevereiro. Os Mistérios Antigos

22. 1º de março. Vegetarianismo e Ocultismo

23. 8 de março. O Nascimento e o Crescimento da Alma

24. 15 de março. Como Construir o Caráter

25. 22 de março. A Teosofia na Vida Cotidiana

26. 29 de março. O Futuro que nos Aguarda

CAPÍTULO 1.

INTRODUTÓRIO

(Página 11) O Outro Lado da Morte.

A palestra sobre Auxiliares Invisíveis, as quatro sobre Clarividência e a sobre Sonhos estão plenamente representadas por livros de minha autoria já publicados, que levam os mesmos títulos das palestras.

Os números 1 a 7 inclusive também foram publicados em forma de panfleto.

Os demais aparecem neste livro, com exceção do nº 23, que foi praticamente um epítome de certos capítulos de O Homem Visível e Invisível e O Credo Cristão, e tratou brevemente de um assunto que é plena e habilmente tratado pela Sra. Besant em O Nascimento e a Evolução da Alma.

Nº 18 é a apresentação de seu assunto, em grande parte resumida do livro do Sr. A.P. Sinnett, de mesmo nome, ao qual os leitores devem recorrer para maiores detalhes.

O curso de palestras como um todo ofereceu uma exposição popular e necessariamente um tanto superficial, do ponto de vista teosófico, da maioria das manifestações de ocultismo conhecidas no mundo ocidental atualmente, e também deu alguns vislumbres das manifestações mais completas e perfeitas que eram correntes há dois mil anos.

Parece-me, portanto, que estas palestras talvez possam ser de alguma utilidade para nossos membros, oferecendo-lhes um ponto de partida para seu pensamento ao longo de todas essas diversas linhas, e é com essa esperança que as apresento à nossa Sociedade nesta forma.

Elas aparecem aqui quase como foram proferidas, exceto que, agora que estão todas reunidas, algumas repetições foram suprimidas, e algumas citações são dadas de forma mais completa do que na palestra original.

Não fiz nenhuma tentativa de reformulá-las do estilo de palestra para o estilo de ensaio, pois isso teria exigido muito mais tempo do que pode ser dado durante uma turnê um tanto árdua, e portanto teria atrasado indefinidamente sua publicação.

(Página 12)

A palestra sobre O Mundo Invisível foi proferida durante uma visita anterior a Chicago, mas está incluída aqui porque é, até certo ponto, uma síntese de algumas das palestras anteriores da série que são publicadas integralmente em outro lugar, e assim serve como uma introdução útil a muitas das que a seguem. O Evangelho da Sabedoria foi proferido em conexão com a Convenção à qual me referi anteriormente, antes da primeira palestra desta série; mas coloquei-a no final, em vez do início, porque parece encaixar-se naturalmente ali, e conclui meu livro com a forte afirmação de um fato cuja proclamação acredito ser uma grande parte da missão da Teosofia para o mundo ocidental — a poderosa verdade de que todas as coisas cooperam para o bem final de todos, que o grande Pai Divino quer que sejamos felizes, e que assim o seremos na proporção de nosso conhecimento de Sua vontade e de nossa alegre cooperação com sua ação.

(Página 13)

ANTIGA

CAPÍTULO II

TEOSOFIA E CRISTIANISMO

Muitas pessoas que se sentem atraídas pela Teosofia, cujo interesse é despertado por sua razoabilidade e pela maneira como ela explica muitas coisas que de outro modo parecem inexplicáveis, hesitam, contudo, em aprofundar seu estudo, temendo que venham a encontrá-la em contradição com a fé em que foram criadas — temendo, como costumam dizer, que ela lhes tire a religião.

Como, se uma religião é verdadeira, o estudo de outra verdade poderia tirá-la, não é claro; mas, por mais ilógica que seja a apreensão, não há dúvida de que ela existe.

Ela é, no entanto, injustificada, pois a Teosofia não ataca nem se opõe a nenhuma forma de religião; ao contrário, ela explica e harmoniza todas.

Ela sustenta que todas as religiões, igualmente, são tentativas de enunciar as mesmas grandes verdades subjacentes — diferindo na forma externa e na nomenclatura, porque foram transmitidas por diferentes mestres, em diferentes períodos da história do mundo, e a raças de homens amplamente distintas; mas sempre concordando nos fundamentos, e dando instrução idêntica sobre todo assunto de real importância.

Sustentamos na Teosofia que essa verdade que jaz por trás de todas essas fés, igualmente, está ao alcance do homem, e de fato é a essa própria verdade que damos o nome de Teosofia, ou Sabedoria Divina, e é ela que estamos tentando estudar.

(Página 14)

Esta é, então, a atitude da Teosofia para com todas as religiões; ela não as contradiz, mas as explica.

O que quer que em qualquer delas seja irrazoável ou obviamente falso, ela rejeita como necessariamente indigno da Divindade e derogatório para Ele; o que quer que seja razoável em cada uma e em todas elas, ela acolhe e enfatiza, e assim combina todas em um todo harmonioso.

Nenhum homem precisa temer que ataquemos sua religião, mas podemos ajudá-lo a compreendê-la melhor do que antes.

Não há nada na Teosofia que esteja de qualquer modo em oposição ao verdadeiro cristianismo primitivo, embora nem sempre seja possível concordar com a interpretação dada a essa verdade pela teologia dogmática moderna, o que é uma questão bem diferente.

A maioria das pessoas nunca aplica a razão às suas crenças religiosas; elas vagamente esperam que esteja tudo certo de algum modo; de fato, muitas almas fiéis consideram errado pensar criticamente sobre qualquer ponto de fé, pois supõem que essas coisas sejam maiores do que o entendimento humano.

Quando as pessoas começam a pensar, invariavelmente começam a duvidar, porque a teologia moderna não apresenta suas doutrinas de forma razoável, e assim logo descobrem que muitos pontos são irracionais e incompreensíveis.

Muitas vezes, então, sentem que toda a sua base de fé foi solapada, e passam a duvidar de tudo.

A todas essas almas que lutam por luz, eu recomendaria o estudo da Teosofia, pois estou convencido de que ela as salvará dos abismos sombrios do materialismo, apresentando-lhes a verdade sob uma nova luz e devolvendo-lhes tudo o que há de mais belo em sua fé, mas sobre uma base nova e mais segura de razão e bom senso.

Para que vos fique claro que não há, na realidade, oposição entre o Cristianismo e a Teosofia, permiti-me apresentar-vos os princípios básicos desta última (Página 15); para que não suponhais que estou revestindo-os de um traje cristão incomum para os fins desta palestra, citá-los-ei de um pequeno livro que escrevi recentemente para iniciantes neste estudo.

Chama-se *Um Esboço da Teosofia*, e nele apresento três grandes verdades básicas, certos corolários que delas decorrem, e então os resultados que, por sua vez, procedem da crença teosófica.

AS TRÊS GRANDES VERDADES.

As três grandes verdades são: -

1. Deus existe, e Ele é bom.

2. O homem é imortal, e o seu futuro é um cuja glória e esplendor não têm limites.

3. Uma lei divina de justiça absoluta rege o mundo, de modo que cada homem é, na verdade, seu próprio juiz, o dispensador de glória ou trevas para si mesmo, o decretador de sua vida, sua recompensa, seu castigo.

A cada uma dessas grandes verdades estão ligadas outras, subsidiárias e explicativas.

Da primeira delas decorre:

1. Que, apesar de todas as aparências, todas as coisas estão definitiva e inteligentemente movendo-se juntas para o bem; que todas as circunstâncias, por mais desfavoráveis que possam parecer, são na realidade exatamente o que é necessário; que tudo ao nosso redor tende, não a nos impedir, mas a nos ajudar, se apenas for compreendido.

2. Que, uma vez que todo o esquema tende assim ao benefício do homem, é claramente seu dever aprender a compreendê-lo.

3. Que quando ele assim o compreende, é também seu dever cooperar inteligentemente neste esquema.

Da segunda grande verdade decorre:

1. Que o homem verdadeiro é uma alma, e que este corpo é apenas um apêndice.

(Página 16)

2. Que ele deve, portanto, considerar tudo do ponto de vista da alma, e que em todo caso em que ocorra uma luta interna, deve perceber sua identidade com o superior e não com o inferior.

3. Que o que comumente chamamos de sua vida é apenas um dia em sua vida verdadeira e mais ampla.

4. Que a morte é uma questão de importância muito menor do que geralmente se supõe, pois não é de modo algum o fim da vida, mas meramente a passagem de uma etapa para outra.

5. Que o homem tem uma imensa evolução atrás de si, cujo estudo é fascinante, interessante e instrutivo.

6. Que ele também tem uma esplêndida evolução diante de si, cujo estudo será ainda mais fascinante e instrutivo.

7. Que há uma certeza absoluta de realização final para toda alma humana, por mais que ela possa parecer ter se desviado do caminho da evolução.

Da terceira grande verdade decorre:

1. Que todo pensamento, palavra ou ação produz seu resultado definido — não uma recompensa ou punição imposta externamente, mas um resultado inerente à própria ação, definitivamente conectado a ela na relação de causa e efeito, sendo estes realmente apenas duas partes inseparáveis de um todo.

2. Que é tanto dever quanto interesse do homem estudar atentamente a lei divina, para que possa adaptar-se a ela e utilizá-la, assim como usamos outras grandes leis da natureza.

3. Que é necessário ao homem alcançar perfeito controle sobre si mesmo, para que possa guiar sua vida inteligentemente, em conformidade com a lei.

(Página 17)

Este não é um credo teosófico que estou formulando, pois estes princípios não são apresentados como artigos de fé, mas são declarados como fatos definidos, conhecidos como tais através de investigação pessoal por muitos de nós, e verificáveis por todos aqueles que estiverem dispostos a se dar ao trabalho de se qualificarem para o estudo.

Não pedimos que aceiteis nada além do que nós mesmos sabemos ser verdadeiro.

Aqui e ali, é verdade, tocamos em assuntos elevados demais para qualquer conhecimento direto que nós, como estudantes, ainda possuamos; em tais casos, quaisquer declarações que façamos são baseadas na autoridade de outros estudantes mais antigos que sabem muito mais do que nós; mas quando assim é, sempre o dizemos claramente, mantendo distinta a diferença entre aquilo que nós mesmos sabemos e aquilo que apenas cremos, mesmo que creiamos com base na melhor autoridade possível.

Simplesmente apresentamos o sistema para sua consideração; se lhe parecer razoável, aceite-o e examine-o minuciosamente, estude-o e viva a vida que ele recomenda. Como essa vida é nobre, nenhum mal pode advir de você tentar tal experimento.

Há Alguma Contradição?

Estes são, então, os princípios da Teosofia; eles contradizem de alguma forma os do Cristianismo? Atrevo-me a dizer que não há nada neles que se oponha ao verdadeiro Cristianismo primitivo, quando devidamente compreendido, embora possa haver afirmações que não podem ser conciliadas com alguns dos erros da teologia popular moderna.

Deixe-me tentar mostrar como isso é assim. Os principais pontos deste nosso esquema aos quais a ortodoxia moderna faria objeção são as doutrinas implícitas de reencarnação e carma – este último significando a Lei Divina de justiça eterna sob a qual todo homem deve inevitavelmente arcar com as consequências de seus próprios erros, e ninguém mais pode, em circunstância alguma, aliviá-lo de sua responsabilidade.

(Página 18)

A teologia moderna atribui imensa importância aos textos; na verdade, parece-me que ela se baseia quase inteiramente em um ou dois textos. Ela os toma e lhes dá uma interpretação particular, muitas vezes em oposição direta ao significado claro de outros textos da mesma Bíblia.

É claro que há contradições na Bíblia, assim como deve haver necessariamente em qualquer livro desse tamanho, cujos vários livros foram escritos em períodos tão amplamente separados da história do mundo, e por pessoas tão desiguais em conhecimento e civilização.

É impossível que todas essas afirmações sejam literalmente verdadeiras, mas podemos ir além delas todas e tentar descobrir o que o mestre original realmente apresentou aos seus discípulos.

Uma vez que há muitas contradições e muitas interpretações, é obviamente dever de um cristão pensante pesar cuidadosamente as diferentes versões de sua fé que existem no mundo e decidir de acordo com sua própria razão e bom senso.

Todo cristão, de fato, decide por si mesmo agora; ele escolhe ser católico romano, ou membro da Igreja da Inglaterra, ou metodista, ou salvacionista, embora cada uma dessas seitas professe ter a única marca genuína de Cristianismo e justifique sua reivindicação por citação de textos.

Como então o leigo comum decide entre suas reivindicações rivais? Ou ele aceita cegamente a fé que seu pai professava, e não examina nada, ou então examina, e então decide pelo exercício de seu próprio julgamento.

Se ele já está fazendo isso, seria absurdo e inconsistente recusar-se a examinar todos os textos, em vez de basear sua crença apenas em um ou dois.

Se ele examinar imparcialmente todos os textos, certamente encontrará muitos que apoiam as verdades teosóficas.

(Página 19)

Como Surge a Divergência.

Não pense que você é desleal ao Fundador do Cristianismo se admitir a existência de diferentes interpretações e a possibilidade de erro em todas elas.

A divergência sempre ocorre por necessidade no crescimento de toda religião.

Se você pensar nisso imparcialmente, verá que assim deve ser. Em cada uma delas há sempre primeiro o próprio Mestre, apresentando sua visão da verdade com toda a força do conhecimento pessoal direto, cercado por discípulos cujo entusiasmo é despertado pelo contato com ele, de modo que sentem uma certeza não inferior à dele.

Talvez alguns deles, sob a influência de seu magnetismo, desenvolvam o poder de ver muitas verdades em primeira mão por si mesmos.

Com o tempo, o Mestre os deixa, e a geração de seus discípulos desaparece.

A religião é então levada adiante por seus seguidores, que por sua vez geralmente não têm acesso pessoal direto à verdade, mas moldam sua fé sobre a doutrina dada por aqueles que os precederam.

Em pouco tempo, essa doutrina é posta por escrito, para que não seja esquecida ou distorcida, e assim surge uma escritura.

Não é fácil escrever de modo que seja impossível ao homem compreender mal, e assim surgem várias interpretações.

Naturalmente, diferentes mestres interpretam de várias maneiras, e assim seitas passam a existir, e amargura de sentimentos surge entre elas.

Uma igreja cresce — um corpo de homens que consideram que somente eles detêm essa nova verdade, cujo interesse direto é manter uma certa interpretação dela. Em pouco tempo, essa nova igreja adquire propriedade, e assim interesses estabelecidos são criados, e considerações inteiramente estranhas ao verdadeiro espírito religioso (e muitas vezes de fato inteiramente hostis a ele) são inevitavelmente introduzidas.

Então a cristalização se segue, (Página 20) e com isso temos estreiteza, bigotismo, mundanismo e consequente degradação; e tudo isso não por qualquer vício especial ou descuido de qualquer um dos envolvidos, mas no curso natural da história.

Podemos ver como isso aconteceu com o Hinduísmo e com o Budismo; se pudermos apenas olhar com um olhar imparcial, veremos como isso também aconteceu com o Cristianismo, embora eu saiba que muitas pessoas ortodoxas e boas considerariam ímpio e ateu dizer isso; mas certamente não pode ser ímpio afirmar o que é verdadeiro, como é mostrado nas páginas da história.

Visto que este era obviamente o caso, se desejamos descobrir e estudar o verdadeiro Cristianismo, devemos voltar às doutrinas originais e ver como os ensinamentos foram interpretados nos tempos mais antigos.

Se fizermos isso, descobriremos que a fé ensinada então não era de modo algum a teologia rígida dos dias atuais, mas uma religião muito mais espiritual e filosófica, correspondendo em muitos pontos com a verdade que está por trás de todas as religiões, que agora estudamos sob o nome de Teosofia.

Reencarnação

Como eu disse, os pontos principais nesse esboço da Teosofia aos quais o teólogo ortodoxo faria objeção são os da reencarnação e da ação inevitável e automática da justiça divina.

Nenhuma dessas doutrinas é sustentada pela igreja dos dias atuais, mas creio que encontraremos uma certa quantidade de evidências de que elas não eram desconhecidas durante os períodos anteriores.

Poucas referências diretas à doutrina da reencarnação são encontradas nas escrituras como as temos agora, mas há uma ou duas que são inconfundíveis.

Há uma declaração clara e definitiva do (Página 21) próprio Jesus, que, é claro, deve resolver a questão de uma vez por todas para qualquer um que acredite na história evangélica e na inspiração das escrituras.

Quando ele estava falando de João Batista e indagando quais opiniões eram geralmente tidas sobre ele, ele termina a conversa com a pronúncia enfática: "Se quereis receber isto, este é Elias, que havia de vir." (Mateus XI 14)

Estou ciente de que o teólogo ortodoxo pensa que Jesus não quis dizer o que disse neste caso, e deseja que acreditemos que ele estava tentando explicar que Elias havia sido um tipo de João Batista.

Mas, em resposta a uma alegação tão desonesta, bastará perguntar o que pensaria qualquer pessoa que, na vida comum, tentasse explicar uma declaração de maneira tão desajeitada.

Cristo sabia qual era a opinião popular a respeito de tais assuntos; sabia que ele próprio era considerado pelo povo comum como uma reencarnação, ora de Elias, ora de Jeremias, e ora de um dos outros profetas (Mateus xvi, 14); e estava ciente de que o retorno de Elias havia sido profetizado e que todo o povo comum estava em constante expectativa de seu advento.

Consequentemente, ao fazer uma declaração direta como esta, ele não poderia deixar de saber exatamente como todos os seus ouvintes o compreenderiam.

"Se quereis recebê-lo" – isto é, se podeis acreditar – "este homem é o próprio Elias que esperais." Essa é uma declaração inequívoca, e supor que, quando Cristo disse isso, ele não quis dizer aquilo, mas em vez disso pretendia expressar algo vago e simbólico, é acusá-lo de enganar deliberadamente o povo, dando-lhes uma declaração direta que ele inquestionavelmente sabia que eles só poderiam entender de uma única maneira.

Ou Cristo disse isso ou não o disse; se não o disse (Página 22), o que acontece com a inspiração do evangelho? Se o disse, então a reencarnação é um fato.

Outra referência a essa doutrina ocorre na história do homem que nasceu cego e foi trazido a Jesus para ser curado.

Os discípulos perguntaram: "Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?" (João ix. 2.). Essa pergunta implica crença em grande parte da doutrina teosófica na mente daqueles que a fizeram. Notareis que eles claramente sustentam a ideia de causa e efeito e de justiça divina.

Aqui estava o caso de um homem nascido cego – uma terrível aflição, é claro, tanto para a criança quanto para seus pais.

Os discípulos perceberam que isso devia ser o resultado de algum pecado ou loucura; e sua pergunta é sobre de quem era o pecado que havia causado esse deplorável resultado.

Será que o pai havia sido tão perverso que merecia ter a tristeza de um filho cego; ou será que em algum estado anterior de existência o próprio homem havia pecado, e assim trouxe sobre si esse destino lastimável? Obviamente, se a última fosse a solução verdadeira, os pecados que mereciam esse castigo devem ter sido cometidos antes de ele nascer – isto é, em uma vida anterior; de modo que, de fato, ambos os grandes pilares do ensino teosófico aos quais nos referimos estão claramente implícitos nesta única pergunta.

A resposta de Jesus é notável.

Sabemos que em outras ocasiões ele não era de modo algum relutante em comentar vigorosamente sobre doutrina ou prática incorretas; ele falou com firmeza em muitas ocasiões aos escribas e fariseus e outros.

Se, portanto, a reencarnação e a ideia de justiça divina fossem crenças falsas e tolas, certamente esperaríamos encontrá-lo aproveitando esta oportunidade para repreender seus discípulos por sustentá-las; no entanto, notamos que ele não faz nada disso.

(Página 23)

Ele aceita suas sugestões como algo natural; não os repreende de forma alguma, mas explica que nenhuma das hipóteses que sugerem é a verdadeira causa da aflição neste caso particular; “nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus.”

Anos atrás, um clérigo inglês escreveu um livro notável chamado *From Death to the Judgment Day*, no qual mostrou que a reencarnação era o grande ensinamento secreto da religião cristã, que esclarecia todas as suas dificuldades e a tornava um sistema coerente e racional.

Muito recentemente, um ministro metodista na América publicou um livro chamado *Birth a New Chance*, no qual ele argumenta a mesma questão, embora por linhas diferentes.

Sua teoria do renascimento concorda apenas parcialmente com a nossa, pois ele nega que a alma tenha atualmente qualquer existência inteligente à parte de seus sucessivos corpos físicos; mas é interessante descobrir que, por linhas de pensamento tão diferentes, homens de várias matizes de opinião estão começando a ver a necessidade dessa doutrina fundamental.

Um parágrafo do primeiro livro merece ser citado aqui, por mostrar como a ideia de reencarnação atinge um cristão ortodoxo ponderado e sem preconceitos: “A Escritura afirma distintamente que seremos julgados e recompensados ou condenados, de acordo com nossas ações cometidas nesta terra.”

. . . portanto, não podemos supor que as condições posteriores sejam superiores àquelas sob as quais agora existimos, pois isso exigiria a elevação daqueles condenados ao castigo eterno para uma vida mais gloriosa, da qual, em última instância, teriam de ser rebaixados à vergonha perpétua; tampouco podemos supor que sejam inferiores àquelas que agora desfrutamos, pois isso rebaixaria os virtuosos; nem podemos supor estados (página 24) separados, um de progresso para os virtuosos e outro de retrocesso para os ímpios, pois isso seria criar um inferno habitado por criaturas más, destinadas a perseguir o mal antes do juízo final; todas essas suposições antecipam o juízo final; nenhuma autoridade pode ser encontrada nas escrituras para apoiar qualquer uma delas.

Portanto, é evidente que, se há alguma existência ativa para a alma após a morte, as condições sob as quais ela deve existir não podem diferir daquelas sob as quais existe na terra.

Uma vez que essas condições não podem diferir de nossa condição presente, somos levados à conclusão inevitável de que devem ser as mesmas; que, se houver alguma existência para a alma após a morte, ela deve ser em um corpo humano nesta terra.

A conclusão a que se chega é que, após a morte, a alma passa novamente pelo processo de nascimento e aparece na terra no corpo de um infante; que o tempo entre a morte e o dia do juízo será passado em vidas sucessivas na terra. O autor então se propõe a mostrar "não apenas que essa conclusão é autorizada pelas escrituras, mas também que todas as doutrinas da fé cristã se baseiam nela; que é a nota-chave do ensinamento de Cristo, a razão de nossa existência nesta terra, e o único meio pelo qual podemos, em última instância, alcançar a salvação." Acrescenta ainda: "Se essa teoria for aceita, a crença dos universalistas (de que todos serão, em última instância, salvos) torna-se possível." — (De Death to Judgment Day, por Gerald D'Arcy, p. 13)

Além disso, isso nos alivia de muitas e grandes dificuldades.

Pensemos na terrível desigualdade no mundo.

Se olharmos ao nosso redor em qualquer grande cidade, veremos alguns vivendo no luxo e outros passando fome, alguns que têm todos os tipos de vantagens em termos de ensino superior, de arte, música e filosofia para desenvolver o lado moral de suas naturezas, e outros que vivem em meio à (página 25) criminalidade, que praticamente não têm nenhuma chance de progresso moral nesta encarnação.

Tomemos o caso de uma criança que nasce em uma das favelas de uma grande cidade, nascida em uma atmosfera de crime, de um pai que é um bêbado e de uma mãe que é uma ladra.

Essa criança, desde o dia de seu nascimento, nunca viu nada além de crime e pecado; nunca viu o lado brilhante da vida, nem de longe, e não sabe absolutamente nada sobre qualquer religião.

Que chance de progresso ele tem que seja de alguma forma igual à chance que nós mesmos tivemos? Qual é a vantagem para essa criança de toda a nossa música, nossa arte, nossa literatura e filosofia? Se você pudesse repentinamente arrancá-lo daquele ambiente e colocá-lo entre nós, ele não entenderia nem um pouco a nossa vida, porque não foi criado para ela. Sua oportunidade certamente não é, em nenhum sentido, igual à nossa.

Se você for além dos limites da civilização, ainda encontrará raças selvagens existentes em várias partes do mundo; e quanto às oportunidades delas? Não é concebível que esses homens possam se desenvolver tão plenamente quanto nós. Como isso pode ser explicado?

As Três Hipóteses

Há três hipóteses possíveis — três teorias possíveis da vida.

Primeiro, há a hipótese materialista de que não há nenhum plano de vida, que somos simplesmente governados pelo acaso cego; nascemos por acaso e morremos por acaso, e quando morremos, esse é o nosso fim. Essa não é uma teoria particularmente satisfatória, nem uma que desejaríamos aceitar, a menos que nos encontrássemos forçados a ela. Mas somos assim forçados? Creio que não; na verdade, toda a evidência aponta distintamente na direção oposta.

Qual é a utilidade de todo esse progresso que vemos ocorrendo ao nosso redor, se ele não está trabalhando em direção a um fim definido? (Página 26)

A segunda hipótese é a do capricho divino, a teoria de que Deus coloca um homem aqui e outro ali porque Ele assim o escolhe, e que, embora suas oportunidades de progresso sejam totalmente desiguais, seu destino eterno no além depende, em todos os casos, de seu sucesso em alcançar um alto nível de moralidade.

Essa teoria não faz nenhuma tentativa de explicar as desigualdades na vida terrena e oferece precisamente a mesma recompensa celestial a todos os poucos que se supõe que a alcancem, independentemente da quantidade de sofrimento suportado aqui.

Alguma modificação dessa teoria é atualmente sugerida pela maioria das formas ocidentais de religião, embora não seja de forma alguma o verdadeiro e original ensinamento do Cristianismo.

Certamente pareceria a um homem pensante que um Deus que nos colocou em uma posição em meio a circunstâncias respeitáveis, na qual não poderíamos facilmente errar muito, e ao mesmo tempo colocou outro homem em uma situação como a que descrevemos, onde é quase impossível para ele fazer o certo, dificilmente pode ser um deus justo.

De fato, alguns dos homens mais profundamente religiosos sentiram-se tristemente forçados a admitir que ou Deus não é todo-poderoso, e não pode evitar a miséria e o pecado que vemos no mundo ao nosso redor, ou então que Ele não é todo-bom, e não se importa com os sofrimentos de Suas criaturas.

Na Teosofia, sustentamos firmemente que Ele é tanto todo-amoroso quanto todo-poderoso, e reconciliamos essa crença com os fatos da vida ao nosso redor por meio dessa doutrina da reencarnação.

Não conheço nenhuma outra teoria através da qual tal reconciliação seja possível; e certamente a única hipótese que nos permite racionalmente, e sem fechar os olhos para fatos óbvios, manter a crença de que Deus é um Pai todo-poderoso e todo-amoroso é, no mínimo, digna de exame cuidadoso, antes de a lançarmos (página 27) desdenhosamente de lado para proclamar nossa convicção de que Ele não possui essas qualidades.

Observe que não há absolutamente nenhuma alternativa; ou a reencarnação é verdadeira, ou a ideia de justiça divina não passa de um sonho.

Como a ortodoxia lida com uma consideração tão importante como esta? Geralmente ela quase não tenta lidar com isso, mas se contenta em observar vagamente que a justiça de Deus não é como a justiça dos homens.

Isso é provavelmente verdade; mas pelo menos a justiça divina deve ser maior que a nossa, e não menor; deve ser uma extensão da nossa, incluindo considerações que estão além do nosso alcance – não algo que fica tão aquém da nossa a ponto de envolver atrocidades que mesmo nós, que somos apenas homens, nunca pensaríamos em cometer.

Mas qual é a nossa terceira hipótese? O que a teoria da reencarnação nos sugere? Que a vida do homem é uma vida muito mais longa do que supusemos; que o homem é uma alma e tem um corpo, e que o que chamamos de sua vida é apenas um dia na verdadeira e maior vida dessa alma. O homem se levanta pela manhã, aprende a lição do seu dia, e quando está cansado, deita-se para dormir; e no dia seguinte ele volta novamente como uma criança para a escola, e aprende outra lição.

O corpo nada mais é do que a vestimenta que ele veste quando está pronto para sair para o trabalho do dia na escola, e que deixa de lado quando o trabalho do dia termina, a fim de desfrutar de maior liberdade durante seu descanso em casa.

Pois a cada dia ele tem um novo corpo, e repetidamente revisita a Terra para aprender cada vez mais dessas lições, para adquirir qualidades novas e mais elevadas, e assim a evolução prossegue.

Assim percebemos que almas menos evoluídas são simplesmente crianças em uma classe inferior, e que não devem ser consideradas más ou em retrocesso, mas apenas como irmãos mais jovens (Página 28).

Pensem na criança no jardim de infância; ela praticamente brinca a maior parte do tempo.

Não a colocam imediatamente nos trabalhos escolares mais avançados, porque nesse estágio ela não poderia compreendê-los, e tal ensino seria inútil e prejudicial para ela.

Exatamente a mesma coisa se aplica a uma alma; ela não poderia receber o ensino superior de início.

Ela deve começar com os impactos mais fortes e grosseiros vindos de fora, que a alcançam na vida selvagem; ela deve ser agitada por essas sacudidelas vigorosas e insistentes antes de poder aprender a responder às vibrações mais sutis nos níveis superiores que, na civilização avançada, lhe oferecerão oportunidades tão variadas de rápido desenvolvimento.

Assim, por graus lentos e através de muitas vidas, essa alma alcançará nosso próprio nível; mas não para aí.

Houve muitos homens no mundo que se destacaram muito acima de seus semelhantes; eles nos mostram o que seremos, e são em si mesmos uma prova da reencarnação, pois não há vida única concebível que pudesse evoluir um selvagem até um Emerson, um Platão ou um Shakespeare.

Se aceitarmos a reencarnação, podemos explicar racionalmente a existência lado a lado, no mundo, do criminoso e do filósofo — mas sob nenhuma outra hipótese isso pode ser feito.

Para compreendê-la plenamente, devemos considerar juntamente com ela a outra grande doutrina teosófica do Karma, a lei de causa e efeito, e perceber que, se um homem perturba o equilíbrio da Natureza, ela pressionará de volta sobre ele com exatamente a mesma força que ele próprio empregou.

É sob essa lei que ele está renascendo; se ele se encontra em certas circunstâncias, é porque agiu em uma vida anterior de modo a se colocar sob essas condições.

Ele construiu seu lugar para si mesmo, e está recebendo não apenas exatamente o que mereceu, mas também exatamente o treinamento que é melhor para sua evolução.

(Página 29)

Esta grande parte intrínseca da doutrina teosófica nunca deve ser esquecida.

Embora o homem não traga consigo, em sua memória, os detalhes de sua vida anterior, sua alma carrega dentro de si as qualidades desenvolvidas nessa vida, de modo que ele é precisamente aquilo que fez de si mesmo, e nenhum esforço jamais se perde.

Assim, todo o mundo é um único e poderoso curso graduado de evolução.

Quando o selvagem tiver tido tantas vidas e tanta experiência quanto nós tivemos, ele provavelmente estará onde estamos; pois há milhares de anos estávamos exatamente onde ele agora está. É simplesmente que ele é mais jovem, e não deveríamos culpá-lo por isso mais do que culpamos uma criança de cinco anos por ainda não ter dez.

Observe também quão bendita é a consolação de perceber que temos toda a eternidade diante de nós para nos desenvolvermos.

A ordem de Cristo aos seus discípulos foi: "Sede vós perfeitos como vosso Pai no céu é perfeito", mas se encararmos os fatos, devemos admitir que não podemos nos tornar perfeitos em uma única vida.

Somente nesta doutrina das muitas vidas há alguma possibilidade de que essa ordem possa algum dia ser obedecida.

Mas com a oportunidade infinita que a reencarnação nos dá, certamente também cresceremos para frente e para cima, até alcançarmos o nível dos santos e sábios, dos filósofos e dos salvadores da humanidade.

Mas é somente no conhecimento da vida mais ampla que vemos isso ser possível — não apenas possível, mas certo.

Entre os primeiros pais da igreja, verificar-se-á que essa doutrina foi, pelo menos até certo ponto, compreendida.

Referências diretas a ela são poucas, mas isso pode muito bem ter sido porque era considerada antes como um dos ensinamentos secretos do que como algo a ser falado abertamente ou em público.

Quanto a essa doutrina secreta, terei algumas palavras a dizer em breve; mas permitam-me (Página 30) passar por um momento à consideração da outra grande doutrina da justiça divina.

A Lei de Causa e Efeito

Uma vez que essas palavras estão frequentemente nos lábios dos professores de religião, talvez se pudesse pensar, à primeira vista, que não teríamos necessidade de vindicar perante eles o nosso ensino dessa lei de justiça.

Certamente, grande parte do ensino religioso da atualidade inclui distintamente uma teoria de que podemos escapar das consequências de nossas ações; de fato, a teologia moderna preocupa-se principalmente com um plano para evadir a justiça divina, ao qual elege chamar de "salvação"; e faz esse plano depender inteiramente do que o homem acredita, ou melhor, do que ele diz que acredita.

Toda a teoria da "salvação", e de fato a ideia de que há algo do qual se "salvar", parece basear-se em um mal-entendido de alguns textos das escrituras.

Na Teosofia, não acreditamos na ideia da chamada ira divina; pensamos que atribuir a Deus nossos próprios vícios de ira e crueldade é uma terrível blasfêmia.

Pode acontecer frequentemente que um homem ceda à ira, mas, refletindo, ele sabe que agiu mal; e nos parece que acreditar que o Pai eterno e todo-amoroso seja culpado de ações que até nós reconhecemos como impróprias é uma terrível degradação do grande ideal divino.

Parece ser um resquício do selvagerismo primitivo e do culto aos fetiches – da ideia de que os principais poderes da natureza são demônios malignos que exigem propiciação.

Na Teosofia, nossa reverência pela Divindade é grande demais para permitir que aceitemos algo tão depreciativo à Sua dignidade.

Em vez dessa superstição degradante, temos a certeza de que Deus é um Pai onipotente e todo-amoroso, e que Sua vontade está direcionada, não para a nossa condenação, (Página 31) mas para a nossa evolução.

Sustentamos a teoria do desenvolvimento constante e da realização final para todos; e pensamos que o progresso do homem depende, não do que ele acredita, mas do que ele faz.

E certamente há muito nas escrituras cristãs que apoia essa ideia.

Talvez você se lembre do solene e sério aviso que São Paulo deu aos Gálatas, no sexto capítulo de sua Epístola a eles – um aviso que bem poderia ter sido escrito especialmente para o teólogo moderno, que propõe a espantosa injustiça de uma expiação vicária: "Não vos enganeis; Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará." Novamente, ao escrever aos Romanos, ele fala do "justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras". Não apenas o apóstolo fala assim, mas também seu Mestre ensina a mesma doutrina.

Vocês se lembrarão de como, no quinto capítulo do Evangelho segundo São João, ele declara que "os que tiverem feito o bem sairão para a ressurreição da vida" — não aqueles que tiverem acreditado em alguma doutrina particular.

Outro ponto notável encontra-se na descrição que Cristo dá do juízo final no vigésimo quinto capítulo do Evangelho segundo São Mateus.

Visto que, segundo o ensino teológico, ele próprio será o juiz nessa ocasião, certamente seu relato dos procedimentos deve estar correto, e sua explicação da base sobre a qual as decisões serão dadas deve ser precisa e conclusiva.

Ele descreve como todas as nações serão trazidas diante do rei, e como serão divididas em duas grandes classes, algumas à direita e algumas à esquerda, e as razões para a classificação são clara e distintamente apresentadas.

Do estudo da teologia moderna, deveríamos esperar que a única (Página 32) grande questão da qual tudo dependeria fosse inevitavelmente: "Você creu em Cristo, ou em certas doutrinas?" ou "Você aceitou os ensinamentos da igreja?"

O crente ortodoxo deve se surpreender ao notar que nenhuma dessas questões parece entrar no assunto de modo algum; nem uma palavra é perguntada por Cristo sobre o que essas pessoas creram, ou se elas agora creem em qualquer coisa que seja.

A decisão não se baseia na crença, mas na ação — não nas doutrinas que sustentaram, mas no que fizeram.

A única questão levantada é se alimentaram os famintos, vestiram os nus, ajudaram o estrangeiro e aqueles que estavam doentes e em dificuldade — isto é, se cumpriram seu dever para com o próximo em um espírito compassivo e caridoso.

É perfeitamente óbvio que, segundo este relato do Dia do Juízo — lembrem-se novamente, é um relato dado pelo próprio juiz — um budista, um hindu, um muçulmano, um chamado pagão de qualquer tipo, teria exatamente a mesma chance de alcançar a vida eterna do céu quanto o mais fanático sectário cristão.

Pareceria quase que o teólogo moderno não lê a sua Bíblia de modo algum; ou, antes, pareceria que a sua atenção está tão exclusivamente fixada em certos textos, e nas deduções que ele e os seus predecessores tiraram deles, que se torna inteiramente cego ao significado simples e direto de muitos outros textos de igual importância.

O Ensinamento Interno

Pode-se dizer, contudo, que ao menos nos dias atuais essas doutrinas da reencarnação e da justiça perfeita não são ensinadas em nenhuma das igrejas; como se (pág. 33) explica isso? Respondemos que isso se deve a que o cristianismo esqueceu muito do seu próprio ensinamento original — porque agora se satisfaz com apenas uma parte, e essa uma parte muito pequena, do que originalmente conhecia.

Pode-se argumentar que ao menos a Igreja possui as escrituras originais, e que o ensinamento derivado desses escritos não deveria, portanto, ter variado.

Como foi mostrado, o ensinamento moderno parece basear-se exclusivamente em certos fragmentos dessas escrituras, arrancados do seu contexto, e tratados de modo a contradizer muitas outras passagens.

Desses poucos textos mal aplicados constrói-se um edifício inseguro de doutrina irracional, e o ensinamento original da Igreja primitiva é em grande medida negligenciado.

Essas próprias escrituras nos falam constantemente de algo mais do que está escrito nelas — algo mais do que jamais foi dado ao público.

É moda nos dias de hoje negar que tenha havido qualquer ensinamento esotérico no cristianismo; na verdade, os seus atuais representantes se vangloriam da ideia de que ele não contém nada que não possa ser compreendido pelo mais limitado intelecto, e exposto em sua plenitude ao mais ignorante.

Se essa vanglória se baseasse em fatos, seria uma reprovação muito séria contra o cristianismo; pois significaria que essa religião não tinha nada a oferecer ao homem pensante.

Toda grande religião sempre reconheceu o fato de que tinha de lidar com muitas classes diferentes de homens, e que era necessário que pudesse alcançá-los a todos nos seus diversos níveis.

Uma religião precisa atender a grandes números de pessoas simples e sem instrução, incapazes de compreender um sistema elevado de filosofia ou metafísica; consequentemente, deve ter um esquema claro e direto de (Página 34) ensinamento ético, instruindo essas pessoas sobre como viver, e apresentando-lhes de forma clara e forte o fato de que, de acordo com a natureza de suas vidas aqui e agora, será a sua felicidade ou o seu sofrimento no futuro.

Mas haverá muitos para quem isso sozinho está longe de ser satisfatório — cujas mentes buscarão um grande esquema no Universo, que indagarão como o homem chega a ser o que é, e qual é o futuro que se lhe apresenta.

As respostas a todas essas perguntas envolverão inevitavelmente muito que seria totalmente incompreensível para a fé simples dos iletrados; de fato, pode bem ser que muito desse ensinamento superior tenderia apenas a confundir e a desencaminhar o homem que ainda não estava pronto para ele.

Além disso, o conhecimento é sempre poder; e, portanto, um conhecimento profundo desses fatos superiores coloca nas mãos do estudante a capacidade de fazer muito mais do que o ignorante pode fazer, seja para o mal ou para o bem.

Disso também decorre inevitavelmente que se deve usar de circunspeção ao expor em sua plenitude esse ensinamento superior; e certas garantias podem bem ser exigidas pelos mestres de que aqueles que o recebem o usarão apenas para o bem da humanidade.

Em todas as religiões do mundo sempre houve esse ensinamento superior e, até certo ponto, secreto; deve-se supor que o Cristianismo é a única exceção a essa regra? Se assim fosse, o Cristianismo se condenaria como uma religião imperfeita; mas a verdade é que não é assim, pois o Cristianismo também teve seus mistérios e seus ensinamentos internos, e naturalmente esses ensinamentos internos são precisamente os mesmos de todas as outras fés do mundo, uma vez que todas elas são esforços para enunciar, de diferentes pontos de vista, a grande Verdade que está por trás de todas elas igualmente.

(Página 35)

Referências a ele.

É verdade que esse ensinamento secreto parece estar agora perdido, pelo menos no que diz respeito ao que comumente se chamam seitas protestantes.

No entanto, não podemos deixar de ver, mesmo nas escrituras que nos restam, muitas alusões à existência desse conhecimento superior.

O que se quer dizer, por exemplo, com as constantes referências de Cristo aos Mistérios do Reino de Deus, com suas frequentes declarações aos discípulos de que a interpretação plena e verdadeira só poderia ser dada a eles, e que aos outros ele devia falar em parábolas? Além disso, ele usa termos técnicos ligados ao conhecido ensinamento dos Mistérios da antiguidade; e é somente por alguma compreensão desse ensinamento que conseguimos, em muitos casos, encontrar um significado razoável para suas palavras.

Esta questão sobre a existência de um lado esotérico no cristianismo não é de sentimento, mas de fato; e é inútil que aqueles que não desejam acreditar nisso clamem contra o significado claro e óbvio dos documentos da história.

A melhor maneira de abordar este assunto é ver primeiro o que o próprio Cristo disse que se relaciona com isso, depois considerar a evidência nos escritos de seus sucessores imediatos, os Apóstolos, e então ver se a mesma ideia se manifesta nos Padres da Igreja que seguiram os Apóstolos.

Penso que em todos esses casos um exame imparcial convencerá o estudante de que o ensinamento secreto realmente existiu e era bem conhecido de todos eles.

Havia originalmente muitos mais evangelhos do que os quatro que agora nos restam, e mesmo esses quatro provavelmente passaram por muitas mãos mutiladoras antes de se fixarem em sua forma atual; contudo, mesmo neles permanecem vestígios que seria difícil para o mais intolerante negar.

(Página 36)

O próprio Jesus fala em várias ocasiões com voz não incerta.

Por exemplo, no quarto capítulo do evangelho segundo São Marcos você encontrará a declaração: — "E, estando ele só, os que estavam ao redor dele, com os doze, perguntaram-lhe acerca da parábola."

E ele lhes disse: "A vós vos é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus; mas àqueles que estão de fora, todas essas coisas são feitas em parábolas." E alguns versículos adiante você encontrará a declaração: "Mas sem parábola não lhes falava; e, quando estavam a sós, explicava tudo aos seus discípulos." Essas palavras são citadas mais tarde por Orígenes como referindo-se ao ensinamento secreto preservado na igreja; pois sempre foi sustentado pelos Padres que tais declarações continham um tríplice significado – primeiro, o óbvio significado superficial, geralmente moldado sob a forma de alguma espécie de história, para que pudesse ser mais facilmente lembrado; segundo, uma interpretação intelectual, como aquela que é dada à parábola do semeador no capítulo do qual citei; e terceiro, um profundo significado místico e espiritual que nunca foi escrito sob quaisquer circunstâncias, mas era explicado oralmente pelo mestre sob promessas de sigilo.

Novamente, você notará como, no décimo sexto capítulo do evangelho segundo São João, Cristo diz a seus discípulos: "Ainda tenho muitas coisas a dizer-vos, mas vós não as podeis suportar agora." Lembre-se de que isso foi dito, segundo a narrativa, na noite anterior à sua morte.

Quando, então, ele disse a seus discípulos as muitas coisas que ainda haviam de lhes ser reveladas? Obviamente deve ter sido após sua ressurreição, durante o tempo em que nos é dito que ele permaneceu com seus discípulos, "falando-lhes das coisas concernentes ao Reino de Deus." Nenhum registro nos é dado nas escrituras (página 37) de qualquer desses ensinamentos; contudo, é impossível supor que eles fossem esquecidos.

Certamente eles devem ter sido transmitidos como entre as mais preciosas das tradições, não por escrito, mas oralmente, assim como os ensinamentos secretos em todas as religiões têm sido transmitidos. Em um dos grandes evangelhos gnósticos, a "Pistis Sophia", nos é dito que ele apareceu entre seus discípulos, não apenas por quarenta dias, mas por onze anos após sua ressurreição; e alguma indicação é dada quanto à natureza dos ensinamentos que ele transmitiu, embora muito disso seja tão intrincado e místico que se torna difícil de compreender sem a chave do conhecimento que vem com a iniciação.

O Reino dos Céus.

Este próprio nome de "Reino de Deus" ou "Reino dos Céus", usado na passagem recém-citada, é em si um termo técnico pertencente aos Mistérios, indicando o corpo daqueles que neles são iniciados.

Uma e outra vez encontrareis evidência disso se olhardes com olhar imparcial para as passagens em que o próprio Jesus o menciona. Por exemplo, no décimo terceiro capítulo do evangelho segundo São Lucas, lemos que a pergunta é feita ao Cristo: "São poucos os que se salvam? E ele lhes disse: 'Esforçai-vos por entrar pela porta estreita; pois muitos, digo-vos, procurarão entrar e não poderão.'" O "protestante" comum e sem instrução ousa de fato aplicar esta declaração à porta do céu, e deseja que acreditemos que um grande Salvador do mundo ensinaria ao seu povo que, para muitos homens que buscam sinceramente ser salvos da horrível invenção da danação eterna, não haverá, contudo, caminho para a segurança.

Se isso pudesse ser suposto como verdadeiro, a declaração seria chocante além das palavras, pois mostraria ou que a Divindade era incapaz de (página 38) administrar os assuntos do Seu universo, ou então que todo o esquema estava nas mãos de um demônio zombeteiro e cruel.

Nenhuma atrocidade tal foi afirmada pelo Cristo, nem poderia jamais ter sido por ele proferida.

A palavra "salvos" – ou antes, como deveria ser escrita, "seguros" – tem um significado técnico que, quando compreendido, torna a passagem clara e iluminadora.

Para o estudante teosófico não haverá dificuldade em sua perfeita compreensão; ele sabe que, no curso da evolução humana, um período será finalmente alcançado em que uma porção considerável da humanidade, por um tempo, sairá do nosso presente esquema, simplesmente porque ainda não se desenvolveram o suficiente para poderem aproveitar as oportunidades que então se abrirão diante da humanidade – porque, sob as condições então prevalecentes, nenhuma encarnação de um tipo suficientemente pouco avançado para adequar-se a eles estará disponível.

Os homens que assim caem fora da corrente do progresso por um tempo retomarão o trabalho mais adiante, juntamente com outra evolução humana, e assim terão uma oportunidade de percorrer novamente os diferentes estágios do desenvolvimento dos quais falharam em aproveitar-se plenamente nesta ocasião.

Isto é, na realidade, uma provisão muito misericordiosa da natureza para ajudar aqueles que, por várias razões, estão atrasados em seus estudos na escola da vida; e, embora percam o lugar que ocuparam nesta evolução particular, isso ocorre apenas porque a evolução os ultrapassou, e teria sido mera perda de tempo para eles tentarem permanecer nela por mais tempo.

O homem a quem isso acontece encontra-se na posição de uma criança na escola que está irremediavelmente atrasada em relação aos seus colegas de classe.

Continuar a trabalhar com eles significaria apenas tensão, fadiga e perda de tempo para ele; enquanto deixar aquela classe e trabalhar com a (Página 39) imediatamente inferior não só será mais fácil para ele, mas também lhe permitirá, mediante prática adicional, aprender a fundo aquelas lições que até então não conseguiu dominar.

O homem comum está, de modo algum, ainda acima do nível em que lhe fosse possível ter que desistir dessa maneira; mas o discípulo que passou pela primeira grande iniciação — que "entrou na corrente", como se diz no Oriente — está a salvo de qualquer perigo de tal atraso; e por isso ele é frequentemente chamado de "o salvo", ou "o eleito". É neste sentido, e somente neste sentido, que devemos compreender o uso da palavra "salvo", seja aqui ou em qualquer outro lugar das escrituras e dos credos; e quando compreendermos isso, veremos imediatamente a força e a verdade da observação do Cristo de que o portão da iniciação é estreito e de difícil entrada, e que haverá muitos que se esforçarão para alcançá-lo por muito tempo antes de conseguirem atingi-lo.

O Caminho que Conduz à Vida.

Outra passagem que confirma isso encontra-se no sétimo capítulo do evangelho segundo São Mateus, no qual Cristo mais uma vez aconselha seus discípulos: "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; porque estreita é a porta e apertado é o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram." Aqui, novamente, o estudante ocultista não tem dificuldade em reconhecer uma imagem familiar.

Ele bem sabe quão estreito e difícil é o caminho que conduz àquela "vida eterna" que significa evitar a necessidade de nascimento e morte — isto é, da descida à encarnação.

Ele sabe também quão ampla e comparativamente fácil é a lenta linha de progresso adotada pelo homem comum, que o conduz à morte e ao (Página 40) nascimento muitas milhares de vezes antes de levá-lo a uma residência permanente nos níveis superiores.

É de fato verdade que "muitos são os que andam" neste caminho mais longo, porém mais suave; e há atualmente poucos entre a humanidade que encontram o caminho mais curto, mas mais íngreme, da iniciação.

Lida neste seu sentido óbvio, a afirmação é verdadeira e compreensível; mas se a tomarmos no sentido de que a "porta estreita" conduz ao céu, e que apenas poucos conseguem entrar ali, não é apenas uma bárbara deturpação dos fatos, mas está em total contradição com outros textos nos quais o mundo celestial é claramente intencionado.

Quando o escriba bíblico realmente tenta descrever o mundo celestial, encontramos que ele fala de "uma grande multidão que nenhum homem podia contar, de todas as nações e tribos e povos e línguas, que estavam diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos com vestes brancas e com palmas em suas mãos." Escritores iniciados sempre conheceram a grande verdade de que não há possibilidade de destruição final, mas a certeza do sucesso eventual para todos, porque essa é a vontade de Deus para eles.

Neste sentido, como referindo-se ao seu destino último, não há uma débil esperança de que poucos possam ser salvos, mas a magnífica certeza de que nenhum pode, por qualquer possibilidade, ser perdido.

É de fato difícil entender como a ortodoxia moderna pode falar de Cristo como o Salvador do mundo, e ainda assim, no mesmo fôlego, afirmar que ele não o salva, que ele não consegue salvar nem um em cada dez mil de seus habitantes, e tem que ceder todos os demais ao diabo! Seria tal proporção considerada um sucesso se estivéssemos falando de qualquer tipo de esforço humano? Tal doutrina é, na realidade, blasfêmia, e todo cristão honesto deveria imediatamente lançá-la fora de seu estoque de ideias religiosas.

Trazemos um evangelho mais grandioso, e pregamos um credo mais nobre do que esse.

(Página 41)

Verdadeiramente, Cristo é o Salvador do mundo, pois cada homem é salvo pelo Cristo interior — esse Cristo em nós que é, de fato, a esperança da glória, como as escrituras disseram, pois sem essa centelha divina dentro de nós, como seria possível reunirmo-nos novamente ao Divino? Portanto, sabemos que todo homem um dia realizará sua própria divindade e, assim, ascenderá ao "tesouro da estatura da plenitude de Cristo"; sabemos que essa evolução terá sucesso e não falhará — que será um sucesso grandioso e glorioso, e que toda alma nela alcançará, por fim, sua meta.

As Dificuldades dos Ricos

Outro exemplo em que somente essa explicação pode tornar racional a narrativa bíblica encontra-se no décimo nono capítulo do evangelho segundo São Mateus.

Lembrar-se-á de que, em certa ocasião, um jovem veio a Cristo e perguntou-lhe como poderia obter a vida eterna — significando, naturalmente, como já disse antes, a libertação da necessidade de repetidos nascimentos e mortes.

Cristo o recebe com a resposta habitual, que teria sido dada por qualquer um dos grandes mestres: "Guarda os mandamentos." Mas o jovem passa a explicar que já guardara todos esses mandamentos exotéricos durante toda a sua vida e deseja saber o que mais pode fazer para acelerar seu progresso.

Cristo, em sua resposta, emprega um dos conhecidos termos técnicos da comunidade essênia, na qual ele próprio fora instruído, pois lhe diz: "Se queres ser perfeito, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e vem e segue-me." Ser "perfeito" significa atingir um certo nível de iniciação, pertencer a uma certa classe dentro desse reino dos céus; e a observação de Cristo simplesmente repete o ensinamento universal dos sábios orientais, de que a pobreza e a obediência são necessárias para aqueles que desejam entrar nas fileiras dos iniciados superiores.

(Página 42)

O jovem encontra aqui uma dificuldade, não se sentindo ainda preparado para renunciar aos seus bens mundanos, e então Cristo passa a discorrer sobre a dificuldade que se interpõe no caminho do homem rico quando este tenta entrar nos estágios superiores dessa senda.

Ele chega a usar uma comparação extremamente forte: "É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus". Se isso for tomado como é ordinariamente explicado pela teologia, é de fato uma afirmação ridícula, pois parece implicar que nenhum homem rico pode ser bom, ou pode jamais alcançar um lugar no céu.

Os ortodoxos professam entendê-lo nesse sentido, e ainda assim parece que mesmo eles devem ver quão ridícula é a suposição; pois não observamos que a grande maioria deles se apresse em se livrar das riquezas e se tornar pobre para se qualificar para essa entrada no céu.

Mas quando entendemos que o Reino dos Céus significa a fraternidade dos iniciados, compreendemos imediatamente que a inevitável preocupação e o transtorno ligados à devida administração de grandes riquezas são um sério obstáculo no caminho do candidato à senda mais curta e íngreme, e percebemos plenamente então a sabedoria do conselho dado pelo grande mestre: "Vende tudo o que tens, dá aos pobres, e vem e segue-me".

Outra passagem que indica o mesmo conhecimento de termos técnicos por parte do Cristo ocorre no sétimo capítulo do evangelho segundo São Mateus, onde ele profere aquele notável versículo: "Não deis o que é santo aos cães; nem lanceis vossas pérolas aos porcos". Nos dias de hoje, consideraríamos tais epítetos, quando aplicados a seres humanos, como rudes (página 43) e impróprios; mas deve-se lembrar mais uma vez que esses eram simplesmente termos técnicos que indicavam aqueles que estavam fora ou abaixo de um certo nível.

O teólogo comum deve encontrar considerável dificuldade em explicar a si mesmo o uso de tal linguagem pelo Cristo; mas quando entendemos a natureza real desses termos, as palavras tornam-se imediatamente explicáveis.

São Paulo, o Iniciado.

Quando nos voltamos das palavras do próprio Jesus para as de São Paulo, descobriremos que seus escritos também estão permeados de ensinamento oculto, de referências aos Mistérios que estão por trás do ensinamento exterior, e dos termos técnicos que são bem conhecidos em conexão com eles.

Qualquer um que se der ao trabalho de ler o segundo e o terceiro capítulos da Primeira Epístola aos Coríntios verá claramente que assim é, uma vez que sua atenção tenha sido chamada para a interpretação real das palavras.

Mais uma vez ele se refere ao grau de perfeição e à instrução que só pode ser dada àqueles que atingiram esse grau; ele diz: "Falamos sabedoria entre os perfeitos". E ainda: "Falamos a sabedoria de Deus em mistério, a sabedoria oculta que Deus ordenou antes do princípio do mundo, a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu". Essa última declaração, por si só, deveria ser suficiente para provar a qualquer estudante imparcial a existência do ensino interno da Igreja, pois seria obvia e flagrantemente falsa se fosse feita a respeito de qualquer uma das doutrinas cristãs comuns, tais como aparecem nas escrituras; pois essa, sem dúvida, estava ao alcance dos príncipes deste mundo, tanto então como agora.

Às vezes, as pessoas tentaram referir essas observações sobre os mistérios à santa comunhão, que era celebrada apenas na presença daqueles que eram membros (página 44) da igreja.

No entanto, é evidente que esse não poderia ser o significado nesse caso, porque um exame mais aprofundado dessa mesma epístola mostrará que os coríntios, aos quais São Paulo escrevia, já eram membros plenos da igreja e tinham o hábito de celebrar a Eucaristia.

Apesar disso, ele lhes fala como a crianças em Cristo e diz que só pode lhes dar o leite do ensino anterior.

Obviamente, portanto, esse mistério desconhecido de todos não era a celebração da santa comunhão.

De fato, grande parte da linguagem que o próprio apóstolo usa dificilmente poderia ser aplicada nesse sentido, pois ele fala repetidamente das "coisas profundas de Deus, que o Espírito Santo ensina; a sabedoria oculta e a sabedoria de Deus em mistério". Ele emprega muitos outros termos técnicos, como, por exemplo, quando se refere a si mesmo como mestre-construtor e despenseiro dos mistérios de Deus.

Outra passagem que mostra isso encontra-se no terceiro capítulo de sua epístola aos Filipenses, na qual ele se descreve como "procurando, se por algum meio, alcançar a ressurreição dos mortos". Que ressurreição poderia ser essa, à qual ele, o grande apóstolo, achava necessário se esforçar para alcançar? Claramente, não poderia ser o que comumente se entende por esse termo, pois o ressuscitar dos mortos no último dia acontecerá a todas as pessoas, boas e más igualmente; não haveria necessidade de fazer qualquer esforço para obter isso.

O que ele se esforça por alcançar é, sem dúvida, aquela iniciação à qual já nos referimos — a iniciação que liberta o homem tanto da vida quanto da morte, que o eleva acima da necessidade de nova encarnação na terra.

Notaremos que, poucos versículos adiante, ele exorta "todos quantos são perfeitos" a se esforçarem como ele se esforça; não dá esse conselho ao membro comum da igreja, porque sabe que para este isso ainda não é possível.

(Página 45)

Muitas outras citações com interpretação semelhante poderiam ser extraídas dos escritos de São Paulo; mas passemos agora àqueles que são chamados os Pais da Igreja — os escritores que imediatamente sucederam ao período apostólico.

Veremos que eles sabem bem o que São Paulo queria dizer quando falava tão frequentemente dos Mistérios, pois eles próprios usam com frequência exatamente os mesmos termos ao se referirem a eles.

Por exemplo, um dos mais antigos e maiores deles, São Clemente de Alexandria, toma emprestado verbatim de um documento neopitagórico uma frase inteira, no sentido de que "Não é lícito revelar a pessoas profanas os Mistérios do Verbo." Este último termo é a tradução do grego "Logos", e nessa frase ele insere essa palavra no lugar das deusas eleusinas que são mencionadas no documento original.

Os Três Estágios da Igreja

Nestes dias, a igreja considera sua maior glória o fato de ter produzido o santo, e aponta para a lista de seus santos como prova da verdade e do resultado de seu ensinamento.

Contudo, naqueles primeiros dias, isso, que agora parece o objetivo final de seu esforço, era apenas uma introdução a ele. Então ela tinha três grandes ordens ou graus, pelos quais seus filhos tinham de passar; e estes eram chamados respectivamente Purificação, Iluminação e Perfeição.

Agora ela se dedica unicamente a produzir bons homens, e aponta para o santo como sua glória e realização culminantes; mas naqueles dias, quando ela havia tornado um homem santo, seu trabalho com ele apenas começava, pois só então ele estava apto para o treinamento e o ensinamento que ela podia lhe dar então, mas não pode agora, (Página 46) porque ela esqueceu seu conhecimento antigo.

Sua Purificação conduzia o homem à santidade; sua Iluminação então lhe dava o conhecimento que era ensinado nos Mistérios, e isso o conduzia para cima, em direção à condição de Perfeição e de unidade com o Divino.

Agora ela se contenta com a Purificação preliminar, e não tem Iluminação alguma a oferecer.

São Clemente de Alexandria

Leia o que São Clemente diz sobre este assunto, conforme citado em *The Christian Platonists of Alexandria*, do Dr. C. Bigg, p. 62. "A pureza é apenas um estado negativo, valiosa principalmente como condição para a visão interior.

Aquele que foi purificado no batismo e depois iniciado nos Pequenos Mistérios (isto é, adquiriu os hábitos de autocontrole e reflexão) torna-se maduro para os Grandes Mistérios, para a Epopteia ou Gnosis, o conhecimento científico de Deus." Esta última é uma afirmação surpreendente do ponto de vista ortodoxo moderno; imagino que poucos pregadores nos dias de hoje reivindicariam possuir o conhecimento científico de Deus, ou mesmo saber minimamente o que tal expressão significaria.

No entanto, ali está ela nos escritos de um dos primeiros e maiores Padres da Igreja.

Basta examinarmos o ensinamento teosófico para ver exatamente o que ele queria dizer, para compreender (tanto quanto o intelecto humano pode atualmente compreender) o que se entende pela doutrina da Trindade, da encarnação de Cristo e de sua morada no coração do homem.

O conhecimento científico de Deus ainda está ao alcance do estudante sincero e reverente; não é mera fórmula de palavras, mas um fato vívido e definido.

O quanto São Clemente valorizava esse conhecimento transcendente pode ser visto em outra citação de seus escritos, dada em *Christian Mysticism*, de W. R. Inge, (página 47) página 86. "Conhecimento", diz Clemente, "é mais do que fé. A fé é um conhecimento resumido de verdades urgentes, adequado para pessoas que estão com pressa; mas o conhecimento é fé científica.

Se o gnóstico (o cristão filosófico) tivesse que escolher entre o conhecimento de Deus e a salvação eterna, e fosse possível separar duas coisas tão inseparavelmente ligadas, ele escolheria, sem a menor hesitação, o conhecimento de Deus." Certamente, essa é uma declaração suficientemente clara.

Evidentemente, São Clemente pensava que a fé era apenas para aqueles que não tinham tempo de se aprofundar no estudo da ciência definida; eles tinham que se contentar em aceitar suas verdades magníficas pela fé, assim como acontece conosco em relação a qualquer uma das ciências do plano físico nos dias de hoje.

Se cada homem tivesse uma vida de lazer, sem dúvida poderia dedicar-se à química ou à astronomia e estudá-las diretamente por si mesmo; se não tem tempo para isso, aceita com gratidão as conclusões a que chegaram aqueles que as estudaram. Quando chegamos a esta grande ciência da vida que se chama religião, tal aceitação do resultado da investigação de outros é chamada de fé; mas, certamente, como diz São Clemente, o conhecimento direto é infinitamente melhor.

A ideia de que o homem é capaz de atingir essa perfeição, ou deificação, como é frequentemente chamada nos escritos dos Padres, seria provavelmente considerada sacrílega por muitos de nossos teólogos modernos; no entanto, foi claramente sustentada pelos primeiros Padres, e eles sabiam que sua realização era uma possibilidade.

O Professor Harnack observa que "a deificação era a ideia de salvação ensinada nos Mistérios"; e ainda: "depois de Teófilo, Irineu, Hipólito e Orígenes, a ideia de deificação é encontrada em todos os Padres da igreja antiga, e isso em posição primária. Nós a temos em Atanásio, nos Capadócios, Apolinário, Efraim, o Sírio, Epifânio e outros, como também em Cirilo, Sofrônio e teólogos gregos e russos posteriores." (Página 48)

O Que Diz Orígenes

O mais célebre discípulo de São Clemente foi o famoso Orígenes — talvez o mais brilhante e erudito de todos os Padres Eclesiásticos.

Ele também afirma a existência do ensinamento secreto da Igreja, pois em sua célebre controvérsia com Celso ele declara definitivamente que o sistema de ensino exotérico e esotérico que estava em uso geral entre os filósofos também foi adotado no Cristianismo.

Ele também fala claramente a respeito da diferença entre a fé ignorante da multidão não desenvolvida e a fé mais elevada e racional que se funda no conhecimento definido. Ele traça uma distinção entre "a fé irracional popular" que conduz ao que ele chama de "cristianismo somático" (isto é, a forma meramente física da religião) e o "cristianismo espiritual" oferecido pela Gnose ou sabedoria.

Ele deixa perfeitamente claro que por "cristianismo somático" ele entende aquela fé que se baseia na história evangélica.

De um ensinamento fundado nessa narrativa histórica ele diz: "que método melhor poderia ser concebido para ajudar as massas?" No livro do Sr. Inge mencionado acima (p. 89), ele é citado como ensinando que "o gnóstico ou sábio não necessita mais do Cristo crucificado."

O evangelho eterno ou espiritual, que é sua possessão, mostra claramente todas as coisas concernentes ao próprio Filho de Deus, tanto os Mistérios revelados por suas palavras quanto as coisas das quais seus atos eram os símbolos.

Não é que Orígenes negue ou duvide da verdade da história evangélica, mas ele sente que eventos que ocorreram apenas uma vez não podem ter importância, e considera a vida, a morte e a ressurreição de Jesus (Página 49) como apenas uma manifestação de uma lei universal, que foi realmente encenada, não neste mundo fugaz de sombras, mas nos conselhos eternos do Altíssimo.

Ele considera que aqueles que estão plenamente convencidos das verdades universais reveladas pela encarnação e pela expiação não precisam mais se preocupar com suas manifestações particulares no tempo.

Vemos aqui, então, referências distintas e repetidas ao ensinamento oculto, muito maior do que qualquer coisa conhecida pela Igreja dos dias atuais, e levando aqueles que o estudam a um nível muito mais elevado do que jamais é alcançado hoje pelos discípulos da ortodoxia.

O que aconteceu com essa magnífica herança do Cristianismo? Por que essa sabedoria maravilhosa foi perdida, e como pode ser recuperada? Felizmente, ela não foi perdida.

Os grandes doutores gnósticos, que a ensinaram tão poeticamente, foram expulsos da igreja como hereges pelo voto da maioria ignorante, que não incluiria em seu esquema de religião qualquer coisa que estivesse além de sua compreensão, qualquer coisa que exigisse anos de trabalho e estudo para ser aprendida.

Contudo, algo do ensinamento gnóstico foi preservado; os ortodoxos se esforçaram com furor piedoso para destruir todos os vestígios dele, mas aqui e ali um livro foi descoberto — guardado talvez até estes dias posteriores entre aqueles que são comumente chamados de selvagens, e que, no entanto, se mostraram menos selvagens do que os defensores ortodoxos da fé.

Dessa maneira, estamos lentamente chegando a conhecer algo desses ensinamentos esplêndidos, e os encontramos, como o estudante ocultista naturalmente esperaria, precisamente as mesmas verdades que a Teosofia está agora colocando mais uma vez diante do mundo ocidental.

Aqueles que estão interessados no estudo desse lado particular da doutrina da religião-sabedoria não podem abordá-lo melhor do que através dos escritos do Sr. G.R.S. Mead, de Londres, o mais (Página 50) erudito de nossos autores teosóficos.

Ele passou muitos anos em um estudo cuidadoso da estranha mistura de crenças e opiniões que se reúnem ao redor do berço da cristandade, e seus escritos nos mostram claramente como essa religião cristã surgiu de forma bastante natural e lógica a partir das fés do período imediatamente anterior ao seu nascimento.

Ele torna abundantemente evidente que isso não é uma revelação do alto, nenhuma nova declaração de fatos adicionais, mas simplesmente um resultado perfeitamente natural do que veio antes. Qualquer pessoa que deseje compreender o que o Cristianismo realmente é, o que seus ensinamentos verdadeiramente significam, e qual é o seu papel na grande vida do mundo, não pode fazer melhor do que começar por um estudo atencioso das obras do Sr. Mead.

A Teosofia Explica

Enquanto isso, não é necessário nem mesmo tanto estudo quanto o envolvido nessa investigação para convencer qualquer pessoa de mente aberta de que a Teosofia detém a solução para todos os problemas relacionados à doutrina cristã.

Tome, por exemplo, o grande dogma da Trindade, que, como foi originalmente formulado, parece tão incompreensível e sem sentido.

Invoque a ajuda de um diagrama teosófico, como o que é fornecido na última edição do meu pequeno livro sobre O Credo Cristão, e imediatamente a obscuridade será iluminada como pela luz do sol, e ver-se-á que as declarações estranhas e aparentemente incompreensíveis têm um significado óbvio, cheio de interesse e vividamente claro.

Leia, por exemplo, o Credo Atanasiano; à luz dos diagramas teosóficos, suas frases, até agora tão pouco compreendidas, serão vistas como luminosas e cristalinas; de modo que a própria fórmula que foi rejeitada por multidões como irremediavelmente ininteligível agora se destaca (página 51) como talvez a declaração mais forte e grandiosa sobre a natureza e o poder de Deus que já foi posta em palavras.

As chamadas cláusulas condenatórias, às quais tantas objeções foram feitas, caem em seus devidos lugares e são imediatamente vistas como livres de qualquer objeção, uma vez que seu verdadeiro significado tenha sido compreendido.

Não há outra maneira de tornar inteligível grande parte desse ensinamento mais antigo; a menos que estejamos preparados para aceitar a explicação teosófica deles, devemos renunciar a toda esperança de encontrar qualquer significado racional por trás desses grandes símbolos de uma das fés do mundo.

Mas o ensinamento teosófico introduz ordem no caos; ele nos capacita imediatamente a separar esses dogmas que são expressões da verdade universal das acumulações com que a teologia incompreensiva dos monges ignorantes os cercou.

O mesmo se aplica a muitos dos outros dogmas da igreja; não apenas a poderosa doutrina da Trindade é esclarecida, mas a salvação, a conversão, a regeneração, a santificação — todas essas são explicadas, e do ponto de vista teosófico não são mais meros nomes com uma vaga névoa de incerteza ao redor, mas fatos definidos e reais, que são todas partes de um sistema coerente.

Para compreender isso, o estudante deve ler o grande livro da Sra. Besant, *Cristianismo Esotérico*, que lançará um dilúvio de luz sobre muito do que antes era obscuro.

Melhor ainda, mostrará a ele que o Cristianismo de modo algum contradiz as outras grandes fés do mundo — que todas são igualmente esforços para enunciar a mesma grande verdade, a verdade que está por trás de todas elas — esta Sabedoria Divina que nos dias modernos chamamos de Teosofia.

Ao cristão sincero que, de alguma forma, foi despertado para pensar sobre as doutrinas da Igreja e, portanto, (página 52) naturalmente foi levado a duvidar delas na forma em que geralmente são apresentadas, recomendamos fortemente o estudo dos ensinamentos da Teosofia.

Muitos homens que começam a duvidar se veem sem base definida para qualquer crença e não sabem aonde recorrer para obter conforto e esclarecimento.

A tal pessoa, nosso conselho seria: "Não descarte sua religião, mas procure aprender o que ela realmente é. Então lhe será devolvido tudo o que era brilhante, belo e verdadeiro na fé de sua infância, mas será devolvido sobre uma base diferente.

Não mais se fundará na autoridade, seja de um livro ou de uma Igreja; pois tal crença está sempre sujeita a ser derrubada se você descobrir que o livro ou a Igreja não é tão historicamente confiável quanto você foi levado a supor.

Você receberá de volta sua fé, mas fundada desta vez sobre a rocha inexpugnável da razão e do senso comum, de modo que quanto mais plenamente a examinar, mais se convencerá de sua verdade e mais compreenderá sua glória."

O Evangelho da Teosofia

Ao dizer isso, não falamos por teoria, mas por experiência.

Para nós que estudamos a Teosofia, ela trouxe tudo isso e muito mais.

Tem sido para nós um verdadeiro evangelho de boas novas do alto, que nos mostrou luz onde antes havia escuridão, que tornou a vida mais fácil de suportar e a morte mais fácil de enfrentar; que nos deu, não apenas esperança, mas a gloriosa certeza do progresso futuro.

É por essa razão que a apresentamos a vocês, por essa razão que instamos ao seu exame. Não temos desejo de fazer convertidos no sentido comum da palavra.

Não somos impelidos, como o pobre e ignorante missionário, por qualquer teoria de que, (Página 53) a menos que possamos induzir nossos ouvintes ou leitores a crer como nós, não haverá para eles caminho de salvação dos horrores do sofrimento eterno.

Sabemos que todos alcançarão a meta final da humanidade, quer agora acreditem no que lhes dizemos, quer não.

Sabemos que o progresso de cada homem é certo; mas ele pode tornar seu caminho fácil ou pode torná-lo difícil.

Se ele segue na ignorância, provavelmente o achará árduo e doloroso; se aprender a verdade sobre a vida e a morte, sobre Deus e o homem, e a relação entre eles, compreenderá como viajar de modo a tornar o caminho fácil para si mesmo e também (o que é muito mais importante) poder dar uma mão amiga aos seus companheiros de jornada que sabem menos do que ele. Isso é o que todos vocês podem fazer, e o que esperamos que façam. Nós, que somos teosofistas, não pedimos fé cega de vocês; simplesmente apresentamos esta filosofia diante de vocês e pedimos que a estudem, e acreditamos que, se o fizerem, encontrarão o que encontramos — descanso e paz e auxílio, e o poder de ser úteis no mundo.

Acima de tudo, diríamos a vocês: não apenas estudem a verdade teosófica, mas procurem viver a vida que a Teosofia recomenda.

Agora, como nos dias antigos, permanece verdadeiro que aqueles que fazem a vontade do Pai que está nos Céus conhecerão da doutrina se ela é verdadeira; e assim, àqueles que duvidam de nosso ensinamento, diríamos: tomem-no provisoriamente, tomem-no como uma hipótese, mas vivam a vida que ele direciona, e então verão por si mesmos se ficaram melhores ou piores com isso. Procurem realizar a unidade da fraternidade que ele ensina e demonstrar o altruísmo que ele exige; e então vejam por si mesmos se isso é uma melhoria em relação a outros modos de viver ou não.

Experimente o altruísmo e a ajuda vigilante, e veja se não há aqui uma abertura para novos campos de felicidade e utilidade.

(Página 54)

Nós, que estudamos isto, sabemos que ainda estamos apenas no começo; no entanto, dizemos a vocês com a mais plena confiança: "Venham e juntem-se a nós em nosso estudo, e a vocês também virá a paz e a confiança que vieram a nós, de modo que, através do seu conhecimento da Teosofia, suas vidas se tornarão mais puras e mais brilhantes e, acima de tudo, mais úteis e prestativas ao seu próximo." (Página 55)

CAPÍTULO III

OS MISTÉRIOS ANTIGOS

Toda nação, toda raça, toda religião sempre teve seus mistérios.

Mas o sentido em que usamos essa palavra hoje dificilmente transmite uma ideia justa do que significava nos tempos mais antigos, para os quais desejamos voltar nossos pensamentos esta noite.

Sua verdadeira significação é simplesmente aquilo que está oculto; mas quando a ouvimos em conexão com assuntos religiosos, parece sugerir-nos muito mais do que isso.

Fomos criados ao longo de uma certa linha de crença religiosa, uma das profissões da qual é que todos os seus dogmas estão abertos à compreensão da mente mais obtusa.

Se essa afirmação fosse realmente verdadeira, seria uma confissão de fracasso por parte dessa religião, pois significaria que ela não tinha ensinamento algum a dar ao homem pensante; mas não é de modo algum verdadeira quanto ao cristianismo primitivo, como mostrei em minha conferência sobre esse assunto.

Esse tinha seu ensinamento interno, como é verdadeiro para toda grande doutrina, de modo que pudesse ser útil a todas as classes da humanidade, e não apenas a uma.

Mas a ideia equivocada que nos foi tão diligentemente impressa leva-nos a sentir certa desconfiança das fés mais sábias que atendem a todas as necessidades, e a pensar nelas como ocultando desnecessariamente parte da verdade, ou a regateando ao mundo.

Nos velhos tempos, não havia tal pensamento; reconhecia-se que apenas aqueles que alcançavam um certo padrão de vida eram aptos a receber a instrução superior, e aqueles que a desejavam punham-se a trabalhar para se qualificarem para ela. Agora há uma tendência a exigir todo o conhecimento sem fazer qualquer esforço em direção a essa preparação necessária, e a reclamar que ele é retido com mesquinhez, (Página 56) porque os Grandes Seres, em sua sabedoria, preveem os perigos de colocar certas verdades diante das mentes daqueles que não estão prontos para compreendê-las.

Conhecimento é poder, e as pessoas devem provar sua aptidão antes que lhes seja confiado o poder, pois o objetivo de todo o esquema é a evolução humana, e os interesses da evolução não seriam servidos pela publicação indiscriminada da verdade oculta.

É geralmente reconhecido que seria tolice colocar dinamite nas mãos de uma criança em brincadeira, e temos ampla evidência ao nosso redor de que tais fragmentos de verdade oculta que foram permitidos tornar-se públicos têm sido terrivelmente mal utilizados.

O fato do poder do pensamento e da vontade e a possibilidade da influência mesmérica estão agora encontrando aceitação mais ampla, e o resultado imediato é que vemos cardumes de anúncios oferecendo, sempre naturalmente mediante pagamento, ensinar-nos como ter sucesso nos negócios exercendo pressão indevida dessa espécie sobre nossos semelhantes, a fim de que possamos lucrar às suas custas.

O homem não desenvolvido sempre compreende mal e usa mal o menor fragmento de conhecimento superior.

Para quem compreende, há o maior consolo e o mais poderoso incentivo para o viver correto na profunda verdade de nossa unidade com o Divino; contudo, essa mesma verdade tem sido oferecida como desculpa para a mais grosseira sensualidade pelos não evoluídos entre os vedantinos.

A história do grande império da Atlântida é o mais impressionante dos avisos quanto às terríveis consequências da má aplicação do conhecimento oculto.

Os Mistérios de Elêusis

Assim, a existência do ensinamento secreto é mais do que justificada, e sua presença em todas as religiões do mundo é explicada.

Mas embora possa ser rastreada em todas, (Página 57) quando falamos dos Mistérios nossos pensamentos se voltam para apenas um ou dois — principalmente para os Mistérios de Baco e Elêusis em conexão com a religião da Grécia antiga, e em menor grau para os do ainda mais antigo Egito e Caldeia.

A literatura sobre o assunto é escassa, e pouca informação pode ser dela derivada. O relato de Thomas Taylor é talvez o melhor, embora mesmo nele haja muita imprecisão.

Ainda assim, há também uma grande dose de intuição exibida em seu livro — tanta que é difícil não supor que ele próprio possa ter estado diretamente associado às escolas dos Mistérios em alguma encarnação passada.

Jâmblico, ele próprio um iniciado, escreveu sobre o assunto, mas ele fornece ainda menos informação do que Taylor — provavelmente porque estava mais estreitamente vinculado por promessas de sigilo.

Um autor francês de nome Foucart também escreveu recentemente sobre o assunto.

Um capítulo do livro Orfeu, do Sr. Mead, epitomiza tudo o que é conhecido pelos estudiosos – um capítulo que deveria ser lido por todos os que se interessam por este lado da vida antiga.

As informações que tenho a apresentar a vocês são obtidas de maneira diferente – não pelo estudo dos fragmentos literários que nos restam, mas antes pela investigação e pela memória.

Já tive ocasião de mencionar que certos membros de nossa Sociedade têm se dedicado a um paciente exame do registro de encarnações passadas, a fim de estudar as leis sob as quais o renascimento ocorre, e a maneira pela qual as ações de uma vida produzem seus resultados inevitáveis na seguinte.

No curso dessa pesquisa, descobriu-se que vários desses membros estiveram envolvidos nesses Mistérios e haviam sido regularmente iniciados em seus estudos.

Naturalmente, tais iniciações não devem de modo algum ser confundidas com aquelas que separam os Graus do Caminho da Santidade, pois estes últimos se situam em um nível muito mais elevado, (página 58) e todos os mistérios eram apenas uma preparação para eles.

No entanto, havia graus definidos nos Mistérios, e o homem que neles ingressava comprometia-se a permanecer em silêncio quanto ao que via.

Agora, tal promessa permanece vinculante, mesmo que tenha sido feita há dois mil anos; mas aqueles a quem foi feita podem liberar o discípulo de seu voto, e com relação a certas partes do ensinamento isso foi feito.

A razão é que o mundo agora evoluiu um pouco, e assim um novo experimento está sendo realizado; e muito do que costumava ser ensinado apenas sob compromissos de iniciação é agora publicado ao mundo na literatura teosófica.

Muita dessa informação costumava ser considerada secreta e sagrada; e hoje, embora não seja mais secreta, é tão sagrada quanto sempre foi.

Assim, embora eu não possa contar-lhes tudo o que os antigos Mistérios de Elêusis ofereciam ao estudante, posso ainda dar-lhes um esboço de grande parte disso.

O primeiro ponto que desejo enfatizar é que a acusação de indecência tão frequentemente levantada contra esses Mistérios por seus inimigos não tinha fundamento na realidade – pelo menos no que diz respeito ao período florescente da raça.

Nunca se deve esquecer que grande parte da nossa chamada informação sobre os Mistérios nos chega através dos escritores cristãos primitivos, sem escrúpulos e amargamente hostis; e embora esses escritores neguem indignamente a sugestão de que em sua Igreja não têm mistérios dignos desse nome, e afirmem que os seus são, em todos os aspectos, tão bons, tão profundos e tão abrangentes quanto os dos seus oponentes "pagãos", eles não deixam, contudo, de lançar as mais selvagens e abomináveis acusações contra a moralidade daqueles que participam de outros ritos que não os seus.

(Página 59)

Os Métodos do Monge

Talvez não percebamos quão inteiramente temos apenas um lado de todas essas controvérsias primitivas, e quão absolutamente estamos nas mãos de sectários amargos e sem escrúpulos.

Tivemos na Europa um período sombrio, que durou muitos séculos, quando a selvageria do cristianismo havia extinguido todo o conhecimento, todo o aprendizado e quase toda a arte; um período durante o qual ninguém podia sequer ler ou escrever, exceto os padres e monges, de modo que tudo o que temos de registros dos tempos primitivos, tudo o que temos de literatura clássica, nos chega necessariamente através de suas mãos, pois somente eles eram capazes de fazer cópias manuscritas.

Nestes dias de impressão universal e de ampla difusão do conhecimento, temos pouca ideia do que isso significava — de que poder isso colocava nas mãos desses monges medievais.

Alguns manuscritos mais antigos podem ser aqui e ali descobertos, mas a grande maioria de toda aquela literatura dos tempos antigos passou pela censura da Igreja em seu estágio mais fanático.

Outra coisa que devemos perceber é que esses monges não tinham nenhuma concepção do que hoje entendemos por moralidade literária.

Eles estavam todos bastante dispostos a citar em qualquer extensão sem reconhecimento; não viam razão alguma para não usar bom material onde quer que o encontrassem, e mencionavam de onde o obtiveram apenas se pensassem que o nome do escritor acrescentaria força ao argumento.

Frequentemente também, quando tinham o que consideravam uma boa coisa a dizer, atribuíam-na a algum nome bem conhecido, a fim de garantir-lhe maior atenção.

Ao citar polemicamente os oponentes, não faziam nenhuma tentativa de tratar o inimigo com justiça, ou de expor seu caso imparcialmente; sabemos por suas próprias confissões que citavam apenas o que servia ao seu argumento do momento, utilizavam aquilo de que pensavam poder extrair algo edificante, e ignoravam completamente o resto.

Assim, temos apenas relatos muito parciais das (Página 60) verdadeiras opiniões de seus oponentes, e obtemos uma ideia tão justa do que realmente sustentavam ou ensinavam quanto teríamos da teologia católica romana se tomássemos a palavra do protestante mais raivoso como nosso único guia para compreendê-la.

Com relação a esta questão dos Mistérios, sabemos que houve controvérsia especialmente amarga, e os escritores cristãos nunca hesitaram em usar qualquer arma que pensassem lhes dar vantagem.

Se havia uma calúnia popular, eles avidamente a agarravam e a ampliavam — talvez mesmo em seu preconceito realmente acreditassem nela; e dessa forma aceitam e repetem aquelas acusações infundadas de indecência contra a celebração dos Mistérios.

Às vezes, em suas respostas, colhemos incidentalmente o que a opinião popular dizia deles, e então começamos a ver quanta confiança se deve depositar em tais histórias.

O boato acusava a Igreja Cristã de ser culpada dos mais abomináveis ultrajes — a acusação mais comum sendo a de que em suas reuniões secretas ofereciam sacrifícios humanos e se entregavam ao canibalismo.

A afirmação de que assassinavam e devoravam crianças reaparece repetidamente; e não é difícil ver como pode ter surgido.

Eles celebravam sua Eucaristia com portas fechadas, e falavam dela como um reunir-se para participar do corpo e do sangue do Filho do Homem; e pode-se facilmente ver como essa afirmação poderia ser mal interpretada pelos ignorantes, e quão indignas da atenção do historiador são as meras rumores de ambos os lados em uma disputa teológica!

Não há dúvida de que no longo período durante o qual os Mistérios floresceram, a mais rigorosa disciplina era exigida de todos os candidatos, e a mais extrema pureza era preservada; mas é provável que nos dias da decadência tanto da Grécia quanto de Roma, mesmo (Página 61) os Mistérios compartilhassem em certa medida da degradação geral, assim como, recorde-se, também o fizeram as ágapes cristãs, que degeneraram nas mais selvagens e repreensíveis orgias.

Os Mistérios Báquicos vieram a ser meras festividades no final, quando Baco ou Dionísio era considerado o deus do vinho, em vez de ser reconhecido como a manifestação do Logos, de quem emanava toda vida e força.

A vida e a força eram de fato às vezes simbolizadas como vinho, ou melhor, como o suco da uva, e dessa forma surgiu a concepção popular equivocada.

Mas isso foi apenas no final do Império, quando todos os verdadeiros Mistérios já haviam sido retirados para o segundo plano, e pouco mais que a casca exterior permanecia.

Não devemos julgá-los por seus vestígios daquele período, assim como não deveríamos julgar a grande nação romana por sua condição quando já havia caído irremediavelmente em decadência.

Vejamos antes o que eles eram no zênite de sua glória e utilidade.

O que Eram os Mistérios

Como é geralmente sabido, havia duas divisões, os Mistérios Maiores e os Menores.

O que não é geralmente sabido é que sempre houve, por trás e acima destes, o verdadeiro Mistério do Caminho, para o qual os outros conduziam.

O ensino oculto sempre esteve aberto para aqueles que estavam prontos para entrar; as qualificações exigidas nunca variaram, pois não são impostas arbitrariamente, mas são essencialmente necessárias para o avanço.

No tempo presente, o Caminho e alguns de seus estágios, e as qualificações requeridas, são abertamente descritos em livros e palestras, assim como o foram há muito tempo na literatura indiana; mas na Grécia e em Roma nenhuma informação definitiva parece ter sido dada sobre esses pontos, e a própria existência da possibilidade daquele (Página 62) avanço não era certamente conhecida nem mesmo pelos iniciados dos Mistérios Maiores até que estivessem realmente aptos a receber o chamado místico de dentro.

Mas aos Mistérios de que falamos, um grande número era admitido; de fato, um autor clássico menciona uma reunião de trinta mil iniciados, o que, quando consideramos quão relativamente pequena era a população da Grécia, nos mostra que a organização dos Mistérios não era de forma alguma tão exclusiva quanto costumamos supor.

Na verdade, nossas investigações indicam que todas as pessoas de disposição séria e pensantes gravitavam naturalmente em direção a eles como o centro do conhecimento religioso.

Os homens às vezes se perguntam como era possível que grandes nações como Roma ou Grécia permanecessem satisfeitas com o que comumente chamamos de sua religião — um caos de mitos indecorosos, muitos deles nem mesmo decentes, descrevendo os chamados deuses e deusas que eram distintamente humanos em suas ações e paixões, e constantemente brigando entre si.

A verdade é que ninguém estava satisfeito com ela, e que ela nunca foi de forma alguma o que entendemos por uma religião, embora sem dúvida fosse tomada literalmente por muitas pessoas ignorantes.

Mas todos os homens cultos e pensantes dedicaram-se ao estudo de um ou outro dos sistemas de filosofia, e em muitos casos eram também iniciados na Escola dos Mistérios; e foi esse ensinamento superior que realmente moldou suas vidas, e ocupou para eles o lugar do que chamamos de religião — a menos que, de fato, fossem francamente agnósticos, como são agora muitos homens cultos.

Além disso, foi através do ensinamento dos Mistérios que os homens aprenderam pela primeira vez o que realmente significavam os estranhos mitos da religião exotérica — pois originalmente eles tinham um significado, e para o estudante teosófico ele muitas vezes está próximo da superfície.

Em meus livros sobre O Outro Lado da Morte, expliquei a significação dada nos Mistérios (página 63) às histórias de Tântalo e Sísifo; o mito de Tício também é obviamente simbólico do resultado de certas paixões no mundo astral; enquanto a lenda de Perséfone ou Prosérpina é claramente uma parábola oculta da descida da alma na matéria.

Lembre-se de como a história nos conta que Prosérpina foi levada enquanto colhia a flor do narciso, e imediatamente você tem uma sugestão de conexão com esse outro mito.

Narciso é representado como um jovem de extraordinária beleza que se apaixonou por seu próprio reflexo em uma poça de água, e foi tão atraído por ele que caiu e se afogou, e depois foi transformado pelos deuses em uma bela flor.

Vê-se instantaneamente que uma história como essa não pode ter outro significado senão um simbólico, e à luz da doutrina filosófica dos éons não é difícil de interpretar.

Todos os sistemas de pensamento cognatos ensinam que a alma não foi originalmente imersa na matéria, e não precisaria ter sido, não fosse o fato de que ela foi atraída pela imagem de si mesma nas condições inferiores da matéria, tantas vezes simbolizadas pela água.

Enganada por esse reflexo, ela se identifica com a personalidade inferior, e fica por um tempo totalmente imersa na matéria; no entanto, a semente divina permanece, e logo ela brota novamente como uma flor.

Agora perceba que foi enquanto Prosérpina se inclinava sobre Narciso que ela foi capturada e levada pelo Desejo, que é o rei deste mundo inferior; e que, embora tenha sido resgatada do cativeiro completo pelos esforços de sua mãe, depois disso teve de passar sua vida metade no mundo inferior e metade no superior — isto é, parcialmente encarnada e parcialmente fora dela. (Página 64)

Os Mistérios Menores

Este é um exemplo do modo como essas fábulas estranhas e aparentemente sem propósito foram utilizadas nas instruções dos Mistérios e tornadas luminosas e belas.

As explicações relacionadas à vida astral eram dadas principalmente nos Mistérios Menores, que se ocupavam especialmente desse aspecto do assunto.

O centro de seu culto e trabalho ficava em Agrae, e aqueles que eram iniciados neles eram chamados de Mystae, e usavam como vestimenta mística uma pele de veado malhada, simbolizando o corpo astral.

A adequação desse emblema será imediatamente reconhecida por qualquer clarividente, ou por um estudante teosófico que tenha examinado as pranchas do meu livro *Man, Visible and Invisible*, pois ele se lembrará das faixas e mosqueados que indicam as várias paixões e emoções, e das rápidas mudanças cintilantes que são tão conspícuas nele. A mesma ideia é expressa pela pele de leopardo usada pelo sacerdote iniciado egípcio ao oferecer seu sacrifício, e pela pele de tigre ou antílope tão frequentemente usada pelos iogues orientais.

De modo geral, os Mistérios Menores se ocupavam principalmente do mundo astral, e os Mistérios Maiores, do mundo celestial.

Eles ensinavam muito mais do que isso, é claro, mas o primeiro e mais proeminente fato de sua instrução era que certos resultados fluíam inevitavelmente de certas ações, e assim que a vida que um homem vivia no plano físico era importante principalmente como preparação para aquilo que ela trazia em seu bojo.

Os Mistérios Menores ensinavam vividamente a parte astral desses resultados, ilustrando-a com as mais impressionantes lições objetivas extraídas da vida real.

Nos primeiros tempos, quando o hierofante que dirigia os estudos descrevia o efeito de algum vício ou crime particular, ele usava seu (página 65) poder oculto para materializar algum bom exemplo do destino que suas palavras retratavam — em alguns casos, afirma-se, permitindo que o sofredor falasse e explicasse a condição em que se encontrava como resultado de uma negligência, enquanto na Terra, das leis eternas sob as quais os mundos são governados.

Às vezes, em vez disso, uma imagem vívida do estado de alguma vítima de sua própria loucura era materializada para a instrução dos neófitos.

Nos dias da decadência, não restava nenhum hierofante que possuísse o poder de produzir essas ilustrações ocultas e, consequentemente, seu lugar foi tomado por atores vestidos para representar os sofredores ou, em alguns casos, por imagens fantasmagóricas projetadas por meio de espelhos côncavos — ou mesmo por estatuária habilmente executada ou figuras mecânicas.

Naturalmente, todos os envolvidos entendiam perfeitamente que essas eram apenas representações, e ninguém jamais foi enganado ao supor que fossem casos originais.

Alguns de nossos escritores eclesiásticos, no entanto, não conseguiram perceber isso, e alguns deles gastaram muito tempo e engenhosidade em "expor" decepções que nunca enganaram ninguém, muito menos aqueles que estavam especialmente envolvidos com elas.

Um cavalheiro chamado Hipólito, que parece ter sido o Maskelyne e Cook daquele período, é especialmente zeloso nessa linha, e seus relatos de aparelhos pelos quais luzes poderiam ser misteriosamente produzidas, e suas sugestões quanto ao uso de tinta invisível, são realmente leituras bastante divertidas.

Podemos considerar, então, que o principal trabalho dos mestres dos Mistérios Menores era informar minuciosamente seus pupilos sobre o resultado exato, na vida astral, do pensamento e da ação físicos.

Além disso, porém, muita instrução era dada em cosmogonia, e a evolução do homem nesta Terra era plenamente explicada, novamente com o auxílio de cenas e figuras ilustrativas, produzidas a princípio por (página 66) materialização, mas depois imitadas de várias maneiras.

Os diretores parecem ter sempre reconhecido duas classes entre seus pupilos, e ter escolhido dentre eles aqueles que julgavam capazes de treinamento especial no desenvolvimento das faculdades psíquicas.

Estes receberam instrução especial sobre como o corpo astral pode ser usado como veículo, e tiveram exercícios definidos para sua prática, a fim de desenvolvê-los em clarividência ou previsão.

Os iniciados tinham uma série de provérbios ou aforismos peculiares a eles mesmos, alguns dos quais eram muito característicos e de tom teosófico.

"A morte é vida, e a vida é morte" é um ditado que precisará de interpretação para o estudante de Teosofia, que compreende, pelo menos até certo ponto, quão infinitamente mais real e vívida é a vida em qualquer outro plano do que este aprisionamento na carne.

"Quem persegue realidades durante a vida as perseguirá após a morte; quem persegue irrealidades durante esta vida também as perseguirá após a morte" é também uma afirmação inteiramente em consonância com os fatos sobre as condições pós-morte com as quais a Teosofia tão plenamente nos familiariza, e enfatiza a grande verdade sobre a qual tantas vezes achamos necessário insistir: que a morte de modo algum muda o homem real, mas que sua disposição e seu modo de pensar permanecem exatamente o que eram antes.

Os Grandes Mistérios

Voltando aos Grandes Mistérios, descobrimos que o centro de sua celebração era em Elêusis, perto de Atenas.

Seus iniciados eram chamados Epoptas, e sua vestimenta cerimonial não era mais uma pele de cervo, mas um velo de ouro — de onde, naturalmente, provém todo o mito de Jasão e seus companheiros.

Isso simbolizava o corpo mental, e o poder de funcionar definitivamente nele. (Página 67) Aqueles que viram o esplendor radiante de tudo o que pertence a esse plano mental, que notaram os inúmeros vórtices produzidos pela emissão e impacto incessantes de formas-pensamento, que se lembram de que o amarelo brilhante é especialmente a cor que manifesta a atividade intelectual, reconhecerão que esta não era uma representação inadequada.

Nesta classe, como na inferior, havia dois tipos — aqueles que podiam ser ensinados a usar o corpo mental e a formar ao seu redor o forte veículo temporário de matéria astral que às vezes foi chamado de mayavirupa, e a grande maioria, muito mais numerosa, que ainda não estava preparada para esse desenvolvimento, mas que, no entanto, podia ser instruída com relação ao plano mental e aos poderes e faculdades a ele apropriados. Assim como nos Mistérios Menores os homens aprendiam o resultado exato, após a morte, de certas ações e modos de vida no plano físico, nos Mistérios Maiores aprendiam como as causas geradas nesta existência inferior se manifestavam no mundo celestial.

Nos Menores, a necessidade e o método do controle dos desejos, paixões e emoções eram esclarecidos; nos Maiores, o mesmo ensinamento era dado com relação ao controle da mente.

O outro lado do ensinamento teosófico, o da cosmogênese e da antropogênese, também era continuado aqui, e levado a uma extensão muito maior.

Em vez de serem instruídos apenas quanto às linhas gerais da evolução por reencarnação e às raças anteriores pelas quais o homem ascendeu neste mundo, os iniciados agora recebiam uma descrição de todo o esquema tal como o temos hoje, incluindo as sete grandes cadeias e sua relação com o sistema solar como um todo.

Seus termos eram diferentes dos nossos, mas a instrução era, em essência, a mesma; onde falamos de sucessivas ondas de vida e efusões, eles falavam de éons e emanações, mas não há dúvida (página 68) de que estavam plenamente em contato com os fatos e de que os representavam a seus discípulos em visões maravilhosas dos processos cósmicos e de suas analogias terrestres.

Assim como no caso dos estados pós-morte, suas representações eram a princípio produzidas por métodos ocultos; e, mais tarde, quando estes falhavam, por meios mecânicos e pictóricos, cujos resultados eram muito inferiores.

Ilustrações do desenvolvimento germinal mostradas por imagem ou modelo, da mesma maneira que poderíamos mostrar algumas delas por meio de um microscópio, eram empregadas para ensinar, pela lei das correspondências, a verdade da evolução cósmica.

É possível que um mal-entendido da representação teatral de alguns desses processos de reprodução tenha sido distorcido em uma ideia de indecência, e assim foi semeada a semente da qual mais tarde brotaram as falsas e tolas acusações dos cristãos ignorantes e intolerantes.

Alguns têm se perguntado por que se deveria dar tanto trabalho para explicar processos complicados de evolução passada, que, afinal, não têm relação óbvia com a vida prática.

Só se pode responder que é importante para o homem saber algo de como veio a ser o que é, para que possa compreender melhor o futuro que se lhe apresenta, e ver, pelo método de seu progresso no passado, como melhor promovê-lo nas vidas vindouras.

Podemos avaliar a importância que tal ensinamento ocupa na mente dos Grandes Seres, de quem provêm todas as religiões, pelo fato de que, em cada fé do mundo, mesmo entre os selvagens, encontramos sempre alguns vestígios de um esforço para explicar a origem do mundo e do homem, ainda que muitas vezes seja apenas o mais extravagante e menos compreensível dos mitos.

Temos um exemplo proeminente disso na parte inicial do livro do Gênesis, que apresenta o relato dessas transações conforme a tradição judaica.

Na mais recente comunicação (página 69) da Grande Fraternidade que está por trás e dirige os assuntos do mundo, encontramos mais uma vez quão proeminente posição é atribuída à origem do homem e do sistema, pelo espaço que lhes é dedicado na obra monumental de Madame Blavatsky, A Doutrina Secreta.

Os Símbolos Empregados

Entre os muitos fatos interessantes relacionados aos Mistérios estava o uso, em suas cerimônias, de certos instrumentos ou tesouros simbólicos, cujo significado talvez necessite de alguma explicação.

Um deles era o Tirso, uma vara com uma pinha no topo; e frequentemente se dizia que essa vara era oca e preenchida com fogo.

O mesmo implemento simbólico é encontrado na Índia, onde geralmente se emprega um bambu de sete nós.

Quando um candidato era iniciado, frequentemente se descrevia que ele havia sido tocado com o Tirso, indicando que este não era um mero emblema, mas também tinha um uso prático.

Ele indicava a medula espinhal que termina no cérebro, e o fogo encerrado dentro dela era o fogo serpentino sagrado, que em sânscrito é chamado kundalini.

Era magnetizado pelo instrutor e colocado contra as costas do candidato, a fim de despertar a força latente dentro dele.

Provavelmente também era empregado na produção de estados de transe, e é possível que o fogo dentro dele pudesse ser não apenas magnetismo animal, mas também eletricidade.

A força latente da kundalini está intimamente ligada ao desenvolvimento oculto e a muitos tipos de magia prática, mas qualquer tentativa de despertá-la ou usá-la sem a supervisão de um professor competente está repleta de sérios perigos.

Outro grupo interessante de símbolos eram os brinquedos do infante Baco, ou Dionísio.

Como já disse (Página 70), Dionísio era um dos nomes aplicados ao Logos, e a infância significa o início desta manifestação.

Nessa infância, ele é representado brincando, e seus brinquedos são um pião, uma bola, um espelho e um conjunto de dados.

Você pode pensar que são símbolos incompreensíveis, mas se pudesse vê-los, entenderia imediatamente, pois esses brinquedos são a matéria da qual os mundos são construídos.

O pião é o átomo, sempre girando e girando; e os átomos são os tijolos com os quais o edifício do sistema solar é construído.

Os dados não são do tipo comum, mas são todos diferentes, pois são os cinco sólidos platônicos — os únicos sólidos regulares que existem — o tetraedro, o cubo, o octaedro, o dodecaedro e o icosaedro.

Estes, novamente, podem ser considerados material de construção, embora de uma maneira um tanto diferente.

Eles representam os átomos dos vários planos da natureza — não que essas sejam as formas desses átomos, mas que indicam ao estudante de ocultismo prático certas qualidades fundamentais dos átomos e a direção na qual sua força pode ser derramada.

Podemos transformá-los em uma série de sete, adicionando o ponto na extremidade inferior e a esfera na superior, e eles nos dão então uma sequência de profundo significado oculto.

A bola com a qual ele brinca é naturalmente a terra, e seu espelho é a matéria astral, que tão prontamente reflete e inverte tudo, sendo, portanto, frequentemente simbolizada como água, como na história de Narciso.

É interessante notar como todos esses pontos curiosos e aparentemente sem sentido se esclarecem e se tornam luminosos à medida que os estudamos e compreendemos.

Também é digno de nota para o estudante teosófico que a indicação da terra por uma bola mostra o conhecimento dos mestres sobre sua esfericidade, e que o átomo, como desenhado pela Sra. Besant em The Ancient Wisdom, não é de modo algum representado inadequadamente por um pião.

(Página 71)

A Escola Pitagórica

Muitas das antigas escolas de Filosofia trabalhavam em conexão com o ensinamento dos Mistérios.

O pitagórico parece ter sido especialmente próximo das ideias teosóficas dos dias atuais.

Ele dividia seus estudantes em três graus, que correspondiam quase exatamente aos dos primeiros cristãos, que os chamavam respectivamente de estágios de Purificação, Iluminação e Perfeição — o último incluindo o que São Clemente chama de conhecimento científico de Deus.

No esquema pitagórico, a primeira ordem era a dos Akoustikoi, ou Ouvintes, que não participavam das discussões ou discursos, mas mantinham silêncio absoluto nas reuniões por dois anos, dedicando-se a ouvir e aprender.

Ao final desse período, se satisfatórios em outros aspectos, os estudantes eram elegíveis para a segunda ordem, a dos Mathmatikoi.

A matemática que aprendiam, no entanto, não se limitava ao que hoje entendemos por esse termo.

Atualmente estudamos essa ciência como um fim em si mesma, mas para eles era apenas uma preparação para algo muito mais amplo, mais elevado e mais prático.

A geometria como a conhecemos hoje era ensinada externamente, na vida comum, como preparação; mas dentro dessas grandes Escolas o assunto era levado muito mais longe, ao estudo e à compreensão da quarta dimensão, e das leis e propriedades do espaço superior.

Ela só pode ser plenamente compreendida se a tomarmos assim como um todo, não em meros fragmentos, e como uma introdução ao desenvolvimento astral.

Ela leva o homem a compreender todas as oitavas de vibrações, as vastas áreas das quais a ciência ainda nada sabe, as intrincadas relações ocultas de números, cores e sons, as várias seções tridimensionais do poderoso cone do espaço, (Página 72) e a verdadeira forma do universo.

Há uma vasta quantidade a ser obtida com o estudo da matemática por aqueles que sabem como abordá-la da maneira correta.

Ela nos ajuda a ver como os mundos são feitos, pois, como se dizia antigamente, "Deus geometriza".

O terceiro grau dos pitagóricos era o dos Physikoi — não físicos no sentido moderno da palavra, mas estudantes da verdadeira vida interior, que aprendiam a distinguir a Vida Divina sob todos os seus disfarces e, assim, eram capazes de compreender o curso de sua evolução.

A vida exigida de todos esses alunos era de uma pureza das mais exaltadas.

Em algumas das escolas, ela era dividida em cinco estágios, que correspondem razoavelmente aos cinco passos do Caminho probatório, conforme descrito em nossa própria literatura.

Os Mistérios Gregos aparecem sob diferentes nomes em diferentes lugares, mas o que foi dito acima se aplicará a todos eles.

Havia os Mistérios de Zeus em Creta, de Hera em Argólida, de Atena em Atenas, de Ártemis na Arcádia, de Hécate em Egina, e de Reia na Frígia.

Havia o chamado culto dos Kabeiroi no Egito, na Fenícia e na Grécia; havia os interessantes Mistérios Persas de Mitra, e os de Ísis e Osíris no Egito.

Os Mistérios Egípcios

Estes últimos estavam envoltos em muito que nos é de especial interesse. O bem conhecido Livro dos Mortos é parte de um de seus manuais.

Os capítulos que foram gradualmente coletados de diversos túmulos não nos dão a totalidade dessa obra, mas apenas uma seção dela, e mesmo essa está bastante corrompida.

Em sua totalidade, destinava-se a ser uma espécie de guia para o plano astral, contendo (página 73) uma série de instruções para a conduta do falecido nas regiões inferiores desse novo mundo.

A mente do egípcio parece ter trabalhado segundo linhas extremamente formais e ordenadas; ele tabulava toda descrição concebível de entidade que um morto pudesse, por qualquer possibilidade, encontrar, e arranjava cuidadosamente o encanto especial ou "palavra de poder" que considerava mais certa para vencer a criatura, caso esta se mostrasse hostil.

As iniciações egípcias eram calculadas segundo o mesmo plano geral.

O candidato era vestido com uma túnica branca, emblemática da pureza que se esperava (simbolizada ainda pelo banho preliminar, do qual se derivou a ideia do batismo cristão), e trazido diante de um conclave de sacerdotes-iniciados em uma espécie de abóbada ou caverna.

Ele era formalmente testado quanto ao desenvolvimento da faculdade clarividente que lhe haviam previamente ensinado a despertar, e para esse fim tinha de ler uma inscrição sobre um escudo de bronze, do qual o lado em branco era apresentado à sua visão física.

Mais tarde, era deixado sozinho para manter uma espécie de vigília.

Certos mantrams, ou palavras de poder, lhe haviam sido ensinados, os quais se supunham apropriados para controlar certas classes de entidades; assim, durante sua vigília, várias aparições eram projetadas diante dele, algumas de natureza aterrorizante e outras sedutora, para que se pudesse ver se sua coragem e frieza permaneciam perfeitas.

Ele afastou todas essas aparições, uma a uma, cada qual por seu sinal ou palavra especial; mas, ao final, todas elas, combinadas, investiram contra ele de uma só vez, e nesse derradeiro esforço foi-lhe instruído usar a mais poderosa palavra de poder (o que no Oriente se chama de Raja-Mantram), pela qual todo mal possível poderia ser vencido.

Se a maioria dos estudantes egípcios sabia, como sabemos, que todos esses vários encantamentos e palavras eram dados apenas para auxiliar e fortalecer a (página 74) vontade do homem, não é claro; embora, sem dúvida, os iniciados superiores devessem ter compreendido isso.

Em verdade, coragem e pureza de intenção são tudo o que é necessário, quando aliadas ao conhecimento que já havia sido dado.

Outras cerimônias dos Mistérios Egípcios são de interesse para nós, nas nações ocidentais, porque parte de seu ritual foi curiosamente entrelaçada com nossos ensinamentos religiosos, e totalmente mal compreendida e materializada.

Mesmo que nessas épocas posteriores o ritual tivesse sido despojado de muito de seu antigo esplendor, ainda assim era impressionante.

Em uma etapa, o candidato deitava-se sobre uma cruz de madeira curiosamente escavada e, após certas cerimônias, entrava em transe.

Seu corpo era então carregado para baixo, para as criptas sob o templo ou a pirâmide, enquanto ele próprio "descia ao hades", ou ao submundo — isto é, em nossa nomenclatura moderna, ele passava para o plano astral.

Ali ele tinha muitas experiências, sendo parte de seu trabalho "pregar aos espíritos em prisão"; pois permanecia nessa condição de transe por três dias e três noites, o que tipificava as três rondas e os intervalos entre elas, durante os quais o homem atravessava a parte inicial de sua evolução, descendo para a matéria.

Então, após "três dias e três noites no seio da terra", na manhã do quarto dia "ele ressuscitava dos mortos" — isto é, seu corpo era trazido de volta da cripta e colocado de modo que os raios do sol nascente caíssem sobre seu rosto, e ele despertava.

Isso simboliza o despertar do homem na quarta ronda e o início de sua ascensão para fora da matéria no arco ascendente da evolução.

Então era dado ao candidato um vislumbre do plano búdico, um toque daquela consciência superior que lhe permitia sentir a unidade subjacente de tudo, e assim (página 75) realizar a divindade em tudo; e assim "ele ascendeu ao céu". Muitos outros pontos da vida de um iniciado e dos estágios pelos quais ele passa foram tecidos na história de Cristo por seus autores, mas foram horrivelmente mal compreendidos e degradados pelos ignorantes.

Foi feita uma tentativa de limitá-los e materializá-los como eventos históricos na vida de um único homem; embora o estudante filosófico perceba que, como Orígenes tão bem colocou, "Eventos que aconteceram apenas uma vez não podem ter importância, e vida, morte e ressurreição são apenas uma manifestação de uma lei universal que é realmente encenada, não neste mundo fugaz de sombras, mas nos conselhos eternos do Altíssimo".

Com o tempo, veio a degradação dos Mistérios, e a luz e a vida interiores foram em grande parte retiradas deles, mas eles não morreram inteiramente.

Apesar da Igreja, durante todos os tempos mais sombrios, quando qualquer pessoa suspeita de não-ortodoxia era implacavelmente perseguida, quando parecia que o conhecimento estava morto e que qualquer progresso intelectual era impossível, havia, no entanto, certas sociedades semissecretas que mantinham algo da tradição e do trabalho.

Havia os Cavaleiros Templários, os Rosacruzes da Idade Média, os Cavaleiros da Luz, os Irmãos da Ásia e muitos outros corpos ocultos.

É verdade que em muitos deles parecia haver pouco conhecimento, e mesmo esse fortemente velado; ainda assim, então como sempre, permaneceu verdadeiro que sempre houve nos bastidores aqueles que sabiam, de modo que aqueles que buscavam sinceramente a Verdade sempre puderam encontrá-la.

No tempo presente, sua busca é certamente mais fácil do que nunca antes.

As condições do mundo agora são diferentes de quaisquer que existiram anteriormente; a invenção da imprensa tornou possível espalhar (página 76) conhecimento de uma nova maneira, e aqueles que estão por trás e dirigem os destinos do mundo acharam bom que uma pequena parte do véu fosse levantada, e que algo, pelo menos, do que por tanto tempo foi zelosamente guardado fosse colocado livre e abertamente diante dos olhos dos homens.

O mundo em geral evoluiu, e assim espera-se que possamos ser confiadamente agraciados com algo de conhecimento adicional; e assim aconteceu, como Cristo disse outrora, que "muitos profetas e reis desejaram ver as coisas que vemos, e não as viram, e ouvir as coisas que ouvimos, e não as ouviram". Tudo isso nós, na Sociedade Teosófica, desfrutamos livremente; contudo, por ser agora tão livremente dado, não devemos ingratamente desprezá-lo. Tanto mais devemos valorizar e prezar esta posse que é nossa, tanto maior é a nossa responsabilidade pelo seu uso correto, tanto mais enérgico deve ser o nosso esforço para torná-la parte de nossas próprias vidas e para auxiliar, à sua luz, na evolução do mundo.

As oportunidades agora postas diante de nós são maiores do que as de nossos ancestrais; vejamos que provamos ser dignos delas.

Não façamos, como fizeram os homens da Atlântida, uso delas para ganho egoísta e pessoal, mas cuidemos para que, ao obtermos maior conhecimento e maior poder, estes sejam sempre dirigidos por maior amor, para que possamos aprender a usá-los para o desenvolvimento da humanidade e para o bem do nosso próximo.

(Página 77)

Nota.

Sobre a relação que existe entre os sólidos platônicos dos Mistérios e a lei periódica dos elementos na química moderna, ver *Occult Chemistry* de Annie Besant, 1909.

CAPÍTULO IV.

BUDISMO

É obviamente impossível apresentar a uma plateia, em uma palestra de uma hora, uma exposição adequada de uma das grandes religiões mundiais que provavelmente é inteiramente nova para muitos dos presentes.

Não proponho, portanto, dar-lhes o mero detalhe formal ou a estrutura do assunto, que aqueles que o desejarem podem obter de qualquer enciclopédia.

Meu desejo é antes tentar apresentar-lhes algo da vida da religião – menos citar seus livros do que contar como ela age e funciona como uma força viva hoje sobre aqueles que a têm como credo.

Em conexão com a Sociedade Teosófica, trabalhei por anos entre os budistas do Ceilão e da Birmânia, e eu mesmo fui admitido na Igreja Budista do Sul por seu Abade Chefe, Hikkaduwe Sumangala.

Embora eu tenha que citar ocasionalmente, farei isso o menos possível, mas tentarei antes dar-lhes minha própria impressão sobre esta grande religião.

Devo dizer algumas palavras primeiro sobre a vida do Fundador do Budismo; em segundo lugar, delinearei seus amplos princípios; e em terceiro lugar, direi algo sobre seu funcionamento prático.

A Vida do Fundador

A história da vida do Fundador é uma das mais belas que já foram contadas, mas posso dar-lhes apenas um ligeiro esboço dela agora.

Aqueles que desejarem lê-la, contada como deve ser contada, em poesia vibrante e melodiosa, (Página 78) devem ler *A Luz da Ásia*, de Sir Edwin Arnold.

De fato, por mais grandiosamente poética que seja, não há exposição tão bela dos princípios desta grande religião quanto aquela que Sir Edwin Arnold apresentou em seus versos incomparáveis, e se for meu privilégio apresentar esse livro a alguém que não o conheça, certamente esse leitor me ficará em dívida de gratidão.

Brevemente, então, este poderoso Fundador foi o Príncipe Siddartha Gautama de Kapilavastu, uma cidade a cerca de cento e sessenta quilômetros a nordeste de Benares, na Índia, a menos de sessenta e cinco quilômetros dos contrafortes inferiores das montanhas do Himalaia.

Ele era filho de Suddhodana, rei dos Sakyas, e de sua esposa, a Rainha Maya.

Nasceu no ano 623 a.C. E seu nascimento está cercado de muitas belas lendas, assim como estão os nascimentos de todos os outros grandes mestres.

Relata-se que vários presságios ocorreram — por exemplo, que uma estrela maravilhosa apareceu, tal como mais tarde se contou a respeito do nascimento de Cristo.

Seu pai, o rei, como era natural para um monarca indiano, mandou lançar o horóscopo da criança imediatamente após seu nascimento; e um destino notável e transcendente foi predito para ele.

Foi profetizado que ele tinha diante de si uma grande escolha, e que poderia superar todos os homens de seu tempo ao longo de uma de duas linhas, de acordo com sua preferência.

Ou ele poderia se tornar um rei de poder temporal muito mais amplo do que o de seu pai — um Soberano ou Imperador de toda a península indiana, como só surgiu ocasionalmente na história; ou poderia abandonar todos os privilégios de seu nascimento principesco e se tornar um asceta sem lar, votado à pobreza perpétua e à castidade.

Mas se escolhesse este último destino, ele seria o maior mestre religioso que o mundo já vira, e os milhões que o seguiriam nessa capacidade seriam muito mais numerosos do que os súditos de qualquer reino terreno.

(Página 79)

Talvez não possamos nos admirar que o rei Suddhodana tenha recuado um pouco diante da ideia dessa vida mendicante para seu filho primogênito, e desejasse antes que sua linhagem real fosse perpetuada e elevada.

Assim, ele se esforçou desde o início para direcionar a escolha do Príncipe mais para o âmbito temporal do que para o espiritual; e, como sabia que a aceitação da vida espiritual seria mais provavelmente determinada pela visão das aflições e tristezas do mundo, e pelo desejo de remediá-las, ele decidiu (segundo a história) manter longe da vista do Príncipe qualquer coisa que pudesse sugerir esses temas dolorosos.

Diz-se que ele resolveu que o Príncipe não soubesse nada sobre decadência ou morte, e fosse criado em meio a prazeres temporais e ensinado a se dedicar à glória e ao poder da casa real.

O Príncipe habitava um nobre palácio cercado por milhas de belos jardins, nos quais era praticamente um prisioneiro, embora não o soubesse.

Ele estava cercado por tudo que pudesse servir aos seus prazeres de todas as formas possíveis; apenas os jovens e belos eram autorizados a se aproximar dele, e qualquer pessoa doente ou sofredora era cuidadosamente mantida longe de sua vista.

Assim, ele parece ter passado seus primeiros anos nesse mundo estranho, confinado e, no entanto, delicioso.

O menino cresceu até atingir a idade de casar, quando foi noivado com Yasodhara, filha do rei Suprabuddha.

Parece ter sido suposto que esse novo interesse preencheria inteiramente a vida do Príncipe; e, no entanto, registra-se que, durante todo esse tempo, em intervalos, lembranças de outras vidas surgiriam em sua mente, e algum vago presságio de um poderoso dever não cumprido perturbaria seu descanso.

Essa inquietação aumentou constantemente e, eventualmente, ele parece ter insistido em sair para o mundo exterior e ver algo da vida além da sua própria.

(Página 80)

Registra-se como, dessa forma, pela primeira vez, ele entrou em contato com a velhice, com a doença e com a morte; e, profundamente comovido pela visão desses estados, tão comuns para nós, mas totalmente novos e desconhecidos para ele, ele se entristeceu muito com o triste destino de seus semelhantes.

Vendo também um dia um santo eremita, ele ficou profundamente impressionado com a serenidade e a majestade de sua aparência, e percebeu que ali estava pelo menos alguém que se elevava acima dos males universais da vida.

A partir desse período, sua determinação de viver a vida espiritual tornou-se cada vez mais forte e, embora a seu tempo tenha se casado com Yasodhara e tido um filho, Rahula, por fim chegou o momento em que, aos vinte e nove anos, abandonou definitivamente sua posição principesca, deixando toda a sua riqueza nas mãos da esposa e do filho, e se retirou para a selva como asceta.

Isso pode parecer, segundo nossas noções modernas, um procedimento muito estranho, mas é preciso lembrar que era o único modo de obter a instrução que desejava.

As condições de vida então eram tão diferentes das nossas que é difícil para nós compreendê-las.

Não havia livros impressos, e todos os homens santos eram mendicantes e ascetas.

Um estudante, então, não tinha alternativa senão ir de mestre a mestre para aprender o que cada um tinha a dizer e discutir com cada um os problemas da vida, a fim de ver que luz poderiam lançar sobre eles.

Naturalmente, nessa época, o Príncipe, como seu pai e todos os outros habitantes da Índia, pertencia à grande religião hindu; consequentemente, foi a alguns dos principais brâmanes ascetas que ele recorreu em busca de instrução e orientação nessa nova vida.

Durante seis anos, passou de um desses mestres a outro, procurando aprender com eles a verdadeira solução para o problema da vida e um remédio para a miséria do mundo, sem nunca encontrar plenamente aquilo (página 81) que buscava.

Sua doutrina parecia sempre ser a de que somente através do ascetismo mais rígido e das mais pesadas penitências autoimpostas se poderia esperar escapar da tristeza e do sofrimento que eram a herança de todos os homens; e ele experimentou todos os seus sistemas ao extremo, um após o outro, mas sempre com um anseio insatisfeito por algo maior, mais verdadeiro e mais real além deles.

Por fim, um ascetismo tão persistente e rigoroso afetou sua saúde, e conta-se que um dia ele desmaiou de fome e ficou à beira da morte.

Ele se recuperou disso, mas percebeu que, embora esse pudesse certamente ser um caminho para sair do mundo, dificilmente era o modo pelo qual a vida poderia ser trazida ao mundo; e raciocinou que, para ajudar seus semelhantes, ele deveria ao menos viver o suficiente para encontrar a verdade que os libertaria.

Parece que ele adotou desde o início a atitude mais altruísta.

Para si mesmo, ele possuía tudo o que poderia tornar a vida mais feliz; contudo, a dor muda das incontáveis multidões o comovia tão profundamente que, enquanto ela existisse sem alívio, nenhuma felicidade lhe era possível.

Foi por elas, não por si mesmo, que ele buscou o caminho de escape do sofrimento da vida física.

Por elas, não por si mesmo, ele sentiu a necessidade de uma vida superior que pudesse ser vivida por todos.

Assim, achando todas as práticas ascéticas inúteis, decidiu em vez disso tentar o treinamento da mente ao longo das linhas da mais elevada meditação; e logo se sentou sob a árvore Bodhi, determinado a alcançar pelo poder de seu próprio espírito o conhecimento que procurava.

Ali ele se sentou em meditação, revisando todas essas coisas, estudando profundamente o coração e a causa da vida e esforçando-se para elevar sua consciência a um nível mais alto.

Por fim, com um esforço poderoso, ele conseguiu, e então viu desenrolar-se diante de si o maravilhoso (página 82) esquema da evolução e o verdadeiro destino do homem.

Assim, ele se tornou o Buda, o iluminado; e então voltou-se para compartilhar com seus semelhantes esse conhecimento prodigioso que havia obtido.

Ele saiu para pregar sua nova doutrina, começando pela entrega de um sermão que ainda é preservado nos livros sagrados de seus seguidores.

Em sua própria língua, o páli (que ainda é para eles a língua sagrada, assim como o latim é o da Igreja Católica), esse primeiro sermão é conhecido como o *Dhammachakkappavattana Sutta*, que foi interpretado como significando "O pôr em movimento das rodas do carro real do Reino da Retidão".

Em vários dos livros de nossos orientalistas modernos, você pode encontrar uma tradução literal dele; mas se deseja captar o espírito real do que ele disse, mais uma vez fará bem em recorrer ao Oitavo Livro do maravilhoso poema de Sir Edwin Arnold.

Talvez o poeta não nos dê o significado literal de cada palavra com tanta precisão quanto outros estudiosos orientais; talvez sua obra seja antes uma paráfrase esplêndida do que uma tradução verbal; mas isto, pelo menos, eu sei: ele dá, como nenhum outro ainda deu em inglês, o espírito que permeia essa poderosa fé oriental.

Eu vivi entre essas pessoas; participei de seus festivais religiosos e conheço os sentimentos em seus corações; e ler *A Luz da Ásia* traz toda a cena de volta diante de mim vividamente, como a vi tantas vezes; enquanto a precisão rígida e pedante do orientalista não evoca nenhum eco da música mística do Oriente.

Em suma, o Buda apresentou aos seus ouvintes o que chamou de "O Caminho do Meio". Ele declarou que os extremos em qualquer direção são igualmente irracionais; que, por um lado, a vida do homem mundano, totalmente envolvido em seus negócios, perseguindo sonhos de riqueza e (página 83) poder, é tola e defeituosa porque deixa de considerar tudo o que é realmente digno de consideração.

Mas ele afirmou também que, por outro lado, o ascetismo extremo, que ensina cada homem a virar as costas para o mundo por completo e a se dedicar exclusiva e egoisticamente ao esforço de se isolar dele e escapar dele, também é tolice.

Ele sustentava que o "caminho do meio" da verdade e do dever é o melhor e o mais seguro, e que, embora certamente a vida dedicada inteiramente à espiritualidade seja a mais elevada de todas para aqueles que estão prontos para ela, também há uma vida boa, verdadeira e espiritual possível para o homem que ainda mantém seu lugar e faz seu trabalho no mundo.

Ele baseou sua doutrina somente na razão e no senso comum; não pediu a ninguém que acreditasse em algo cegamente, mas antes disse-lhe para abrir os olhos e olhar ao redor.

Ele declarou que, apesar de toda a tristeza e miséria do mundo, o grande esquema do qual o homem faz parte é um esquema de justiça eterna, e que a lei sob a qual vivemos é uma boa lei, e precisa apenas que a compreendamos e nos adaptemos a ela. Ele declarou que o homem causa seu próprio sofrimento ao se entregar perpetuamente ao desejo por aquilo que não tem, e que a felicidade e o contentamento podem ser obtidos melhor limitando os desejos do que aumentando as posses.

Ele pregou esse "caminho do meio" com o mais maravilhoso sucesso por quarenta e cinco anos em todas as partes da Índia, e finalmente morreu aos oitenta anos na cidade de Kusinagara no ano 543 a.C.

As datas que forneci acima são as dos registros orientais; e embora os orientalistas europeus a princípio tenham recusado aceitá-las e tentado provar que a vida do Buda era muito mais próxima da era cristã, descobertas posteriores os forçaram constantemente a recuar até que (Página 84) a maioria deles agora admite que os registros originais são confiáveis.

A história e os éditos do grande imperador budista Asoka contribuíram muito para esclarecer essa questão de cronologia; e o Mahawanso do Ceilão nos dá um registro cuidadoso e detalhado que se mostra tanto mais definido e confiável quanto mais é investigado.

De modo que agora as datas relacionadas à vida do Buda são razoavelmente aceitas.

Até que ponto podemos depender dos detalhes dessa vida como exatos é difícil dizer.

Provavelmente a reverência e o afeto de seus seguidores teceram ao redor de sua memória uma certa névoa ou halo de lenda, assim como tem ocorrido com todos os outros grandes mestres religiosos.

No entanto, ninguém pode duvidar de que temos aqui uma bela história que incorpora a vida de um homem santíssimo, de esplêndida pureza de vida e maravilhosa clareza de visão espiritual. Como diz o Senhor Barthelemy St. Hilaire: "Sua vida é absolutamente sem mácula.

Seu heroísmo constante iguala sua convicção; ele é o exemplo aperfeiçoado de todas as virtudes que prega; sua abnegação, sua caridade, sua doçura imutável nunca o abandonam por um único instante.

. . . . Ele prepara silenciosamente sua doutrina através de seis anos de labor e de meditação; propaga-a pelo único poder da palavra e da persuasão durante mais de meio século, e quando morre nos braços de seus discípulos, é com a certeza de um sábio que praticou o mais elevado durante toda a sua vida, e que está seguro de ter encontrado a verdade."

Seu Ensinamento

Voltemo-nos agora para examinar os grandes princípios de sua doutrina.

Ele próprio foi certa vez perguntado se lhe era possível resumi-la em um único Sutta, ou estrofe de quatro linhas, e em resposta proferiu o seguinte: (Página 85)

"Sabbapapassa akaranam; Kusalassa upasampada; Sa chittapariyo dapanam; Etam Buddhana sasanam.

Isto talvez possa ser melhor traduzido como:

"Cessar de fazer o mal; Aprender a fazer o bem; Purificar o próprio coração;

Esta é a religião dos Budas."

Ver-se-á imediatamente que esta é uma definição bela e abrangente.

Primeiramente, o homem é instruído a abandonar toda atividade que seja má em qualquer sentido dessa palavra; mas de modo algum deve contentar-se apenas com isso.

Ele deve assumir atividade em uma nova direção e "aprender a fazer o bem". Então, tendo assim regulado sua conduta em relação ao mundo exterior, é instruído a purificar o próprio coração — um comando tão abrangente que há pouco na vida espiritual que não esteja incluído nele. Todo o fundamento do ensinamento do Buda sempre foi o bom senso e a justiça.

Ele baseou sua reivindicação de ser ouvido no fato de que seus ensinamentos eram claros e compreensíveis; e ele impressionou fortemente essa atitude nas mentes de seus seguidores — tanto que, em um Concílio Ecumênico dos monges budistas realizado em Vaisali, quando surgiu a questão sobre se certas doutrinas realmente faziam parte do ensinamento do Buda, uma resolução foi aprovada por unanimidade no sentido de que "Somente aquilo que não contradiz a sã razão pode passar como ensinamento do Buda." (Schlagintweit, Budismo no Tibete, p. 21.) Não se pode deixar de desejar que os Concílios Ecumênicos da Igreja Cristã tivessem feito uma resolução semelhante; pois, nesse caso, os absurdos que incrustaram a verdadeira fé nunca teriam sido permitidos a crescer até se tornarem a estrutura gigantesca, mas sem fundamento, da teologia ortodoxa dos dias atuais.

Essa decisão do Concílio também concorda com o que o próprio Buda dissera ao povo da aldeia de Kalama, quando vieram a ele e perguntaram o que, em meio a todas as doutrinas variadas do mundo, deveriam acreditar.

Sua resposta foi: "Não acrediteis em algo dito meramente porque foi dito; nem em tradições porque foram transmitidas desde a antiguidade; nem em rumores como tais; nem em escritos de sábios, meramente porque sábios os escreveram; nem em fantasias que possais suspeitar terem sido inspiradas por um Deva (isto é, em presumida inspiração espiritual); nem em inferências extraídas de alguma suposição casual que tenhais feito; nem por causa do que parece uma necessidade analógica; nem na mera autoridade de vossos próprios mestres ou Mestres.

Mas acreditai quando o escrito, a doutrina ou o dito for corroborado pela vossa própria consciência."

Pois assim vos ensinei, não a crer meramente porque ouvistes; mas quando crerdes por vossa própria consciência, então agir de acordo e abundantemente. Estas palavras são citadas no Catecismo Budista do Coronel Olcott, do Kalama Sutta do Anguttara Nikaya; e certamente a atitude que representam é muito boa para um professor religioso adotar.

O budismo, portanto, não tem credo; simplesmente exige que o homem reconheça os fatos que o cercam.

É a única crença que o mundo conheceu que é inteiramente livre de dogma, cerimônia e sacerdotalismo.

De acordo com seus ensinamentos, dentro das imutáveis leis da retidão, cada homem é absolutamente o criador de si mesmo e de seu próprio destino.

O budista é aquele (página 87) que segue as instruções do Buda e vive a vida que ele prescreveu; de modo que pode haver muitos entre nós que, segundo esse critério, poderiam ser descritos como budistas, mesmo que nunca tenhamos lido uma palavra de seus maravilhosos ditos.

Seu ensinamento também reconhece os diferentes tipos de homens e a necessidade de alguns deles de um conhecimento mais pleno do que seria compreensível para outros.

Tive ocasião de enfatizar esse ponto ao falar-vos do cristianismo, e exatamente a mesma coisa pode ser dita do budismo.

É verdade que o Buda é representado no Parinibbana Sutta como declarando que ele não dá com o punho fechado, como fazem alguns mestres que retêm certas coisas; contudo, embora ele evidentemente quisesse dizer que ensinava tudo livremente, é igualmente certo que a base real da grande lei só pode ser compreendida por aqueles que aperfeiçoaram seus poderes de compreensão.

Vemos que ele falou em parábolas e recitou histórias para as massas não esclarecidas, assim como o Cristo fez; mas também pregou o Sutta Pitaka para os mais avançados, enquanto dá o Vinaya Pitaka para o governo dos monges de sua ordem, e aperfeiçoou o Abhidhamma Pitaka, ou ensinamento filosófico e psicológico, para as mentes de mais alta ordem.

Ele insistiu fortemente que é uma possibilidade e um dever para todo homem viver uma vida santa mesmo enquanto ainda está engajado no mundo; mas também ensinou, como todo grande mestre o fez, que a mais elevada de todas as vidas é aquela dedicada inteiramente ao avanço espiritual e à ajuda à humanidade.

Para esse fim, ele fundou a grande ordem monástica chamada Sangha, à qual terei de me referir mais adiante.

As Quatro Nobres Verdades

Uma característica interessante do ensinamento de Buda é a maneira como ele tabula tudo, organizando-o sob vários títulos para fins mnemônicos.

Em seu primeiro sermão, ele começa com o recital de suas Quatro Nobres Verdades.

Estas representam quatro elos em uma cadeia de raciocínio, e cada uma delas está associada a uma explicação detalhada; mas o conjunto é tão bem organizado que uma única palavra evoca imediatamente na mente de qualquer estudante todo o argumento, e seria quase impossível que mesmo o menos inteligente, tendo uma vez aprendido a cadeia de raciocínio, esquecesse qualquer um de seus elos.

Suas quatro verdades são:

1. O Sofrimento.

2. A Causa do sofrimento.

3. A cessação do sofrimento.

4. O caminho para a cessação do sofrimento.

A Primeira Verdade ele explica desta maneira.

Toda a vida do homem mundano é uma vida que ou está cheia de sofrimento ou está, a qualquer momento, sujeita ao sofrimento.

Constantemente o homem se esforça para alcançar algo que não possui, e sofre porque não o obtém; ou, por outro lado, está em constante medo de ser despojado de algo que já possui.

O homem sofre porque perde aqueles que ama, ou aquilo a que está fortemente apegado; sofre às vezes porque deseja afeto que não lhe é dado, ou porque aquilo que ama está se afastando dele.

Ele sofre com o medo da morte, seja por si mesmo ou por aqueles que lhe são queridos.

Assim, por todo o caminho, a vida do homem comum no mundo é uma vida de mais ou menos perturbação e sofrimento.

Então ele passa à segunda de suas Verdades e procede a investigar qual é a causa desse sofrimento; e após cuidadosa análise, chega à conclusão de que a causa de todo sofrimento é o desejo inferior.

Se um homem não tem desejo por riquezas ou por fama, permanecerá sereno e imperturbável, quer estas venham a ele, quer lhe sejam tiradas.

Se sua afeição está fixada em níveis mais elevados, se ele ama seu amigo e não meramente o corpo físico de seu amigo, então nunca poderá ser separado dele e não poderá haver decadência ou perda dessa afeição.

O homem sofre às vezes quando encontra a velhice a descer sobre ele; mas isso é apenas porque ele tem um desejo intenso por aquelas faculdades físicas que agora descobre estarem a deixá-lo.

Se ele percebesse verdadeiramente que a alma permanece inalterada, embora as faculdades corporais possam mudar, não haveria tristeza nesse desgaste da vestimenta terrena.

Assim, somos conduzidos à Terceira Nobre Verdade, a cessação da tristeza; e naturalmente o caminho para escapar da tristeza é pôr de lado esse desejo inferior.

Assim, ele explica como, se fixarmos nossos pensamentos no mais elevado e aprendermos a retirar nosso desejo dos níveis inferiores, toda tristeza cessará para nós e nos tornaremos serenos e imperturbáveis.

Um homem pode viver feliz no mundo físico, se apenas não se permitir apegar-se a ele pelo desejo.

Contentai-vos com o que tendes, e encarai esta vida inferior com calma filosofia; então, para vós, a tristeza terá cessado.

Sua Quarta Nobre Verdade nos expressa o modo pelo qual essa ausência de desejo pode ser alcançada.

O caminho para isso, diz ele, contém oito passos, e por isso é constantemente mencionado na literatura budista como "O Nobre Caminho Óctuplo".

O primeiro desses passos, ele afirma, é a Crença Correta; mas devemos ter cuidado para não o interpretarmos mal aqui.

Nenhuma crença cega é esperada no Budismo; de fato, como vimos, tal fé é claramente desaconselhada.

Um homem deve crer não porque lhe disseram que tal e (Página 90) tal coisa é verdadeira, mas porque vê que ela é intrinsecamente razoável.

Ainda assim, a menos que ele tenha se assegurado de que certos fatos amplos são verdadeiros, é pouco provável que faça o esforço necessário para elevar-se ao longo do caminho da evolução.

Sua definição de Crença Correta aproxima-se muito de uma declaração dos princípios teosóficos; pois a crença exigida é aquela na lei perfeita de justiça, ou de causa e efeito, e na possibilidade de alcançar o bem supremo seguindo o caminho da santidade.

Esses postulados o levarão ao segundo passo, que é o Pensamento Correto, e daí ele passa naturalmente ao terceiro e ao quarto, que são a Fala Correta e a Ação Correta.

Outra necessidade para o homem que ainda vive no mundo é o quinto passo, o Meio de Vida Correto; e o critério pelo qual um homem pode saber se seu método de ganhar a vida é correto é que ele não pode causar dano a nenhum ser vivo.

O sexto desses passos é descrito como Energia Correta, ou Esforço Correto.

A palavra em páli significa também força; e a sugestão é que o homem não deve ser meramente passivamente bom, mas deve esforçar-se para ser útil aos seus semelhantes.

O sétimo passo é traduzido como Recordação Correta; e envolve recordação e autodisciplina — que o homem se lembre do que fez de errado e, assim, cuide para evitar cair no mesmo erro novamente.

Então o último passo é a Concentração Correta ou Meditação — controle definido do pensamento e sua direção para objetivos elevados e altruístas.

Todos esses oito passos ele sugere como necessários para que um homem, enquanto vive no mundo, possa estar tão afastado de seu poder a ponto de viver com sabedoria e felicidade.

Para o homem na vida comum são dados também os Pancha Sila, ou cinco preceitos, aos quais me referirei oportunamente.

(Página 91)

A Ordem do Manto Amarelo

O Buda tem, no entanto, outras regras para sua Sangha — a ordem do Manto Amarelo — aqueles que ajudam o mundo, como são frequentemente chamados.

Esta Sangha é, em muitos aspectos, não diferente das ordens monásticas cristãs.

Nela, como nelas, os monges fazem voto de pobreza e castidade; mas há esta vantagem decidida na regra budista: que a ninguém é permitido fazer votos em perpetuidade, como se faz nas ordens cristãs.

Sabemos que não raramente acontece em países europeus que um homem entre em algum corpo monástico sob a influência de entusiasmo religioso, ou talvez às vezes de desgosto pelo mundo, ou como resultado de alguma grande dor.

Mais tarde, quando a onda de sentimento tenha passado, ele pode descobrir que na realidade não tem vocação para a vida religiosa; e frequentemente muita miséria resulta do fato de que seus votos são irrevogáveis e que nenhuma mudança lhe é agora possível.

No sistema budista, plena provisão é feita para tal caso.

Qualquer um que por sua vida tenha mostrado ser apto a fazê-lo pode preparar-se para o que é chamado ordenação ou admissão à irmandade de monges.

Se após alguns meses ou alguns anos ele se encontrar incapaz de aderir às regras estritas da vida monástica, ele pode despir o manto novamente e reentrar na vida comum do mundo sem que nenhuma reprovação de qualquer tipo lhe seja atribuída.

Ninguém pensa pior dele de qualquer maneira; ele simplesmente tentou viver num nível para o qual não está inteiramente apto; ele precisa de mais alguns anos no mundo para que possa desenvolver-se até a posição necessária; mas ninguém o culpa por isso.

De fato, em Burma é costume que toda a população masculina vista os mantos por um curto período, pelo menos, em algum momento de suas vidas.

Aqueles que sentem que esta é a existência mais adequada para eles a retêm e tornam-se membros permanentes da ordem; outros, após um ano ou mais de monaquismo, despem seus hábitos e entram nas fileiras da vida comum, de modo algum piores, mas muito melhores, por sua breve experiência de algo mais elevado.

Deve-se lembrar que ser um grande mestre religioso no Oriente não é de modo algum a mesma coisa que ser o chefe de alguma grande fé aqui no Ocidente.

O mestre oriental não desfruta de uma renda principesca, nem circula em carruagens com uma pompa igual à de muitos monarcas.

É justamente porque muitos bispos cristãos e missionários cristãos vivem segundo tais linhas que a maioria dos orientais não acredita que eles sejam verdadeiros mestres religiosos.

Pois no Oriente o mestre religioso é aquele que dedica toda a sua vida à mais elevada espiritualidade, que observa absoluta pureza de coração e de mente, que nunca toca em dinheiro sob qualquer forma, cuja primeira regra de vida é que não deve possuir propriedade alguma, exceto os hábitos que veste; e mesmo esses hábitos são feitos de tal maneira que não têm valor se vendidos.

Por outro lado, tão grande é a veneração universal no Oriente por essa vida espiritual que a deferência prestada ao mais pobre ou mais jovem dos mestres é maior do que a prestada ao rei.

A reverência dada à Veste Amarela dos monges de Buda é impressionante e bela, e repetidas vezes vi os mais ricos e influentes magnatas da cidade levantarem-se respeitosamente e permanecerem de cabeça baixa na presença até mesmo de um noviço criança que acabara de vestir os hábitos.

O maior respeito é demonstrado no Ceilão aos Chefes hereditários do povo — os descendentes da antiga família real; vi repetidamente os transeuntes afastarem-se completamente da estrada quando o Chefe passava por ela, permanecendo as pessoas em um nível mais baixo e curvando-se até que ele tivesse seguido seu caminho.

Contudo, esses Chefes, reunidos em assembleia solene, levantam-se imediatamente à entrada do mais jovem membro do Sangha e permanecem de pé até que lhes seja pedido que se sentem; tão grande é a homenagem prestada à Veste Amarela em todo o mundo budista.

A Vida do Monge

A vida dos monges é de absoluto desapego.

Não apenas não possuem bens terrenos, mas também tomam apenas alimento simples, tal como lhes é dado, sem escolha ou questionamento.

Suas vidas são passadas em estudo e meditação, embora também se espere que preguem ao povo em certas ocasiões determinadas.

A principal festividade dos budistas é o dia da lua cheia; mas, de modo subordinado, os outros quartos da fase lunar também são celebrados, de modo que, na prática, eles acabam tendo um dia semanal de visita ao templo, muito semelhante ao que em nossa terra as pessoas vão à igreja aos domingos.

Os monges também têm como dever dar conselhos e admoestações a qualquer um que os procure, e ler o que se chama de Cerimônia Pirit — isto é, as palavras de consolação e bênção — em certas ocasiões públicas, e também (quando solicitado) em uma casa particular quando alguém está doente.

Os membros da Sangha têm sido frequentemente descritos em livros de viagem, e de fato geralmente na literatura sobre o assunto, como "sacerdotes budistas", mas a verdade é que essa designação é tanto imprecisa quanto enganosa.

As ideias que seriam associadas, seja no Catolicismo ou no Judaísmo, à palavra sacerdote são inteiramente estranhas a todo o ensinamento do Budismo.

Não há qualquer pensamento de um intermediário entre o homem (página 94) e a grande lei da Justiça Divina — nenhuma sugestão de que o homem precise de tal trabalho feito por ele, como se supõe que um sacerdote faça. Assim, quando nos deparamos com essa expressão, "sacerdote budista", devemos sempre ter em mente que, na realidade, ela não significa nada mais do que um monge — alguém cuja vida é separada e dedicada à religião.

Supõe-se que seu desenvolvimento o conduza inteiramente para longe das coisas deste mundo e para as condições superiores sobre as quais escrevi em Clarividência e O Outro Lado da Morte.

Supõe-se que ele tenha definitivamente posto os pés no Caminho da Santidade — o Caminho que o leva ao Nirvana.

Nos capítulos finais de Ajudadores Invisíveis, dei em detalhes completos os passos desse Caminho e as qualificações que o candidato deve desenvolver em cada um desses passos; portanto, não os repetirei aqui, embora devesse recomendar com toda a seriedade o seu estudo a todos que desejam compreender o espírito belo e elevado dessa religião gloriosa.

Nirvana

Há, no entanto, outro ponto com relação ao Nirvana, a meta desse Caminho, que não devo deixar de mencionar, porque tem havido um mal-entendido generalizado sobre o assunto.

A descrição que o próprio Buda dá do Nirvana está tão acima da compreensão de qualquer homem treinado apenas nos métodos comuns e mundanos de pensamento que não é de admirar que tenha sido mal compreendida à primeira vista pelos orientalistas europeus.

Até mesmo Max Muller, o grande sânscritista de Oxford, sustentou por muitos anos que o Nirvana era simplesmente equivalente à aniquilação; e infelizmente essa concepção errônea parece ter se espalhado amplamente.

Mais tarde em sua vida, com estudo mais aprofundado e profundo, (Página 95) ele chegou a compreender que nisso havia se enganado; e de fato ninguém que tenha vivido no Oriente entre os budistas pode por um momento supor que eles consideram a aniquilação como o fim que se esforçam por alcançar.

É bem verdade que a obtenção do Nirvana envolve a aniquilação total daquele lado inferior do homem que, na verdade, é tudo o que dele conhecemos no presente momento.

A personalidade e tudo o que está relacionado aos veículos inferiores é impermanente e desaparecerá.

Se nos esforçarmos para compreender o que o homem seria quando privado de tudo o que está incluído sob esses termos, veremos que para nós, em nosso estágio atual, seria difícil compreender que algo permanecesse.

E, no entanto, a verdade é que tudo permanece — que no espírito glorificado que então existe, toda a essência de todas as qualidades que foram desenvolvidas através dos séculos de luta e tensão na encarnação terrena inerirá no mais pleno grau possível.

O homem tornou-se mais que homem, pois está agora no limiar da Divindade; ainda assim, ele continua sendo ele mesmo, mesmo que seja um eu muito mais amplo.

Muitas definições foram dadas do Nirvana, e naturalmente nenhuma delas pode ser satisfatória; talvez a melhor, no geral, seja a de paz na onisciência.

Quando, há muitos anos, eu preparava um simples catecismo introdutório de sua religião para crianças budistas, o Abade Superior Sumangala ele mesmo me deu como a melhor definição de Nirvana para apresentar a elas que era uma condição de paz e bem-aventurança tão elevada acima de nosso estado atual que nos era impossível compreendê-la. Certamente isso está muito distante da ideia de aniquilação.

Verdadeiramente, tudo o que agora chamamos de homem desapareceu; mas isso não ocorre porque a individualidade é aniquilada, mas porque ela se perde na divindade.

(Página 96)

O Resultado Prático

Voltemo-nos agora ao nosso terceiro tópico e consideremos algo do lado prático desta grande religião mundial, tal como pode ser visto nos dias de hoje.

Até onde pude observar, devo certamente testemunhar que ela funciona extremamente bem.

É claro que há homens bons e maus em todas as nações, e há muitos budistas nominais na Birmânia e no Ceilão, assim como há cristãos nominais na Inglaterra; mas as estatísticas mostram que a proporção de criminalidade em relação à população é muito menor entre os budistas do Ceilão do que em qualquer país europeu ou na América.

Uma grande razão para esse fato indubitável é que vemos grande parte do crime originar-se da bebida, e a bebida é terminantemente proibida pela religião budista.

Esse único fato, por si só, faz uma diferença enorme na vida de uma nação.

Infelizmente, os europeus introduziram muitas novas formas de bebidas alcoólicas entre os povos budistas, assim como as levaram a todos os outros lugares; pois esta é uma marca da sua chamada civilização.

Assim, aqui e ali, pode-se encontrar um homem, mesmo entre os budistas, que viola os preceitos de sua religião e participa da bebida proibida; mas ele está perfeitamente ciente da degradação que isso acarreta, e a opinião popular invariavelmente o considera um homem perverso, exatamente da mesma forma que nós, nos países ocidentais, aplicaríamos essa designação a um ladrão ou a alguém que cometesse atos de violência.

Suponho que seja difícil para um leitor ocidental compreender de imediato todas as mudanças que a ausência desse único hábito fatal opera na vida de uma nação.

Quisera eu poder descrever como essa grande e antiga religião oriental permeia a existência diária daqueles que a professam, para que você pudesse ter diante de si um quadro perfeito dessa maravilhosa vida oriental, e pudesse (página 97) sentir o fascínio dessa atmosfera oriental, tão totalmente diferente de tudo o que se experimenta em qualquer outro lugar.

A atitude da mente em relação à religião no Oriente é algo tão diferente da nossa posição a esse respeito aqui, que é com dificuldade que um homem que não a tenha visto e vivido em meio a ela pode ser levado a compreendê-la plenamente. Aqui, os homens pertencem a várias seitas e não raramente são fanáticos e amargos ao defender os dogmas de sua seita particular e denunciar os de todas as outras; contudo, na grande maioria dos casos, essa profissão de crença religiosa é reservada exclusivamente para o domingo, e ela praticamente não exerce influência sobre a vida diária do homem durante o resto da semana.

No Oriente, toda a atitude do homem é o inverso disso.

Cada um tem suas convicções religiosas, e, no entanto, cada um é tolerante com as convicções dos outros.

O muçulmano é verdadeiramente quase tão fanático quanto o cristão; mas o brâmane e o budista estão sempre prontos a admitir que aqueles que não creem como eles podem, não obstante, estar a caminho da luz, e sempre dirão que, se até o mais ignorante descrente cumpre seu dever segundo sua luz nesta vida, ele certamente terá, em sua próxima encarnação, novas oportunidades de aprender algo mais da verdade do que sabe atualmente, e assim finalmente alcançará sua meta tanto quanto eles próprios.

Até o intolerante maometano difere muito do cristão comum; pois, ao menos, sua religião é para ele uma coisa vívida e real, e, tal como é, permeia sua própria vida, sendo para ele a coisa mais querida e mais grandiosa nela. Todo viajante no Oriente terá notado como, no momento em que o chamado do Muezim (página 98) ressoa do minarete, todo muçulmano ao alcance da voz, seja o que estiver fazendo ou por maior que seja a multidão que o cerque, imediatamente pausa, retira seu tapete de oração, estende-o diante de si e prostra-se em oração.

Quantos de nossos cristãos comuns estariam dispostos a se desviar assim três vezes ao dia no meio de seu comércio e de seus negócios, e confessar sua fé diante de todos os homens por atos de oração e adoração realizados nas ruas públicas?

Assim também é com o budista; ele não tem tal oração pública como essa, e, contudo, sua religião permeia toda a sua vida, de certo modo semelhante ao que ocorre com alguns dos povos mais altamente devocionais aqui na Igreja Católica Romana.

A maioria de nós, nesses países, parece manter nossa religião e nossa vida comercial diária em dois compartimentos estanques, de modo que não possam de forma alguma interferir um no outro.

Para o budista, essa atitude é incompreensível e insincera, pois para ele a religião é tudo, e embora às vezes na vida diária ele possa se afastar de seus preceitos, reconhece depois com tristeza que o fez, e nunca tenta se justificar com o argumento de interesses comerciais, como os homens tantas vezes fazem entre nós.

**Budismo na Birmânia**

De longe, o melhor relato que li sobre o efeito prático da religião sobre seus devotos está contido em *The Soul of a People*, de H. Fielding Hall.

É de fato revigorante encontrar um escritor que compreende e aprecia tão plenamente uma fé que não é a sua — que compreendeu tão inteiramente o espírito do budismo tal como vive nos corações do povo.

Ele nos diz que sob seu domínio benigno "os birmaneses são uma comunidade de iguais, em um sentido que provavelmente nunca foi conhecido em outro lugar." (página 99)

Ele dá alto testemunho da seriedade dos monges e descreve como, na época da Guerra Birmanesa, enquanto o país fervilhava de conflitos, eles "cuidavam de seus afazeres calmamente como sempre, pregando a paz, não a guerra, a bondade, não o ódio, a piedade, não a vingança." A diferença entre o budismo e nossa teologia ocidental moderna foi bem expressa por um oficial de cavalaria inglês, que explicou que o budismo nunca serviria para um homem de sua profissão.

"O que o soldado quer", disse ele, "é um deus pessoal que esteja sempre ao seu lado, que sempre compartilhe suas opiniões, que sempre o apoie contra todos os outros.

Mas uma lei que aponta inalteravelmente que o certo é sempre certo, e o errado sempre errado, que nada pode transformar um no outro, que nada pode jamais tornar o matar justo e a violência honrosa — essa não é uma doutrina para um soldado."

O Sr. Hall evidentemente sente fortemente o encanto de uma religião sensata e consistente, que reconhece a unidade da natureza e a vida divina que a subjaz. Em outra passagem de seu encantador livro, ele traça a distinção entre a petrificação desconsoladora das teorias modernas e a beleza viva e o romance do conhecimento real:

"O conhecimento até agora nos trouxe apenas a morte.

Mais tarde nos trará uma nova vida.

Mas agora tudo é escuro."

E porque perdemos nossa crença nas fadas, porque não pensamos mais que há duendes em nossas cavernas, porque não há espírito nos ventos nem voz no trovão, passamos a pensar que as árvores e as rochas, as flores e a tempestade, são todas coisas mortas.

Elas são compostas, dizemos, de materiais que conhecemos, são governadas por leis que descobrimos, e não há vida em lugar algum na natureza.

Para o budista, não menos do que para o grego de outrora, toda a natureza está viva. (Página 100)

A Oferenda no Templo

Vejamos agora quais são os mandamentos ou ordenanças especiais desta religião que o homem tem de obedecer na vida comum.

Falamos antes do Pancha Sila, ou cinco mandamentos; mas a verdade é que, embora estes sejam distintamente mais abrangentes do que o nosso próprio Decálogo, eles não são realmente mandamentos de forma alguma.

Cada um deles não é uma ordem, mas uma afirmação; a forma não é um comando vindo do alto, "Não farás isto", mas é uma afirmação do homem: "Observarei o ensinamento para evitar este pecado." O budista visita seu templo, como dissemos, pelo menos um dia por semana, mas muitos conseguem se apresentar ali por alguns minutos diariamente.

E nunca vão de mãos vazias, pois cada devoto levará consigo uma flor, ou às vezes um ramo de flores, que deposita sobre o altar do Buda com algumas palavras de amor e gratidão.

Desejando chegar à ideia na mente dos camponeses simples que realizam esta cerimônia diariamente, perguntei frequentemente a tal homem, por meio de um intérprete: "Por que você oferece estas flores ao Buda? Você acha que isso o agrada?" O homem invariavelmente respondia com um olhar de surpresa: "Como pode agradá-lo, se ele entrou no Nirvana há mais de dois mil anos?" Se eu ainda insistisse na pergunta sobre por que as flores eram oferecidas, a resposta viria sempre: "Nós as oferecemos por gratidão à memória do Fundador de nossa religião, que nos mostrou o caminho de escape da roda de nascimento e morte; e as depositamos diante de sua imagem com o desejo de que nossas almas sejam puras como a flor e, como ela, possam exalar um doce perfume ao nosso redor." Até a palavra altar é talvez enganosa, pois o budista não tem concepção do que queremos dizer com a oferenda de (Página 101) sacrifício ou de adoração.

Para ele, o Senhor Buda não é, em nenhum sentido, um deus, mas um homem exatamente como nós, embora infinitamente mais avançado do que nós; de modo algum alguém a ser adorado, mas apenas profundamente reverenciado e amado.

Há pelo menos uma vantagem inestimável que pode ser reivindicada para esta grande religião: que nunca, em toda a sua história, seus altares foram manchados de sangue; nunca, através dos séculos, o Budismo desceu sequer uma vez ao nível de perseguir aqueles que não pensavam segundo suas linhas.

É a única grande religião do mundo que tem esta distinção honrosa: nunca perseguiu.

Por dois mil e quatrocentos e cinquenta anos, tem seguido seu curso, sem uma gota de sangue em sua marcha adiante, sem um gemido ao longo de seu caminho.

Nunca enganou o povo, nunca praticou fraude piedosa, nunca desencorajou a literatura, nunca apelou ao preconceito, nunca usou a espada.

Se isso pudesse ser dito mesmo de uma seita pequena e obscura, seria uma grande reivindicação a fazer; mas quando lembramos a vasta extensão desta religião maravilhosa e o número de raças que estão incluídas sob seu domínio, é de fato um fato maravilhoso.

Como Sir Edwin Arnold observa: "Quatrocentos e setenta milhões de nossa raça vivem e morrem nos preceitos de Gautama; e os domínios espirituais deste antigo mestre se estendem atualmente sobre o Nepal e o Ceilão, sobre toda a Península Oriental até a China, o Japão, o Tibete, a Ásia Central, a Sibéria, e até mesmo a Lapônia Sueca.

A própria Índia poderia ser justamente incluída neste magnífico império de crença; pois embora a profissão do Budismo tenha, em sua maior parte, desaparecido da terra de seu nascimento, a marca do sublime ensinamento de Gautama (Página 102) está impressa indelevelmente no Bramanismo moderno, e os hábitos e convicções mais característicos dos hindus são claramente devidos à influência benigna dos preceitos budistas.

Mais de um terço da humanidade, portanto, deve suas ideias morais e religiosas a este ilustre Príncipe.

Florestas de flores são diariamente depositadas em seus santuários imaculados, e inúmeras milhões de lábios repetem diariamente a fórmula: 'Eu me refugio em Buda.'"

Os Três Guias

Estas últimas palavras são uma tradução, embora não inteiramente precisa, das palavras iniciais do Tisarana, cuja recitação, juntamente com os cinco preceitos, constitui a única fórmula pública usada pela Igreja do Sul do Budismo.

A palavra *Saranam*, tão frequentemente traduzida como "refúgio", parece significar muito mais aproximadamente "um guia", de modo que a fórmula tríplice repetida por cada budista ao visitar seu templo seria realmente traduzida assim:

Tomo o Senhor Buda como meu guia.

Tomo sua Lei como meu guia.

Tomo sua Ordem como meu guia.

A palavra *Dharma*, que geralmente é traduzida como "lei", na realidade possui uma significação muito mais ampla do que esse termo inglês.

Não é de modo algum uma lei ou série de mandamentos ordenados pelo Buda, mas sua declaração das leis universais sob as quais o Universo existe e, consequentemente, dos deveres do homem como parte desse poderoso esquema.

É nesse sentido que as expressões citadas acima são empregadas pelo budista.

Ao pronunciar o *Tisarana*, ele expressa sua aceitação do Senhor Buda como seu guia e mestre; sua adesão à doutrina que o Buda ensinou; e seu reconhecimento da grande ordem de monges budistas como intérpretes praticados do (página 103) significado da doutrina.

Isso não implica de modo algum a aceitação da interpretação de qualquer monge em particular, mas apenas a da Ordem no sentido mais católico; ele acredita que a interpretação é exata quando sustentada por toda a Irmandade em todos os lugares e em todos os tempos.

Os Cinco Preceitos

Após essa confissão de fé, vem a recitação dos cinco preceitos aos quais já nos referimos, que no Ceilão são chamados brevemente de *Pansil*.

Eles são os seguintes:

1. Observo o preceito de me abster de destruir a vida.

2. Observo o preceito de me abster de tomar o que não é meu.

3. Observo o preceito de me abster de relações ilícitas.

4. Observo o preceito de me abster da falsidade.

5. Observo o preceito de me abster do uso de bebidas intoxicantes ou drogas entorpecentes.

Dificilmente deixará de impressionar a pessoa inteligente que, como observa o Coronel Olcott, "Aquele que observa estritamente estes preceitos deve escapar de toda causa produtora de miséria humana, pois se estudarmos a história, descobriremos que ela toda surgiu de uma ou outra dessas causas.

A sabedoria clarividente do Buda é mostrada da maneira mais evidente no primeiro, terceiro e quinto preceitos; pois tirar a vida, a sensualidade e o uso de intoxicantes causam pelo menos noventa e cinco por cento do sofrimento entre os homens." É interessante notar como cada um desses preceitos vai além do correspondente mandamento judaico.

Em vez de nos ser dito para não matar, encontramo-nos obrigados a não tirar (página 104) qualquer vida; em vez de nos ser ordenado não roubar, temos o preceito de maior alcance de não tomar o que não nos pertence, o que obviamente cobriria a aceitação de elogios que não nos são devidos com honestidade, e muitos outros casos totalmente fora do que comumente se chama roubo.

Observar-se-á também que o terceiro desses preceitos inclui muito mais do que o sétimo dos mandamentos de Moisés, proibindo não apenas um tipo particular de relações ilícitas, mas todos os tipos.

Em vez de nos ser proibido prestar falso testemunho em um tribunal de justiça, somos obrigados a evitar a falsidade por completo.

Muitas vezes pensei em como teria sido uma boa coisa para todos esses países europeus que adotaram o ensinamento de Cristo se o lendário Moisés tivesse incluído em seu Decálogo o quinto desses preceitos budistas — a instrução de não tocar em bebida intoxicante nem em drogas entorpecentes.

Quão mais simples seriam todos os nossos problemas essenciais se esse mandamento fosse observado na Inglaterra e na América como é observado nos países budistas!

A recitação do Tisarana e do Pancha Sila que acabei de descrever é a aproximação mais próxima do budista do sul ao que chamaríamos de um serviço público.

Há, no entanto, a pregação semanal regular pelos monges, que é assistida por grandes multidões de pessoas.

Há geralmente um grande salão de pregação anexo a cada um dos templos, mas em muitos casos este é usado apenas em tempo chuvoso, e quando o dia está bom a pregação é realizada no bosque de palmeiras perto do templo.

Há uma grande quantidade dessa pregação, e ela é frequentemente levada adiante até altas horas da noite, diferentes monges revezando-se e tomando a palavra por sua vez.

Suponho que dificilmente seja possível para vocês nestes climas temperados formar qualquer ideia da beleza pacífica e quase sobrenatural (página 105) de tal cena.

A esplêndida luz da lua tropical, brilhante o suficiente para permitir que se leia facilmente o tipo de um jornal, derrama-se sobre a multidão multicolorida, salpicada pelas sombras das graciosas folhas de palmeira ondulantes, e no meio senta-se o monge de manto amarelo derramando fluentemente seu discurso simples e caseiro aos aldeões.

Geralmente ele recita alguma história ou parábola dos livros sagrados e, em seguida, passa a explicá-la. Um curioso costume antigo que vi muitas vezes no Ceilão é o de um monge pregar na língua sagrada, o Pali, e outro interpretar o que ele diz, frase por frase, para o cingalês, a língua comum do povo.

É evidentemente uma relíquia do tempo, há mais de dois mil anos, quando o Budismo estava sendo pregado no Ceilão por aqueles missionários do norte da Índia, cuja língua materna era o Pali; e o fato de ter sido assim preservado é um curioso exemplo do conservadorismo do imemorial Oriente.

O Canto da Bênção

Uma outra cerimônia que a Igreja do Sul possui, à qual já se fez uma referência passageira, é a da recitação dos versículos de Paritta, ou bênção.

É de natureza tão interessante que merece uma descrição um tanto detalhada.

Em essência, como o nome implica, é uma recitação de bênçãos e invocações com o propósito de afastar influências malignas — o canto daqueles versículos dos livros sagrados dos budistas nos quais o Buda declara que a bênção se segue a certas ações, e também de hinos dos mesmos livros que invocam a atenção benevolente do deus-sol e dos Arhats e Budas.

O principal deles é o belo hino do rei-pavão, das histórias Jataka.

Esses versículos de Pirit são cantados pelos monges budistas em várias ocasiões (página 106), tanto de tristeza quanto de alegria.

Podemos dividir tais ocasiões, grosso modo, em duas classes — públicas e privadas.

O exemplo mais comum desta última é o caso de doença grave ou aproximação da morte, quando um ou dois monges do templo mais próximo são frequentemente convidados a vir e cantar esses versículos de bênção à cabeceira do enfermo, mantendo em mente o tempo todo um sincero desejo por sua recuperação — ou, se isso for considerado sem esperança, por seu bem-estar na condição após a morte.

Os monges não oram pelo doente no nosso sentido da palavra, pois isso não faz parte de sua fé; eles simplesmente cantam seus versículos, com a vontade de ajudar e de afastar qualquer influência maligna sempre fortemente presente em suas mentes.

É claro que nenhuma remuneração é oferecida aos monges, pois suas regras os proíbem de tocar em dinheiro sob quaisquer circunstâncias; uma refeição pode talvez ser-lhes oferecida, se a cerimônia for realizada pela manhã, mas depois do meio-dia não podem aceitar nem isso, pois não comem nada após o meio do dia.

A cerimônia pública é um evento mais imponente e dura muito mais tempo.

Ocorre geralmente em algum festival, como a celebração da dedicação de um templo.

Em tais ocasiões, as festividades e procissões simples às vezes duram uma semana ou até uma quinzena; e durante todo esse tempo, a recitação do Pirit prossegue. Assim como em conexão com algumas igrejas e conventos existe uma "Confraria de Adoração Perpétua", cujos membros se revezam em vigílias regulares para manter dia e noite o culto contínuo diante do altar, assim, do início ao fim deste festival budista, o canto monótono das recitações dos livros sagrados nunca cessa.

(Página 107)

Na maioria dos templos há anexo um Dharmasalawa, ou salão de pregação, e é nele que o Pirit é entoado.

Este salão de pregação é tão inteiramente diferente de qualquer edifício usado para fins semelhantes no Ocidente, que talvez uma descrição dele não seja desinteressante.

Seu tamanho varia com os meios à disposição do construtor, mas sua forma é invariavelmente quadrada.

O teto elevado é sustentado simplesmente por pilares, e não possui parede alguma — nem contém assentos, dispondo-se as pessoas sobre esteiras no chão de terra batida.

No centro há uma grande plataforma quadrada elevada, tendo pilares em seus cantos e uma grade baixa ao redor; e ao longo da borda desta, dentro da grade, corre um assento baixo — muitas vezes pouco mais que um degrau — no qual (voltados para dentro) sentam-se os membros da Sangha, ou ordem monástica, enquanto um deles se dirige ao povo, que assim, ver-se-á, não está agrupado apenas diante do orador, como é usual no Ocidente, mas o cerca por todos os lados.

Na plataforma, no centro do quadrado oco assim formado pelos monges, há geralmente uma pequena mesa com flores sobre ela, ou às vezes uma relíquia, se o templo por acaso possuir uma.

Quando não existe um edifício permanente desse tipo, um temporário (mas sempre exatamente no mesmo plano) é erguido para o festival; e um estranho se surpreende ao ver como essas construções temporárias de bambu, folhas de palmeira e papel colorido podem parecer substanciais sob as mãos hábeis dos trabalhadores nativos.

É neste salão de pregação, então, seja permanente ou temporário, que a recitação constante do Pirit ocorre; e lá também, três vezes por dia, todo o grupo disponível de monges se reúne para entoar o mais imponente Maha Pirit — uma interessante cerimônia mesmérica que merece descrição especial.

Deve-se observar que (Página 108) antes de a cerimônia começar, um enorme pote de água cuidadosamente coberto foi colocado no centro da plataforma, e numerosos fios ou cordas foram dispostos para correr de pilar a pilar acima das cabeças dos monges enquanto se sentam — esse sistema de fios sendo conectado por várias linhas convergentes ao pote de água no centro.

Na ocasião do Maha Pirit, quando todos os monges estão sentados em um quadrado oco como descrito acima, um pedaço de corda, com cerca da espessura de um varal comum, é produzido e colocado sobre os joelhos dos monges, cada um dos quais o segura com as mãos durante toda a cerimônia, estabelecendo assim uma conexão com seus companheiros não diferente daquela do círculo em uma sessão espírita.

Toma-se cuidado para que, após o círculo ser completado, uma das extremidades da corda seja levada para cima e conectada aos fios e cordas acima, de modo que todo o arranjo, na realidade, convirja para o pote de água.

Feito isso, o Maha Pirit começa, e todo o corpo de monges, com a vontade unida para abençoar, recita por cerca de quarenta minutos uma série de bênçãos dos livros sagrados.

As porções selecionadas variam, mas para dar uma ideia de sua natureza geral, citarei o Mahamangala Sutta, que é um dos mais frequentemente escolhidos.

Uma pergunta foi feita ao Buda: "Homens, ansiando pelo bem, têm considerado diversas coisas como desejáveis; dize-nos, ó Mestre, quais são, na realidade, as maiores bênçãos." Em resposta, o Buda diz:-

Não servir aos tolos,   Mas servir aos sábios,   Honrar aqueles dignos de honra;   Esta é a maior bênção.

Habitar em uma terra agradável,   Ter feito boas ações em um nascimento anterior, (Página 109)   Ter uma alma repleta de desejos retos;   Esta é a maior bênção.

Muito discernimento e muita educação,
Autocontrole e uma mente bem treinada,
Palavras agradáveis que são bem proferidas;
Esta é a maior bênção.

Ajudar pai e mãe,
Cuidar da esposa e do filho,
Seguir uma ocupação pacífica;
Esta é a maior bênção.

Dar esmolas e viver retamente,
Oferecer ajuda aos parentes,
Praticar ações que não possam ser censuradas;
Esta é a maior bênção.

Abominar e cessar o pecado,
Abster-se de bebidas fortes,
Não se cansar de fazer o bem;
Esta é a maior bênção.

Ser longânimo e manso,
Associar-se aos tranquilos,
Conversas religiosas nas devidas ocasiões;
Esta é a maior bênção.

Autodomínio e pureza,
O conhecimento das Quatro Grandes Verdades,
A realização do Nirvana;
Esta é a maior bênção.

Sob o golpe das mudanças da vida,
A alma que permanece inabalável,
Impassível, sem sofrimento, segura;
Esta é a maior bênção.

Invencível em todos os lados
É aquele que age assim;
Em todos os lados ele caminha em segurança;
Sua é a maior bênção.

Como esta cerimônia do Maha Pirit é realizada (página 110) três vezes ao dia durante sete dias, e a influência é mantida no intervalo pelo canto incessante do Pirit comum, o estudante do mesmerismo não terá dificuldade em acreditar que, ao final desse tempo, a corda, os fios conectados e o pote de água no centro do círculo estejam todos completamente magnetizados.

No último dia, chega a glória culminante do festival — a distribuição da água magnetizada.

Primeiramente, os principais homens e convidados honrados sobem os degraus da plataforma, e o monge chefe, proferindo uma forma de bênção, derrama três vezes algumas gotas de água nas palmas estendidas deles, enquanto eles se curvam reverentemente.

Ao concluir a bênção, o recipiente bebe um pouco da água e aplica o restante na testa, todo o cerimonial sugerindo estranhamente a uma mente ocidental uma combinação de dois conhecidos ritos cristãos.

O restante da água é então derramado em vasos menores e distribuído pelos assistentes entre a multidão, cada pessoa a recebendo da mesma maneira.

O fio magnetizado é cortado em pedaços e distribuído entre as pessoas, que o usam ao redor do braço ou pescoço como um talismã.

Não é incomum prender fios especiais ao círculo e deixá-los pendurados para fora da plataforma, de modo que aqueles que sofrem de febre, reumatismo ou outras enfermidades possam segurar as pontas em suas mãos durante o canto do Maha Pirit, e o paciente frequentemente parece obter vantagem dessa conexão com a bateria mesmérica.

Essa parte da cerimônia, de qualquer modo, a Igreja do Sul do Budismo possui; mas creio que todos devemos concordar que é uma prática inofensiva e interessante.

(Página 111)

As Duas Igrejas

A grande Igreja do Norte do Budismo tem muito mais cerimônias públicas; mas, como não tenho experiência pessoal delas, não repetirei para vocês aquilo que vocês mesmos podem ler em qualquer livro sobre o assunto.

Vocês devem se lembrar de que, ao falar do Cristianismo, expliquei que toda religião, com o passar do tempo, inevitavelmente se afasta um pouco do ensinamento primitivo dado por seu fundador.

Isso tem ocorrido menos com o Budismo do que com qualquer outra das grandes religiões mundiais; no entanto, é um fato indubitável que os dogmas variaram com o decorrer do tempo.

Curiosamente, as duas igrejas variaram em direções exatamente opostas; a Igreja do Norte, sem dúvida, acrescentou, enquanto a Igreja do Sul, em seu zelo por reter a pureza da doutrina e evitar acréscimos, perdeu algo de sua plenitude original.

A Igreja do Norte se espalhou principalmente entre as tribos mais selvagens da Ásia Central e foi consideravelmente influenciada por relíquias de seu culto original à natureza.

Se alguém lê qualquer um dos relatos mais precisos sobre o Budismo do Tibete, notará imediatamente que grande parte desse culto à natureza existe em conexão com ele. Divindades desconhecidas aparecem, muitas delas de natureza perigosa e que exigem propiciação; enquanto muitas das ordens e hierarquias de Devas e outros seres assumiram um aspecto mais sombrio e são consideradas pelo menos potencialmente malignas.

Por outro lado, pelo menos parte da mais elevada metafísica está claramente preservada, correspondendo o Amitabha e o Avalokiteshvara de seu sistema de perto a Parabrahm (o não-manifestado) e a Ishvara (o Logos manifestado) entre os hindus.

A Igreja do Sul, por outro lado, quase inteiramente recusou acréscimos de qualquer tipo.

Em Burma, (Página 112) embora se possam ver centenas de imagens em alguns dos grandes templos, todas elas são imagens do próprio Buda em muitas posições diferentes.

No Ceilão, é verdade, imagens de divindades hindus, de Vishnu e Subrfamani Iyer, são frequentemente vistas, presumivelmente como uma concessão à fé hindu dos posteriores governantes tâmeis do Ceilão, mas mesmo assim são invariavelmente representadas como inferiores ao Buda, e como agindo sob suas ordens.

A Igreja do Sul tem um tanto esquecido a metafísica superior, e dá pouco estudo atualmente ao Abhidhamma Pitaka, no qual todo o ensino filosófico superior está contido.

Dedica-se, no entanto, com grande assiduidade àqueles outros livros que expõem as regras da vida diária, e também àqueles que prescrevem a vida dos monges.

Tendências Materialistas

Sua tendência tem sido, no geral, distintamente materialista; e apegou-se tão decididamente àqueles textos nos quais o Buda combate a ideia da permanência de nossa personalidade presente, que praticamente chegou a negar a sobrevivência definitiva da alma por completo.

Quase qualquer monge da Igreja do Sul, se perguntado sobre a imortalidade da alma, negaria sem hesitação que o Budismo sustentasse tal doutrina, e cuidadosamente procederia a explicar que tudo o que geralmente queremos dizer com a alma do homem — seus pensamentos, sua disposição, seus sentimentos, tudo o que o torna um indivíduo distinto dos outros — todas essas coisas, ele nos diria, são impermanentes e não sobrevivem até o fim do ciclo de encarnações.

Se então fosse pressionado sobre o que é que passa de vida a vida, ele responderia confiantemente que é o carma do homem — isto é, o resultado de seus pensamentos e de suas ações; mas que as pessoas que na

(Página 113) próxima vida desfrutam ou sofrem os resultados desta vida são, na realidade, diferentes do homem que vive agora.

Naturalmente, isso é verdade se entendermos o significado técnico da palavra "pessoa"; mas o monge comum não faz tal distinção, e está tão intensamente ocupado em resistir a qualquer coisa como o fantasma de uma ideia da imortalidade pessoal de João da Silva ou José dos Santos, que passa ao extremo oposto e praticamente nega a imortalidade por completo.

Em cada expressão de sua vida diária, no entanto, ele trai que esta não é, na realidade, sua verdadeira intenção, pois constantemente fala de qualquer sofrimento que lhe sobrevém como consequência de algo que fez em um nascimento anterior, e todo sermão budista é encerrado com a bênção ou piedosa exortação dirigida à congregação: "Que todos vós alcanceis o Nirvana." Como é invariavelmente e inevitavelmente reconhecido que o Nirvana será alcançado somente após muitas vidas terem permitido ao aspirante atingir sua perfeição, isso é, naturalmente, conclusivo quanto à sobrevivência de um ego individual.

O Ego Permanente

A ideia de que o Buda pregou a não existência do eu repousa principalmente em alguns dos livros posteriores e não canônicos, tais como As Perguntas do Rei Milinda.

Baseia-se sobretudo em certas respostas que ele dá sobre a questão do eu e do não-eu, que estão exatamente no estilo dos Upanishads.

Ele nos diz que nem a forma, nem as sensações, nem as percepções, nem as impressões, nem a mente são o eu.

Ele de modo algum diz que o eu não existe, mas que o corpo e todas essas outras posses que geralmente são confundidas com o eu não são aquilo em realidade, (Página 114)

O eu é algo além de todas elas, e ele afirma que quando este se reconhece como diferente de tudo o mais e se despoja de todo apego, pela ausência de apego ele se torna livre.

Isso novamente parece conclusivo quanto à existência de um eu permanente; pois se o eu não existe, quem é que deve ser libertado? Nossas mentes ocidentais, não treinadas nas ideias dos hindus a quem o Buda dirigia seus sermões, não veem nada além de aniquilação diante de si quando ouvem que até mesmo a razão é declarada como não sendo o eu.

Poucos podem compreender a ideia de que a mente e a razão, e mesmo muito do que está por trás delas, por mais sublimes que sejam, são essencialmente meros veículos, eles próprios compostos de matéria.

O verdadeiro eu transcende a todos eles; e podemos encontrar abundante evidência no ensinamento direto do Buda que contradiz a teoria de que ele negou esse ego regente.

Permitam-me citar aqui apenas um exemplo do Samannaphala Sutta do Digha-Nikaya.

Depois de mencionar primeiramente a condição e o treinamento da mente que são necessários para o sucesso no progresso espiritual, o Buda descreve como um homem pode recuperar a memória de suas vidas passadas, e como ele vê todas as cenas em que esteve de alguma forma envolvido passando em sucessão diante do olho de sua mente.

Ele ilustra isso dizendo: “Se um homem sai de sua própria aldeia para outra, e daí para outra, ele pode pensar assim: Eu de fato fui da minha própria aldeia para aquela outra.

Lá eu fiquei assim, sentei-me desta maneira; assim falei, e assim permaneci em silêncio.

Daquela aldeia novamente fui para outra, e fiz o mesmo lá.

O mesmo ‘eu’ retornou daquela aldeia para a minha própria aldeia.

Exatamente da mesma maneira, ó Rei, o asceta, quando sua mente está pura, conhece seus nascimentos anteriores.

Ele pensa: ‘Em tal lugar eu tive um nome, nasci em tal família, tal era minha casta, (Página 115) tal era minha comida, e de tal e tal maneira experimentei prazer e dor, e minha vida se estendeu através de algum outro lugar, e lá também tive tais e tais condições.

Removido dali, o mesmo ‘eu’ agora nasce aqui.’ ”

Esta citação mostra muito claramente a doutrina do Buda com respeito ao ego reencarnante.

Ele dá ilustrações também no mesmo Sutta da maneira pela qual um asceta pode conhecer os nascimentos passados de outros — como ele pode vê-los morrer em um lugar, e após as tristezas e alegrias do inferno e do céu, os mesmos homens nascem novamente em algum outro lugar.

É verdade que no Brahmajala Sutta ele menciona todos os vários aspectos da alma, e diz que eles não existem absolutamente, porque sua existência depende do “contato” — isto é, da relação.

Mas ao negar assim a realidade absoluta da alma, ele concorda com os outros grandes mestres indianos; pois a existência não apenas da alma, mas até do próprio Logos é verdadeira apenas relativamente.

Mentes não treinadas frequentemente entendem mal essas ideias, mas o estudante cuidadoso do pensamento oriental não deixará de compreender exatamente o que se quer dizer, e de perceber que o ensinamento do Buda a esse respeito é exatamente o que é dado agora pela Teosofia.

A Teosofia e as Religiões

Naturalmente, é apenas o esboço mais superficial deste magnífico sistema que pude apresentar a vocês esta noite; ainda assim, espero que o que disse possa dar a vocês uma leve ideia de outra das grandes religiões do mundo, e mostrar que, por mais que sua forma externa possa diferir, por mais diferentes que sejam os ambientes em que floresce, ela também é apenas outra declaração da gloriosa verdade que está por trás de todas as religiões igualmente.

Frequentemente (Página 116), ao tentarmos explicar a Teosofia, encontramos a objeção de que ela é idêntica ao hinduísmo ou ao budismo, e que é simplesmente uma tentativa de propagar uma ou outra dessas religiões aqui no Ocidente.

Só podemos enfrentar isso com a explicação cuidadosa e paciente de que, na Teosofia, não buscamos propagar nenhuma religião, mas sim expor a sabedoria antiga que está subjacente a todas elas.

Para muitas mentes ocidentais, seus ensinamentos parecem ter um sabor das religiões orientais, porque, de fato, essas religiões retiveram em sua doutrina popular mais das grandes verdades da natureza do que a fé ortodoxa como é comumente ensinada na Europa; e, consequentemente, algumas das primeiras ideias que um teosofista adquire do estudo de nossa literatura provavelmente o lembram do que ouviu sobre esses grandes sistemas orientais.

Em certo sentido, tal objeção tem verdade, pois a Teosofia é idêntica ao budismo esotérico e ao hinduísmo, mas também o é ao cristianismo esotérico – este último sendo bem demonstrado no admirável livro da Sra. Besant com esse título.

Não é apenas aqui que tal objeção tem sido levantada contra o ensino teosófico.

Na Índia, houve homens que entenderam mal a Teosofia de maneira semelhante – que, porque os fundadores da Sociedade e alguns de seus membros e oficiais proeminentes são budistas por religião, insinuaram que todo o trabalho da Sociedade nada mais é do que a propagação do budismo; e essa observação causou hesitação por parte de alguns indianos que estavam prestes a se juntar às suas fileiras.

No Ceilão e em outros países budistas, o mal-entendido tomou a direção oposta, e alguns budistas cujo zelo excedeu sua discrição e seu conhecimento acusaram nossos líderes teosóficos de favorecer indevidamente a fé de nossos irmãos hindus.

O próprio fato de existirem relatos tão contraditórios (página 117) deveria mostrar onde está a verdade àqueles que têm olhos para ver — cujas mentes são suficientemente amplas, cujas cabeças são suficientemente firmes para se manterem na verdadeira plataforma teosófica.

**O Ponto de Vista Teosófico**

O lema da nossa Sociedade é "Não há religião superior à verdade", e, como corpo coletivo, ela não sustenta crença ou dogma particular.

Ninguém, ao ingressar nela, é obrigado a mudar sua fé, nem sequer é perguntado qual é a sua fé. Temos membros entre hindus, budistas, parsis, muçulmanos, judeus e cristãos, e cada um tem total liberdade para buscar a verdade suprema pelas linhas de pensamento às quais está mais acostumado; de fato, adeptos de cada um desses sistemas falaram repetidas vezes com gratidão sobre a torrente de luz que a Teosofia lançou sobre o verdadeiro significado dos pontos mais obscuros dos ensinamentos que lhes foram transmitidos por seus ancestrais.

A única condição imposta quando alguém se junta às nossas fileiras é que ele demonstre a seus irmãos a mesma tolerância esclarecida e a mesma cortesia bondosa que ele próprio desejaria receber deles.

Este é o verdadeiro ponto de vista teosófico; mas é um ponto elevado, e seu ar é rarefeito demais para a respiração do sectário ou do fanático.

Ele se vê incapaz de existir nessa altitude incomum, e deve ou afundar novamente em seu próprio pântano sombrio de autocomplacência, ou libertar-se para sempre de sua casca de orgulho espiritual e evoluir para uma criatura mais elevada e nobre.

Não é de admirar, então, que aqueles que não conseguem ver outra luz senão a que brilha através de suas próprias pequenas lâmpadas sejam incapazes de compreender uma ideia religiosa tão grandiosa e, consequentemente, (página 118) interpretem mal esses líderes de pensamento cujas mentes são moldadas em um padrão mais nobre que o deles.

A verdade é una, mas seus aspectos são muitos; e nos níveis mais baixos, sua busca muitas vezes parece conduzir os homens em direções diferentes, assim como para dois viajantes que se aproximam de uma montanha por lados distintos, o caminho ascendente leva, num caso, para o norte e, no outro, para o sul, de modo que cada um poderia muito bem supor que o outro está inteiramente errado.

Contudo, sempre que alcançam os níveis mais elevados e o ar mais puro, os buscadores, ainda que inconscientemente, aproximam-se cada vez mais uns dos outros, até que chega o momento supremo em que se encontram lado a lado no pico mais alto e, pela primeira vez, compreendem plenamente a diferença entre o real e o irreal.

Talvez, de todas as grandes religiões, seja o Budismo o que mais se aproxima daquilo que delineei como a verdadeira atitude teosófica.

Como observa Sir Edwin Arnold: "Esta venerável religião tem em si a eternidade de uma esperança universal, a imortalidade de um amor sem limites, um elemento indestrutível de fé no bem final e a mais orgulhosa afirmação já feita da liberdade humana." Quão elevado é seu objetivo, quão nobres e altruístas seus ensinamentos, não posso esperar contar-lhes em um discurso tão breve quanto este.

Mas esta grande e antiga fé bem recompensará seu estudo mais aprofundado, pois em suas escrituras encontrarão muito da mais pura Teosofia.

Deixe-me encerrar este breve esboço lendo para vocês uma bela tradução poética de Sir Edwin Arnold do primeiro capítulo de um dos principais livros das escrituras budistas, o Dhammapada.

Esta tradução foi escrita em 1889 por Sir Edwin para um pequeno periódico chamado The Buddhist, que eu então editava em Colombo.

(Página 119)

O DHAMMAPADA

O pensamento na mente nos fez. O que somos
Foi pelo pensamento forjado e construído.

Se a mente de um homem
Tem pensamentos malignos, a dor vem sobre ele como vem
A roda atrás do boi.

Tudo o que somos é o que pensamos e quisemos;
Nossos pensamentos nos moldam e nos formam.

Se alguém persevera
Na pureza de pensamento, a alegria o segue
Como sua própria sombra — certa.

"Ele me difamou, prejudicou-me, feriu-me,
Humilhou-me, bateu-me!" Se alguém guardar
Pensamentos como estas palavras iradas em seu peito
O ódio nunca dormirá.

"Ele me difamou, prejudicou-me, feriu-me,
Humilhou-me, bateu-me!" Se alguém enviar
Tais palavras iradas para dar lugar a pensamentos de perdão
Os ódios terão um fim.

Pois nunca em lugar algum ou em qualquer tempo
Cessou o ódio pelo ódio.

Sempre é
Pelo amor que o ódio cessa — somente amor;
Esta é a lei antiga.

A maioria, que é tola, esqueceu —
Ou nunca soube — como as ofensas mortais passam;
Mas aqueles que sabem e que se lembram, deixam
As disputas transitórias morrerem.

Quem permanece, buscando alegria, sem disciplina,
Glutão, fraco, em luxúrias ociosas,
Mara o derrubará, como ventos ferozes
Nivelam árvores de raízes curtas.

Aquele que permanece, buscando alegria, controlado,  
Temperante, fiel, forte, evitando todo mal,  
Mara não mais derrubará esse homem  
Do que o vento derruba uma colina.

Aquele que veste Kashya — a túnica amarela —  
Sendo anishkashya — não livre do pecado,  
Nem atento à verdade e ao governo — impróprio  
Para vestir essa veste é ele.

Mas aquele que, sendo nishkashya, puro,  
Limpo de ofensa, ainda habita nas virtudes,  
Respeitando a temperança e a verdade — esse homem  
Veste Kashya bem.

Aquele que imagina verdade no que é falso,  
E no verdadeiro encontra falsidade — ele expira  
Sem jamais alcançar o conhecimento: a vida é desperdício;  
Ele segue desejos vãos.

Aquele que discerne no verdadeiro o verdadeiro, e vê  
O falso na falsidade com olho não cego,  
Ele alcançará o conhecimento; a vida com tal  
Objetivo morre bem antes de findar.

Como a chuva atravessa um telhado mal coberto, assim atravessam  
As paixões as mentes que desprezam o santo pensamento;  
Como a chuva escorre de uma palha perfeita, assim escapam  
As paixões do sábio.

O malfeitor pranteia neste mundo,  
E pranteia no mundo vindouro; em ambos  
Ele se aflige.  

Quando vê o fruto de seus atos,  
Vê-lo ele relutará.

O homem justo alegra-se neste mundo  
E no mundo vindouro; em ambos ele sente  
Prazer.  

Quando ele vir o fruto de suas obras,  
A boa visão alegria traz.

Alegre está ele vivendo, alegre ao morrer, alegre  
Tendo já morrido; sempre alegre, alegre em saber  
Que boas ações fez, alegre em prever  
Mais bem onde irá.

Há aqui um jogo de palavras entre Kashya, a túnica amarela do sacerdote budista, e kashya, impureza.

O homem sem lei, que, não obedecendo à Lei,  
Folha após folha recita, e linha por linha,  
Não é budista, mas um tolo pastor  
Que conta o gado de outro.

O que obedece à lei, amoroso, que conhece  
Apenas um verso do Dharma, mas cessou  
De inveja, ódio, malícia, tolice —  
Ele é o Sacerdote Budista.

- Sir Edwin Arnold

(Extraído de The Buddhist, Vol.  
I, No. 30, 12 de julho de 1889)

MODERNO

CAPÍTULO V.

O MUNDO INVISÍVEL

(Página 123) O ensinamento teosófico sobre o assunto do mundo invisível é muito mais preciso e definido do que aquele que geralmente recebemos da doutrina religiosa corrente na Inglaterra e na América.

Sustentamos que existe um mundo invisível, que está ao nosso redor aqui e agora, e não distante de nós, e que permanece invisível apenas porque a maioria de nós ainda não desenvolveu os sentidos pelos quais ele pode ser percebido; que para aqueles que desenvolveram esses sentidos, o mundo não é invisível nem desconhecido, mas está inteiramente ao alcance, podendo ser explorado e investigado conforme se deseje, exatamente como qualquer país aqui na Terra poderia ser. Grandes partes da superfície do mundo permaneceram desconhecidas por centenas, até milhares de anos, até que exploradores fossem encontrados que se deram ao trabalho e possuíam as qualificações necessárias para investigá-las.

Ainda hoje restam partes da superfície do nosso mundo das quais pouco se sabe.

O Polo Norte ainda está além do alcance do homem, embora não demore muito até que também ele seja conquistado.

Esses mundos invisíveis não permaneceram desconhecidos para todos, assim como muitos dos lugares remotos da Terra não permaneceram realmente desconhecidos desde o início dos tempos até agora.

Há vastas extensões de florestas primitivas ainda de pé, por exemplo, na América do Sul, intocadas por qualquer exploração recente, não pisadas pelo pé do homem (página 124) por talvez milhares de anos; mas muito antes disso, houve grandes raças para as quais todo aquele país não era desconhecido ou intocado, mas, ao contrário, perfeitamente familiar, para as quais era uma terra natal.

Da mesma forma, este "mundo invisível" é desconhecido apenas para nós, aqui e agora; não era desconhecido para as grandes raças do passado, nem invisível para aqueles entre elas que eram mais altamente desenvolvidos, os videntes, os profetas e os mestres.

Há uma grande quantidade de informações sobre este mundo invisível nos escritos sagrados das diversas religiões, e em muitos casos exatamente o que foi ensinado pela Teosofia é encontrado nas antigas fés.

É somente aqui e agora, e especialmente entre os seguidores da religião que predomina nos países ocidentais, que alguma incerteza parece ter surgido com relação a este mundo invisível.

A consequência de todo o pensamento e discurso vago sobre ele é que o próprio mundo é suposto ser vago, obscuro e incerto também.

As pessoas sentem que, porque individualmente nada sabem com certeza a respeito dele, portanto não há nada que possa ser conhecido com certeza, e todo o assunto é nebuloso, distante e irreal.

Permitam-me esforçar-me por apresentar-vos o ensinamento teosófico sobre este assunto, e por mostrar-vos que temos toda a razão para aceitar esse ensinamento e compreender que este mundo superior, embora atualmente invisível para muitos, não é de modo algum irreal, mas é em todos os sentidos tão real quanto este que todos podemos tocar, ver e ouvir.

A primeira ideia a ser apreendida é que este mundo invisível é meramente uma continuação do que é conhecido, e que os sentidos (latentes em todos nós, embora desenvolvidos apenas em poucos) pelos quais ele pode ser percebido são, em primeiro lugar, uma extensão dos sentidos que todos possuímos.

Isso talvez nos ajude a compreender a realidade deste mundo invisível, (Página 125) e a ver que não há dificuldade em aceitá-lo. Infelizmente, tudo o que a maioria das pessoas sabe sobre ele — ou pensa saber — lhes foi dado pelas religiões, e as religiões conseguiram ser tão anticientíficas na sua apresentação que lançaram dúvida e descrédito sobre todo o assunto na mente dos homens pensantes; de modo que aqueles entre os ortodoxos que mais profundamente creem no mundo invisível agora, que se sentem mais certos de que sabem exatamente o que esse mundo contém, e qual será o destino do homem após a morte, são geralmente precisamente as pessoas mais ignorantes de todas.

Ora, isso não deveria ser assim. Não deveria caber aos ignorantes, aos fanáticos, sentirem-se certos sobre tais questões.

Pelo contrário, os homens mais altamente inteligentes e mais cientificamente treinados deveriam ser os mais capazes de apreender a evidência da existência deste mundo invisível, e deveriam estar na vanguarda em sustentá-lo como uma verdade.

Permitam-me primeiro dizer algo sobre os sentidos pelos quais este mundo invisível é percebido, e sobre a constituição do próprio mundo, porque esses dois assuntos estão intimamente ligados, e não podemos examinar um sem também olhar para o outro.

Estados da Matéria

É óbvio que podemos ter matéria em diferentes condições, e que ela pode mudar de condição por variações de pressão e de temperatura.

Conhecemos aqui três estados bem conhecidos da matéria: o sólido, o líquido e o gasoso, e é teoria dos cientistas que todas as substâncias podem, sob variações adequadas de temperatura e pressão, existir em todas essas condições.

Ainda existem, creio eu, algumas substâncias que os químicos (Página 126) não conseguiram reduzir de um estado a outro; mas a teoria universalmente aceita é que, afinal, é apenas uma questão de temperatura, num sentido ou noutro; que, assim como o que é ordinariamente água pode tornar-se gelo a uma temperatura mais baixa e pode tornar-se vapor a uma mais alta, assim também todo sólido que conhecemos poderia tornar-se líquido ou gasoso, dadas as condições adequadas; todo líquido poderia ser tornado sólido ou gasoso; todo gás poderia ser liquefeito e até solidificado.

Sabemos que o próprio ar já foi liquefeito, e que alguns dos outros gases foram reduzidos até a forma de uma placa sólida.

Sendo assim, supõe-se que todas as substâncias podem, dessa maneira, ser mudadas de uma condição para outra, seja por pressão ou por calor.

A química oculta nos mostra outra condição, mais elevada do que a gasosa — uma condição que chamamos de etérica — para a qual todas as substâncias que conhecemos podem ser transladadas ou transmutadas; de modo que qualquer elemento (como o hidrogênio, por exemplo) pode existir em condição etérica, bem como gasosa; podemos ter ouro, prata ou qualquer outro elemento como sólido, líquido ou gás, sob calor suficiente, e podemos levar o experimento adiante e reduzi-los a esses outros estados mais elevados, a essa condição da matéria que chamamos de etérica.

Somos capazes de fazê-lo porque aquilo que a ciência postula como éter é descoberto pela química oculta como não sendo um corpo homogêneo, mas simplesmente outro estado da matéria — não sendo em si uma nova espécie de substância, mas qualquer tipo de matéria reduzido a um estado particular.

Assim como temos aqui ao nosso redor elementos que são normalmente sólidos, mas podem ser mudados para a condição líquida ou gasosa, tais como ferro ou chumbo; outros que são normalmente líquidos, como o mercúrio; e ainda outros que são normalmente gasosos, como o nitrogênio; assim também temos um grande número de elementos ou substâncias que são normalmente etéricos — que estão ordinariamente nessa condição, mas, por tratamento especial, podem ser levados a uma condição gasosa.

(Página 127)

Não há nada de impossível ou irracional nisso; até um cético pode ver que poderia facilmente ser assim, e que não há nada na ciência que o contradiga. De fato, o éter é uma hipótese necessária; é apenas a ideia de que ele é um estado da matéria, em vez de uma substância, que é de qualquer modo nova no que estou sugerindo.

Na ciência comum, fala-se constantemente de um átomo de oxigênio, um átomo de hidrogênio, um átomo de qualquer uma das setenta ou oitenta substâncias que os químicos chamam de elementos, sendo a teoria de que um elemento é aquilo que não pode ser mais reduzido; que cada um desses elementos tem seu átomo — e um átomo, como podemos ver pela sua derivação grega, significa aquilo que não pode ser cortado ou subdividido.

A ciência oculta nos diz o que muitos cientistas frequentemente suspeitaram: que todos esses chamados elementos não são, no verdadeiro sentido da palavra, elementos de forma alguma; isto é, que eles podem ser subdivididos; que o que comumente se chama de átomo de oxigênio ou hidrogênio não é algo último e, portanto, de fato não é um átomo, mas uma molécula que pode, sob certas circunstâncias, ser decomposta em átomos.

**Os Átomos Últimos**

Ao continuar esse processo de decomposição, descobre-se que chegamos, eventualmente, a um número infinito de átomos físicos definidos que são todos semelhantes; há uma substância por trás de toda substância, e são apenas as diferentes combinações dos átomos últimos que nos dão o que, na química, se chama de átomos de oxigênio, hidrogênio, ouro, prata, platina, etc.

Quando são assim decompostos, voltamos a uma série de átomos que são todos idênticos, exceto que alguns são positivos e alguns são negativos, ou, como poderíamos dizer, alguns masculinos e alguns femininos.

(Página 128)

Se pudermos perceber que é assim — e lembremos, isso não é ensinado apenas pela ciência oculta, mas é fortemente suspeitado por muitos homens de ciência — ainda não há um obstáculo direto diante de nós. Se for assim, vemos imediatamente todos os tipos de novas possibilidades na química.

Se for verdade que todas as substâncias têm a mesma base e que é apenas uma questão de elevá-las a uma temperatura suficiente ou colocá-las em um estado particular para provar isso, então vemos que uma mudança é uma possibilidade; que poderíamos decompor um elemento e, ao reunir, poderíamos unir as partículas de maneira diferente, de modo que, na verdade, poderíamos transformar um de nossos elementos em outro, deixando de fora, talvez, em algumas combinações, certas coisas, e incluindo algumas que não estavam lá antes.

Sem dúvida, poderíamos fazer tais mudanças como essa, e assim vemos que estamos a uma distância razoável de mostrar a possibilidade da teoria da transmutação dos alquimistas, que afirmavam ter transformado chumbo, cobre ou outros metais em ouro ou prata.

A coisa não é necessariamente uma impossibilidade se esta teoria for verdadeira, pois reduzindo o chumbo ou o cobre a átomos últimos, e então podem ser transformados em metais completamente diferentes.

A ideia torna-se viável se adotarmos esta sugestão, que foi avançada como teoria por cientistas, mas é declarada pela química oculta como um fato definitivo. [Desde que esta palestra foi proferida, suas sugestões foram amplamente confirmadas por descobertas científicas posteriores.

Pelo menos no que diz respeito à produção do rádio, a transmutação é agora reconhecida, e obviamente se pode ocorrer no caso de um elemento, pode ocorrer também com outros, e tudo o que resta é encontrar o processo exato, uma vez que o princípio está estabelecido.

Que todas as substâncias são apenas modificações de uma única substância é agora geralmente admitido, e o que por enquanto se supõe ser o átomo último é justamente agora chamado de elétron.

Parece provável que o elétron não seja o que nós, na Teosofia, chamamos de átomo físico, mas mais provavelmente o átomo astral; embora seja difícil falar com certeza até que a ciência tenha definido sua descoberta um pouco mais precisamente.] (Página 129)

Chegamos então, eventualmente, de volta ao átomo físico último, e descobrimos que ele é um átomo no que diz respeito ao plano físico.

Não podemos decompô-lo ainda mais e ainda reter a matéria em condição física; no entanto, ele pode ser decomposto, só que quando isso é feito a matéria pertence a um reino completamente diferente, a parte deste mundo invisível do qual vou falar.

Não pode mais ser chamado de físico porque deixou de obedecer a algumas das leis que toda matéria física obedece.

Não é mais aparentemente contraível por qualquer frio ou expansível por qualquer calor de que tenhamos conhecimento, embora haja alguma evidência mostrando que pode ser afetado por temperaturas solares.

Não parece mais obedecer às leis ordinárias da gravidade, embora tenha o que suponho que possamos chamar de uma espécie de lei da gravidade própria.

É muito difícil colocar claramente em palavras, no plano físico, a concepção da matéria mais sutil deste reino superior; na verdade, eu poderia dizer que é impossível colocá-la plenamente; mas pelo menos isto deve ser enfatizado: que os planos acima deste físico decorrem naturalmente dele e se ajustam a ele, e não são abruptamente divididos e inteiramente diferentes.

De fato, basta supormos uma subdivisão mais fina da matéria do que aquela com a qual estamos familiarizados, e uma taxa de vibração muito mais alta do que qualquer uma que conhecemos, e perceberemos um aspecto das condições do plano astral, embora haja muitos outros aspectos que não são tão facilmente compreensíveis.

(Página 130)

Planos de Matéria Mais Sutil

Descobrimos que, acima e além deste átomo físico, temos outra série de estados desse tipo mais fino de matéria, que corresponde razoavelmente aos graus de matéria aqui embaixo: sólido, líquido, gasoso e etérico.

Novamente, ao levar a divisão suficientemente longe, temos outro átomo, o átomo desse mundo astral; e então o processo pode ser repetido.

Por subdivisão adicional desse átomo astral, encontramo-nos em outro mundo ainda mais elevado e mais refinado, ainda composto de matéria, mas de matéria tão mais sutil que nada do que predicamos sobre a matéria aqui embaixo seria verdadeiro para ela, exceto sua capacidade de ser subdividida em moléculas e átomos.

Vemos que a ideia engrena com este plano, que não somos obrigados a saltar subitamente do físico que conhecemos — ou pensamos conhecer — para alguma região espiritual da qual não possamos formar uma concepção razoável ou distinta.

É verdade que esses outros reinos são invisíveis, mas não são, portanto, de todo incompreensíveis quando abordamos o assunto dessa maneira.

Todos os estudantes sabem que grande parte deste mundo físico não é apreciável pelos nossos sentidos; que toda a parte etérica do mundo é para nós como se não existisse, exceto pelo fato de que ela carrega vibrações para nós. Nunca vemos o éter que carrega a vibração da luz aos nossos olhos, embora possamos demonstrar sua necessidade como hipótese para explicar o que encontramos.

Da mesma forma, vibrações são recebidas da outra matéria, mais elevada.

Embora o éter não possa ser visto, seus efeitos são constantemente conhecidos e sentidos por nós; e, da mesma maneira, embora a matéria astral e a matéria mental não sejam visíveis à visão comum, as vibrações dessa matéria afetam o homem, e ele está consciente delas de várias maneiras; de fato, algumas delas ele usa habitualmente, como veremos quando considerarmos o assunto da telepatia em uma palestra posterior.

(Página 131)

É importante que aqueles que se aproximam da investigação do ensinamento teosófico compreendam essa ideia dos vários planos ou graus de matéria na Natureza, constituindo cada um, em certo sentido, um mundo em si mesmo, embora, num sentido mais elevado, todos sejam partes de um grande todo.

Se as pessoas puderem ser induzidas a examinar isso, verão que de modo algum reivindicamos sua fé num milagre, mas sim sua investigação de um sistema, que lhes oferecemos simplesmente como uma hipótese para seu estudo, embora para nós não seja uma hipótese, mas um fato comprovado.

Onde estão esses mundos? Eles estão aqui ao nosso redor o tempo todo, embora invisíveis.

Precisamos apenas abrir os sentidos que lhes correspondem para tomarmos consciência deles, porque cada um deles está repleto de vida, exatamente como este mundo físico que conhecemos.

Assim como a terra, o ar e a água sempre se encontram repletos de diversas formas de vida, assim também o mundo astral, assim também o mundo mental — cada um cheio de sua própria espécie de vida; e entre os habitantes desses dois estágios do mundo desconhecido estão as vastas hostes daqueles a quem chamamos de mortos.

Os Sentidos Superiores

Como o homem se torna ciente disso? Como eu disse, pelo desenvolvimento dos sentidos que lhes correspondem.

Isso implica — e é verdade — que o homem possui dentro de si matéria de todos esses graus mais sutis; que o homem não tem apenas um corpo físico, mas que também possui dentro de si esse tipo etérico superior de matéria física, e matéria astral, e matéria mental, cuja vibração é seu pensamento.

Isso não é algo irracional, e se um homem está disposto a aceitar isso como uma hipótese, verá também que uma vibração da matéria de um desses planos mais sutis pode comunicar-se (página 132) à matéria correspondente no homem e pode alcançar o ego dentro dele através desse veículo, assim como as vibrações da matéria física são transmitidas aos sentidos do homem através de seu organismo físico neste plano.

Tudo isso é precisamente análogo.

Talvez a maneira mais fácil de obter alguma ideia desses sentidos superiores seja começar considerando os sentidos que temos agora.

Toda sensação que nos chega de fora é uma questão de vibração.

O calor, por exemplo, e a luz, o que são senão taxas de vibração? Parece haver infinitos números de taxas de vibração possíveis; não há limite que possamos estabelecer, nem acima nem abaixo, para as possibilidades de variação entre essas diferentes taxas.

Agora, de toda essa série infinita, apenas um pequeno número pode nos alcançar aqui no plano físico.

É apenas um pequeno conjunto de vibrações de rapidez extrema que aparece aos nossos olhos e é reconhecido por nós como luz.

Qualquer coisa que vemos, vemos apenas porque emite ou reflete algumas dessas vibrações desse pequeno conjunto.

A Gama de Vibrações

Sabemos de muitas maneiras que existem outras vibrações além daquelas que vemos.

Por exemplo, sabemos disso pela fotografia.

Se tomarmos um prisma de bissulfeto de carbono e deixarmos um raio de luz solar passar através dele, obteremos um belo espectro colorido projetado sobre uma folha de papel, de linho ou qualquer coisa branca que possamos usar.

É um belo espectro, mas apenas um pequeno.

Se, em vez de colocarmos ali a folha de papel branco que reflete para nós o que vemos, colocarmos uma chapa fotográfica altamente sensível (tomando cuidado, é claro, de excluir toda outra luz exceto aquela que passa pelo prisma), teremos um espectro reproduzido que contém muito mais do que (Página 133) vimos anteriormente.

Ele é consideravelmente estendido na extremidade violeta, porque a chapa é capaz de ser impressionada por raios ultravioleta que não afetam o olho.

Nossos olhos são absolutamente cegos a essa extensão do espectro, mas, no entanto, ela está lá, e é utilizada em vários ramos da pesquisa científica.

Um exemplo interessante disso é visto nas fotografias do sol tiradas pelo Professor Hale e outros.

Um dos elementos mais abundantes no sol é o cálcio, mas os raios do cálcio no sol são invisíveis para nós, embora apareçam na parte ultravioleta do espectro e, portanto, produzam uma impressão na chapa fotográfica.

Sir Robert Ball escreve:-

"As vistas do sol por essa luz invisível são totalmente diferentes das imagens do sol por fotografias comuns.

Nas fotografias comuns, as nuvens brilhantes que formam a fotosfera são representadas; estas consistem em massas de vapores de carbono, ou melhor, massas de partículas de carbono sólido aquecidas a uma incandescência deslumbrante.

Flutuando acima dessa região estão os poderosos vapores de cálcio.

Sua luz atenuada não pode ser fotografada no clarão da fotosfera, mas quando todo esse clarão é filtrado, obtemos imagens do que é de fato um novo sol, ou melhor, dos maravilhosos desenvolvimentos de volumes ondulantes de vapores de cálcio, de cuja existência, sem esse dispositivo, teríamos permanecido ignorantes."

Em alguns casos, o Professor Hale nos forneceu notáveis imagens duplicadas da mesma parte do Sol, mas tiradas com duas luzes diferentes.

Essas imagens mostram grandes diferenças de detalhe, decorrentes do fato de que as partes do Sol que emitem um tipo de luz frequentemente não são as mesmas que emitem outro tipo.

Tais imagens revelam a estrutura do Sol como nunca antes foi revelada. (Página 134) A descrição de um experimento científico como este é de grande interesse para o estudante ocultista, porque ilustra exatamente o que ele tão bem sabe — que o mesmo objeto visto simultaneamente por dois observadores pode não apresentar a mesma aparência para ambos.

As duas fotografias do Sol, uma tirada pela luz ultravioleta do cálcio e a outra da maneira comum, produzem resultados muito diferentes, mas cada uma é perfeitamente precisa, e tudo o que é mostrado em cada uma realmente está lá.

Da mesma forma, se dois homens olham simultaneamente para um amigo, um usando visão clarividente e o outro visão física comum, verão seu amigo de maneiras muito diferentes, e, no entanto, cada um estará certo até onde sua visão alcança.

A faculdade clarividente, como a luz ultravioleta, revelará muito que nunca poderia ser visto sem ela, e exatamente pela mesma razão — porque traz ao nosso alcance vibrações que, de outra forma, permanecem fora do nosso alcance.

Se descermos à outra extremidade dessa grande gama, às vibrações lentas, encontraremos um certo número tão lento que afeta a matéria pesada da atmosfera, atinge o tímpano do nosso ouvido e nos alcança como som.

Pode haver, e deve haver, uma infinidade de sons que são altos ou baixos demais para o ouvido humano responder a eles; e a todos esses sons, dos quais deve haver milhões e milhões, o ouvido humano é absolutamente surdo.

Se há vibrações tão lentas que nos aparecem como som, e outras extremamente rápidas que nos aparecem como luz, o que são todas as outras? Certamente há vibrações de todas as taxas intermediárias.

Nós as temos como fenômenos elétricos de vários tipos; nós as temos como os raios Röntgen.

Na verdade, todo o segredo dos raios Röntgen, ou raios X, é simplesmente trazer para a capacidade de nossos olhos e para o campo de nossa visão alguns raios a mais, (Página 135) algumas das taxas mais finas de vibração, que normalmente estariam fora do nosso alcance.

Anexarei aqui uma tabela das vibrações atualmente reconhecidas pelos homens da ciência.

É a que foi emitida pela Escola Politécnica de Paris.

TABELA DE VIBRAÇÕES

Cujos efeitos são reconhecidos e estudados.

Número de vibrações por segundo.

1ª Oitava..................

2ª ..................

3ª ..................

4ª ...................16 Som.

5ª ...................32 "

6ª ..................64 "

7ª ..................128 "

8ª ..................256 "

9ª ..................512 "

10ª .................1.024 "

11ª .................32.768 "

12ª ................ 1.047.576 Desconhecido.

13ª ................ 33.554.432 Eletricidade.

14ª ............... 1.073.741.824 "

15ª ............... 34.359.738.368 "

16ª ............... 1.099.511.627.776 Desconhecido.

17ª ............... 35.184.372.088.832 "

18ª ............... 70.368.744.177.644 Calor.

19ª ............... 140.737.468.355.328 "

20ª ............... 281.474.979.710.656 "

21ª ............... 562.949.953.421.312 Luz.

22ª ............... 1.125.899.906.842.624 Raios Químicos.

23ª ............... 2.251.799.813.685.248 Desconhecido.

24ª ............... 144.115.188.075.855.872 "

25ª ............... 288.230.376.151.711.744 Raios X.

26ª ............... 576.460.752.303.423.488 "

27ª ............... 1.152.921.504.606.846.976 "

28ª ............... 2.305.843.009.213.693.952 "

29ª ............... 4.611.686.618.427.389.904 Desconhecido.

(Página 136)

Extensão da Faculdade

Muitas pessoas supõem que nossas faculdades são limitadas — que têm seus limites definidos, além dos quais não podemos ir. Mas não é assim. De vez em quando encontramos uma pessoa anormal que tem a visão de raios X por natureza e é capaz de ver muito mais do que outras; mas podemos observar variações por nós mesmos sem ir tão longe.

Se tomarmos um espectroscópio, que é um arranjo de uma série de prismas, seu espectro, em vez de ter uma polegada ou uma polegada e meia de comprimento, se estenderá por vários pés, embora seja muito mais tênue.

Se o projetarmos sobre uma enorme folha de papel branco e pedirmos a vários amigos que marquem nessa folha exatamente até onde conseguem ver a luz, até onde o vermelho se estende em uma extremidade, ou até onde o violeta se estende na outra, ficaremos surpresos ao descobrir que alguns de nossos amigos podem ver mais longe em uma extremidade, e outros mais longe na outra.

Podemos encontrar alguém que consiga ver muito mais longe do que a maioria das pessoas em ambas as extremidades do espectro; e, se assim for, encontramos alguém que está no caminho de se tornar clarividente.

Poderia-se supor que se trata apenas de uma questão de agudeza de visão, mas não é isso de forma alguma; é uma questão de visão que seja capaz de responder a diferentes séries de vibrações, e de duas pessoas cuja agudeza de visão seja absolutamente igual, podemos descobrir que uma pode exercê-la apenas em direção à extremidade violeta, e a outra em direção à extremidade vermelha.

Todo o fenômeno do daltonismo depende dessa capacidade; mas quando encontramos uma pessoa que pode ver muito mais além em ambas as extremidades desse espectro, temos alguém que é parcialmente clarividente, que pode responder a mais vibrações; e esse é o segredo de ver muito mais.

Pode haver, e há, muitas entidades (página 137) muitos objetos ao nosso redor que não refletem raios de luz que possamos ver, mas refletem esses outros raios de taxas de vibração que não vemos; consequentemente, algumas dessas coisas podem ser fotografadas, embora nossos olhos não possam vê-las.

As chamadas "fotografias de espíritos" têm sido frequentemente tiradas, embora haja muito ceticismo em relação a elas, porque, como é bem sabido por qualquer fotógrafo, tal coisa pode ser facilmente produzida por uma leve exposição prévia.

Há várias maneiras pelas quais isso pode ser feito; no entanto, embora possam ser falsificadas por fraude, é certo que algumas dessas fotografias foram tiradas.

Os Experimentos do Dr. Baraduc

Os recentes experimentos do Dr. Baraduc, de Paris, parecem demonstrar conclusivamente a possibilidade de fotografar essas vibrações invisíveis.

Quando estive lá pela última vez, ele me mostrou uma grande série de fotografias nas quais havia conseguido reproduzir os efeitos da emoção e do pensamento.

Ele tem uma de uma menininha lamentando a morte de um pássaro de estimação, onde uma espécie curiosa de rede de linhas produzida pela emoção envolve tanto o pássaro quanto a criança.

Outra de duas crianças, tirada no momento seguinte a terem sido subitamente assustadas, mostra uma nuvem manchada e palpitante.

A raiva por um insulto manifesta-se por um número de pequenas formas-pensamento lançadas em forma de manchas ou glóbulos incompletos.

Uma senhora que viu a coleção depois de mim descreve "uma fotografia demonstrando o ronronar de um gato, cujo contentamento sonoro projetava uma nuvem delicadamente tingida".

O médico emprega o sistema de placa seca sem contato e com ou sem câmera, em obscuridade total através de papel preto ou em uma câmara escura.

A placa é segurada perto da testa, do coração ou da mão da pessoa (Página 138) que está experimentando.

Ele diz: "A força vital é eminentemente plástica e, como o barro, recebe impressões tão vivas como se modeladas pela mão invisível de algum escultor espiritual.

Essas fotografias fantasmagóricas, essas imagens telepáticas do invisível, são produzidas pela concentração do pensamento; assim, um oficial fixou sua mente em uma águia e a majestosa forma da ave foi retratada na placa.

Outro mostra a silhueta de um cavalo." Ele nos conta que às vezes rostos aparecem nas placas, e descreve especialmente um caso em que o pensamento de uma mãe produz um retrato de uma criança morta.

Ele também nos dá o seguinte relato interessante de uma impressão feita durante uma visita astral:

"Uma façanha surpreendente de fotografia telepática é relatada por um médico de Bucareste, o Dr. Hasdeu.

Estando interessado em fenômenos telepáticos, ele e seu amigo, o Dr. Istrati, decidiram submetê-los a um teste fotográfico, a fim de provar se seria possível projetar uma imagem à distância sobre uma placa já preparada.

A noite combinada para o experimento crucial chegou.

O Dr. Hasdeu, antes de se recolher, colocou sua câmera ao lado da cama.

O Dr. Istrati estava separado dele por várias centenas de milhas.

Este último, conforme o acordo, deveria, pouco antes de dormir, concentrar seus pensamentos no esforço de imprimir sua imagem na placa preparada por seu amigo em Bucareste.

Na manhã seguinte, ao despertar, o Dr. Istrati estava convencido de que havia conseguido, tendo a certeza disso em um sonho.

Ele escreveu a um amigo em comum, que foi à residência do Dr. Hasdeu e encontrou esse cavalheiro ocupado em revelar a placa em questão.

Nela apareceram três figuras distintas, uma delas particularmente nítida e vívida.

Representava o Dr. Istrati olhando com intensidade para a câmera, sendo a extremidade do instrumento iluminada por um (Página 139) brilho fosforescente que parecia emanar da aparição.

Quando o Dr. Istrati retornou a Bucareste, ficou surpreso com a semelhança de seu retrato fluídico, que revelava seu tipo de rosto e características mais marcantes com mais fidelidade do que fotografias tiradas por processos comuns."

Nossos Poderes Mais Amplos

Todos esses experimentos nos mostram o quanto é visível ao olho da câmera que é invisível à visão humana comum; e é portanto óbvio que, se a visão humana puder ser tornada tão sensível quanto as placas usadas na fotografia, veremos muitas coisas para as quais agora somos cegos.

Está ao alcance do homem não apenas igualar a mais alta sensibilidade alcançável por produtos químicos, mas transcendê-la grandemente; e por esse meio, uma vasta quantidade de informação sobre este mundo invisível pode ser obtida.

Com relação à audição, o mesmo é verdadeiro.

Não ouvimos todos igualmente, e novamente não quero dizer com isso que alguns de nós têm melhor audição do que outros, mas que alguns de nós ouvem sons que os outros, sob nenhuma circunstância, poderiam ouvir, por mais altos que se tornassem.

Isso, novamente, é demonstrável.

Há vários sons vibratórios causados por maquinaria que podem ser elevados a tal ponto que se tornam inaudíveis; à medida que a maquinaria se move cada vez mais rápido, eles gradualmente se tornam cada vez menos audíveis, e por fim ultrapassam o estágio da audibilidade, não porque cessaram, mas porque a nota foi elevada demais para o ouvido humano acompanhá-la. O teste mais agradável que conheço — que qualquer um pode aplicar nos meses de verão, se viver no campo — é o som do guincho do morcego.

Esse é um som no fio da navalha, um grito minúsculo, agudo como uma agulha, semelhante ao guincho de um (Página 140) camundongo, apenas várias oitavas mais alto.

Está no limite da possibilidade da audição humana.

Algumas pessoas conseguem ouvi-lo e outras não, o que nos mostra novamente que não há limite definido, e que o ouvido humano varia consideravelmente em seu poder de responder às vibrações.

Se, então, somos capazes de responder apenas a certos pequenos grupos dentre a vasta massa de vibrações, podemos facilmente ver que mudança enorme seria produzida se fôssemos capazes de responder a todas.

A visão etérica de que às vezes falamos é simplesmente um poder adicional de responder às vibrações físicas, e muito da clarividência em pequena escala que é demonstrada por pessoas mortas em sessões espíritas é desse tipo.

Elas leem alguma passagem de um livro fechado, ou uma carta que está guardada dentro de uma caixa.

Os raios X nos permitem fazer algo semelhante — não ler uma carta, talvez, mas ver através de objetos materiais, discernir uma chave dentro de uma caixa de madeira, ou observar os ossos do corpo humano através da carne.

Todo esse tipo de visão adicional é obtido da maneira que descrevi, por sermos capazes de responder a um conjunto maior de vibrações.

Levemos isso um pouco mais adiante; ultrapassemos as vibrações da matéria física e imaginemos que somos capazes de responder às vibrações da matéria astral; imediatamente outro mundo se nos oferece para conquistar, e vemos os objetos de um plano ainda material, mas em um nível mais elevado.

Nisto, embora possa haver muito que nos seja desconhecido, não há nada que seja impossível.

Tudo isso conduz, etapa por etapa, a partir das faculdades que já conhecemos e utilizamos, e este mundo de matéria astral segue passo a passo a partir do mundo que nos é tão familiar.

Não há nada de irracional nessa concepção.

A afirmação feita pela Teosofia, e por todos aqueles que pertencem às grandes religiões do Oriente, de que é possível ao homem perceber este mundo desconhecido e nos contar tudo a respeito dele, é, na realidade, uma afirmação perfeitamente razoável, em vez de ser uma sugestão grotesca e absurda, cheirando apenas a charlatanismo ou fraude, como tantas vezes se supõe.

Toda a teoria é, de fato, científica e coerente, e pode ser abordada por uma linha puramente científica de investigação.

(Página 141)

A Verdade Sobre o Invisível

Em linhas gerais, para que o esquema, ao menos em esboço, esteja diante de vós, não (não com total precisão, mas de modo geral) à ideia ortodoxa de inferno e céu; ou antes, eles são céu e purgatório; porque, embora seja verdade que terrível sofrimento possa advir à humanidade sob certas condições na parte inferior desse plano astral, todo sofrimento de qualquer espécie que lhe sobrevenha não é de natureza punitiva, mas purgativa.

O sofrimento é sempre e sob todas as circunstâncias destinado a beneficiar o homem.

É parte do esquema que tem por objeto a evolução do homem; não um castigo interminável e sem sentido, dado por vingança, mas o funcionamento constante de uma grande lei de justiça, uma lei que dá a cada homem exatamente aquilo que ele mereceu, não como recompensa ou punição, mas simplesmente como um resultado científico.

Se um homem põe a mão no fogo e ela se queima, não lhe ocorre dizer que alguém o puniu por fazer isso; ele sabe que é o resultado natural; é uma questão da rapidez com que as vibrações da matéria em chamas atravessaram sua pele e produziram as diversas desintegrações que ocorreram.

Da mesma forma, o sofrimento que segue o mal não é uma punição imposta de fora, mas meramente o resultado, sob uma lei imutável, daquilo que o homem (página 142) ele mesmo fez; e assim todo o sofrimento que lhe sobrevém ocorre sob a grande lei e tem por objetivo purificá-lo e ajudá-lo, e produzirá indubitavelmente esse efeito.

Quando, pelo uso de tais faculdades, o homem é capaz de examinar este mundo invisível, o que encontra com relação a ele? De modo geral, para que ao menos um esboço do esquema esteja diante de vocês, digamos que o mundo se divide em dois estágios, astral e mental, que correspondem (não com precisão, mas de maneira geral) à ideia ortodoxa de inferno e céu; ou antes, eles são mais como céu e purgatório; porque, embora seja verdade que terrível sofrimento sobrevenha à humanidade sob certas condições na parte inferior do plano, contudo toda espécie de sofrimento que lhe chega não é de natureza punitiva, mas purgativa.

As circunstâncias são sempre destinadas ao benefício do homem.

O que tem por objeto a evolução do homem; um castigo interminável e sem sentido, dado por vingança, não é o funcionamento constante da grande lei da justiça, que dá a cada um exatamente o que merece, como recompensa ou punição, simplesmente um resultado científico.

Se um homem põe a mão no fogo e ela se queima, não lhe ocorre dizer que alguém o puniu por fazer isso; ele sabe que é o resultado natural; é uma questão da rapidez com que as vibrações da matéria em chamas atravessaram sua pele e produziram as diversas desintegrações que ocorreram.

Da mesma forma, o sofrimento que segue o mal não é imposto de fora, mas meramente o resultado, sob uma lei imutável, daquilo que o homem (página 142) ele mesmo fez; e assim todo o sofrimento que lhe sobrevém ocorre sob a grande lei e tem por objetivo purificá-lo e ajudá-lo, e produzirá indubitavelmente esse efeito.

O mundo astral inferior, portanto, corresponde muito mais ao purgatório do que à ideia comum e mais blasfema de inferno.

Não há nada em todo o universo, felizmente, que corresponda sequer de longe a isso.

Embora não exista tortura sem fim como a que nos foi pintada pela mente doentia e pela imaginação desordenada do monge medieval, há casos individuais de sofrimento; mas mesmo esse sofrimento, por mais terrível que às vezes possa ser, é a melhor coisa para o homem, porque somente assim ele pode livrar-se do desejo que se apoderou dele, do mal que ele permitiu crescer dentro de si; somente por esse meio pode ele lançá-lo fora, para recomeçar no próximo nascimento, sob melhores condições, seu esforço rumo à evolução superior.

A Vida Celestial

A segunda parte da vida após a morte, o mundo celestial, é também o resultado das ações do homem, mas da parte mais elevada e nobre delas.

Ali, toda a força espiritual que ele colocou em movimento durante sua vida terrena encontra seu pleno resultado.

Aqui, novamente, é apenas uma questão científica da quantidade de energia investida, pois a lei da conservação da energia prevalece em todos esses planos mais elevados, assim como no físico.

A intensidade do sentimento de um homem por algum ideal elevado, a intensidade da afeição altruísta que ele derrama, seja em devoção à sua divindade, seja apenas em amor por aqueles ao seu redor — seja um tipo exaltado de amor impessoal que inclui a todos, ou a variedade mais comum que (página 143) se prodigaliza plenamente apenas a um ou dois — todas essas são forças espirituais em seus diferentes estágios e em seus diferentes graus, e todas representam energia gerada, que jamais pode produzir seu pleno resultado nesta vida física, porque todos os nossos pensamentos e aspirações mais elevados pertencem ao reino da alma desimpedida, e assim este plano inferior é incapaz de fornecer um campo para sua realização ou concretização.

Ninguém sabe disso melhor do que o artista ou o poeta que tenta realizá-los — o homem que pinta um quadro ou escreve um poema, esperando com isso transmitir aos outros o que viu em uma visão daquele mundo superior; ninguém sabe melhor do que tal artista quão completamente a expressão desse pensamento falha, como o melhor que ele pode fazer, a reprodução mais satisfatória que ele produz, fica infinitamente aquém da realidade.

Sendo tudo isso assim, todos esses ideais e aspirações mais elevados permanecem como uma vasta força armazenada, que jamais pode ser esgotada no plano físico ou durante a vida física.

É somente após a morte, e depois que as paixões e desejos inferiores são dissipados, que se torna possível para todas essas forças mais grandiosas se desdobrarem plenamente.

E assim surge um mundo superior invisível, de beleza transcendente e esplendor inimaginável, que tem sido chamado de céu.

Tentativas foram feitas para retratá-lo por todas as religiões, mas todas falharam miseravelmente diante da verdade.

Há passagens que imaginam o céu como contendo portões de pérola, ruas de ouro e mares de fogo misturados com vidro, e árvores que produzem doze tipos de frutos, e joias e pedras preciosas de várias espécies — todos esforços grosseiros que apresentam o mais alto e o melhor que a imaginação do escritor podia alcançar.

Encontraremos simbolismo semelhante nos manuscritos hindus e budistas, as mesmas árvores de ouro e prata com frutos de pedras preciosas nos jardins dos deuses — tentativas cruas, porém genuínas, dos primeiros escritores de imaginar algo que haviam visto, algo glorioso demais para ser expresso em palavras.

(Página 144)

Em nossos dias, traçamos um quadro diferente do mundo celestial.

É algo muito mais refinado, mais intelectual para aqueles que compreendem o que significa espiritualidade; mas ainda assim nossos esforços, embora para nós sejam muito mais satisfatórios, igualmente ficam aquém da realidade da grande verdade subjacente.

Permanece verdadeiro, portanto, o que foi escrito há muito tempo: "Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou no coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam." Mas há uma diferença feliz; não é apenas para uns poucos fiéis, mas para todos; pois certamente todos devem amá-Lo na medida em que O conhecem.

Não há limitação; este mundo celestial é o céu para todos os que podem alcançá-lo.

Cada Um Tem Sua Recompensa

Em vez de consignar alguns homens ao céu e outros ao inferno, como faz a teologia moderna, seria mais verdadeiro dizer que todo homem deve passar por ambos os estados que são tipificados por esses nomes.

Todo homem deve passar pelo plano astral a caminho do mundo celestial.

Todo homem, ao fim de sua vida astral, alcançará esse mundo celestial, a menos que seja uma pessoa tão elementar, tão degradada, que nunca tenha tido qualquer pensamento ou sentimento altruísta.

Se assim for, de fato não pode haver mundo celestial para ele, porque todos esses desejos e sentimentos egoístas pertencem exclusivamente ao plano astral, e encontrarão seu resultado nesse plano.

Existem aqueles que têm quase nada de altruísta em sua natureza; tais pessoas também colherão a recompensa de qualquer bem que tenham feito, não naquele mundo celestial, mas em um nível inferior, na parte mais elevada do plano astral.

(Página 145)

Como foi dito há muito tempo sobre aqueles que oravam em lugares públicos para serem vistos pelos homens: "Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa." Assim como acontece com aqueles de elevados ideais, que não obtêm tudo o que desejam aqui, o mesmo se dá com aqueles cujos ideais são egoístas; eles também têm a sua recompensa após a morte; na parte mais elevada do mundo astral alcançarão o seu resultado; encontrar-se-ão rodeados por aquilo que desejam; mas sentirão falta das coisas superiores que não desejaram, porque ainda não evoluíram até esse nível.

Ainda assim, todos serão felizes à sua própria maneira e no seu próprio tempo.

Os egoístas, sem dúvida, sofrerão muito no caminho até esse estágio, mas haverá algo mesmo para eles — algo para todos.

Ver-se-á que esta é uma ideia menos limitada do que a das religiões ortodoxas.

Vamos um pouco mais além do que elas, e podemos fazê-lo porque todo o esquema é científico, porque não há questão de favoritismo que consigne algumas pessoas ao céu e exclua outras dele.

Tudo isto não é mera suposição; é a simples verdade — verdade baseada em observação cuidadosa, e capaz de ser verificada por aqueles que têm olhos para ver nos planos superiores.

Nem é este mundo celestial uma mera terra de sonhos; está repleto da mais vívida realidade.

Na verdade, é o plano da Mente Divina, que responde a qualquer chamado que lhe seja feito. Se um homem possui uma riqueza das mais grandiosas aspirações, ele atrai uma correspondente efusão do alto; se outro tem apenas alguns pequenos grãos de algo altruísta em sua natureza, mesmo esse pequeno grão ainda produz o seu resultado apropriado.

Não há questão de um entrar e o outro ser excluído, mas cada um obtém exatamente aquilo que é capaz de obter.

Esta é a essência do mundo celestial.

Todo homem ali é feliz; (Página 146) necessariamente nem todos são igualmente felizes, nem todos felizes da mesma maneira, mas cada indivíduo é feliz na medida plena de sua capacidade de felicidade.

A única coisa que o impede de ir mais longe é que ele é incapaz de apreender mais.

Cada vaso é cheio até o máximo; embora alguns vasos sejam pequenos e outros grandes, eles são cheios até suas respectivas capacidades.

Devemos, creio eu, admitir que esta é uma teoria muito mais razoável do que a sustentada pela teologia moderna.

Minha intenção hoje não foi tanto dar-lhes detalhes sobre as condições dos mundos além do túmulo, mas mostrar-lhes que todos eles fazem parte do mesmo mundo; mostrar-lhes que não há nenhuma ruptura súbita de qualquer espécie, mas que tudo é razoável, coerente e graduado em todo o percurso.

Quanto ao seu lugar, eu lhes disse que esses mundos estão ao nosso redor, aqui.

Mas, vocês dirão, como pode ser isso? Como é possível, estando o espaço ao nosso redor preenchido de matéria, que outra matéria, por mais sutil que seja, possa existir?

Interpenetração

Não creio que nos seja difícil compreender como isso pode ocorrer. É um fato científico bem conhecido que, mesmo nas substâncias mais duras da Terra, dois átomos jamais se tocam; sempre cada átomo tem seu campo de ação e vibração; cada molécula tem seu campo de vibração, por menor que seja; consequentemente, há também espaço entre eles, sob quaisquer circunstâncias possíveis.

Todo átomo físico flutua em um mar astral, um mar de matéria astral que o circunda, interpenetrando cada interstício dessa matéria física.

Essas mesmas leis explicam outro fenômeno do qual vocês ouviram falar — a passagem da matéria através da matéria em sessões espíritas. A matéria, seja na condição etérica física ou na condição astral, pode passar com facilidade através da matéria física densa (página 147) exatamente como se esta não estivesse ali, em razão dessa interpenetração, de modo que toda a coisa que parecia tão difícil se torna bastante simples para um homem que possa apreender essa ideia.

Mais uma palavra de cautela com relação a este mundo invisível.

Não imaginem que esses vários estágios ou divisões da matéria estejam dispostos uns sobre os outros como as prateleiras de uma estante.

Compreendam que a interpenetração é perfeita, dentro e ao redor de todo objeto físico.

Já se sabe que o éter interpenetra todas as substâncias físicas.

Eu gostaria, se pudesse, de tornar claro para vocês quão natural é tudo isso e de guardá-los contra o erro que provém de supor que tudo o que está além do físico não é natural, mas sobrenatural.

Não é assim de modo algum.

É suprafísico, se quiserem, mas não sobrenatural.

Todo o esquema é um único esquema, e as mesmas leis percorrem-no inteiramente.

É verdade que há uma certa extensão adicional desses planos.

Ao lidar com esta terra física, temos primeiro uma esfera de matéria sólida, que é cercada por água em grande extensão.

Acima disso encontramos o ar, porque é cercado por esta atmosfera; mas essas três condições da matéria são igualmente interpenetradas pela matéria astral, apenas com esta diferença: a matéria astral, sendo muito mais leve, eleva-se mais longe da superfície da terra do que a atmosfera.

Se fosse possível a alguém penetrar além da atmosfera da nossa terra, ele ainda poderia, por um tempo, estar dentro do plano astral, porque o plano astral se estende mais longe do que a atmosfera física; assim, nesse sentido, é verdade que o plano astral se eleva mais alto.

Não que ele não exista aqui e agora, mas sua extensão é maior e, consequentemente, forma uma esfera maior do que a terra.

O mesmo se aplica ao plano mental; lá temos matéria ainda mais sutil; ela interpenetra toda a matéria astral (página 148) e física ao redor, e também se estende mais longe do mundo do que o plano astral.

O plano mental da nossa terra é um globo definido, muito maior do que o planeta físico que ele envolve, mas ainda separado por milhões de milhas do plano mental de qualquer outro planeta.

Por outro lado, quando passamos além do plano mental e alcançamos o búdico, não há divisão ali, pois esse plano é comum a todos os planetas da nossa cadeia.

O mesmo é provavelmente verdadeiro, em extensão ainda maior e mais ampla, para outros e mais elevados reinos, mas desses não precisamos falar no momento.

Eles estão além do escopo desta palestra.

Aqueles que desejam compreender os planos da natureza, que desejam ter alguma ideia da maravilha e da beleza desses mundos superiores, podem obter seu desejo examinando a literatura teosófica.

Eu lhes recomendaria estudar o livro que escrevi sobre O Outro Lado da Morte, e também dois de nossos Manuais Teosóficos, o quinto e o sexto, O Plano Astral e O Plano Devachânico.

Se lerem esses livros com atenção, compreenderão tudo o que atualmente sabemos sobre esses mundos invisíveis, e posso assegurar-lhes que também descobrirão, como todos nós descobrimos, que todo esse esquema é tão lógico, tão coerente e fácil de apreender, que nada haverá nele de repulsivo, que nenhuma ginástica mental será exigida, nenhum salto perigoso sobre pontos frágeis onde o terreno da razão não é firme, mas uma ascensão gradual e constante de um estágio a outro; pois não fazemos violência às convicções de ninguém.

Razão e Senso Comum

Descobrirão que este sistema de ensino que lhes apresentamos está repleto da mesma razoabilidade em todas as direções; que é, de fato, uma apoteose do senso comum, como o é todo ocultismo do qual tenho conhecimento.

(Página 149)

Se encontrarem algum pretenso ocultismo, assim chamado, que faça exigências violentas à vossa fé, que sugira todo tipo de práticas curiosas e não naturais, tereis de imediato forte razão para suspeitar desse ocultismo, para sentir que não é do tipo verdadeiro.

Em todo caso que possa surgir, o homem deve aplicar sua razão e seu senso comum.

Não digo que não haja nada além da razão que possa auxiliá-lo.

Existe uma certeza espiritual que vem de trás, sobre a qual é impossível raciocinar; mas essa provém apenas de conhecimento anterior.

O homem que possui essa definitiva certeza intuitiva sobre qualquer coisa já conheceu o fato anteriormente, em alguma época, em outra vida; como alma, portanto, ele ainda o conhece, e sua convicção a respeito baseia-se na experiência e na razão, embora os elos da cadeia de raciocínio pelos quais chega a essa certeza não estejam dentro da memória do cérebro físico.

Tais intuições, no entanto, são raras, e a razão deve ser nosso guia em todas as nossas crenças.

Certamente, qualquer esquema que nos peça para fazer violência à nossa razão é um que deve ser rejeitado imediatamente.

Na Teosofia, enfatizamos especialmente o fato de que a fé cega de qualquer tipo é um grilhão que retém o homem na corrida espiritual.

Aquele que deseja avançar deve lançar de lado a fé cega; deve aprender que nenhum livro em particular é infalível; pois nosso conhecimento da verdade é progressivo, e estamos continuamente aprendendo cada vez mais a cada dia que passa.

A Teosofia não tem dogma a impor aos seus estudantes, nenhuma fé entregue de uma vez por todas aos santos.

Ele tem uma certa quantidade de conhecimento a oferecer para seu exame; mas os estudantes nunca devem esquecer que aqueles a quem coube escrever livros e proferir palestras sobre esses assuntos são também eles próprios companheiros de estudo que estão constantemente observando e aprendendo.

Aqueles que desejam acompanhar o pensamento teosófico devem ler as edições mais recentes dos livros, não as anteriores, porque no intervalo entre quaisquer duas edições novos fatos foram observados.

Há membros que prefeririam receber um credo definido e perfeito que pudessem aprender de uma vez por todas, de modo que não fosse necessário pensar mais; mas esse é um desejo que nossos escritores são incapazes de satisfazer, pois embora as ideias teosóficas sejam religiosas em grau máximo, são abordadas inteiramente de um ponto de vista científico.

É a missão da Teosofia unir essas duas linhas de pensamento, mostrar que não precisa haver conflito entre religião e ciência, mas que, ao contrário, a ciência é a serva da religião, e a religião é o mais elevado de todos os objetos possíveis de exame científico.

Aqueles que estudarem o ensinamento teosófico descobrirão, como nós descobrimos, que ano após ano ele se tornará mais interessante e mais fascinante, dando-lhes cada vez mais satisfação para a razão, bem como cumprimento e realização mais perfeitos de suas aspirações mais elevadas.

Aqueles que o examinarem nunca se arrependerão; em todas as suas vidas futuras encontrarão razão para serem gratos por terem empreendido o estudo da poderosa e abrangente Religião da Sabedoria, que nestes dias modernos chamamos de Teosofia.

Nota.

Como este capítulo foi revisado para a segunda edição deste livro, fatos importantes adicionais sobre a estrutura do Mundo Invisível foram descobertos e aparecem em Química Oculta da Sra. Besant, especialmente no apêndice sobre "O Éter do Espaço", por A. Besant e C.W. Leadbeater.

CAPÍTULO -VI-

A RAZÃO DE SER DO MESMERISMO

Este assunto do mesmerismo deve ser, creio eu, de considerável interesse para todos aqueles que compreendem ao menos o que ele inclui.

Há um grande equívoco quanto à significação da palavra, então é bom começar com algum tipo de definição.

Nestes dias, ouvimos pouco sobre mesmerismo, mas muito sobre hipnotismo, e a questão surge de imediato: são essas duas coisas a mesma? Creio que possamos, utilmente, fazer uma distinção entre elas, embora muitas pessoas as usem praticamente como sinônimos.

Hipnotismo deriva da palavra grega *hupnos*, sono; de modo que o hipnotismo é o estudo da arte de adormecer.

A palavra, no entanto, tem associações bastante infelizes e uma história por trás dela que está longe de ser crível.

Não há dúvida

de que, originalmente, o nome de mesmerismo era aplicado a todos os fenômenos que hoje são abrangidos pelo outro termo, porque Mesmer foi, no que diz respeito à Europa, o descobridor do poder que recebeu o seu nome.

Ele foi ridicularizado e perseguido pelos cientistas ignorantes e preconceituosos de sua época, e a classe médica não quis saber de seus experimentos.

Eles simplesmente negavam os fatos, assim como muitas pessoas hoje acham inteligente negar os fatos do espiritismo.

Cinquenta anos depois, certo Sr. Braid, um cirurgião de Manchester, publicou um pequeno livro abordando esses fatos de um novo ponto de vista e afirmou que todos eles se deviam à fadiga de certos músculos da pálpebra.

(Página 152). Ele chamou seu livro de *Neurypnology*, e ainda há muitos que o consideram o primeiro homem a tratar desses assuntos cientificamente.

Isso, no entanto, de modo algum representa os fatos, pois sua hipótese deixa a maioria dos fenômenos sem explicação; e parece ter obtido aceitação oficial apenas porque oferecia uma linha de retirada de uma posição insustentável.

Os fenômenos que a classe profissional decidira ridicularizar e negar ocorriam constantemente; aqui estava um método pelo qual eles podiam ser, ao menos parcialmente, admitidos sem que se tivesse de fazer a humilhante confissão de que Mesmer, afinal, estivera certo, e a ciência ortodoxa, errada.

Assim, estabeleceu-se a teoria de que isso era, na realidade, uma descoberta inteiramente nova, e que deveria ser chamada por um nome distinto.

Nessa linha seguiram Charcot, Binet e Féré, e vários escritores recentes — todos adotando apenas uma visão parcial do assunto, todos ignorando quaisquer fatos que não se ajustassem a essa visão parcial.

O próprio Mesmer, o verdadeiro pioneiro dessa linha de descoberta, chegou muito mais perto dos fatos nas opiniões que expressou.

Ele sustentava a existência de um fluido sutil que passa do operador ao sujeito, e nessa suposição correta foi seguido pelos primeiros experimentadores franceses, o Marquês de Puysegur, Deleuze, o Barão du Potet e o Barão von Reichenbach.

Os Experimentos de Reichenbach

O último mencionado registrou pacientemente e tentou uma longa série de experimentos com sensitivos, e suas obras merecem estudo cuidadoso.

Sua primeira descoberta foi que certos jovens entre seus pacientes podiam, em um quarto escuro, ver chamas emanando dos polos de um ímã; depois, um pouco mais tarde, descobriu que chamas semelhantes eram vistas fluindo das pontas de seus dedos enquanto ele se ocupava em fazer passes mesméricos.

(Página 153)

Foi por causa dessa semelhança que ele conferiu ao fluido que é transferido do operador ao paciente no mesmerismo o nome de "magnetismo animal". Ele suspeitou de sua conexão com a força vital derramada pelo sol e confirmou sua ideia por meio de um experimento engenhoso.

Ele arranjou um fio de cobre de modo que uma extremidade ficasse exposta à luz solar ao ar livre, e a outra ele conduziu para seu quarto escuro.

Descobriu então que, se a extremidade externa do fio fosse mantida na sombra, o sensitivo no quarto não via nada; mas, se o fio fosse exposto à luz solar, o paciente era imediatamente capaz de apontar a extremidade do fio no quarto escuro, porque uma luz fraca começava a emanar dela. Quando uma placa de cobre era fixada à extremidade externa do fio, de modo a coletar mais do poder do sol, uma luz bastante brilhante era discernível pelo sensitivo.

Através de todos os seus primeiros experimentos, ele estava sob a impressão de que essa sensitividade magnética era sempre um sintoma de má saúde, e parece ter sido uma grande surpresa para ele quando descobriu que uma de suas pacientes mantinha seu poder após sua recuperação.

Uma investigação mais aprofundada levou-o a compreender que sua posse não era uma questão de saúde, mas de faculdade psíquica; e ele conjectura, corretamente o suficiente, que todos, na realidade, têm o poder em maior ou menor grau, mas que em alguns ele só consegue vir à tona quando as faculdades físicas ordinárias são enfraquecidas pela doença.

Ver-se-á imediatamente que esses escritores anteriores estavam muito mais próximos da verdade sobre tais assuntos do que muitos de seus sucessores estiveram.

Mesmo nos dias atuais, provavelmente não há melhores registros de casos de operações cirúrgicas sob mesmerismo, e de mesmerismo curativo em geral, do que os contidos nos livros do Dr. Esdaile, de Calcutá, e do Dr. Elliotson, (Página 154) que trabalhava no norte de Londres.

Por volta dessa época — em 1842, creio — considerável atenção foi atraída por uma operação realizada no Hospital St. Bartholomew, em Londres, por um Sr. Ward, que amputou acima do joelho a perna de um paciente que havia sido colocado em transe mesmérico — um caso tão bom quanto o mais cético dos investigadores poderia desejar.

No entanto, quando um relato desse caso foi apresentado à Sociedade Real de Medicina e Cirurgia de Londres, eles se recusaram a ouvir o testemunho, sob a alegação de que era manifestamente incrível e absurdo, e que, mesmo se fosse verdade, seria contrário à vontade da Providência, uma vez que a dor deveria ser parte de uma operação cirúrgica! Parece impossível que qualquer assembleia de homens educados e presumivelmente científicos pudesse ser tão idiota, mas não há dúvida de que essa resolução foi aprovada e ainda permanece registrada.

Ignorância Invencível

As coisas melhoraram desde então, mas ainda há muita incredulidade tola com relação a esse assunto — e, pior ainda, muita afirmação infundada por parte dos ignorantes, à qual é difícil para o estudante ouvir com paciência.

Sobre esse ponto, o Sr. Sinnett, nosso Vice-Presidente, escreveu bem: — "Ninguém merece censura por deixar inteiramente sem estudo qualquer assunto que não o atraia.

Mas, na maioria dos casos, pessoas que estão conscientes de recursos intelectuais limitados nutrem um respeito decente por outros que são melhor providos.

Um homem pode ser apenas um esportista, e ainda assim abster-se de afirmar que químicos e eletricistas devem ser impostores, e um químico pode nada saber de arte italiana, e ainda assim abster-se de declarar que Rafael nunca existiu.

Mas, por todo o mundo comum, pessoas que são ignorantes da ciência psíquica encorajam (Página 155) umas às outras na negação cerebral e absurda de fatos, sempre que qualquer um de seus fenômenos vem à tona para tratamento.

O merceeiro comum do interior, o repórter comum, o estudante comum de ciências físicas, estão todos imersos na mesma densa incapacidade de compreender a propriedade de respeitar o conhecimento dos outros, mesmo que não o compartilhem, sempre que se deparam com qualquer declaração relacionada ao trabalho daqueles que se dedicam a qualquer ramo de investigação psíquica.

Do ponto de vista oculto, de fato, pode-se entender por que isso é assim, pois a incredulidade da humanidade não espiritual é a própria proteção da Natureza contra aqueles que ainda não estão aptos a usar seus dons espirituais superiores.

O livro do qual essa citação foi extraída chama-se *The Rationale of Mesmerism*, e é um que nenhum estudante deste assunto deve deixar de ler, pois apresenta a teoria teosófica do assunto de maneira muito mais hábil do que eu posso, sendo o autor um mesmerista prático de considerável poder e experiência.

Tudo o que posso fazer é dar-lhe um esboço geral; para o preenchimento, devo encaminhá-lo ao Sr. Sinnett.

É impossível compreender o mesmerismo a menos que o tomemos como parte de um esquema ordenado do universo, e o expliquemos de acordo com os fatos conhecidos sobre a constituição do homem e sua relação com o mundo ao seu redor.

Tomado dessa maneira, torna-se imediatamente compreensível, e não se encontra dificuldade em classificar e explicar suas várias manifestações.

Devemos lembrar a explicação teosófica dos diferentes planos da natureza e dos corpos correspondentes possuídos pelo homem; pois, uma vez que o fluido derramado no mesmerismo é sutil e invisível à visão comum, obviamente afetará a parte mais sutil do corpo e, consequentemente, é para o estudo dessa parte que devemos nos voltar para uma teoria racional de seus efeitos.

(Página 156) É bom lembrar que o homem é um ser que vive simultaneamente em dois mundos – o visível e o invisível; existindo simultaneamente em vários desses planos da natureza, e recebendo consciente ou inconscientemente impressões deles durante toda a sua vida.

Quando percebemos isso, estamos preparados para entender quão parcial deve ser qualquer visão meramente física do homem, e quão facilmente podemos calcular mal ações e acontecimentos neste plano, se ignorarmos suas causas em níveis superiores.

O Sr. Sinnett, no livro mencionado, compara nossa posição a esse respeito à de um peixe que, nadando na água, tenta entender os movimentos da quilha de um navio que se move ao seu lado.

Ele sem dúvida poderá compreender a resistência oferecida pela água à quilha, sua deflexão de um curso reto pelas correntes, e assim por diante; mas deve frequentemente haver movimentos da razão dos quais ele não pode ter concepção alguma, porque pertencem a outro e mais elevado mundo.

A inclinação dada ao casco do navio pelo ajuste das velas para um lado ou para outro seria para ele um movimento misterioso e inexplicável, e ele provavelmente suporia que se devesse a uma vontade viva residente na criatura.

Um peixe voador poderia, concebivelmente, aprender a compreender algo das condições tanto do ar quanto do mar, e assim chegaria mais perto de uma teoria correta; e nesse aspecto o estudante clarividente é como o peixe voador — ele é capaz de transcender seu elemento até certo ponto, e assim entrar em um mundo mais amplo, no qual aprende muitas lições.

Os pensamentos e paixões do homem são vistos no plano físico apenas por seus efeitos, contudo são a força motriz, e devem ser levados em conta se desejamos compreender, assim como nosso peixe hipotético teria de saber algo sobre velas antes de poder saber por que seu navio se movia daquela maneira.

(Página 157)

Podemos abordar este assunto do mesmerismo por uma de duas linhas.

Podemos ou começar a fazer experimentos práticos por nós mesmos, ou podemos assumir o estudo dos experimentos de outros através dos livros que escreveram.

A qualquer homem que decida pelos livros, eu recomendaria os do Dr. Esdaile como os melhores de todos para começar; pois seus sujeitos eram todos orientais, e eles são, em média, muito mais sensíveis à influência mesmérica do que os homens brancos.

A Natureza da Sensibilidade

Isso não significa que sejam necessariamente de vontade mais fraca; é uma questão do lado do homem que está desenvolvido.

Você pode lembrar como expliquei em palestras anteriores que a evolução do homem é de caráter cíclico — que consiste em uma descida à matéria e depois uma elevação para fora dela novamente, trazendo os resultados da imersão em experiência adquirida e qualidade desenvolvida.

Surge no curso deste ciclo um ponto mais baixo, no qual o homem está mais profundamente enterrado na matéria e, consequentemente, menos aberto a quaisquer influências de forças mais sutis, e este ponto de materialidade extrema é frequentemente coincidente com um forte desenvolvimento intelectual.

Desta forma, temos uma combinação de uma natureza grosseiramente material com uma atitude mental especialmente materialista; e justamente nesse período o homem certamente não seria um bom sujeito mesmérico.

Não digo que sua resistência não pudesse ser vencida por uma vontade suficientemente forte, mas exigiria mais esforço do que provavelmente valeria a pena fazer, e assim o chamaríamos de mau sujeito.

Antes disso, haveria um período em que o lado psíquico dele poderia ser mais facilmente alcançado, e novamente mais tarde em sua evolução ele reapareceria, embora nesse (Página 158) segundo estágio dificilmente fosse possível controlá-lo mesmericamente exceto com seu próprio consentimento, pois este é o psiquismo mais verdadeiro, no qual o homem possui seus poderes em plena consciência e pode usá-los voluntariamente com eficiência.

Mas no ponto intermediário não é a quantidade de intelecto que ele possui que o salva da influência mesmérica, como ele muitas vezes pensa orgulhosamente, mas simplesmente o materialismo de suas concepções.

É porque ele está preso ao mero plano físico que resiste a qualquer esforço para impressioná-lo dessa maneira a partir de fora.

Quando, no entanto, uma impressão pode ser feita, os efeitos são frequentemente do caráter mais notável.

Não apenas uma pessoa pode subjugar a vontade de outra a quase qualquer extensão concebível, mas resultados físicos podem ser produzidos, como anestesia ou rigidez, e muitas doenças podem ser prontamente curadas.

Como tudo isso é produzido? Devemos lembrar que o corpo físico contém uma grande quantidade de matéria invisível à visão comum.

Não apenas tem seus constituintes sólidos e líquidos, mas há também muito que é gasoso, e uma grande quantidade que é etérica.

Este último constituinte desempenha um papel nada pequeno no bem-estar do homem, pois todo o seu corpo é permeado por ela, de modo que, se fosse possível retirar dele todas as partículas sólidas, líquidas e gasosas, a forma de seu corpo ainda estaria claramente delineada em matéria etérica.

Esta parte de seu corpo, que às vezes tem sido chamada de duplo etérico, é o veículo de vitalidade no homem.

A Circulação Nervosa

Sabemos que, além do sistema de veias e artérias, temos um sistema de nervos percorrendo todo o corpo; e assim como as artérias e veias têm sua circulação, cujo centro é o coração, também os nervos têm sua circulação, (Página 159) cujo centro é o cérebro.

Mas é uma circulação não de sangue, mas do fluido vital, e ele flui não tanto ao longo dos próprios nervos, mas ao longo de uma espécie de revestimento de éter que envolve cada nervo.

Muitos eletricistas consideraram provável que a eletricidade não flui de modo algum ao longo de um fio, mas ao longo de um revestimento de éter que envolve o fio; e, se assim for, o fenômeno é exatamente duplicado por esse fluxo da força vital.

Normalmente, no homem saudável, dois tipos de fluido estão conectados a esse sistema de circulação nervosa.

Primeiro, há a aura nervosa, que flui regular e constantemente a partir do cérebro como centro; e, segundo, há esse fluido vital, que é absorvido do exterior e transportado pela aura nervosa na forma de partículas de cor rosada, que são facilmente visíveis à visão clarividente.

Consideremos primeiro a aura nervosa.

Observou-se que da presença desse fluido depende o funcionamento adequado do nervo — um fato que pode ser demonstrado por vários experimentos.

Sabemos que é possível, por meio de passes magnéticos, tornar o braço de uma pessoa completamente insensível à dor; isso é feito repelindo essa aura nervosa, de modo que, sobre essa parte do corpo, o fluxo não seja mais mantido e, consequentemente, o nervo não consiga relatar ao cérebro o que o toca, como normalmente faz.

Sem o éter especializado que normalmente o envolve, o nervo não é capaz de se comunicar com o cérebro, e assim é precisamente como se o nervo não estivesse ali por um tempo — ou, em outras palavras, não há sensação.

O fluido vital também é especializado e, no homem saudável, está presente em grande abundância.

Ele é derramado sobre nós originalmente do sol, que é a fonte da vida nesse sentido interno, assim como, por meio de sua luz e calor, no mundo externo.

Os átomos na atmosfera da Terra estão mais ou menos carregados dessa força em todos os momentos, (Página 160) embora esteja em muito maior atividade e abundância sob a luz solar brilhante; e é somente absorvendo-a que nossos corpos físicos conseguem viver.

Em si mesma, ela é naturalmente invisível, como todas as outras forças; mas vemos seu efeito na intensa atividade dos átomos energizados por ela. Depois de absorvida pelo corpo humano e, assim, especializada, esses átomos assumem a bela cor rosada já descrita e são transportados em uma corrente constante sobre e através de todo o corpo, ao longo dos nervos.

O homem em perfeita saúde tem abundância desse fluido para dispensar, e ele irradia constantemente de seu corpo em todas as direções, de modo que, na verdade, ele está derramando força e vitalidade sobre aqueles ao seu redor, mesmo que de forma totalmente inconsciente.

Por outro lado, um homem que, por fraqueza ou outras causas, é incapaz de especializar para seu próprio uso uma quantidade suficiente da força vital do mundo, às vezes age igualmente inconsciente como uma esponja, e absorve a vitalidade já especializada de qualquer pessoa sensível com quem entre em contato, para seu próprio benefício temporário, sem dúvida, mas muitas vezes com grave prejuízo para sua vítima.

Provavelmente a maioria das pessoas já experimentou isso em menor grau, e descobriu que há alguém entre seus conhecidos após cujas visitas sempre sentem uma fraqueza e languidez inexplicáveis.

O que o Mesmerizador Dá

Agora você começará a ver o que é que o mesmerizador derrama em seu sujeito.

Pode ser tanto o éter nervoso quanto a vitalidade, ou ambos.

Supondo que um paciente esteja seriamente debilitado ou exausto, a ponto de ter perdido o poder de especializar o fluido vital para si mesmo, o mesmerizador pode renovar seu estoque derramando um pouco do seu próprio sobre os nervos trêmulos, e assim produzir uma rápida recuperação.

O processo é análogo ao que muitas vezes é feito (Página 161) no caso dos alimentos.

Quando uma pessoa atinge certo estágio de fraqueza, o estômago perde o poder de digerir, e assim o corpo não é devidamente nutrido, e a fraqueza é com isso aumentada.

O remédio adotado nesse caso é apresentar ao estômago alimentos já parcialmente digeridos por meio de pepsina ou outras preparações semelhantes; isso provavelmente pode ser assimilado, e assim se ganha força.

Exatamente assim, um homem que é incapaz de especializar para si mesmo pode ainda absorver o que já foi especializado por outro, e assim ganha força para fazer um esforço e retomar a ação normal dos órgãos etéricos.

Em muitos casos de fraqueza, isso é tudo o que é necessário.

Há outros casos em que ocorreu algum tipo de congestão, o fluido vital não circulou adequadamente, e a aura nervosa está lenta e doentia.

Então, o curso óbvio de procedimento é substituí-la por éter nervoso saudável vindo de fora; mas há várias maneiras de fazer isso.

Alguns magnetizadores simplesmente empregam força bruta, e derramam continuamente torrentes irresistíveis de seu próprio éter na esperança de lavar aquilo que precisa ser removido.

O sucesso pode ser alcançado por essas linhas, embora com o dispêndio de muito mais energia do que o necessário.

Um método mais científico é aquele que age de maneira um tanto mais silenciosa, e primeiro retira a matéria congestionada ou doentia, e então a substitui por éter nervoso mais saudável, estimulando assim gradualmente a corrente lânguida à atividade.

Se o homem tem dor de cabeça, por exemplo, quase certamente haverá uma congestão de éter doentio em alguma parte do seu cérebro, e o primeiro passo é retirá-lo.

Como isso deve ser feito? Exatamente da mesma maneira que o derramamento de força é feito — por um exercício da vontade.

Não devemos esquecer que essas subdivisões mais sutis da matéria são prontamente moldadas ou afetadas pela (Página 162) ação da vontade humana.

O mesmerizador pode fazer passes, mas eles são, no máximo, nada mais que apontar sua arma em certa direção, enquanto sua vontade é a pólvora que move a bala e produz o resultado, sendo o fluido o tiro disparado.

Um mesmerizador que entende do seu ofício pode operar igualmente bem sem passes, se assim o desejar; conheci um que nunca os empregava, mas simplesmente olhava para o seu sujeito.

O único uso da mão é concentrar o fluido, e talvez ajudar a imaginação do operador; pois para querer fortemente ele deve acreditar, e a ação sem dúvida torna mais fácil para ele realizar o que está fazendo.

Assim como um homem pode derramar magnetismo por um esforço de vontade, também pode retirá-lo por um esforço de vontade, embora neste caso também possa frequentemente usar um gesto das mãos para ajudá-lo.

Ao lidar com a dor de cabeça, ele provavelmente colocaria as mãos sobre a testa do paciente e as imaginaria como esponjas retirando constantemente o magnetismo doentio do cérebro.

Que ele está realmente produzindo o resultado no qual pensa, ele provavelmente descobrirá em breve; pois, a menos que tome precauções para descartar o mau magnetismo que está absorvendo, ele próprio sentirá a dor de cabeça ou começará a sofrer de uma dor no braço e na mão com os quais a operação está sendo realizada.

Ele está realmente atraindo para si matéria doentia, e é necessário para seu conforto e bem-estar que ele a elimine antes que ela obtenha uma permanência em seu corpo.

Ele deve, portanto, adotar algum plano definido para se livrar dela, e o mais simples é apenas jogá-la fora, sacudi-la das mãos como se sacudisse água.

Embora ele não o veja, a matéria que retirou é física e pode ser tratada por meios físicos.

É portanto necessário que ele não negligencie essas precauções, e que não se esqueça de (página 163) lavar cuidadosamente as mãos após curar uma dor de cabeça ou qualquer enfermidade dessa natureza.

Então, depois de remover a causa do mal, ele procede a derramar magnetismo forte e saudável para ocupar seu lugar e proteger o paciente contra o retorno da doença.

Pode-se ver que, no caso de qualquer afecção nervosa, esse método teria inúmeras vantagens.

Na maioria desses casos, o que está errado é uma irregularidade dos fluidos que percorrem os nervos; ou estão congestionados, ou lentos em seu fluxo, ou, por outro lado, podem ser rápidos demais; podem ser deficientes em quantidade, ou pobres em qualidade.

Ora, se administramos drogas de qualquer tipo, na melhor das hipóteses só podemos atuar sobre o nervo físico e, através dele, até certo ponto limitado, sobre os fluidos que o circundam; ao passo que o mesmerismo atua diretamente sobre os próprios fluidos e, assim, vai direto à raiz do mal.

Simpatia Magnética

Naqueles outros casos em que se produz o transe, ou em que a rigidez de certos músculos é um dos resultados, a vontade do operador também está envolvida, e força de algum tipo é sempre derramada. Mas a vontade é dirigida de modo um tanto diferente; em vez de pensar em curar, ou em retirar o magnetismo maligno, o mesmerizador pensa em dominar a vontade do sujeito, ou em substituir a aura nervosa do homem, parcial ou inteiramente, pela sua própria.

Quando este último é o caso, os nervos do sujeito não mais se reportam ao seu cérebro, mas uma estreita simpatia é criada entre as duas pessoas envolvidas.

Isso pode funcionar de duas maneiras — de modo que o operador sinta em lugar do sujeito, ou que o sujeito sinta tudo o que toca o operador.

Vi casos em que, enquanto o sujeito estava em transe, o operador permanecia com (página 164) as mãos atrás de si, a alguns metros de distância; e se uma terceira pessoa picava a mão do operador (oculta atrás de suas costas, de modo que a sensitiva não pudesse de forma alguma vê-la normalmente), o sujeito imediatamente esfregava a mão correspondente, como se tivesse sentido a picada em vez do mesmerizador.

Presumivelmente, seu éter nervoso estava em conexão com o cérebro dela em vez do dela própria, e quando ela recebia dessa aura a sensação que de outra forma associaria a uma picada na mão, supunha que ela viesse de sua fonte habitual e agia de acordo.

Isso é, afinal, apenas um fenômeno de natureza precisamente idêntica àquela que observamos quando um homem teve o braço removido por uma operação; às vezes algo causará irritação em um dos nervos que estavam originalmente conectados aos dedos, e seu cérebro referirá essa sensação à sua causa habitual, e o homem afirmará que sente dor no membro amputado.

Outro experimento análogo é feito no estudo óptico; é possível produzir uma leve descarga elétrica dentro da cabeça de uma pessoa, afetando assim o nervo óptico em um ponto intermediário, em vez de através da retina do olho.

Quando isso é feito, o cérebro registra o clarão como se tivesse vindo pelo canal ordinário, e parece ao homem que ele viu um clarão externo a si mesmo.

O cérebro instintivamente refere a impressão que recebe à fonte da qual tais impressões sempre vieram até então. É como se tocássemos um fio telegráfico em um ponto intermediário e enviássemos uma mensagem dali; o operador em cada extremidade suporia que a mensagem veio do operador na outra; não lhes ocorreria que os sinais que sempre haviam vindo da outra estação agora eram causados em um ponto intermediário.

(Página 165)

Os Fenômenos

Começamos agora a vislumbrar o método pelo qual os fenômenos mesméricos são produzidos.

Essa aura nervosa ou éter nervoso é o intermediário, por um lado, entre a vontade e a ação física, e, por outro, entre as impressões recebidas no plano físico e a mente que as aceita e analisa.

Assim, quando o mesmerista substitui sua própria aura nervosa pela do sujeito, ele pode controlar tanto as ações quanto as sensações de seu paciente. Os nervos que normalmente transmitem mensagens do próprio cérebro do homem agora as trazem de um cérebro diferente; mas os músculos, recebendo sua mensagem através do canal habitual, obedecem-na sem hesitação, e assim o homem pode ser levado a realizar todos os tipos de ações tolas e incongruentes.

Por outro lado, uma vez que a recepção e tradução de todas as impressões externas dependem dessa aura nervosa, quando ela está sob controle estranho, qualquer ilusão pode ser transmitida ao ego não desenvolvido e, portanto, sem discernimento.

Lembro-me de ter visto um bom exemplo disso na Birmânia.

Nosso presidente-fundador, o Coronel H.S. Olcott, é um bom mesmerista, e eu o vi tentar muitos experimentos interessantes.

Recordo que, em um caso, ele colocou em estado mesmérico um criado nativo que não falava inglês.

O homem parecia como de costume, e não estava em nenhum tipo óbvio de transe; contudo, quanto às impressões, estava absolutamente sob o controle da vontade do Coronel.

Nosso presidente perguntou (em inglês) que ilusão deveria ser produzida, e alguém sugeriu que uma linha de fogo fosse vista em certa parte do quarto.

O Coronel fez um passe forte na direção indicada, criando assim uma vigorosa forma-pensamento; então o criado foi chamado e instruído a andar pelo quarto.

Ele (página 166) moveu-se com bastante naturalidade até alcançar a linha imaginária, quando manifestou sintomas de grande surpresa e terror, e exclamou que havia um incêndio no caminho, e que não podia passar.

Em outro caso, o Coronel traçou uma linha imaginária no chão e quis que o criado fosse incapaz de passar por cima dela — o homem, naturalmente, não estava presente.

O criado foi então chamado por seu amo, e veio rapidamente como de costume; mas quando alcançou a linha imaginária, tropeçou e quase caiu, e ao se recuperar declarou que devia estar enfeitiçado, pois algo segurava seus pés, de modo que não podia se mover.

E embora fizesse vários esforços, evidentemente era incapaz de cruzar aquela linha imaginária, embora estivesse muito confuso e assustado por se encontrar em um dilema tão incompreensível.

Já vi muitos casos como esse, e penso que eles nos mostram imediatamente quão perigoso esse poder poderia se tornar nas mãos de um homem sem escrúpulos.

Esse criado parecia normal, e ninguém poderia supor que estivesse em alguma condição incomum; contudo, estava inteiramente sob delusão; portanto, poderia facilmente ter sido levado a ações tolas ou mesmo criminosas sob a influência de alguma outra delusão imposta.

Experimentos têm mostrado que, em tais casos, a ação pode ser adiada — que uma pessoa pode ser impressionada a fazer certa coisa, digamos às três horas de amanhã, e então despertada da influência mesmérica.

Mas às três horas da tarde de amanhã, um impulso súbito e incontrolável se apoderará dele para fazer aquela coisa, e na grande maioria dos casos ele imediatamente passará a fazê-la. Incontrolável é talvez uma palavra forte demais, pois nenhum impulso é realmente assim; mas esse pensamento que surgirá no homem não se distingue de forma alguma de um pensamento ou impulso próprio, e a maioria dos homens não raciocina muito sobre seus impulsos, nem (Página 167) faz grande esforço para pesá-los e governá-los.

Se o ato ordenado fosse imoral, um sujeito bom e puro ficaria muito horrorizado, e surgiria uma luta, que poderia terminar em submissão ao impulso ou em vitória sobre ele. Lamento dizer que alguns experimentos inescrupulosos desse tipo foram tentados em Paris — experimentos que eu consideraria imorais e injustificáveis.

Seus resultados mostraram que há casos em que a virtude inata é forte o bastante para triunfar até mesmo sobre a tentativa mais determinada de compelir alguém a violar sua consciência; mas na maioria dos casos a tentação prevaleceu.

Vê-se, portanto, quão necessário é que todo mesmerista seja bom e puro de coração, pois ele poderia facilmente ser tentado a abusar de um poder tão terrível.

Uma Palavra de Advertência

Por essa razão, entre outras, não é bom se intrometer no mesmerismo ou brincar com ele. Todas as forças psíquicas são distintamente ferramentas afiadas para a pessoa inexperiente, e todos os que se dedicam à investigação de qualquer uma delas farão bem em se preparar por meio de um estudo exaustivo dos resultados alcançados por seus predecessores, pois é somente quando armado de conhecimento e protegido pela pureza de intenção e pelo desapego que o neófito pode ter certeza de segurança.

Todas essas coisas — mesmerismo, espiritualismo, telepatia, et id genus omne — devem ser encaradas com seriedade e cientificamente, se forem encaradas de alguma forma.

Como o Sr. Stead observa a respeito de estudos semelhantes: "Se você não pode ou não quer examinar o assunto seriamente, é mil vezes melhor deixá-lo de lado.

Não é sensato que um rapaz fique brincando perto de uma serra circular.

Qualquer pessoa com um conhecimento superficial de química pode fabricar dinamite, mas a experimentação indiscriminada com explosivos de alta potência tem mais probabilidade de resultar em explosão do que em proveito.

E se (Página 168) você se sentir inclinado a entrar nisso "pela diversão da coisa", todo investigador sério tem apenas uma palavra a dizer, e é: "não faça!"

Não há necessidade, no entanto, de que o membro pacífico do público em geral ande com medo de que correntes horripilantes e estranhas de influência mesmérica sejam derramadas sobre ele de direções inesperadas.

É bastante fácil para qualquer pessoa comum resistir a qualquer esforço da parte de outro para agir sobre ela dessa maneira, e em todos os casos terríveis de que ouvimos falar, onde alguma vítima de vontade fraca é usada como ferramenta nas mãos de um vilão inescrupuloso, podemos ter certeza de que houve uma longa série de experimentos anteriores, aos quais a vítima voluntariamente se submeteu, antes que esse controle nefasto fosse tão firmemente estabelecido.

É somente nos romances que um olhar do homem mau e audacioso reduz a infeliz heroína a uma submissão absoluta.

Na vida real, aqueles que são altruístas e determinados não precisam temer.

Em estreita conexão com o mesmerismo está o estudo dos vários tipos de clarividência que podem ser desenvolvidos sob sua influência; mas dediquei várias conferências recentemente à clarividência, então estou propositalmente omitindo referência especial a esse assunto agora.

A conexão é simplesmente que, antes que as faculdades superiores possam ser empregadas, as inferiores devem ser controladas, e como muitas pessoas ainda não aprenderam a fazer isso por si mesmas, é somente quando alguma repressão externa é aplicada que seus sentidos internos têm qualquer oportunidade de ação.

Mas em todos os casos é melhor para o homem administrar seus próprios assuntos e esperar pelos poderes psíquicos até que possa obtê-los naturalmente no curso de sua evolução, sem precisar da aplicação de força externa para ajudá-lo a conquistar sua própria natureza inferior.

O desenvolvimento natural e constante é sempre o mais seguro e o melhor; e o caráter é em todos os (Página 169) casos o primeiro ponto ao qual o treinamento deve ser aplicado.

Que ele eduque seu coração, para que seja puro e verdadeiro; e seu intelecto, para que seja equilibrado pelo senso comum e pela razão; assim estará pronto para a faculdade psíquica e o poder mesmérico quando eles vierem a ele, e como antigamente, permanece verdadeiro: "Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas." (Página 171)

CAPÍTULO VII

TELEPATIA E CURA MENTAL

Comecemos por definir o significado de nossos termos.

O termo telepatia deriva de duas palavras gregas, e seu significado literal é "sentir à distância", mas atualmente é usado quase como sinônimo de transferência de pensamento, podendo ser considerado como abrangendo qualquer transferência de uma imagem, um pensamento ou uma sensação de uma pessoa para outra por meios não físicos – meios desconhecidos da ciência comum.

A palavra "cura pela mente" traz seu significado na própria face – a menos que, de fato, se inverta a ordem das palavras; ela não significa uma cura para uma mente doente, mas a cura de males físicos pelo uso da mente, ou pelo menos por meios distintamente não físicos.

Vemos, portanto, que ambos os assuntos estão intimamente ligados à influência e ao poder do pensamento, e a compreensão deles dependerá, em grande parte, do perfeito entendimento dessas últimas questões.

Passemos alguns minutos, então, a considerar exatamente como pensamos.

Para nós, o pensamento parece um processo instantâneo; temos um provérbio: "rápido como o pensamento". Contudo, por mais rápido que seja, é mais complicado do que supomos.

Nesse aspecto, assemelha-se ao processo pelo qual a sensação chega ao cérebro a partir das diferentes partes do corpo.

Também costumamos considerá-lo quase instantâneo, mas a ciência nos assegura que não é assim na realidade.

Quando, por exemplo, pegamos algo quente demais, rapidamente o soltamos; no entanto, nesse momento de tempo, duas transações distintas ocorreram.

Os nervos da mão (página 172) telegrafaram, por assim dizer, ao cérebro a mensagem: "Este objeto está quente demais", e o cérebro enviou de volta a resposta: "Então solte-o", e é somente em resposta a essa ordem que a mão relaxa e o objeto é liberado.

A velocidade com que essas mensagens viajam foi medida por estudiosos da física, de modo que o tempo ocupado é perceptível por seus instrumentos, embora para nós pareça indistinguível.

Como Pensamos

Um processo análogo ocorre toda vez que pensamos, embora neste caso seja necessária a visão clarividente para observar o que acontece.

Para quem possui a visão do plano mental, o pensamento é distinguível em sua formação como uma vibração da matéria do corpo mental do pensador.

Observa-se então que, por essa vibração, outra é suscitada – uma vibração uma oitava abaixo, por assim dizer, na matéria mais grosseira do corpo astral do pensador, e a partir dessa, por sua vez, as partículas etéricas do cérebro do homem são afetadas, e através delas, finalmente, a matéria cinzenta mais densa é posta em ação.

Todos esses passos sucessivos devem ser dados antes que um pensamento possa ser traduzido em ação no plano físico; pode-se dizer que o pensamento tem de passar por dois planos inteiros e por parte de um terceiro antes de poder produzir efeito aqui embaixo.

Devo descrever-vos como isso aparece do ponto de vista clarividente, para que possais ter uma imagem mental nítida diante de vós.

Cada célula do cérebro físico — cada partícula de sua matéria, até — tem sua correspondente e interpenetrante matéria astral; e por trás (ou melhor, dentro) dela, tem também a matéria mental, ainda mais sutil.

O cérebro é uma massa cúbica, mas, para os propósitos de nosso exame, suponhamos que pudesse ser estendido sobre uma superfície, de modo que (página 173) tivesse apenas a espessura de uma partícula.

Suponhamos ainda que a matéria astral e mental correspondente a ele pudesse também ser disposta em camadas de maneira semelhante, a camada astral um pouco acima da física, e a mental um pouco acima da astral, por sua vez.

Então teríamos três camadas de matéria de diferentes graus de densidade, todas correspondendo umas às outras, mas não unidas de modo algum, exceto que aqui e ali existissem fios de comunicação entre as partículas físicas e astrais, e que continuassem para cima, até a matéria mental.

Isso representaria razoavelmente a condição das coisas existente no cérebro do homem comum.

No adepto, o homem aperfeiçoado, cada partícula tem seu próprio fio, e há plena comunicação em todas as partes do cérebro igualmente; mas o homem comum tem atualmente apenas muito poucos desses canais de comunicação abertos.

Ora, sabemos que o cérebro está mapeado em certas áreas, cada uma correspondendo a um certo conjunto de qualidades.

No homem perfeito, todas essas qualidades estão plenamente desenvolvidas, pois os fios pertencentes a todas elas estão ativos; mas no homem comum, a grande maioria dos fios está ainda inativa, ou mal formada, e assim as qualidades correspondentes a eles estão adormecidas em seu cérebro.

Podemos imaginar esses fios como tubos, através dos quais o verdadeiro homem interior tem de enviar seus pensamentos ao seu cérebro físico.

No homem desenvolvido, cada pensamento possui seu próprio canal apropriado, através do qual pode descer diretamente à matéria correspondentemente adequada no cérebro físico; mas no homem comum muitos desses canais ainda não estão abertos, e assim o pensamento que deveria fluir através deles precisa percorrer um longo desvio, por assim dizer – deve encontrar sua expressão através de outros canais inadequados, deslocando-se lateralmente pelo cérebro de matéria mental até encontrar um caminho (página 174) para baixo, passando eventualmente por um tubo de modo algum adequado a ele, e então, quando alcança o nível físico, tendo que se mover lateralmente novamente no físico antes de encontrar as partículas físicas capazes de expressá-lo. Vemos imediatamente quão desajeitada e tosca essa expressão indireta provavelmente será, e assim compreendemos por que algumas pessoas não têm compreensão alguma de matemática, ou nenhum gosto por música ou arte, conforme o caso. A razão é que, na parte do cérebro dedicada àquela qualidade específica, as comunicações ainda não foram abertas, de modo que todo pensamento relacionado àquele assunto precisa passar por canais inadequados; o cérebro ainda não está em pleno funcionamento e, portanto, o pensamento não pode trabalhar livremente em todas as direções.

O cérebro físico é uma massa sólida, e os cérebros astral e mental o interpenetram, de modo que as camadas e tubos não existem realmente; mas, não obstante, o símbolo é preciso ao descrever a falta de comunicação entre as partículas mental, astral e física.

Imagine para si mesmo o que acontece quando trocamos ideias aqui no plano físico.

Eu formulo um pensamento, mas antes que ele possa alcançá-lo, deve passar da minha mente através da matéria astral do meu cérebro até o físico, e ser traduzido em fala ou escrita.

Então ele apela a você, seja através das ondas de ar que atingem o tímpano do seu ouvido, seja através da luz refletida aos seus olhos a partir da página impressa; a ideia entra no cérebro físico, mas mesmo assim precisa subir através do astral até o mental antes de alcançar o verdadeiro homem interior, revertendo assim o processo que ocorreu no meu cérebro quando enviei esse pensamento.

Mais uma vez, vedes que este é um método laborioso — que a mensagem tem de percorrer um longo caminho; (Página 175) e inevitavelmente ocorrer-vos-á perguntar se esta rota circunvoluta é realmente necessária — se não é possível tomar um atalho, interceptar o fio telegráfico em algum ponto intermediário.

Uma vez que o ponto de partida e o término estão ambos no plano mental, uma vez que tanto na subida como na descida a mensagem deve passar pelos níveis astral e etérico, não haveria comunicação possível em qualquer desses pontos, sem prolongar o processo pela descida ao físico?

Três Tipos de Telepatia

Existe tal possibilidade; na verdade, existem três dessas possibilidades; e é precisamente isso que se entende por telepatia.

Podemos, sob circunstâncias favoráveis, estabelecer uma comunicação direta entre dois corpos mentais, entre dois corpos astrais, ou entre dois cérebros etéricos; e isso nos dá três variedades de telepatia.

Comecemos pela mais baixa.

Se eu pensar intensamente em qualquer forma concreta simples em meu cérebro físico, eu faço essa forma em matéria etérica, de modo que ela possa ser vista por um clarividente; mas no esforço de fazer essa imagem, eu emito ondas etéricas ao meu redor, como as ondas que irradiam do ponto onde uma pedra cai em um lago.

Quando essas ondas atingem outro cérebro etérico, tendem a reproduzir nele a mesma imagem.

Não é a imagem em si que é emitida, mas um conjunto de vibrações que reproduzirá a imagem.

Não é como um tubo de fala, através do qual a própria voz passa, e poderia ser ouvida como voz em qualquer ponto de sua jornada.

Assemelha-se antes a um telefone, no qual não é a voz em si que é transmitida, mas uma série de vibrações elétricas geradas pela voz, que, ao entrarem no receptor, são transmutadas novamente nos sons dessa voz.

Se cortardes o fio do telefone e ouvirdes (Página 176) na extremidade dele sem um receptor, nada ouvireis, pois as vibrações não são o som, mas sob condições adequadas elas reproduzirão o som.

Exatamente dessa maneira, uma forma simples pode ser prontamente transferida de um cérebro para outro.

É um experimento que pode ser facilmente tentado, se duas pessoas estiverem suficientemente interessadas em dar-se a um pouco de trabalho com ele. Uma delas teria de pensar intensamente em alguma forma geométrica simples, como uma cruz, por exemplo, ou um triângulo, enquanto a outra teria de sentar-se calmamente e observar que ideias se formavam em sua mente.

Em vários casos, tal esforço seria bem-sucedido na segunda ou terceira tentativa, embora, naturalmente, algumas pessoas sejam mais sensíveis do que outras, e algumas pessoas possam formar imagens mais nítidas do que outras.

Neste caso, descemos ao estado etérico da matéria, de modo que estamos a apenas um passo do método comum de fala ou escrita; na verdade, o que fizemos é muito semelhante à telegrafia sem fio de Marconi.

Vejamos se a mesma coisa pode ser efetuada um estágio antes, no nível astral.

Não apenas pode ser feita, como está sendo constantemente feita ao nosso redor, embora não a notemos. O corpo astral é o veículo da emoção e da paixão, como vimos em palestras anteriores, de modo que o que é transmitido de uma pessoa a outra nesse nível será uma impressão de natureza passional ou emocional.

Observem isso por si mesmos na vida familiar.

Quando uma pessoa está em estado de profunda depressão, verificar-se-á que outros ao seu redor tendem a ser afetados da mesma maneira.

Se uma pessoa está especialmente irritadiça, logo se observará que outros, por sua vez, tornam-se menos serenos e mais facilmente afetados do que o habitual.

Isso significa que qualquer pessoa que ceda a uma forte onda de sentimento de qualquer espécie está irradiando uma certa taxa de vibração astral que tende a reproduzir aquele (Página 177) estado de sentimento nos outros, à medida que incide sobre seus corpos astrais.

O caso em que isso é importante acima de todos os outros é com relação aos mortos, pois eles vivem inteiramente no veículo astral e, portanto, são mais sensíveis a essas ondas de emoção do que os vivos, que estão até certo ponto protegidos pela densidade e pela obscuridade de seus corpos físicos.

Assim, se um homem egoisticamente cede a uma dor descontrolada pelos mortos, ele frequentemente causa ao seu amigo falecido a mais aguda e profunda depressão.

Por outro lado, se ele pensa em seu amigo com amor e um sincero desejo por seu progresso, pode ajudar em vez de atrapalhar, porque esses sentimentos também se reproduzirão fielmente no corpo astral do homem morto.

Este é um caso de telepatia real, ou "sentir à distância".

Agora avancemos mais um estágio e vejamos se não é possível que o pensamento seja comunicado diretamente de mente a mente em seu próprio nível, sem descer sequer ao plano astral.

Isso também pode ser feito, e com frequência o é, mas, como regra geral, é um meio de comunicação apenas para as almas mais elevadas.

Aquele que é altamente desenvolvido pode assim lançar suas ideias através do espaço com literalmente a velocidade do pensamento, mas para homens comuns, por enquanto, tal poder é raro.

No entanto, às vezes isso existe onde há uma simpatia incomumente estreita entre duas pessoas, e estou certo de que, quando a humanidade evoluir mais, este será nosso método comum de comunicação.

Já é empregado pelos grandes Mestres de Sabedoria na instrução de seus discípulos, e dessa maneira eles podem transmitir com facilidade as ideias mais complicadas.

Temos diante de nós, então, esses três tipos de telepatia, todos consistindo simplesmente na transmissão de vibrações em seus respectivos níveis — passíveis, talvez, de serem confundidos pelo observador superficial, mas prontamente distinguíveis (página 178) pelo clarividente treinado.

De modo menor, podemos encontrar evidência de um ou outro deles quase diariamente, pois observamos com frequência casos em que algum amigo está pensando simultaneamente nas mesmas linhas que nós — pensando, talvez, sobre um assunto que não ocorreu a nenhum de nós por meses antes.

Cura Mental

Vemos imediatamente quão intimamente associada está a telepatia com a cura mental, que visa transferir pensamentos bons e fortes do operador para o paciente.

Encontramos vários tipos de cura mental, diferindo consideravelmente em seus ensinamentos, e chamando-se ciência cristã, ciência mental, cura pela mente, etc., mas todos concordam em se esforçar para produzir curas físicas por meios não físicos.

Parece haver uma vaga opinião geral em circulação de que a Teosofia não se opõe a nenhuma forma de fé; ao contrário, ela aponta o que há de bom em cada uma delas, enfatiza e explica, e assim as combina todas em um todo harmonioso.

Ela se opõe apenas ao mal-entendido e ao mau uso do dogma ou da prática; busca, não atacar essas religiões múltiplas, mas compreendê-las inteligentemente e selecionar delas imparcialmente tudo o que nelas há de belo e verdadeiro.

Nossa crença é que é um erro grave pessoas religiosas discutirem por ninharias como fazem. Nos princípios amplos do certo e do errado, estão todos de acordo; todos concordam que o homem deve deixar o inferior e buscar o superior; que se unam, então, para converter o resto do mundo a essa parcela de fé religiosa, e deixem a discussão de detalhes sem importância até que essa grande tarefa seja cumprida.

Isso nos parece uma sugestão (Página 179) do mais puro senso comum; contudo, quão poucos podem ser induzidos a ouvi-la por um momento!

Assim, nós que estudamos a Teosofia não somos de modo algum contrários à cura pela mente, embora haja algumas vezes coisas relacionadas a ela às quais fazemos objeção.

Sua ideia principal é grandiosa — a do poder do pensamento.

Não é de forma alguma uma concepção nova, pois as antigas religiões sempre a ensinaram; vocês a encontrarão, por exemplo, claramente estabelecida no primeiro capítulo daquele nobre livro budista, o Dhammapada, uma bela tradução do qual, feita por Sir Edwin Arnold, foi citada em minha palestra sobre o Budismo.

Reivindicar para os praticantes da cura pela mente o crédito de terem descoberto o poder do pensamento é um erro e demonstra uma triste ignorância do ensinamento das grandes fés orientais; mas é verdade que eles estão fazendo muitas pessoas neste país vê-lo agora pela primeira vez.

Por isso, então, devemos-lhes agradecimentos, pois estão elevando algumas pessoas do materialismo e abrindo seus olhos para algo mais elevado e mais racional; e isso é uma coisa grandiosa a se fazer, pois, uma vez feito, o avanço posterior torna-se possível.

Toda honra a eles por sua parte neste trabalho de elevar o pensamento da época; e embora haja pontos em seus esquemas que possamos criticar, nunca esqueçamos que eles têm isso sempre a seu crédito.

Permitam-me mencionar brevemente primeiro certos dogmas deles com os quais não posso concordar, e tirá-los do nosso caminho, para que depois possamos voltar à tarefa mais agradável de expor as ideias com as quais nos encontramos em sintonia.

Algumas Objeções a Ela

Primeiro, nunca fui capaz de ver por que um processo médico deveria ser erigido em religião; poder-se-ia igualmente fazer uma religião da homeopatia ou da hidropatia.

Assim (Página 180), àqueles que trabalham sobre uma base mental tão insatisfatória, eu ofereceria o magnífico sistema de filosofia que encontrarão na Teosofia — um esquema que lhes dará alimento para o pensamento e lhes fornecerá uma teoria racional do universo.

Uma das principais escolas de cura mental nega por completo a existência da matéria — uma que se autodenomina Ciência Cristã, embora seja difícil ver com que fundamentos tal nome foi assumido, pois negar a existência da matéria não é nem cristão nem científico.

Certamente não pode ser o último, pois é somente a matéria que a ciência pode conhecer, e todos os seus experimentos são conduzidos por seu intermédio.

E essa doutrina da não existência das coisas materiais é enfaticamente não cristã, mas pagã, pois é o ensinamento de um dos mais antigos sistemas orientais.

Há uma grande verdade por trás dela, se for devidamente compreendida.

Toda manifestação provém do Absoluto, e presumivelmente tudo um dia retornará a Ele.

Toda manifestação, portanto, é impermanente e, do ponto de vista da eternidade, pode ser considerada fugaz e momentânea, e dificilmente digna de ser levada em conta.

Ainda assim, dizer que ela não existe parece enganoso, pois na verdade ela é tanto uma das manifestações do Logos quanto o é aquele espírito que é seu outro polo.

O Senhor Buda disse que há duas coisas que são eternas, akasa e nirvana; e o contexto parece nos mostrar que ele se refere ao que agora chamamos de matéria e força.

Nisso a ciência moderna concorda com ele; e parece-me que é tanto mais verdadeiro quanto mais seguro reconhecer que, enquanto a manifestação existe, cada tipo de matéria é real em seu próprio plano.

É verdade que, enquanto estamos no plano físico, somente a matéria física é real para nós, e a matéria astral e mental permanece invisível aos sentidos inferiores, enquanto quando elevamos nossa consciência aos planos superiores (página 181) essa condição das coisas se inverte; mas é o foco da nossa consciência que mudou, não a manifestação do Logos.

Assim, embora reconheçamos plenamente que as coisas invisíveis são as mais importantes, preferimos ainda considerar a matéria como real para nós enquanto estivermos em seu nível.

Parece pouco sensato primeiro negar a existência do corpo e depois apontar uma melhora em sua condição como resultado da negação de sua existência; pois como se pode curar aquilo que não existe?

Inclino-me a crer que essa negação da matéria é provavelmente, em essência, uma reação contra a antiga e horrível teoria de um diabo pessoal.

Nossos amigos sentem intuitivamente que a ideia de um mal imposto sobre nós de fora é um absurdo, pois cada homem faz seu próprio destino de bem e de mal para si mesmo; então dizem que, na verdade, não há mal senão aquele que nós criamos — tudo é subjetivo; e então, como constantemente se veem lutando contra a matéria e suas qualidades, cometem o velho erro de identificar a matéria com o mal, e assim chegam à conclusão de que realmente não existe matéria.

É estranho ver assim a teoria do Bispo Berkeley reaparecer em meio a circunstâncias tão diferentes, e nos vemos lembrados da observação de Swift sobre ele: "Se Berkeley diz que não há matéria, então certamente não importa o que ele diz!"

Mas o ponto em todas essas teorias ao qual me sinto obrigado a objetar é a ideia de assegurar riqueza por influência indevida; aí devo, com toda ênfase, discordar completamente.

Mesmo pedir dinheiro pelo uso do poder mental na cura de doenças me parece indesejável; usar o poder mental para extraí-lo ilegitimamente de outros é uma degradação e prostituição do conhecimento superior, que deveria ser mantido sagrado para o trabalho altruísta.

Aquele que buscaria riqueza por meio do esforço mental deveria fazê-lo apenas por canais legítimos (página 182), e sua tentativa deveria ser antes de limitar seus desejos do que aumentar suas posses, pois somente esse é o caminho da verdadeira sabedoria.

E, no entanto — conheço o valor da fé forte e da afirmação tão bem quanto qualquer homem, mas a verdade me proíbe de negar que um corpo possa jamais estar com saúde debilitada.

O homem verdadeiro, o ego, a alma, não está doente, e se a negação for entendida nesse sentido, não há objeção a ela. Mas não é geralmente entendida nesse sentido; a declaração é claramente feita de que o modo de se livrar de uma dor de cabeça é afirmar "não tenho dor de cabeça"; uma afirmação que pode vir a se tornar verdadeira, mas é indubitavelmente falsa quando é feita pela primeira vez.

Não nego que, ao persistir em fazer essa declaração falsa, um efeito possa ser produzido; mas me parece que a falsidade é um mal muito mais sério do que a dor de cabeça ou a dor de dente que ela eventualmente remove.

Qualquer homem pode legitimamente dizer "Minha cabeça ou meu dente não doerá", e ao assim opor sua vontade persistentemente à dor, ele pode provavelmente afastá-la.

Tal esforço de vontade é legítimo e até admirável; a concentração de pensamento que ele implica é um exercício esplêndido para qualquer homem.

Desta forma, pode-se muito bem pensar contra qualquer doença e, assim, repelir seus ataques, evitando-a por completo se ela ainda não se instalou no corpo, e aumentando grandemente o efeito das medidas curativas se ela já o possui.

O poder do pensamento é enorme e dificilmente pode ser exagerado.

**O Poder do Pensamento**

Isso nos leva àquela parte do ensinamento dos cientistas mentais que podemos aprovar sem reservas.

Quando eles exortam seus clientes a pensar sempre pensamentos alegres, a lançar para longe de si o medo e a preocupação, a (Página 183) evitar assiduamente aquela crítica que sempre intensifica o mal para o qual chama a atenção — em tudo isso, e em muito mais que dizem, não temos por eles senão elogios incondicionais.

Em um de seus livros, encontro este conselho dado a um homem: "Se você sentir depressão ou pensamentos tristes se aproximando, pense em algo para se alegrar, rápido! Você não tem tempo a perder com depressão!" E quanto ao medo, repetidamente eles nos asseguram que a maioria das coisas temidas nunca acontece, e que, quer aconteçam ou não, dobramos nosso sofrimento se suportamos a dor de temê-las antecipadamente — tudo isso é doutrina verdadeira e saudável.

Mesmo isso, porém, pode tender a alguns extremos.

Li a afirmação de que, se os homens não tivessem medo de doenças, não haveria infecção, o que, naturalmente, não é verdade, pois os homens frequentemente contraem doenças quando não sabem de sua existência.

Mas o que é verdadeiro é que o homem que não teme uma doença tem muito menos probabilidade de contraí-la; embora mesmo assim isso possa lhe acontecer, se estiver excessivamente cansado, se as forças do corpo não estiverem ativas o suficiente para repelir a infecção.

Portanto, nessa forma exagerada, a observação é falsa, embora tenha uma base de verdade.

A percepção do efeito do pensamento sobre os outros e, portanto, de nossa responsabilidade por nossos pensamentos, também é admirável.

Encontramo-la constantemente na literatura de ciência mental da melhor classe.

Por exemplo, afirma-se que "falsas concepções de Deus, e especialmente a crença em punição vingativa eterna, fazem sentir sua influência malsã em cada tecido do corpo" — uma verdade surpreendente e, no entanto, óbvia, que seria bom que muitas pessoas que se consideram ortodoxas levassem seriamente a sério.

Novamente, encontro-os perguntando como podemos nos admirar de que haja entre nós tamanho aumento de todas as doenças, especialmente as doenças nervosas, quando por muitas gerações (página 184) toda a atmosfera tem estado plena de pensamento crônico, medroso e egoísta sobre questões religiosas — carregada de formas-pensamento de homens aterrorizados sobre um Deus irado, um diabo com chifres e cauda farpada, as chamas do inferno e outras abomináveis invenções da doentia imaginação eclesiástica — uma ideia com muita verdade nela, como qualquer Teosofista prontamente perceberá.

Concordo também de coração com o ditame que encontro nossos amigos estabelecendo: que se um homem se considera um pobre verme e um miserável pecador, cheio de depravação natural, essa é exatamente a maneira de torná-lo uma entidade desagradável dessa descrição! Se ele se despreza para começar, é provável que se torne desprezível; se ele se respeita, é provável que permaneça digno de respeito.

Se ele se realiza como uma centelha da Vida Divina, e assim sabe que pode todas as coisas por meio do Cristo interno, que o fortalece, é muito menos provável que seja varrido pela tempestade da paixão, muito menos provável que ceda à tentação insistente.

É verdade que todos somos pecadores, mas certamente não precisamos agravar nossas ofensas sendo miseráveis pecadores; e quanto aos vermes, passamos pelo estágio reptiliano há muitos éons, e não há nada a ganhar falando tolices! É muito mais provável que sejamos encorajados a abandonar o pecado e a ascender à virtude se compreendermos nosso verdadeiro lugar e dignidade, do que se acreditarmos, ou professarmos acreditar, em uma falsidade degradante.

O "miserável pecador" pode se desculpar refugiando-se em lugares-comuns sobre a fragilidade humana: a centelha Divina sabe que ele próprio é responsável por suas ações e por sua própria evolução, e que tem o poder de se tornar o que quiser.

Uma passagem que encontrei ao ler livros sobre cura mental gostaria de citar textualmente, pois é uma ideia belíssima, e tão inteiramente Teosófica quanto (página 185) se tivesse vindo diretamente de um de nossos próprios mestres.

"Amasse amor no pão que você assa; envolva força e coragem no pacote que você amarra para a mulher de rosto cansado; entregue confiança e franqueza com a moeda que você paga ao homem de olhos desconfiados." Singelo na expressão, mas adorável no pensamento; verdadeiramente o conceito teosófico de que cada conexão é uma oportunidade, e de que todo homem que encontramos, mesmo casualmente, é uma pessoa a ser ajudada.

Assim, o estudante da Boa Lei segue pela vida distribuindo bênçãos ao seu redor, fazendo o bem discretamente em toda parte, embora muitas vezes os beneficiários da bênção e da ajuda possam não ter ideia de onde ela vem.

Em tais beneficências, todo homem pode ter sua parte, o mais pobre tanto quanto o mais rico; todos os que podem pensar podem emitir pensamentos bondosos e úteis, e nenhum desses pensamentos jamais falhou, nem pode falhar enquanto as leis do universo se mantiverem.

Você pode não ver o resultado, mas o resultado está lá, e você não sabe que fruto pode brotar dessa pequena semente que você planta ao passar pelo seu caminho de paz e amor.

Como os Homens São Curados

Voltando dos princípios gerais para as curas definitivas que são frequentemente efetuadas, resta-nos considerar como elas são produzidas.

Existem vários métodos, e creio que podemos dividi-los em quatro classes, embora haja também uma quinta à qual devo me referir — uma à parte de quaisquer curas comuns como as que temos de considerar, mas, no entanto, necessária para aperfeiçoar nossa lista.

1. O primeiro tipo é aquele que nega a existência da matéria e da doença, e visa curar a pessoa simplesmente fazendo-a acreditar que está bem.

Uma quantidade considerável de influência hipnótica é frequentemente exercida no (Página 186) decorrer de tais esforços, e a esperança é que, se o homem realmente acreditar que está bem, a mente, agindo sobre o corpo (que, no entanto, não existe), o forçará a entrar em harmonia consigo mesma, e assim produzirá uma cura.

Eles nunca podem chamar isso de cura, noto, mas sempre empregam a palavra escriturística "cura" (healing), de modo a lançar uma espécie de glamour religioso sobre a transação, e sugerir uma comparação com os milagres descritos na Bíblia.

Parece-me melhor despojar o assunto de todos os termos incomuns que tendem a obscurecer a questão e lançar um véu de sentimento sobre o fato simples.

Dizemos que o médico comum nos "cura" com sua habilidade; por que então devemos abandonar a palavra latina pela saxônica quando falamos do resultado de uma cura mental?

2. A segunda classe sustenta (com toda razão) que toda doença significa algum tipo de desarmonia no sistema, e o esforço de seus membros é restaurar a harmonia, geralmente pela transferência de vibrações de si mesmos.

O operador procura colocar-se em uma condição de intensa harmonia, paz e devoção, e então projetar essa influência sobre o paciente, ou envolvê-lo nela. O praticante, seja deste tipo ou do primeiro, não se importa em saber o que há de errado com o paciente; a natureza da doença não tem importância para ele; em qualquer caso, deve ser desarmonia, e ele pode curá-la estabelecendo a harmonia novamente.

3. A terceira classe simplesmente derrama vitalidade no paciente, novamente em grande parte independentemente da natureza da doença, embora alguns praticantes deste método façam uma tentativa de direcionar sua corrente para a parte do corpo que está afetada.

Muitas pessoas que gozam de forte saúde irradiam uma grande quantidade de vitalidade de forma bastante inconsciente, e os doentes ou fracos sentem-se melhor e mais fortes pela simples presença delas.

(Página 187)

4. Nossa quarta classe adota o que podemos chamar, em comparação com as outras, de um método científico.

Eles procuram descobrir exatamente o que está errado, visualizam mentalmente o órgão doente e então o imaginam como deveria ser. A ideia aqui é que o pensamento forte moldará a matéria etérica na forma desejada, e isso ajudará a natureza a construir novos tecidos muito mais rapidamente do que seria possível de outra forma.

É óbvio que este plano exige mais conhecimento do que os outros; para ter sucesso nessa linha, a pessoa deve ter pelo menos algum conhecimento de anatomia e alguma noção de fisiologia.

Tipos de Doença

Não há dúvida de que todos esses métodos às vezes têm sucesso, e teriam mais frequência e plenitude se fossem empregados de forma mais científica e com maior conhecimento do corpo humano e de sua estrutura.

Considere as várias classes de doenças às quais estamos sujeitos.

Os curistas mentais têm razão em sua afirmação de que muitas delas procedem da falta de harmonia, e é principalmente a falta de harmonia entre as partículas etéricas e físicas em alguma parte do corpo — na maioria das vezes, no cérebro.

Devemos lembrar que há uma estreita conexão entre o corpo mental, o corpo astral e o duplo etérico no homem, de modo que está bem dentro dos limites da possibilidade influenciar um deles através dos outros.

Todas as doenças nervosas implicam uma condição desarmônica e perturbada do duplo etérico; e isso parece muitas vezes ser a causa de doenças dos órgãos digestivos, de dores de cabeça e insônia.

Em todos esses casos, o que é necessário é, antes de tudo, aquietar as vibrações apressadas e irregulares, e dar à Natureza uma oportunidade de reafirmar-se.

O pensamento forte, calmo e persistente do (Página 188) operador tende a produzir tal efeito, e deixa o paciente serenado e fortalecido.

O sistema de derramar vitalidade também é útil, se não for de um tipo que agrave os sintomas inquietos.

Em quase qualquer tipo de doença, tirar a mente do paciente dela, acalmá-lo e encorajá-lo é um longo caminho rumo à cura.

Muitos médicos das escolas mais antigas fazem muito mais bem pela confiança que inspiram do que por seus remédios.

Mas há uma classe de males humanos em que há uma lesão ou ferida definida.

A cura pela mente pode fazer algo com isso? O primeiro e o segundo tipos parecem menos eficazes aqui, embora sempre aquietar e encorajar o sofredor aumente sua chance de recuperação.

O terceiro plano também auxiliaria a Natureza a se recuperar; mas tais casos são certamente melhor atendidos pelo quarto método, segundo o qual se faz um esforço para imaginar a parte ferida como deveria estar em saúde, e assim auxiliar a construção de novo tecido.

Isso é, naturalmente, apenas um expediente para apressar o processo natural de recuperação.

Em outra classe de doença humana, temos a presença de algum veneno no sangue, e em ainda outra, a doença é na realidade a história de vida de um micróbio, como é o caso na maioria das doenças infecciosas.

Provavelmente seria difícil lidar diretamente com essas pela cura mental, mas isso poderia auxiliar dando ao paciente maior força para permitir que os guardiões naturais de seu corpo expulsem o invasor estrangeiro.

Ouvi dizer que o chefe da menos científica das escolas de cura pela mente emitiu recentemente uma ordem de que casos infecciosos não deveriam ser tratados por seus seguidores.

Se as pessoas apenas olhassem para este assunto científica e razoavelmente, e considerassem exatamente o que o tratamento mental pode fazer, e o que não se pode esperar que alcance, poupar-se-iam de muito problema e perigo.

Se pudessem entender que em muitos casos ele é um valioso (Página 189) auxiliar ao tratamento comum, mas de modo algum é sempre competente para tomar seu lugar, poderia ser mais bem-sucedido do que é agora.

É óbvio que diferentes doenças devem ser enfrentadas com métodos diferentes, e que, embora possa existir uma cura universal para todos os males físicos, nenhum desses planos que descrevi a contém. O forte centro de pensamento tranquilo estabelecido no segundo deles não pode deixar de fazer bem a qualquer homem; contudo, considerado como uma tentativa de curar um ferimento, digamos, é um grande desperdício de força; é como despejar um balde de água sobre um homem para lavar o seu dedo! E, sendo, no que diz respeito ao ferimento, um esforço cego, nunca poderá ser tão concentrado quanto um feito segundo o quarto plano, que forma um molde para auxiliar a Natureza a reparar o dano.

É provável que um grande Adepto pudesse acelerar tanto o processo natural a ponto de causar uma reconstrução quase instantânea dos tecidos que foram feridos ou destruídos; mas o pensamento de um homem comum nunca é forte o suficiente para isso, e ele só pode esperar produzir seu resultado por ação contínua.

Um Grande Princípio de Cura

5. No entanto, existe outro método sobre o qual sabemos muito pouco, embora vestígios inconfundíveis dele apareçam ocasionalmente.

Ninguém que ouça ou leia sobre ele precisa presumir arrogantemente que possui o poder que ele confere; embora, infelizmente, a presunção humana seja tão grande que cada um certamente o fará imediatamente! Nós, que temos de palestrar ou escrever, sabemos disso muito bem.

Se nós, por causa de nossos estudantes sinceros e como um encorajamento para eles, fizermos um esforço para descrever a visão do plano búdico, imediatamente alguém que talvez tenha tido apenas um vislumbre de algo (página 190) astral virá correndo para dizer que suas experiências no plano búdico foram muito mais grandiosas do que aquelas que o infeliz palestrante ou escritor se esforçou por descrever! Mas, apesar dessa certeza de que a informação será mal aplicada, devo ainda mencionar que existe outro método ligado ao grande princípio de cura na Natureza — com uma poderosa força vital de algum nível muito mais elevado, que pode, sob certas circunstâncias e por um tempo limitado, ser derramada através de um homem sem seu conhecimento detalhado ou volição.

Nesse caso, o seu próprio toque curará, e parece não haver limite para o poder empregado, e nenhuma doença que não possa ser curada por ele. Sabemos pouco disso, digo, exceto que está entre os poderes de uma das grandes ordens dos devas, ou anjos, como nossos amigos ortodoxos os chamariam.

O poder indubitavelmente existe, mas além disso podemos dizer muito pouco.

Nosso próprio presidente, Coronel Olcott, possuía uma vez esse maravilhoso poder por um tempo, e efetuou algumas curas extraordinárias enquanto o manteve consigo.

Disso emerge este grande fato: que através dessa ideia de cura pela mente, muitos milhares foram induzidos a aceitar a realidade do poder do pensamento e a compreender que existe algo além deste mero mundo de matéria física; e isso, ao menos, é uma coisa boa, e uma realização pela qual a cura pela mente pode razoavelmente ser parabenizada.

Mas será bom para aqueles que a estudam aprender que ela deve ser usada apenas para propósitos altruístas, e tentar elevar seu pensamento a algo mais elevado do que a mera cura do corpo físico.

Pois aqueles que não têm pensamento além disso descobrirão em breve que sua ocupação desapareceu, já que, conforme o mundo evolui, certamente chegará um tempo em que a doença não existirá mais, porque o homem finalmente terá aprendido a viver de maneira razoável, pura e saudável.

Mas se eles voltarem seu conhecimento (página 191) para um uso mais elevado, e deixarem o físico pelo mental, a cura do corpo pelo desenvolvimento da alma, poderão ser uma força poderosa para a evolução do mundo.

Que pensem menos no corpo e mais na vida e na alma; menos em remover a enfermidade física e mais em remover a ignorância e o preconceito; menos na saúde corporal e no ganho pessoal, e mais no amor, na compaixão e na fraternidade; assim seu movimento de rápida expansão se tornará um poder para o bem que dificilmente pode ser superestimado, uma bênção mundial que perdurará e florescerá através das eras que ainda estão por vir.

(página 193)

CAPÍTULO VIII

MAGIA: BRANCA E NEGRA

A definição do dicionário para a palavra magia é "o uso de meios sobrenaturais para produzir resultados préternaturais". Na Teosofia, não podemos concordar com essa definição, porque sustentamos que nada é sobrenatural, e que por mais incomum ou curioso que qualquer fenômeno possa ser, ele acontece em obediência às leis da natureza.

Reconhecemos que até agora o homem conhece muito poucas dessas leis e que, consequentemente, muitas coisas podem acontecer que ele não consegue explicar; mas, raciocinando por analogia, bem como por observação direta, sentimos certeza de que as próprias leis são imutáveis, e que sempre que algo para nós inexplicável é produzido, a inexplicabilidade se deve à nossa ignorância das leis e não a qualquer contravenção delas.

Nosso conhecimento é ainda tão limitado em muitos aspectos que não é surpreendente que de tempos em tempos entremos em contato com ocorrências que não compreendemos.

Conhecemos apenas uma pequena fração do nosso mundo — justamente esta parte física mais inferior; e mesmo com ela nosso conhecimento é apenas muito parcial e superficial.

Mas o homem comum é profundamente inconsciente da extensão de sua ignorância; e fica tão chocado e surpreso com qualquer manifestação que transcenda os limites de sua experiência infinitesimal.

Com relação a esta questão da magia, muitas pessoas expressam exatamente a mesma dúvida que têm quanto à telepatia, cura mental, mesmerismo, aparições e espiritualismo; elas dizem: "Existe alguma coisa como magia?" Sempre se encontram aqueles que negam a possibilidade (página 194) de qualquer coisa que esteja fora de sua própria experiência; "Nunca vimos essas coisas", dizem eles, "e consequentemente sabemos que todos os que as viram são ou tolos ou velhacos, ou fraudulentos ou iludidos." É inútil desperdiçar argumentos com pessoas cujas mentes estão em condição tão subdesenvolvida; é melhor deixá-las tranquilas para que se revirem na autossatisfação de sua própria ignorância invencível.

Elas estão na posição do rei africano que ficou indignado com a descarada falsidade do viajante que afirmava que em outras terras a água às vezes se tornava sólida.

O gelo estava fora de sua experiência, e assim ele negava a possibilidade de sua existência; e exatamente no mesmo nível mental estão as pessoas que ignorantemente ridicularizam o que não compreendem.

Se desejarmos tentar melhorar a definição dada no dicionário, podemos descrever a magia como o emprego de forças ainda não reconhecidas para produzir resultados visíveis.

Em muitos casos, é o controle de tais forças pela vontade humana.

Mais uma vez, há pessoas que negam que quaisquer forças possam ser diretamente controladas pela vontade, e mais uma vez é simplesmente uma questão de quanto a pessoa por acaso sabe.

O homem inexperiente mas presunçoso negará qualquer coisa e tudo; o homem mais sábio que estudou aprendeu a ser mais cauteloso, e assim, em vez de afirmação ociosa, ele substitui a indagação e a investigação.

A adoção desta última atitude com relação à produção de resultados físicos por forças ainda não reconhecidas mostra rapidamente que há muitos exemplos disso, e que podem ser conectados por gradações fáceis com fenômenos que são comuns e prontamente aceitos.

Se aceitarmos alguma definição de magia como a sugerida acima, surge a questão adicional: o que se entende pelos adjetivos branca e negra? Nesta associação, são simplesmente sinônimos de bom e mau (Página 195). As forças não reconhecidas da natureza não são mais boas ou más em si mesmas do que as forças reconhecidas da eletricidade, do vapor ou da pólvora.

Todas essas coisas podem ser empregadas para o bem ou para o mal, de acordo com a atitude mental do homem que as emprega.

Assim como a pólvora pode ser utilmente aplicada para remover as rochas que obstruem o canal na entrada de um porto, ou maliciosamente usada pela pessoa mal-intencionada para destruir a casa de seu inimigo, também as forças mágicas não reconhecidas podem ser empregadas por homens perversos para fins egoístas, ou pelo homem bom para ajudar e proteger seus semelhantes.

As Forças Não Reconhecidas da Natureza

Vejamos quais são algumas dessas forças não reconhecidas.

Quando falei sobre o mesmerismo, mencionei a posse, por todo homem, de uma certa quantidade de éter nervoso, e também de um fluido vital que fluía juntamente com esse éter nervoso.

Ambos, lembrar-se-ão, podem ser projetados sob a direção da vontade humana; assim, dessa maneira, o próprio mesmerismo pode reivindicar ser um tipo modificado de magia, pois nele essas forças invisíveis são manipuladas pela vontade humana, e resultados visíveis são produzidos por isso.

A condição do sujeito pode ser afetada em extensão considerável; não apenas todos os tipos de ilusões podem ser produzidos, mas os membros podem ser tornados rígidos e insensíveis à dor, e o homem pode ser lançado em um transe profundo.

De modo que podemos reivindicar essas duas forças de vitalidade e éter nervoso entre aquelas que podem ser empregadas e têm sido empregadas pela magia.

Outra grande força, usada talvez mais frequentemente do que qualquer outra, é a da essência elemental.

É-me impossível desviar-me do meu assunto para descrever plenamente o que é a essência elemental, pois (Página 196) isso exigiria uma palestra inteira.

Posso, portanto, dar apenas um ligeiro esboço dela agora, e devo remeter meus ouvintes aos Manuais e livros-texto teosóficos para informação mais completa.

Ao falar sobre reencarnação e sobre os diversos corpos do homem, expliquei como o ego, ao descer para um novo nascimento, atrai para si matéria dos vários planos, a fim de que, mais tarde, possa construir veículos correspondentes a cada um desses níveis.

Deve-se lembrar que toda essa matéria — tanto aquela que o ego atrai para si para seu próprio uso, quanto o grande mar de matéria que jaz exteriormente — não é morta, mas instintiva de vida.

Essa vida é essencialmente divina, pois não há vida que não seja divina; mas está, não obstante, num estágio de evolução muito anterior ao da vida que se manifesta na humanidade ou nos reinos animal e vegetal.

Devemos então reconhecer que toda essa matéria está carregada de uma espécie de essência viva; e o estudo do ocultismo nos capacita a distinguir entre as muitas variedades dessa estranha essência viva e a aprender que esses diferentes tipos podem ser empregados para diferentes propósitos na magia.

A matéria mais sutil e mais plástica dos planos astral e mental é prontamente sensível à ação da vontade humana; de modo que a força viva contida nessa essência — ainda que seja força divina — está, em grande medida, à disposição de qualquer um que aprenda a usá-la.

Às vezes lemos na literatura teosófica sobre "elementais". A rigor, a palavra se aplica apenas a criações temporárias construídas pela ação da vontade humana a partir dessa essência viva e da matéria na qual ela inere.

Tais entidades são impermanentes e não são, em nenhum sentido da palavra, seres em evolução.

A essência divina da qual são compostas tem uma evolução própria como essência; mas a entidade temporariamente construída a partir dela (Página 197) não tem evolução como entidade, nem poder de reencarnar.

Pode-se descrevê-la, de fato, como consistindo, por enquanto, de um corpo e uma alma, pois a matéria e sua essência viva constituem um veículo, que é energizado pela forma-pensamento como uma entidade separada, cuja duração dependerá da força do pensamento-força que é seu princípio animador e a mantém coesa.

Assim que essa força se esvai, seu corpo de matéria astral ou mental (infundido com essência elemental) se desintegra, e a essência e a matéria retornam à atmosfera circundante da qual foram extraídas.

Essas formas-pensamento, contudo, podem ser capazes e enérgicas enquanto duram; e seu emprego pela vontade do pensador é um dos atos de magia mais comuns e, ao mesmo tempo, um dos mais eficazes.

Aqueles que desejarem maiores informações sobre este importante assunto encontrá-las-ão num livro chamado *Thought-Forms*, em cuja produção tive a honra de colaborar com a Sra. Besant.

Recomendo a todos os interessados nessa matéria que estudem esse livro cuidadosamente, pois as ilustrações coloridas ali apresentadas ajudarão o investigador a compreender prontamente a maneira como as forças atuam.

**Espíritos da Natureza**

Temos também de considerar outra classe de entidades que são frequentemente empregadas na magia; e desta vez estamos lidando com seres reais e em evolução — não meramente com criações temporárias.

Existe todo um reino de vida vívida que não pertence à nossa linha humana de evolução, mas corre paralelamente a ela, e utiliza este mesmo mundo em que vivemos.

Essa evolução contém todos os graus de inteligências, desde entidades no nível, a esse respeito, do nosso reino animal, até outras que se igualam ou (pág. 198) até mesmo superam em muito o mais alto poder intelectual do homem.

Essa evolução normalmente não desce à parte inferior do plano físico; seus membros, de qualquer modo, nunca assumem corpos físicos densos como os nossos.

A maioria daqueles com quem temos de lidar possui apenas corpos astrais, embora muitos tipos desçam à parte etérica do plano físico e se revistam de sua matéria, aproximando-se assim do limite da visão humana comum.

Há vastas hostes desses seres, e uma quantidade quase infinita de tipos, classes e tribos entre eles.

De modo geral, podemos dividi-los em duas grandes classes: (a) espíritos da natureza ou fadas, e (b) anjos ou, como são chamados no Oriente, devas.

Essa segunda classe começa num nível correspondente ao humano, mas alcança alturas muito além daquelas que a humanidade até agora tocou, de modo que sua conexão com a magia é naturalmente do tipo mais leve, e pertence unicamente a uma modalidade especial dela, da qual falaremos oportunamente.

Os espíritos da natureza têm sido chamados por muitos nomes diferentes em diferentes períodos e em vários países.

Lemos sobre eles como fadas, elfos, duendes, kobolds, silfos, gnomos, salamandras, ondinas, brownies, ou "boas gentes", e tradições de seu aparecimento ocasional existem em todos os países sob o céu.

Eles geralmente foram supostos como meras criações da superstição popular, e é agora sem dúvida verdade que muito se tem dito sobre eles que não resistirá à investigação científica.

No entanto, é verdade que tal evolução existe, e que seus membros ocasionalmente, embora raramente, se manifestam à visão humana.

Normalmente não têm qualquer conexão com a humanidade, e a maioria deles antes evita do que busca a presença do homem, pois suas emoções mal reguladas, paixões e desejos são para eles uma fonte (Página 199) de grande perturbação e agudo desconforto; contudo, de vez em quando, circunstâncias excepcionais trouxeram alguns deles a contato direto e até mesmo amizade com o homem.

Naturalmente, possuem poderes e métodos próprios, e às vezes podem ser induzidos ou compelidos a colocar esses poderes a serviço do estudante de ocultismo.

Embora ainda não sejam individualizados, e nesse aspecto correspondam antes ao reino animal do que à humanidade, sua inteligência é em muitos casos igual à do homem.

Parecem, no entanto, ter geralmente pouco senso de responsabilidade, e a vontade é geralmente um tanto menos desenvolvida neles do que no homem comum.

Podem, portanto, ser prontamente dominados pelo exercício de poderes mesméricos, e podem então ser empregados de muitas maneiras para executar a vontade do mago.

Há muitos propósitos para os quais podem ser utilizados, e enquanto as tarefas que lhes são prescritas estiverem ao seu alcance, serão fiel e seguramente executadas.

Tudo isso sem dúvida parecerá estranho e novo para muitas mentes, mas qualquer estudante do oculto confirmará o que aqui disse quanto à existência desses seres e à possibilidade de que possam ser usados de várias maneiras por quem os compreende.

Eu mesmo fiz um estudo considerável deste assunto, e deveis portanto perdoar-me se pareço falar positivamente e como algo natural sobre muitas coisas que para a maioria de vós podem parecer questionáveis ou além do conhecimento humano.

Dar um relato completo de todas as muitas classes desses espíritos da natureza seria escrever uma espécie de história natural do plano astral, e para descrevê-los a todos precisaríamos de muitos volumes extensos.

No entanto, o homem que deseja lidar completa e eficientemente com o que se chama de magia prática não deve apenas ser capaz de (Página 200) reconhecer imediatamente à vista todas essas milhares de variedades, mas também deve saber quais delas podem ser mais adequadamente empregadas para qualquer trabalho especial que tenha em mãos.

As forças a que me referi são as mais comumente empregadas nos tipos ordinários de magia; mas, além delas, o estudante ocultista tem à sua disposição reservas stupendas de poder de vários tipos ainda não conhecidos pelo mundo científico.

Há uma pressão etérica, assim como há uma pressão atmosférica; mas o homem de ciência nunca será capaz de usar essa força, ou mesmo de demonstrar sua existência, até que possa inventar alguma substância que seja impermeável ao éter, de modo que possa construir uma câmara ou vaso do qual o éter possa ser bombeado, precisamente como o ar é retirado do reservatório de uma bomba de vácuo.

Existem métodos conhecidos pela ciência oculta pelos quais isso pode ser feito, e assim essa tremenda pressão etérica pode ser refreada e utilizada.

Há também poderosas correntes elétricas e magnéticas, que podem ser canalizadas e trazidas ao plano físico por aquele que as compreende; e uma enorme quantidade de energia pode ser liberada pelo mero processo de transferir matéria de uma condição para outra.

Assim, por diferentes linhas, há muita energia disponível na natureza para um homem que saiba como usá-la; e tudo isso é controlável pela vontade humana desenvolvida.

Outro ponto que não deve ser esquecido é que, ao nosso redor, estão aqueles a quem chamamos de mortos — aqueles que apenas recentemente deixaram seus corpos físicos e ainda estão pairando próximos a nós em seus veículos astrais.

Eles também podem ser influenciados, seja mesmericamente ou por persuasão, assim como aqueles que ainda estão na carne podem; e muitos casos surgem em que temos de levar em conta sua ação.

(Página 201) e a extensão em que seu controle das forças astrais pode ser posto em jogo.

A Magia do Comando

Podemos dividir utilmente o assunto da magia em duas grandes partes, de acordo com os métodos que emprega; e podemos caracterizá-las respectivamente como métodos de evocação e de invocação — de comando e de súplica.

Consideremos o primeiro primeiro.

Embora possa agir através de muitos canais diferentes, a única grande força por trás de toda a magia desse primeiro tipo é a vontade humana.

Com isso, a vitalidade e o éter nervoso podem ser direcionados; por isso, todas as variedades de essência elemental podem ser guiadas, selecionadas e moldadas em formas, simples ou complexas, conforme o trabalho que têm a realizar. Por isso, o controle magnético pode ser obtido sobre qualquer uma das classes de espíritos da natureza; por isso também, as vontades de outros, vivos ou mortos, podem ser tão dominadas que se tornam praticamente meras ferramentas nas mãos do mago.

De fato, é quase impossível fixar os limites do poder da vontade humana quando devidamente direcionada; ela é tão mais abrangente do que o homem comum jamais supõe, que os resultados obtidos por seu intermédio lhe parecem surpreendentes e sobrenaturais.

O estudo deste assunto leva gradualmente à compreensão do que significava a observação de que, se a fé fosse apenas suficiente, poderia remover montanhas e lançá-las ao mar; e mesmo essa descrição oriental parece pouco exagerada quando se examinam casos autenticados do que foi alcançado por esse maravilhoso poder.

Mas, para que essa poderosa engrenagem da vontade funcione eficazmente, o mago deve possuir perfeita confiança.

Isso é obtido de várias maneiras, conforme (Página 202) o tipo ao qual pertence a mente do mago.

De modo geral, podemos classificar os magos sob quatro categorias, embora em um relato detalhado devêssemos levar em consideração as várias subdivisões e modificações dessas.

Quatro Tipos de Magos

Primeiro, há um tipo de homem que possui uma determinação tão férrea e tamanha confiança em si mesmo e em seu poder de dominar a natureza pela mera força de seu espírito, que alcança seu objetivo unicamente pela insistência determinada nele. Ele percebe que sua vontade é a verdadeira força motriz, e não sabe nem se importa por quais agências intermediárias essa vontade possa operar.

Ele é descuidado, e pode até ser ignorante, quanto aos métodos; mas atropela toda oposição, por assim dizer, pela força bruta, e faz aquilo que deseja simplesmente através da tremenda força de sua inalterável convicção de que pode ser feito e será feito.

Tais magos são poucos, mas existem; e, se não forem benevolamente inclinados, podem ser formidáveis.

Eles não precisam de um método para obter confiança; parecem possuí-la em sua própria natureza.

O segundo tipo de homem adquire a confiança necessária para comandar a partir do seu conhecimento profundo do assunto com o qual lida e das forças que emprega.

Ele pode ser chamado de mago científico, pois fez um estudo minucioso da física astral e mental, conhece tudo sobre os diferentes tipos de essência elemental e as diversas classes de espíritos da natureza, de modo que em cada caso é capaz de usar os meios mais apropriados para obter o resultado que deseja com o menor esforço ou dificuldade possível.

Sua familiaridade completa com o assunto faz com que se sinta totalmente à vontade com ele e capaz de lidar com quaisquer emergências que possam surgir.

(Página 203)

Muitos desses homens também estudam os tempos e estações apropriados, bem como as forças apropriadas; sabem em que momento será mais fácil produzir um determinado resultado, e assim obtêm o que precisam com o menor gasto possível.

Toda essa questão de tempos e estações e de influências periódicas que crescem e diminuem é de extremo interesse; mas nos levaria longe demais da linha principal do nosso assunto se fôssemos mergulhar nela esta noite, pois significaria abrir e revisar toda a questão da astrologia.

Basta-nos, por enquanto, compreender que há tempos em que, e condições sob as quais, certos esforços podem ser feitos mais facilmente, de modo que o que só pode ser feito com extrema dificuldade (ou talvez nem mesmo possa ser feito) em um momento, pode ser realizado com relativa facilidade em outro.

Isso obviamente implica a existência de influências, planetárias ou de outra natureza, que atuam sobre e dentro do nosso mundo; e o conhecimento exaustivo de todas elas e de suas combinações é naturalmente necessário para o trabalhador em magia prática.

Outro tipo de mago alcança a confiança necessária para assegurar a obediência aos seus comandos por meio da fé ou da devoção.

Ele tem uma fé tão firme no seu líder ou divindade, que está certo de que qualquer comando pronunciado em nome dele deve ser imediatamente obedecido.

Não estou falando apenas de resultados que possam ser produzidos nos planos mental e astral, mas também de efeitos físicos definidos e visíveis.

Basta lermos a história eclesiástica para encontrarmos muitos casos de curas maravilhosas de doenças físicas que foram produzidas exatamente através de tais esforços determinados de fé como aqueles aos quais me referi.

Os relatos autenticados das (página 204) curas em Lourdes, na França, e em Knock, na Irlanda, mostram que muitos males, mesmo de tipo puramente físico, cedem diante de uma fé determinada.

Qualquer homem que tenha obtido, dessa maneira, confiança suficiente descobrirá que sua vontade será por isso tão fortalecida que ele será capaz de produzir os resultados mais inesperados.

Deve-se lembrar que é a sua própria vontade que traz o resultado satisfatório — não a intervenção do Ser Superior cujo nome ele pronuncia.

Sei que muitos cristãos sinceros atribuem a cura diretamente a Cristo, em cujo nome ela é realizada; mas um estudo mais profundo do assunto lhes mostrará que curas precisamente semelhantes e igualmente surpreendentes foram realizadas por homens igualmente sinceros em nome do Senhor Buda, ou em nome de Mitra, ou de qualquer outro dos grandes líderes e mestres do mundo.

É a fé tremenda que dá o poder; em quê ou em quem se deposita a fé importa pouco.

A pessoa superior cujo nome é invocado pode nem sequer estar ciente da circunstância; embora, se ela souber e de alguma forma interferir, podemos ter certeza de que será antes pelo fortalecimento da fé e da vontade de seu seguidor do que por qualquer esforço especial de seu próprio poder.

Ainda outra classe consiste naqueles que creem na eficácia de certas cerimônias, ou de certas fórmulas.

Para eles e em suas mãos, as fórmulas ou as cerimônias são eficazes; mas, na maioria dos casos, não é por causa de qualquer virtude inerente que as formas possuem, mas por causa da confiança do mago de que, ao empregá-las, o resultado deve inevitavelmente sobrevir.

Se lermos qualquer relato do trabalho dos alquimistas medievais, veremos que eles tinham muitas dessas cerimônias e que a maioria deles se consideraria incapaz de obter seus resultados sem os (página 205) arredores aos quais estavam acostumados.

Eles usavam vestes de vários tipos, empregavam figuras cabalísticas, agitavam ao redor de suas cabeças espadas magnetizadas para propósitos definidos; queimavam suas drogas ou aspergiam suas essências.

É verdade que algumas dessas coisas também têm uma certa potência própria, mas, na maioria dos casos, tudo o que fazem é dar confiança ao executante e, assim, fortalecer sua vontade até o ponto necessário.

Ele foi informado por seus mestres ou suas escrituras que todos esses aparatos são eficazes e que, ao usá-los, certamente terá sucesso.

O homem, por si só, talvez pudesse vacilar e sentir medo; mas com as vestes, os símbolos e as armas adequados, sente-se tão seguro do êxito que avança diretamente, sem hesitação.

Três Tipos de Força

Um mago de qualquer um desses tipos tem à sua disposição as forças de três níveis — o mental, o astral e o etérico físico.

Todas elas podem ser dirigidas pela vontade humana, e, ao usar qualquer uma delas, o homem necessariamente põe em movimento vibrações nas outras também.

O mago científico escolherá entre essas, e assim poupará a si mesmo muito esforço.

Por outras linhas de magia que não a científica, é provável que o praticante quase sempre ponha em movimento muito mais força e poder, e empregue muito mais energia do que é de todo necessário para o objetivo em questão; no entanto, ele também alcança seus resultados, ainda que seja ao custo de perturbação supérflua e fadiga desnecessária para si mesmo.

Sem entrar em detalhes, não é difícil ver como um homem que compreende fará a escolha de seus materiais.

Se ele lida com um homem de grande desenvolvimento intelectual e receptividade aguçada no plano (Página 206) mental, será obviamente melhor abordá-lo nesse nível por meio de pensamento definido, ou através dos serviços dos espíritos da natureza que ali habitam.

Se, por outro lado, lida com um homem cuja vida é intensamente emocional, provavelmente achará mais fácil impressioná-lo por essa linha e, consequentemente, enviará formas-pensamento veladas em matéria astral, ou empregará os serviços do tipo inferior de espíritos da natureza cujos corpos são construídos da matéria desse plano.

Se lida com um homem de tipo grosseiramente material, alguém que mergulhou profundamente no plano físico, parece razoável empregar as forças e inteligências que se revestem mais prontamente de matéria física.

Mas em todos esses casos, igualmente, a força motriz por trás é a vontade indomável do operador, através de quaisquer canais que ele considere melhores para trabalhar.

Magia na Religião

Encontramos abundantes vestígios dessa magia de comando nas cerimônias ligadas a quase todas as religiões do mundo.

Você deve se lembrar de que, ao falar do Budismo, chamei sua atenção para uma manifestação dele que aparece em conexão com o canto do Pirit; e você verá muitos sinais disso nos relatos que nos são dados sobre as antigas cerimônias egípcias.

De fato, temos relíquias óbvias disso muito mais próximas de nós do que isso, pois elas aparecem repetidamente no ritual da igreja cristã.

Por exemplo, é bem conhecido dos estudantes de ocultismo prático que, de todas as substâncias, a água é uma das mais facilmente carregadas de força.

Ela pode ser prontamente induzida a absorver influência de qualquer tipo particular e a reter essa influência sem deterioração por um longo período de tempo.

Vemos uma analogia a isso no plano físico, pois sabemos que a água que ficou descoberta em um quarto (Página 207) durante a noite é imprópria para beber, porque absorveu em si todas as impurezas eliminadas durante esse período pelos corpos físicos dos dorminhocos.

Verifica-se que ela pode ser igualmente facilmente carregada com magnetismo de qualquer tipo, seja para propósitos bons ou malignos, como se verá pelos relatos de vários experimentos mesméricos em quase todos os livros dedicados a esse assunto.

Esse fato parece ter sido bem conhecido daqueles que estabeleceram as cerimônias da igreja cristã primitiva.

Ainda nos dias de hoje, ao entrar em qualquer igreja católica romana, encontramos na porta uma pia de água benta, como é chamada; e será observado que os fiéis, ao entrarem, molham os dedos nessa água e fazem com ela o sinal da cruz em suas testas ou peitos.

Se interrogados quanto ao significado disso, eles nos dizem que é para afastar deles maus pensamentos ou sentimentos e para purificá-los para os serviços dos quais estão prestes a participar.

O protestante ignorante e presunçoso provavelmente considera isso um exemplo de superstição degradante; mas, como de costume, isso mostra apenas que ele nada sabe sobre o assunto.

Qualquer estudante de ocultismo que se der ao trabalho de ler no livro de orações romano o ofício para a confecção da água benta não pode deixar de ficar impressionado com o fato de que é, sem dúvida, uma cerimônia mágica definida.

Para o propósito da consagração da água benta, o sacerdote é instruído a tomar água limpa e sal limpo; e ele começa as operações por um processo que é chamado de exorcismo do sal e da água.

Ele tem que recitar certas fórmulas que, embora por cortesia sejam chamadas de orações, são na realidade adjurações do tipo mais forte.

Ele adjura o sal e a água sucessivamente na linguagem mais determinada, ordenando que todas as influências malignas sejam expulsas deles e que eles sejam deixados (página 208) limpos e puros; e enquanto faz isso, é instruído repetidamente a impor a mão sobre os recipientes que contêm o sal e a água.

Evidentemente, toda a cerimônia é mesmérica, e a influência indesejável, se houver alguma, seria expulsa no momento em que o padre terminasse suas devoções.

Então, tendo purificado seus elementos — tendo removido deles qualquer coisa que pudesse ser indesejável — ele procede a magnetizá-los vigorosamente para um propósito particular e definido.

Mais uma vez ele recita adjurações determinadas, e é instruído repetidamente, enquanto usa essas palavras poderosas, a fazer sobre os elementos com a mão o sinal da cruz, mantendo firmemente em mente a vontade de abençoar.

Isso significa que ele está saturando tanto o sal quanto a água com sua própria influência magnética, especialmente carregada e dirigida por sua vontade para esse propósito claramente definido — que onde quer que essa água seja aspergida, todo pensamento ou sentimento maligno seja expulso diante dela. Então, com um esforço final, ele lança o sal na água em forma de cruz, e a cerimônia está concluída.

Não tenho dúvida de que há muitos padres que simplesmente passam por todo esse cerimonial como uma questão de forma, sem colocar qualquer pensamento ou força nisso. Mas também sei que há muitos outros para quem o ritual é intensamente real — homens que realmente lançam força e vigor em seus procedimentos; e naturalmente, no caso deles, a água é fortemente carregada com magnetismo poderoso e um resultado magnético decidido é produzido.

Eu mesmo realizei frequentemente essa pequena cerimônia como padre do que era chamado de seção ritualista da Igreja da Inglaterra; e posso testemunhar que, no meu próprio caso, eu acreditava vividamente na eficácia da operação, e não tenho dúvida, portanto, de que a água que magnetizei era realmente eficaz para os fins pretendidos.

Qualquer pessoa que seja (página 209) sensível psiquicamente pode facilmente perceber, ao entrar em uma igreja católica e apenas tocar a água benta com a mão, se o padre que a consagrou colocou ou não força e pensamento reais em seu trabalho.

Água consagrada é empregada em muitas outras cerimônias da Igreja.

No batismo, por exemplo, a água é cuidadosamente abençoada antes de a cerimônia começar; mesmo nos serviços da Igreja da Inglaterra ainda se encontram vestígios disso, pois o sacerdote ora para que a água seja santificada para a mística lavagem do pecado, e ao proferir essas palavras é costume ele fazer o sinal da cruz sobre a água que será utilizada.

Lembrar-se-á também que igrejas e cemitérios são consagrados ou separados para um propósito santo, e ali também se faz um esforço especial para espalhar boas influências, de modo que todos os que entrarem sejam assim levados a um estado de espírito adequado e devocional.

Quase todo objeto utilizado no serviço da Igreja foi originalmente consagrado da mesma maneira; os vasos do altar, as vestes do sacerdote, os sinos, o incenso — todos tinham seus serviços especiais de bênção.

No caso dos sinos, eles eram permeados com certas taxas de vibração e um certo tipo de magnetismo, com a ideia de que os pensamentos e sentimentos que estes sugeriam deveriam ser espalhados por onde quer que o som dos sinos viajasse — uma ideia perfeitamente científica do ponto de vista da física oculta superior.

Da mesma forma, o incenso era especialmente abençoado, a fim de que essa bênção fosse derramada onde quer que seu perfume penetrasse, e que seu aroma pudesse afastar todos os maus pensamentos ou influências da igreja em que fosse utilizado.

(Página 210)

A influência mesmérica é novamente evidente na cerimônia de ordenação de sacerdotes; pois lembrar-se-á que não apenas o bispo impõe as mãos sobre a cabeça do candidato, mas todos os sacerdotes presentes convergem suas forças sobre ele e também impõem as mãos sobre sua cabeça.

Sem dúvida, quando todos os presentes estão sinceramente empenhados, isso não é mero sinal exterior; deve transmitir de um para o outro uma forte influência de devoção e lealdade, e ajudar a confirmar a confiança do sacerdote recém-ordenado quanto aos poderes que lhe foram dados.

O estudante de ocultismo não pode deixar de ver que todos esses são manifestamente remanescentes de um tempo em que a magia prática era plenamente compreendida na Igreja.

Quase não existe uma única cerimônia entre as usadas nas Igrejas Grega, Romana ou Anglicana que não tenha por trás de si algum verdadeiro significado oculto, embora nos dias de hoje muitas pessoas participem de tais cerimônias meramente por formalidade, sem jamais pensar que possa haver algo real e substancial por trás delas.

Nos tempos antigos, as pessoas não eram apenas menos céticas, mas também menos ignorantes, e aqueles que organizavam o ritual da Igreja sabiam muito bem o que estavam fazendo.

Talismãs

Isso nos leva a considerar a questão dos talismãs.

Costumava haver uma crença universal de que uma joia ou quase qualquer objeto poderia ser carregado mesmericamente com influências boas ou más; e embora essa ideia fosse considerada nos dias modernos por muitos como mera superstição, é no entanto um fato que tal força pode ser armazenada em um objeto físico e ali permanecer por um longo período de tempo.

Um homem pode derramar seu magnetismo em tal objeto, de modo que sua taxa definida de vibração irradie dele assim como a luz irradia do sol.

A influência colocada em tal objeto pode ser boa ou má, benéfica ou prejudicial.

Em muitos casos, tal ação magnética assemelha-se (Página 211) à de um cordial — isto é, é altamente estimulante; em outros casos, é disposta com o propósito de acalmar e tranquilizar o sujeito, para que ele possa superar seus medos ou sua agitação.

Tal talismã pode ser magnetizado, por exemplo, com o objetivo de fortalecer um homem para resistir a certa tentação — digamos, a da sensualidade; e não há dúvida de que, quando devidamente carregado, exerce poderosa influência na direção pretendida.

Aqui temos a filosofia das relíquias — a verdade que está por trás da veneração amplamente difundida por elas e da crença em sua eficácia.

Cada um de nós tem suas taxas especiais de vibração mental e astral, e qualquer objeto que tenha estado em contato prolongado conosco será permeado por essas taxas de vibração e capaz de irradiá-las por sua vez, ou de comunicá-las com energia concentrada a qualquer pessoa que use o objeto ou que entre no alcance de sua ação.

Qualquer coisa, portanto, que tenha estado em contato íntimo com algum grande santo ou alguma pessoa devota carregará consigo muito de seu magnetismo individual, e tenderá a reproduzir no homem ou na mulher que a usa algo do mesmo estado de sentimento que existia naquele de quem ela proveio.

Conheci muitos casos em que tal talismã foi eficaz — em que, por exemplo, foi possível por seu intermédio acalmar e tranquilizar pessoas prostradas por doença nervosa, de modo que pudessem obter o repouso de que tanto necessitavam.

Não devemos esquecer que, em muitos casos, a fé do portador no talismã também entra em jogo e contribui com sua parcela para o efeito.

Se uma pessoa é informada de maneira impressionante por alguém em quem confia que certo talismã produzirá indubitavelmente certo resultado, sua própria expectativa firme desse resultado tende a produzi-lo (página 212); mas, independentemente da fé do homem nele, é possível que um talismã produza efeito até mesmo sobre aqueles que não sabem de sua presença.

Quando carregados por um mesmerista poderoso, certos objetos retêm o magnetismo por um longo período de tempo.

Vi no Museu Britânico amuletos gnósticos que ainda irradiam influência bastante poderosa e perceptível, embora devam ter sido magnetizados há pelo menos mil e setecentos anos; e alguns escaravelhos egípcios ainda são eficazes, mesmo sendo muito mais antigos que isso.

Naturalmente, é possível carregar um objeto para o mal, assim como para o bem; qualquer um que se der ao trabalho de ler a História da Magia de Ennemoser encontrará vários exemplos citados ali.

Encantos ou Mantras

Outro aspecto do assunto está relacionado a encantos e mantras.

São formas de palavras por meio das quais se supõe alcançar certos resultados ocultos.

Aqui também, como no caso do talismã, efeitos definidos são às vezes indubitavelmente produzidos; e, como com o talismã, esse resultado pode ser alcançado de duas maneiras, ou ambas podem contribuir para ele. Na maioria dos casos, a fórmula não faz nada além de fortalecer a vontade da pessoa que a usa e impressionar na mente do sujeito o resultado que se deseja alcançar.

A forte confiança do operador de que sua fórmula deve produzir seu efeito, e a crença do sujeito de que tal efeito será produzido, são frequentemente bastante suficientes para o propósito.

Há outro tipo de mantra, muito mais raro, em que os próprios sons produzem um efeito definido.

Cada som produz sua própria vibração, e uma sucessão ordenada de tais vibrações, seguindo-se umas às outras de acordo com (página 213) o esquema predeterminado, pode ser arranjada de modo a evocar sentimentos, emoções ou pensamentos definidos no homem.

Muitos dos mantrans sânscritos usados na Índia são dessa natureza.

Nesse caso, o encantamento é intraduzível; deve ser empregado no idioma original e deve ser corretamente pronunciado por alguém que entenda como se pretende que seja entoado.

Por outro lado, não é de modo algum necessário para o sucesso desse tipo de mantram que a pessoa que o utilize compreenda o significado das palavras, ou mesmo que os sons formem palavras inteligíveis — como se verá em alguns dos escritos gnósticos.

Fique sempre entendido que, qualquer que seja a linha pela qual o mago trabalhe, quaisquer que sejam os meios pelos quais obtenha sua confiança, as forças ao seu comando podem ser empregadas para o mal ou para o bem, conforme a intenção que esteja por trás delas.

Falamos principalmente do lado mais agradável do assunto, tratando principalmente dos casos em que a vontade do operador era empregada para ajudar; mas houve e há casos de vontade maligna, e é importante lembrarmos disso, devido ao fato de que tal vontade pode muitas vezes ser exercida inconscientemente.

Isso, porém, pertence à aplicação prática do assunto a nós mesmos, com a qual espero tratar na próxima semana, ao falar sobre o uso e o abuso dos poderes psíquicos.

Magia Invocatória

Voltemo-nos agora para o segundo tipo de magia — aquela que opera por invocação — aquela que não comanda, mas persuade.

Ver-se-á que esse tipo de magia tem à sua disposição menos recursos do que o outro.

Aqui, o suplicante nada faz; ele simplesmente implora (página 214) ou suborna alguém para fazer algo.

A forma-pensamento, portanto, não está ao seu comando, nem as várias formas de forças, como a pressão etérica ou o uso da essência elemental.

Ele se limita a obter os serviços de entidades vivas definidas, sejam humanas ou não humanas.

Esforços nessa direção são feitos com muito mais frequência do que poderíamos supor à primeira vista; pois observareis que sempre que um homem tenta produzir um resultado, obter algo para si, ou fazer com que fatos ou condições sejam modificados por meio de alguma agência fora do plano físico, ele está na realidade usando magia invocatória, embora tal nome possa nunca ter lhe passado pela mente.

Muita da oração comum feita para fins egoístas é um exemplo disso.

Falo aqui apenas daquela variedade inferior de oração à qual sozinha o nome pode ser propriamente aplicado — aquela que definitivamente pede algo.

A palavra oração deriva do sânscrito *prashna*, através do latim *precor*, e está ligada ao alemão *fragen*; de modo que seu significado original e próprio só pode ser um pedido definido.

Frequentemente as pessoas aplicam incorretamente o nome de oração ao que é, na realidade, meditação ou adoração — a contemplação do mais alto ideal conhecido pelo adorador, e o esforço de elevar sua própria mente e coração para cima, em direção àquele objeto de adoração.

Mas a mera oração comum, por ganhos definidos e frequentemente físicos, é certamente uma tentativa de atrair uma influência de planos superiores para produzir resultados visíveis, e assim se enquadra claramente em nossa definição de magia.

Acontece frequentemente que, quando duas nações estão envolvidas em uma guerra, cada uma delas ora por seu próprio sucesso e pela destruição dos exércitos opostos; e isso é claramente um esforço para alistar forças invisíveis ao seu lado.

Felizmente, contudo, essa ideia de invocar (página 215) influências externas pode ser usada tanto para fins bons quanto para fins maus, e descobrimos que muitos esforços são feitos dessa maneira para invocar do alto alguma ajuda para a alma.

Talvez o exemplo mais notável disso seja encontrado na vida do brâmane.

Toda essa vida é praticamente uma oração contínua; pois para cada um de seus atos, mesmo o menor, uma forma especial de petição é designada.

Embora muito mais elaborada e detalhada, é um tanto semelhante à forma que é dada para uso em alguns conventos católicos, onde o noviço é instruído a orar toda vez que come, para que sua alma seja nutrida com o pão da vida; toda vez que lava as mãos, a formar a aspiração de que sua alma seja mantida pura e limpa; toda vez que entra em uma igreja, a orar para que toda a sua vida seja um longo serviço; toda vez que semeia uma semente, a pensar na semente da palavra de Deus que deve ser semeada em primeiro lugar em seu próprio coração e no dos outros; e assim por diante. A vida do brâmane é precisamente semelhante, exceto que sua devoção é em maior escala e é levada a muito maior detalhe.

Ninguém pode duvidar que aquele que real e honestamente obedece a todas essas direções deve ser profunda e constantemente afetado por tal ação.

Observamos que, embora o mago invocatório seja muito mais limitado em seu campo de ação do que aquele que procede por comando, ele tem, no entanto, a escolha de várias classes de entidades às quais seu apelo pode ser dirigido.

Ele pode implorar ajuda, por exemplo, de anjos, de espíritos da natureza ou dos mortos.

Sabemos com que frequência e prontidão nossos amigos católicos romanos invocam a ajuda dos anjos da guarda que acreditam estar sempre ao seu redor.

Esse é um esforço de magia invocatória (página 216), e pode, em muitos casos, obter uma resposta definida; quer o obtenha ou não, de qualquer forma, algum resultado é produzido pela confiança do homem na eficácia de sua súplica.

Invocações Malignas

Esse é o lado bom dessa magia; mas ela também tem um lado real e seriamente maligno.

Veremos isso se manifestar com proeminência dolorosa nas cerimônias de Voodoo ou Obeah dos negros.

Nessas cerimônias, os magos se esforçam para invocar ajuda externa a fim de operar o mal no plano físico; e é inquestionável que às vezes eles obtêm um considerável grau de sucesso em seus esforços nefastos.

Vi muito disso na América do Sul e, portanto, posso pessoalmente testemunhar que resultados são produzidos ao longo dessa indesejável linha de atividade.

O mesmo pode ocasionalmente ser visto na Índia, especialmente entre as tribos das colinas.

Lá, não é incomum encontrar deuses tribais adorados, e o culto frequentemente assume a forma de sacrifícios propiciatórios, em troca dos quais a divindade tribal às vezes produz resultados no plano físico.

Lemos, por exemplo, sobre aldeias em que tudo vai bem enquanto o deus da aldeia recebe suas oferendas habituais; mas no momento em que essas refeições regulares são interrompidas, problemas imediatamente se manifestam de uma forma ou de outra.

Ouvi falar de um caso em que incêndios espontâneos irromperam nas diversas cabanas da aldeia assim que negligenciaram cuidar de sua divindade tribal da maneira habitual.

Em tais casos, há uma entidade se passando pela divindade — uma entidade que desfruta da adoração que lhe é prestada, ou encontra real prazer e proveito nos sacrifícios que são oferecidos.

(Página 217)

Notar-se-á que tais sacrifícios são geralmente de dois tipos; ou há o sacrifício de alguma criatura viva no qual sangue é derramado, ou então alimento de algum tipo (e preferencialmente alimento fresco) é queimado, para que seus vapores se elevem.

Isso implica que a divindade tribal é uma entidade de grau muito inferior, possuindo um veículo na porção etérica do plano físico — um veículo através do qual ela pode absorver esses vapores físicos e, ou extrair deles nutrição, ou experimentar prazer ao deles participar.

Pode-se tomar como regra certa que toda divindade, sob qualquer nome que se mascare, que reivindique sacrifícios de sangue ou sacrifícios queimados, é apenas um espírito da natureza de tipo baixo e brutal; pois é somente a tal entidade que tais abominações poderiam, por qualquer possibilidade, ser agradáveis.

Lembrar-se-á que nos primeiros dias da religião judaica, horríveis holocaustos dessa natureza eram frequentemente oferecidos; mas à medida que nos aproximamos da era atual e a raça judaica tomou seu lugar na civilização, tais sacrifícios foram naturalmente descontinuados.

Certamente é desnecessário insistir no fato óbvio de que nenhum ser desenvolvido de qualquer espécie, nenhum anjo ou deva, poderia por um momento exigir ou consentir em receber qualquer forma de oferenda que envolva morte e sofrimento.

Nenhuma divindade benéfica jamais se deleitou no fedor e nos vapores do sangue; e os tipos mais elevados de religião têm consistentemente evitado tais horrores.

A Magia Obscura

A característica distintiva daquele lado maligno da magia que tem sido usualmente chamado de "negro" é que seu objetivo é inteiramente egoísta.

Há muitos casos em que não é nada mais do que isso — em que seu objetivo não é fazer o mal pelo mal, mas obter para o possuidor dos poderes tudo o que ele porventura deseje no (Página 218) momento.

Muita da feitiçaria das tribos primitivas é dessa natureza, e aqui também não há dúvida de que uma certa medida de sucesso frequentemente acompanha os esforços do mago.

Eu mesmo vi instâncias disso; de fato, certa vez me dei ao trabalho de aprender um elaborado ritual dessa natureza, que, se posto em prática, teria me dado os serviços de uma entidade que se comprometia a conseguir tudo o que seu coadjutor pudesse requerer.

Não apenas lhe forneceria riqueza ilimitada, mas também executaria seus desejos com relação a seus amigos ou inimigos.

Pelo que vi em conexão com outros praticantes, sei que essas ofertas certamente poderiam ser cumpridas até limites muito altos; mas as condições exigidas eram tais que era impossível para qualquer homem de reto pensar ir adiante no assunto.

O ritual exigido era fácil de realizar, mas o acordo com a entidade teria que ser selado com sangue humano em primeiro lugar, e a criatura depois precisaria de alimento regular envolvendo o sacrifício de formas inferiores de vida.

Muito mais dessa magia existe em muitas partes do mundo do que se suspeita habitualmente.

Por outro lado, desenvolvimentos interessantes dela estão livres de tais horrores como os envolvidos no tipo mencionado.

**Magia Menor**

Não é incomum encontrar no Oriente homens que herdaram de seus pais os serviços de alguma entidade não humana, que, em consideração a um fornecimento ocasional e insignificante de alimento, realizará pequenos fenômenos de vários tipos para a pessoa à qual está especialmente ligada.

Geralmente há restrições curiosas ligadas ao pacto.

Quase invariavelmente, o parceiro humano nesse vínculo é obrigado a não dar a ninguém o nome (página 219) ou a descrição de seu coadjutor invisível; e, curiosamente, em um grande número de casos, a condição é anexada de que nenhum dinheiro, ou não mais do que um valor fixo e nominal, possa ser obtido com a ajuda do coadjutor ou aceito por qualquer exibição de seus poderes peculiares.

Lembro-me, por exemplo, de um homem que possuía tal parceiro e que foi trazido a mim enquanto eu estava no Oriente.

Nesse caso, a entidade ligada mostrava seu poder principalmente trazendo ao seu parceiro humano quaisquer objetos que pudessem ser indicados, exatamente da mesma maneira que tais coisas são frequentemente trazidas em uma sessão espírita.

Felizmente, porém, uma das estipulações que faziam parte de seu acordo era que o parceiro invisível nunca deveria ser solicitado a trazer algo que não fosse honestamente propriedade de seu amigo no plano físico; caso contrário, um sistema de roubo em grande escala teria sido fácil, e teria sido impossível rastrear ou punir os furtos.

O exemplo desse poder que me foi mostrado foi conclusivo.

Fui com o mago a uma loja de frutas e comprei uma seleção de frutas de vários tipos, e deixei-as reservadas para mim até que eu mandasse buscá-las. Tudo o que era necessário era que o mago visse as frutas, para que soubesse exatamente o que havia.

Então, dirigindo diretamente para casa com meu mago – é claro, deixando as frutas para trás na loja – perguntamos se ele seria capaz de produzir para nós os vários itens da compra em qualquer ordem que exigíssemos.

Ele parecia confiante nisso, e de fato o resultado mostrou que sua confiança em seu amigo invisível era plenamente justificada.

O homem pertencia claramente às classes mais baixas e parecia bastante inculto.

Não usava nenhuma roupa, exceto uma pequena tanga, de modo que seria impossível supor que ele tivesse de alguma forma escondido alguma fruta em seu (página 220) corpo.

Sentamo-nos em um terraço plano, com nada além do céu acima de nós, e, no entanto, cada fruta que pedíamos era imediatamente atirada entre nós, como se tivesse caído do céu.

Dessa maneira, toda a nossa compra foi devidamente entregue a nós, na ordem em que a solicitamos; e isso apesar de estarmos a uma distância de várias milhas da loja onde ela havia sido deixada.

Muitas das proezas mais inexplicáveis dos malabaristas indianos são realizadas sob algum arranjo como este.

Qualquer mágico europeu habilidoso pode enganar os olhos do homem comum e produzir resultados da natureza mais maravilhosa por métodos que são inexplicáveis para os não treinados.

No entanto, há limites definidos quanto ao que pode ser feito nessa direção; e para a produção de muitas das façanhas do prestidigitador ocidental, é necessária uma quantidade considerável de maquinário, e muitas vezes também uma posição ou disposição particular de sua plateia.

O malabarista oriental tem que trabalhar sob condições diferentes; suas apresentações geralmente são ao ar livre, sobre o pavimento de pedra de um pátio, e no meio de uma multidão excitada que o pressiona de perto por todos os lados.

Ver-se-á que, em circunstâncias como essas, muitos dos recursos de seu competidor europeu não estão disponíveis.

Sem dúvida, a maioria dos homens já ouviu falar do célebre truque da manga, no qual uma árvore cresce, ou parece crescer, de uma semente diante dos olhos dos espectadores, e até dá frutos que são distribuídos e provados.

Há também o truque da cesta, no qual uma criança é escondida sob a cesta e então aparentemente cortada em pedaços, embora, quando a cesta é levantada, descubra-se que está vazia e a criança vem correndo ilesa de trás dos espectadores.

Lemos ainda como, em alguns casos, uma corda é lançada ao ar e parece permanecer miraculosamente (página 221) suspensa, subindo o próprio mágico, e geralmente um de seus assistentes, pela corda e desaparecendo no espaço.

Agora, alguns desses feitos são manifestamente impossíveis; e, ao investigar mais de perto o assunto, descobrimos que os fenômenos descritos são produzidos por meio do que é comumente chamado de glamour — uma espécie de poder de mesmerismo em grande escala, sem os preparativos usuais de passes ou de transe.

Que é dessa maneira que alguns desses truques são realizados, eu mesmo provei por meio de várias experiências; portanto, não precisamos considerar nenhum deles sob nosso atual título de magia invocatória — embora seja provável que, em alguns casos, esse poder de glamour seja exercido não pelo conjurador em si, mas pelo parceiro invisível, que tem à sua disposição os diversos recursos do plano astral.

Muitos truques em escala menor do que os acima, no entanto, parecem ser realizados diretamente pelo coadjutor astral.

Lembro-me, por exemplo, de uma pequena experiência da qual fui testemunha e que creio ter pertencido a essa categoria.

Mais uma vez, nosso mágico usava quase nada em termos de vestimenta e, portanto, não poderia ter escondido sobre si qualquer aparato com o qual suas maravilhas pudessem ser realizadas.

Foi-me pedido que produzisse uma moeda de prata e a colocasse na palma da minha mão.

Eu a segurei em direção ao mágico, que soprou sobre ela, mas não a tocou, e então me fez sinal para voltar ao meu assento, a cerca de quinze pés de distância.

Fui então instruído a cobrir essa moeda com minha outra mão, e, ao fazê-lo, o prestidigitador começou a murmurar rapidamente algumas palavras incompreensíveis.

Imediatamente senti a sensação de algo extremamente frio inchando entre minhas mãos e forçando-as a se separarem.

Em um ou dois momentos, essa curiosa massa fria começou a se agitar entre minhas mãos, e eu as abri para ver o que havia ali.

Para meu horror, descobri que um enorme escorpião negro (página 222) havia tomado o lugar da moeda.

Instintivamente, joguei-o ao chão e, após erigir sua cauda com raiva, ele fugiu apressadamente.

Outro homem presente passou exatamente pela mesma performance, exceto que, em seu caso, ao abrir as mãos, uma pequena mas ativa serpente foi encontrada elegantemente enrolada entre elas.

Ora, isso não era de modo algum uma performance da mesma natureza que a produção de um coelho vivo a partir de uma cartola pelo prestidigitador comum; pois, neste caso, o conjurador estava a cerca de quinze pés de distância, e a moeda era obviamente uma moeda e nada mais, depois de nos termos afastado muito além de seu alcance.

O resultado poderia ter sido produzido pelo mesmo poder de *glamour* a que me referi anteriormente; mas certas circunstâncias ligadas a ele tornam isso, para mim, altamente improvável, e suspeito tratar-se de um caso de genuína substituição por alguma entidade astral.

Outro curioso pequeno caso do emprego desse tipo de magia tradicional, por um homem completamente iletrado e ignorante dos métodos pelos quais ela operava, veio ao meu conhecimento alguns anos mais tarde.

Aconteceu que eu havia recebido um ferimento bastante grave, do qual o sangue jorrava abundantemente.

Um coolie que passava arrancou apressadamente uma folha de um arbusto à beira da estrada, pressionou-a por um momento sobre o ferimento e murmurou meia dúzia de palavras, e o fluxo de sangue cessou instantaneamente.

Naturalmente, perguntei ao homem como ele havia feito aquilo, mas ele foi incapaz ou não quis dar qualquer resposta satisfatória.

Tudo o que pôde dizer foi que esse encantamento (que lhe era proibido revelar) havia sido transmitido em sua família por algumas gerações, e sua crença era a de que havia algum tipo de espírito invocado pelo encantamento que produzia o resultado desejado.

Perguntei se a folha escolhida tinha alguma parte no êxito de seu experimento, mas ele respondeu que (Página 223) qualquer folha, ou um fragmento de papel ou pano, teria funcionado igualmente bem.

Ele evidentemente acreditava que o efeito se devia inteiramente à forma das palavras empregadas; e pode ter sido que fosse a sua própria confiança nisso que permitiu à sua vontade produzir o resultado físico.

Em nenhum dos casos que descrevi havia algo de maligno ou egoísta na magia empregada, mas temo que haja muitos exemplos em que o trabalho realizado por tais meios é menos inocente.

Muitas das histórias de bruxas da época medieval, e os curiosos contos de supostos pactos com o diabo, eram provavelmente exemplos da arte negra em escala inferior.

Tudo isso pode ser paralelizado em certas partes do mundo nos dias de hoje; e os sabichões que descartam todos os relatos de tais coisas como mera fantasia supersticiosa estão, como de costume, falando daquilo que não compreendem minimamente.

Não há, contudo, necessidade de que alguém se sinta apreensivo com relação a tais práticas, ou tema que possa ser ferido dessa maneira por aqueles cuja inimizade tenha incorrido.

Sem dúvida, resultados são produzidos, por exemplo, pelos encantamentos Vodu ou Obeah entre os negros; mas raramente, de fato, os praticantes conseguem afetar o homem branco incrédulo.

Como o Mal Pode Ser Resistido

Há casos em que isso foi feito; mas deve-se lembrar que isso só pode acontecer quando o mal exterior encontra algo na vítima sobre o qual possa atuar.

O homem cuja alma é forte e altruísta não pode ser tocado por tais maquinações.

Os pensamentos malignos e as práticas ditadas pela inveja e pelo ódio podem causar dano ao longo de uma de duas linhas.

Eles podem produzir medo na vítima e, assim, lançá-la em uma condição lastimável, na qual doenças e males de muitos (Página 224) tipos podem facilmente se abater sobre ela.

O homem perfeitamente destemido tem uma capacidade muito maior de resistir a todas essas coisas, precisamente como o homem que não tem medo de doença contagiosa tem menos probabilidade de ser infectado por ela do que aquele que vive aterrorizado com ela. Qualquer clarividente que observasse as condições produzidas tanto no corpo astral quanto na parte etérica do veículo físico pelo nervosismo e pelo medo entenderia facilmente por que isso ocorre e veria que a imunidade do homem destemido é explicável por razões puramente científicas.

Outra maneira, ainda mais mortífera, pela qual tais forças podem atuar sobre uma pessoa para o mal é que elas podem suscitar dentro dela vibrações da mesma natureza que as suas próprias.

Assim, se o homem tem dentro de si as sementes da inveja, do ciúme, do ódio, da sensualidade, esses sentimentos podem ser despertados até o ponto do frenesi, e ele pode ser induzido, dessa maneira, a cometer ações que, em seus momentos mais calmos, ele contemplaria com horror.

O altruísmo, a concentração em um único ponto, a pureza de pensamento guardam um homem inteiramente de tais perigos, e, portanto, é desnecessário que qualquer homem sinta nervosismo com relação aos efeitos que outros possam produzir sobre ele.

Um perigo mais real é que nós mesmos possamos, inconscientemente, ceder a sentimentos indesejáveis com relação a outras pessoas e, assim, sem intenção especial, estejamos causando resultados malignos para elas.

Esse é um perigo muito mais iminente, e um contra o qual só podemos nos guardar cuidando para que nenhum pensamento de malícia ou raiva, de inveja ou de ciúme, seja permitido, por um instante sequer, abrigar-se em nossos corações.

Quanto ao resto, o homem que é verdadeiro e altruísta não oferece nenhuma alça para que uma influência maligna se agarre, nenhuma porta para sua entrada em seu coração.

Se sua vida e seu pensamento estiverem em harmonia com a Vontade Divina, ele pode ter certeza de que (Página 225) nenhum mago negro no mundo poderá prejudicá-lo.

Nosso perigo não está nem de longe em que sejamos feridos, mas muito mais em que, por falta de controle sobre nós mesmos, nossos próprios pensamentos e desejos, possamos às vezes causar dano aos outros.

Este lado prático do assunto, no entanto, pertence mais especialmente ao nosso tópico da próxima semana, "O Uso e Abuso dos Poderes Psíquicos". (Página 227)

CAPÍTULO IX

O USO E ABUSO DOS PODERES PSÍQUICOS

Estritamente falando, poderes psíquicos significam os poderes da alma, porque esta palavra psíquico é derivada do grego *psique*, a alma.

Mas na linguagem comum este termo é usado antes para implicar o que nós, na Teosofia, chamamos de poderes do corpo astral, ou mesmo em muitos casos aqueles pertencentes à parte etérica do corpo físico.

Falar de pessoas como "psíquicas" geralmente significa nada mais do que elas são sensitivas — que às vezes veem ou ouvem mais do que a maioria das pessoas ao seu redor ainda é capaz de ver ou ouvir.

Embora seja certamente verdade que essa visão é um poder da alma, é igualmente verdade que todos os poderes que manifestamos na vida física são também poderes da alma, pois nossos corpos, sejam astrais ou físicos, são afinal apenas veículos.

O que é comumente denominado "poder psíquico" é então apenas uma ligeira extensão das faculdades ordinárias; mas a expressão também é às vezes usada para incluir outras manifestações que são ainda um tanto anormais entre os homens, tais como o poder mesmérico, ou o poder da cura mental.

Uma vez que a vontade é a força motriz tanto no mesmerismo quanto na cura mental, presumo que dificilmente podemos objetar à aplicação deste termo poder psíquico nesses casos.

Frequentemente a telepatia e a psicometria são consideradas como pertencentes à mesma categoria, embora estas, na realidade, meramente indiquem uma sensibilidade um tanto incomum a impressões externas.

Na verdade, todos esses poderes da alma são inerentes a cada filho do homem, embora estejam desenvolvidos (Página 228) ainda apenas em poucos, e estejam funcionando apenas parcialmente mesmo nesses, a menos que tenham tido a inestimável vantagem de um treinamento oculto definido.

O Treinado e o Não Treinado

Em minhas palestras sobre clarividência, frequentemente tive que traçar uma distinção entre o homem treinado e o não treinado.

Até que venhamos a examinar o assunto praticamente, podemos ter pouca ideia de quão enorme diferença o treinamento definido no uso de tais poderes faz para a capacidade do homem.

Praticamente todos aqueles de quem comumente pensamos como psíquicos neste país ocidental são inteiramente não treinados.

São simplesmente pessoas que possuem um pouco dessa faculdade superior, que nasceu nelas como consequência de alguns esforços que fizeram para alcançá-la em vidas passadas — possivelmente como virgens vestais em templos antigos, ou possivelmente como praticantes de formas menos desejáveis de magia na época medieval.

Na maioria dos casos, nesta vida, elas usaram tais poderes de maneira um tanto cega, ou talvez não tenham feito nenhum esforço consciente para usá-los, mas antes se contentaram em aceitar quaisquer impressões que lhes chegassem.

Na Índia, e em outros países orientais, essas coisas têm sido estudadas cientificamente por muitos séculos, de modo que lá qualquer pessoa que mostre sinais de tal desenvolvimento é instruída a reprimir completamente suas manifestações, ou então a se submeter ao treinamento definido daqueles que compreendem profundamente o assunto.

A mente indiana aborda esses problemas de um ponto de vista totalmente diferente.

Para o hindu, a mera sensitividade parece uma qualidade indesejável, para que não venha a degenerar em mediunidade — condição que ele encara com o maior horror.

Para ele, esses poderes da alma não são no mais leve grau anormais; ele sabe que são (página 229) inerentes a todo homem, e por isso não se surpreende de modo algum com sua manifestação ocasional.

Mas ele sabe também que, a menos que sejam cuidadosamente treinados e mantidos sob controle, é provável que desencaminhem seu possuidor nos primeiros dias de sua experiência.

O estudante indiano sabe o que está fazendo com relação a essas questões, pois elas foram todas classificadas há milhares de anos.

Há muitos mestres na Índia que tomarão um homem e o treinarão psiquicamente, assim como aqui um homem poderia ser treinado em atletismo ou na prática de alguma ciência.

Nos países orientais, todo o assunto é sistematizado, e todos aqueles que aqui são chamados de psíquicos e clarividentes seriam considerados no Oriente como alunos um tanto pouco promissores.

De fato, creio que muitos dos mestres orientais prefeririam não empreender o desenvolvimento de um homem que já possua alguma pequena quantidade desses poderes psíquicos, porque se verifica que tal homem geralmente tem muito a desaprender, e é mais difícil de manejar e treinar do que aquele em quem ainda não se manifestaram tais faculdades.

No Oriente, eles têm uma compreensão completa de todas essas coisas; lá, um homem é treinado no uso de suas faculdades desde o início, e as possibilidades de erro e equívoco lhe são claramente explicadas, e, portanto, ele está naturalmente muito menos sujeito a ser vítima delas.

Em nossos países ocidentais, a clarividência tem má reputação, devido ao fato de haver muitos pretendentes à sua posse que são constantemente mal sucedidos e cometem erros em seus esforços.

Pode haver alguns entre eles que são impostores descarados; mas imagino que a maioria tenha realmente algum desenvolvimento parcial dessa faculdade, embora muitas vezes tenham compreendido mal até mesmo o pouco que possuem.

Certamente nenhum (página 230) homem no Oriente jamais se apresentaria ao público, ou seria conhecido de qualquer forma como clarividente, até que tivesse sido treinado o suficiente para estar além de toda possibilidade dos erros grosseiros comuns que são tão dolorosamente frequentes entre os chamados clarividentes aqui.

Quando compreendemos esse fato, vemos imediatamente quão grande é a diferença entre o treinado e o não treinado, e quão pouca confiança geralmente se pode depositar neste último.

A maioria dos médiuns entre nós sente-se infalível e considera que as mensagens e impressões que lhes chegam provêm sempre das mais altas esferas possíveis; mas a verdade é que um pouco de bom senso e estudo do assunto lhes mostraria que estão enganados nisso.

Sem dúvida, é até certo ponto gratificante para a sutil vaidade pessoal de cada um supor que possui o poder exclusivo de comunicação com algum grande arcanjo; mas se ela se der ao trabalho de ler a literatura sobre o assunto, logo se tornará evidente que muitas centenas de outras pessoas também tiveram seus arcanjos particulares e, no entanto, foram frequentemente grosseiramente enganadas.

Naturalmente, nenhum homem treinado poderia cair em um erro como esse; mas, como já disse, a grande maioria de nossos médiuns na Europa e na América é inteiramente destreinada.

Alguns deles podem receber certa quantidade de orientação de pessoas mortas — "guias espirituais", como são chamados — mas raramente é de natureza exata e prática, e geralmente tende muito mais para a mediunidade e a sensibilidade geral do que para a aquisição de controle definido e autodesenvolvimento.

Duvido que um grande número de nossos psíquicos ocidentais se submetesse por um momento ao tipo de treinamento que os mestres mais sábios do Oriente consideram necessário.

Lá, um homem tem de tentar persistente e pacientemente, repetidas vezes, as mais simples façanhas até (página 231) conseguir produzir seus resultados com precisão e perfeição; espera-se que ele construa seu conhecimento dos planos superiores passo a passo, a partir daqueles com os quais já está familiarizado, e não é encorajado a voos elevados que tirem seus pés do alicerce sólido dos fatos comprovados.

Nossos psíquicos ocidentais provavelmente se considerariam muito prejudicados se fossem obrigados a trabalhar laboriosamente no autocontrole da maneira que é sempre exigida como algo natural em todas as escolas orientais de desenvolvimento desses poderes psíquicos.

Estudos Não Definitivamente Psíquicos

Suponho que muitas pessoas incluiriam entre os poderes psíquicos a astrologia, a quiromancia e a frenologia.

Penso, no entanto, que dificilmente estamos justificados em descrevê-las como psíquicas, porque em todas elas a teoria é que os resultados são obtidos por dedução a partir de fatos e de observação.

O astrólogo verifica a posição dos astros em um dado momento e, a partir disso, lança o horóscopo ou estabelece sua figura, e depois disso supõe-se que seja mera questão de cálculo descobrir quais influências estão em ação.

Da mesma forma, o quiromante observa as linhas da mão e então faz sua delineação de acordo com as regras aceitas de sua ciência; e o mesmo é feito pelo frenologista a partir de seu exame das variadas configurações do crânio.

Em todas essas ciências, a real proficiência reside na capacidade de equilibrar as indicações contraditórias e julgar com precisão entre elas; e muitos praticantes dessas artes são sem dúvida auxiliados em tal decisão por impressões que se aproximam muito mais da faculdade psíquica.

A estes últimos, talvez pudéssemos permitir o nome de poder psíquico, mas dificilmente às próprias ciências; de modo que penso que podemos colocá-las de lado para (página 232) o propósito de nossa palestra.

Às vezes acontece que aquele que pratica essas artes tem o hábito de receber impressões e comunicações de alguma entidade astral — impressões que muito o auxiliam a julgar com precisão a partir dos fatos que lhe são apresentados.

Neste caso, obviamente, tal sucesso que ele possa alcançar não é consequência de seus próprios poderes psíquicos, mas do discernimento adicional que a faculdade astral comum confere ao seu auxiliar desencarnado.

Da mesma forma, não me parece que a mediunidade deva ser reconhecida entre os poderes psíquicos, ou mesmo considerada propriamente um poder.

O homem que é médium não está exercendo poder, mas está, ao contrário, abdicando de sua legítima posse do controle sobre seus próprios órgãos ou princípios.

É essencial para um médium que seus princípios sejam prontamente separáveis.

Se ele é um médium de transe ou de escrita, isso significa que qualquer entidade astral pode facilmente tomar posse de seu corpo físico e utilizar tanto a mão quanto os órgãos vocais, de modo que ele é simplesmente alguém que pode ser prontamente desapossado por um morto.

Se, por outro lado, ele é um médium de materialização (sejam as materializações formas perfeitas e visíveis, ou meramente mãos invisíveis que tocam os assistentes na sessão, ou tocam instrumentos musicais, ou carregam pequenos objetos), a qualidade especial que ele possui é que matéria etérica ou mesmo física pode ser rápida e seguramente retirada de seu corpo e usada para as diversas operações da sessão.

Em qualquer um ou em todos esses casos, ver-se-á que o papel do médium é ser passivo e não ativo, de modo que ele possa ser apanhado e obsedado sem um esforço demasiado por parte da entidade obsessora.

É evidente que ele não pode ser descrito como possuindo ou usando um poder, mas antes como capaz de (Página 233) assumir uma condição na qual possa, sem dificuldade, render-se ao poder de outros.

Poderes Psíquicos Conscientes

Parece-nos, então, que podemos reservar o título de poderes "psíquicos" para o uso definido da vontade ou dos sentidos astrais ou etéricos — isto é, podemos incluir a clarividência genuína e controlada, a cura mental, o mesmerismo, a telepatia e a psicometria.

Uma grande quantidade de poder psíquico inconsciente também é constantemente exercida, e disso falarei mais adiante; mas tomaremos primeiro o exercício consciente do poder.

Este exercício consciente desses poderes é, no presente, apenas para poucos entre nós.

Não é de modo algum incomum encontrar homens que possuem boa dose de capacidade mesmérica; e um número razoável de pessoas tem considerável poder curativo em várias linhas; mas, ainda assim, em comparação com a população total, esses são apenas alguns.

Os poderes inconscientes são possuídos por todos nós, e todos nós os utilizamos em maior ou menor grau. Àqueles que possuem e empregam esses poderes psíquicos conscientes, eu diria que todos eles podem ser usados e todos podem ser abusados, portanto, deve-se ter grande cuidado com relação a eles.

Há uma boa regra geral que é universalmente aplicável no que diz respeito a todas essas questões, e essa é a regra do perfeito altruísmo.

Se aqueles que possuem tais poderes os estiverem usando de qualquer forma para ganho pessoal, seja de dinheiro ou de influência, isso é claramente um abuso.

Esses são verdadeiramente poderes da alma; estão ligados ao avanço do homem e ao seu desenvolvimento superior, e é somente para esse desenvolvimento superior que devem ser empregados.

Esse é um ponto importante para a pessoa que os possui (página 234) ter em mente; é a única regra segura que pode ser estabelecida para o seu uso. Esses são, em todos os casos, vislumbres do futuro da raça humana.

Se esses poderes superiores que um dia virão a cada um de nós forem usados por cada homem para si mesmo, o futuro pode muito bem ser sombrio e temeroso.

Se, por outro lado, à medida que se desenvolvem, os homens aprenderem a usá-los para a elevação e a ajuda da raça, esse futuro será brilhante e grandioso.

Nosso registro nos diz que, num passado remoto, existiu uma raça poderosa que possuía esses poderes em plenitude; mas essa raça, como um todo, os usou erroneamente e, em consequência, essa raça desapareceu.

Nós, da quinta raça raiz, também devemos, por nossa vez, passar pela mesma provação; devemos herdar os mesmos poderes.

Seu aparecimento ocasional entre nós agora é um penhor do tempo em que, em breve, se tornarão quase universais, quando serão plenamente compreendidos e aceitos.

A grande questão é se, tendo seguido nossos predecessores até aqui, os seguiremos até o fim; se, quando tivermos desenvolvido esses poderes como eles o fizeram, também os abusaremos como eles abusaram; pois, se o fizermos, é certo que também os seguiremos em sua destruição.

Se, como se pode esperar, formos um pouco melhores do que eles, se houver uma proporção maior que usará esses poderes para o bem da humanidade como um todo, pode ser que a sentença possa ser evitada, e que o bom senso e o sentimento público da maioria condenem e refreiem seu emprego para fins egoístas.

Mas, se assim há de ser, se devemos ter essa proporção maior daqueles que compreendem e que usam seus poderes de forma inteligente, é certo que devemos começar agora; agora que essas coisas ainda estão apenas em semente entre nós, devemos começar usando-as de forma altruísta, e devemos pôr de lado (Página 235) inteiramente a ideia de explorá-las em prol do eu inferior.

Já existe uma tendência muito grande nessa direção; a avareza gananciosa dos ignorantes os leva a empregar toda vantagem adicional que pensam poder obter, a fim de ganhar um pouco mais de dinheiro, de alcançar um pouco mais de progresso ou um pouco mais de fama para o miserável eu pessoal.

O despertar dessas faculdades superiores jamais deve ser corrompido por tais pensamentos ou tais sentimentos.

Devemos lembrar que poderes superiores envolvem responsabilidade superior, que o homem que os possui já se encontra em uma posição diferente, porque já está alcançando possibilidades mais grandiosas em muitas direções.

Compreendemos isso prontamente em outros assuntos mais puramente físicos, e nenhum de nós pensaria em considerar a responsabilidade do selvagem quando comete um assassinato ou um roubo como de qualquer modo igual à nossa, se caíssemos no mesmo crime.

Isso porque temos um conhecimento maior do que o dele, e assim todos instintivamente percebem que mais se espera de nós. O mesmo se aplica a esse conhecimento adicional — esse conhecimento que traz consigo muito mais poder; pois poder acrescido significa oportunidade acrescida e, portanto, responsabilidade acrescida.

Mesmerismo e Cura Mental

Em palestras anteriores, já expliquei a visão teosófica a respeito do mesmerismo e da cura mental, portanto não preciso agora me repetir quanto a esses assuntos.

É fácil ver como o primeiro poderia ser mal utilizado — como poderia ser empregado com grande facilidade para dominar a mente de uma pessoa e influenciá-la indevidamente a favorecer o operador.

Ouve-se às vezes (Página 236) de tais casos, em que um homem desejando obter uma posição, ou outro desejando obter dinheiro, exerce influência mesmérica indevida e assim consegue ser nomeado para algum lugar que não está apto a ocupar, ou talvez consegue que lhe seja dado dinheiro ou deixado como legado quando, pelos cânones ordinários da justiça, deveria ter passado para outras mãos.

É comum ver nos jornais anúncios de homens que se professam mestres da influência mesmérica, declaradamente com a intenção de que ela seja usada em negócios comuns, a fim de que a pessoa que a utiliza possa, dessa forma, levar vantagem sobre o infeliz que com ela entra em contato no curso dos negócios. É óbvio que todos esses são abusos muito graves; e penso que devemos classificar com eles aquele uso do poder mesmérico tão frequentemente exibido em público — aquele que torna o sujeito ridículo de uma ou de muitas maneiras.

Por outro lado, não há dúvida de que o mesmerismo pode ser empregado utilmente para fins curativos.

Como expliquei em minha conferência sobre esse assunto, geralmente é possível retirar de um paciente dores como as de cabeça ou de dente por meio de algumas passes, sem colocá-lo em estado de transe algum.

De fato, imagino que um grande número dos males a que a carne está sujeita pode ser curado dessa maneira, sem o uso do transe.

Este último deve ser usado com muita parcimônia, porque envolve a dominação da vontade de um homem por outro; talvez o único caso em que seja justificável seja o de uma operação cirúrgica.

Encontraremos relatos de seu emprego bem-sucedido em tais casos nas obras do Dr. Esdaile, de Calcutá, e do Dr. Elliotson, de Londres.

Pode-se ver com igual facilidade quão simples seria abusar do poder da cura mental.

Ela é frequentemente empregada como meio de ganhar dinheiro; e parece-me que (Página 237) onde quer que isso seja feito, há um terrível perigo de impureza no motivo e de falta de escrúpulos na prática.

Diz-se às vezes que aqueles que dedicam todo o seu tempo e energia à cura de outros devem, de alguma forma, obter seu próprio sustento, e que, nesse aspecto, a cura mental se encontra no mesmo nível da medicina comum.

Não me sinto capaz de concordar com essa última alegação.

No caso do médico comum, todos sabemos que ele passou por um treinamento dispendioso para se capacitar a lidar com as necessidades específicas do corpo humano; e todos compreendemos o que estamos comprando dele — os serviços que sua habilidade e experiência o habilitam a colocar à nossa disposição.

Mas o curador mental é frequentemente totalmente ignorante e não passou por nenhum treinamento preliminar; em todo caso, ele está usando um poder que não pode ser medido no plano físico, porque pertence a algo mais elevado e menos material.

Se tal praticante não tiver meios próprios e dedicar todo o seu tempo ao trabalho de curar doenças, não pode haver objeção a que aceite qualquer dádiva que um paciente grato deseje lhe oferecer em reconhecimento pela ajuda que tenha prestado; mas parece-me que fixar um valor definido por serviços dessa natureza é extremamente indesejável e contrário a todo o espírito do ensinamento oculto.

Esta é uma questão que cada pessoa deve decidir com a própria consciência; mas é algo perigoso introduzir qualquer elemento de ganho pessoal na utilização de poderes que pertencem a esses níveis superiores.

É melhor evitar, neste caso, até a própria aparência do mal.

Clarividência — Tudo isso também se aplica à clarividência.

Qualquer faculdade dessa natureza que uma pessoa possua pode ser usada para o bem de muitas maneiras.

Para quem possui essa faculdade, os mundos superiores estão parcialmente abertos, pelo menos às vezes, e portanto esse poder pode ser usado para aprender.

Para esse fim, é necessário que o clarividente faça um estudo cuidadoso da literatura sobre o assunto, a fim de que possa ver o que outros que possuem essa faculdade já aprenderam, para que seja guiado pela experiência deles e possa evitar as armadilhas nas quais alguns deles caíram.

Um clarividente que não estuda o assunto, que não faz esforço para verificar suas visões e compará-las com as experiências de outros, está sujeito a ser seriamente enganado e, por suas previsões e descrições extravagantes, a trazer descrédito a todo o assunto junto àqueles que ainda não o compreendem. Mas para aquele que usa esse poder com bom senso e sem presunção, num espírito científico de investigação, em vez de com a esperança de obter ganho pessoal, ele pode ser uma fonte não apenas de grande prazer, mas também de grande avanço.

Não só ele pode obter conhecimento para si — conhecimento que pode transmitir a seus semelhantes — como também, por esse meio, pode aprender a ver quando e como as pessoas precisam de ajuda, e a distinguir a maneira pela qual ela pode ser mais eficazmente prestada.

Por esse meio, ele pode frequentemente ver onde uma palavra amável é especialmente necessária, onde um pensamento amoroso, consolador e fortalecedor pode ser enviado com a certeza de resultado imediato.

O clarividente tem pelo menos um pouco mais de poder para o bem do que seus semelhantes, se apenas vigiar as oportunidades de usá-lo, se apenas pensar sempre em ajudar os outros, em vez de obter algo para si mesmo.

Belas possibilidades se abrem diante de nós quando pensamos no poder que estará nas mãos de todos num futuro não muito distante; o homem que é até certo ponto clarividente agora já está começando a colher um pouco (Página 239) da colheita de capacidade para o bem que virá a todos nós à medida que a raça avança.

O clarividente que é completamente altruísta, cujos poderes adicionais são cuidadosamente equilibrados por um senso comum forte e robusto, pode fazer muito bem no mundo e pode obter avanço espiritual para si mesmo no próprio ato de ajudar seus semelhantes.

Não é difícil ver que este é um poder que pode ser mal utilizado.

A informação adicional sobre os outros que coloca nas mãos de seu possuidor pode ser empregada, e infelizmente às vezes é empregada, para ganho pessoal, para a gratificação da curiosidade e até mesmo para a prática de chantagem.

Vemos por isso quão essencialmente necessário é que o clarividente possua a característica de um cavalheiro, e quando ele pertence à classe que na Teosofia chamamos de pitri de primeira classe, este é naturalmente o caso.

Uso Escandaloso do Poder   Infelizmente, a clarividência pode ser adquirida por almas menos desenvolvidas que não possuem os instintos do homem de sensibilidade delicada, como podemos ver por alguns dos anúncios vergonhosos que aparecem com tanta frequência em nossos jornais.

Ali vemos pessoas anunciando descaradamente que estão preparadas para colocar o poder clarividente (tal como ele é) à disposição de qualquer homem, a fim de ajudá-lo a obter uma vantagem injusta sobre seus semelhantes em alguma especulação, que o ajudarão a roubar outros homens sob o pretexto de jogo ou de apostas em corridas de cavalos.

Dessa forma, eles estão se entregando às paixões mais baixas do homem, descendo do que deveria ser um reino mais elevado e mais puro para a lama mais fétida da vida física mais degradada.

Nem são esses os únicos infratores, pois frequentemente vemos (Página 240) anúncios daqueles que professam ensinar clarividência ou alguma ciência oculta em troca de tantas libras ou tantos dólares.

Esses praticantes inescrupulosos só conseguem viver e prosperar porque o público ainda é ignorante das verdadeiras condições de todo esse ensino.

É certo que nenhum verdadeiro ocultista jamais aceitou dinheiro por ensino ou informação oculta.

No momento em que um homem anuncia — no momento em que aceita dinheiro por qualquer serviço que professe ser de natureza oculta — nesse momento ele se marca como não tendo verdadeiro ocultismo a oferecer.

O verdadeiro ensino nessas linhas só pode ser obtido de escolas reconhecidas de ocultismo, existentes sob a guarda da grande Irmandade; e a todo aluno dessas escolas é proibido aceitar dinheiro pelo uso de qualquer poder psíquico.

Assim, todas essas pessoas se condenam a si mesmas e carregam essa condenação na própria face de seus anúncios; e, se prosperam e engordam à custa da propriedade daqueles a quem enganam, os que sofrem só têm a si mesmos para agradecer pelos resultados de sua própria credulidade tola.

Mais uma vez repito que há uma, e somente uma, regra segura com relação ao uso de todas essas faculdades superiores, e é esta:

Elas nunca deverão, sob quaisquer condições, ser empregadas para qualquer objetivo egoísta ou pessoal.

Voltemo-nos agora desses poderes que pertencem apenas a poucos para aqueles outros que todos nós possuímos e usamos, mesmo que deles estejamos inconscientes.

O primeiro e o maior deles é o poder do pensamento.

Muitos homens já ouviram vagamente que pensamentos são coisas, e, no entanto, a afirmação não lhes transmitiu qualquer significado real ou definido.

Quando ele tiver a sorte de desenvolver a clarividência até o nível do plano mental, poderá testemunhar a enorme importância da verdade expressa nessa afirmação.

Se, utilizando os sentidos do corpo mental, ele olhar através deles para os corpos mentais de seus semelhantes, verá como o pensamento se manifesta nesse nível e que resultados produz.

É no corpo mental, ou mente, do homem que o pensamento primeiro se mostra à visão clarividente como uma vibração que surge na matéria desse corpo.

Das pranchas que publiquei em *O Homem Visível e Invisível*, alguma ideia pode ser colhida da aparência desse corpo mental para o homem que é capaz de vê-lo; embora os desenhos dados nesse livro sejam apenas uma tentativa de apresentar, em corte e no plano físico, algo da impressão muito mais grandiosa e ampla que realmente é feita no sentido nesse nível superior pela aparência desse corpo.

Quando um homem pensa, enquanto um clarividente o observa, este verá que uma vibração se estabelece no corpo mental, e que essa vibração produz dois resultados distintos.

Como todas as outras vibrações, ela tende a se comunicar a qualquer matéria circundante que seja capaz de recebê-la; e assim, uma vez que a atmosfera está repleta de matéria mental, que se põe prontamente em movimento em resposta a qualquer impulso desse tipo, o primeiro efeito produzido é o de uma espécie de ondulação que se espalha pelo espaço circunvizinho, exatamente como quando uma pedra é lançada em um lago, ondulações são vistas a irradiar desse centro ao longo da superfície da água.

Nesse caso, a radiação não ocorre em um único plano, mas em todas as direções, como as radiações do sol ou de uma lâmpada.

Deve-se lembrar que o homem existe em um grande mar de matéria mental, assim como nós, aqui no plano físico, vivemos em meio à atmosfera, embora raramente pensemos nisso. Essa vibração de pensamento, portanto, irradia-se em todas as direções, (Página 242) tornando-se menos poderosa na proporção da distância de sua fonte.

Novamente, como todas as outras vibrações, esta tende a se reproduzir onde quer que se lhe ofereça oportunidade; e, como cada variedade de pensamento é representada por sua própria taxa de vibração, esse fato significa que, sempre que essa onda atinge outro corpo mental, ela tenderá a provocar nele vibrações semelhantes àquelas que lhe deram origem em primeiro lugar.

Isto é, do ponto de vista daquele outro homem cujo corpo mental é tocado pela onda, ela tende a produzir em sua mente um pensamento idêntico àquele que anteriormente surgira na mente do pensador.

A distância até a qual tal onda de pensamento penetra, a força e a persistência com que ela incide sobre os corpos mentais de outros, dependem da força e da clareza do pensamento original.

A voz de um orador põe em movimento ondas sonoras no ar, que irradiam dele em todas as direções e transmitem sua mensagem a todos aqueles que estão, como se diz, ao alcance da audição; e a distância até a qual sua voz pode penetrar depende de sua força e da clareza de sua enunciação.

Da mesma forma, o pensamento forte alcançará mais longe do que o fraco e indeciso; mas a clareza e a definição são de importância ainda maior do que a força.

Mas assim como a voz do orador pode cair em ouvidos desatentos onde os homens já estão ocupados com negócios ou prazeres, também uma forte onda de pensamento pode passar despercebida sem afetar a mente do homem, se ele já estiver profundamente absorto em alguma outra linha de pensamento.

Um grande número de homens, contudo, não pensa de forma definida ou intensa, exceto quando está diretamente empenhado em algum negócio que exige toda a sua atenção.

Consequentemente, há sempre muitas mentes ao nosso alcance que provavelmente serão consideravelmente afetadas pelos (página 243) pensamentos que sobre elas incidem; e, portanto, somos responsáveis pelos pensamentos que emitimos e pelos efeitos que eles produzem nos outros.

Este é um poder psíquico que todos possuímos, que exercemos constantemente; e, no entanto, quantos de nós jamais pensam nisso, ou na séria responsabilidade que isso envolve.

Inevitavelmente, e sem qualquer esforço de nossa parte, todo pensamento que permitimos permanecer em nossas mentes deve estar influenciando as mentes dos outros ao nosso redor. Considerai quão terrível é a responsabilidade se esse pensamento for impuro ou maligno, pois então estamos espalhando contágio moral entre nossos semelhantes.

Lembrai-vos de que milhares de pessoas possuem dentro de si germes latentes do mal — germes que talvez nunca desabrochem e deem fruto, a menos que alguma força externa atue sobre eles e os desperte para a atividade.

Se vos entregais a um pensamento impuro ou profano, a vibração que assim produzis pode ser o fator que desperta um germe para a atividade e o faz começar a crescer; e assim podeis iniciar alguma alma numa carreira descendente.

Mais tarde, isso pode desabrochar em pensamentos, palavras e atos de maldade, e estes, por sua vez, podem afetar prejudicialmente milhares de outros homens, mesmo num futuro distante.

Vemos então quão terrível é a responsabilidade de um único pensamento maligno.

O dano é constantemente causado dessa maneira, e embora seja feito inconscientemente, uma pesada responsabilidade recai sobre o agente, pois ao menos ele sabe que deveria ter purificado sua mente, mas negligenciou fazê-lo.

Se alguma vez nos acontecer que um pensamento egoísta ou maligno surja dentro de nós, apressemo-nos a enviar imediatamente um pensamento forte e vital de bondade e caridade que siga de perto a outra vibração e, na medida do possível, desfaça qualquer mal que ela possa ter causado.

Felizmente, tudo isso é verdade tanto para o bom pensamento quanto para o mau; (Página 244) e o homem que percebe isso pode se pôr a trabalhar para ser um verdadeiro sol, irradiando constantemente sobre todos os seus vizinhos pensamentos de amor, calma e paz.

Este é um grande poder psíquico, e ainda assim está ao alcance de todo ser humano – do mais pobre quanto do mais rico, da criança pequena quanto do grande sábio.

Como esta consideração nos mostra claramente o dever de controlar nosso pensamento e de mantê-lo sempre no mais alto nível que nos for possível!

Formas-Pensamento

Isso, no entanto, é apenas um dos resultados do pensamento.

Nosso clarividente, observando a gênese desse pensamento, vê que ele não apenas estabelece essa vibração sempre radiante e divergente, mas também cria uma forma definida.

Todos os estudantes de Teosofia conhecem a ideia da essência elemental – essa estranha vida semi-inteligente que nos rodeia; sabem como ela responde prontamente à influência do pensamento humano, e como cada impulso enviado do corpo mental do homem imediatamente se reveste de um veículo temporário dessa essência.

Assim, torna-se por um tempo uma espécie de criatura viva, sendo a força do pensamento a alma e a essência elemental o corpo.

Pode haver infinita variedade na cor e na forma de tais formas-pensamento – elementais artificiais, como às vezes são chamados.

Cada pensamento atrai ao seu redor a matéria apropriada para sua expressão e coloca essa matéria em vibração em harmonia com a sua própria; assim, o caráter do pensamento decide sua cor, e o estudo de suas variações e combinações é extremamente interessante.

Uma lista dessas cores com sua significação é dada no livro que acabei de mencionar, O Homem Visível e Invisível, e uma série de desenhos coloridos (Página 245) de vários tipos dessas formas será encontrada no volume complementar Formas-Pensamento.

Em muitos casos, esses pensamentos são meramente nuvens giratórias da cor apropriada à ideia que lhes deu origem, mas no caso de uma forma definida, uma forma nítida e muitas vezes bela será assumida.

Se o pensamento for intelectual e impessoal – por exemplo, se o pensador está tentando resolver um problema de álgebra ou geometria – então suas formas-pensamento e ondas de vibração estarão confinadas ao plano mental.

Se, porém, o seu pensamento for de natureza espiritual, se estiver tingido de amor e aspiração de profundo sentimento altruísta, então ele se elevará do plano mental e tomará emprestado muito do esplendor e da glória dos níveis búdicos superiores.

Em tal caso, sua influência é poderosíssima, e cada um desses pensamentos é uma força poderosa para o bem, que não pode deixar de produzir um efeito decisivo sobre todos os outros corpos mentais ao seu alcance, se estes contiverem qualquer qualidade capaz de responder.

Se, por outro lado, o pensamento tiver em si algo de ego ou de desejo pessoal, imediatamente suas vibrações se voltam para baixo, e ele atrai ao seu redor um corpo de matéria astral, além do seu revestimento de matéria mental.

Tal forma-pensamento é capaz de atuar não apenas sobre as mentes, mas também sobre os corpos astrais de outros homens — capaz não só de despertar pensamento neles, mas também de agitar seus sentimentos.

Aqui vemos mais uma vez a terrível responsabilidade de emitir um pensamento egoísta, ou um pensamento carregado de magnetismo baixo e maligno.

Se algum homem ao nosso redor tem um ponto fraco em sua natureza — e quem não tem? — então esse nosso pensamento egoísta pode encontrar esse ponto fraco e desenvolver o germe do mal em flor e fruto venenosos.

Mas pensamentos e sentimentos bons e amorosos também projetarão suas formas, e (página 246) atuarão sobre outros homens tão fortemente à sua maneira quanto o mal o fez na direção contrária; de modo que isso abre diante de nós uma esfera de utilidade, uma vez que nossos pensamentos e sentimentos estejam completamente sob o controle do eu superior.  
O Trabalho da Forma-Pensamento

Pode ser útil para nós pensar um pouco mais de perto sobre essa forma-pensamento e observar suas aventuras posteriores.

Frequentemente o pensamento de um homem é dirigido definitivamente para outra pessoa; ele emite de si um pensamento de afeição, de gratidão, ou infelizmente pode ser às vezes de inveja, ciúme ou ódio, em direção a outra pessoa.

Tal pensamento produzirá suas radiações precisamente como qualquer outro; mas a forma-pensamento que ele gera é imbuída de intenção definida, por assim dizer, e assim que se desprende dos corpos mental e astral do pensador, vai diretamente em direção à pessoa sobre a qual é dirigido e se fixa nela.

Pode ser comparado, não inapropriadamente, a uma garrafa de Leyden, com sua carga de eletricidade.

Se o homem para quem ela é dirigida estiver no momento em condição passiva, ou se ele tiver dentro de si vibrações ativas de caráter harmonioso com o dela, ela se descarregará imediatamente sobre ele.

Seu efeito será provocar uma vibração semelhante à sua própria, se nenhuma existir, ou intensificá-la, se ela já estiver ali presente.

Se a mente do homem estiver tão fortemente ocupada em outras linhas que seja impossível à vibração encontrar entrada, a forma-pensamento paira ao redor dele, aguardando uma oportunidade para se descarregar. Infelizmente,

porém, no nosso atual estágio de evolução, a maioria dos pensamentos dos homens é geralmente egocêntrica, mesmo quando não ativamente egoísta.

Eles são (página 247) frequentemente tingidos de desejo, e, nesses casos, descem imediatamente e se revestem de matéria astral, reagindo forte e persistentemente sobre o homem que os colocou em movimento.

Muitos homens podem ser vistos cercados por uma casca de formas-pensamento, todas pairando de perto sobre ele e constantemente reagindo sobre ele.

Sua tendência, em tal caso, é reproduzir-se – isto é, suscitar nele uma repetição dos pensamentos aos quais ele anteriormente se entregou.

Muitos homens sentem essa pressão vinda de fora – essa constante sugestão de certos pensamentos; e, se os pensamentos são maus, frequentemente os consideram como demônios tentadores que o incitam ao pecado.

No entanto, eles não deixam de ser inteiramente criação sua, e assim, como sempre, o homem é seu próprio tentador.

Pensamento Útil

Notai, por outro lado, a felicidade que este conhecimento nos traz e o enorme poder que coloca em nossas mãos.

Vede como podemos utilizá-lo quando sabemos (e quem não sabe?) de alguém que está em dor ou em sofrimento.

Talvez não possamos fazer nada pelo homem no plano físico; há frequentemente muitas razões que impedem a prestação de ajuda física, por mais que desejemos fazer o nosso melhor.

Surgem frequentemente circunstâncias em que nossa presença física pode não ser útil ao homem a quem desejamos auxiliar; seu cérebro físico pode estar fechado às nossas sugestões por preconceito ou por fanatismo religioso.

Mas seus corpos astral e mental são mais sensíveis, mais facilmente impressionáveis; e nos é sempre possível abordá-los por ondas de pensamento útil ou de sentimento afetuoso e suavizante.

Lembre-se de que é certo que os resultados devem advir; não há possibilidade de fracasso em tal esforço ou (Página 248) empreendimento de ajuda, mesmo que nenhuma consequência óbvia se siga no plano físico.

A lei da conservação da energia é válida neste nível, assim como em nossa mecânica terrestre, e a energia que emitimos deve atingir seu objetivo e deve produzir seu efeito.

Não pode haver dúvida de que a imagem que desejamos apresentar ao nosso amigo para seu conforto ou auxílio o alcançará; se ela se apresentará claramente à sua mente quando chegar, depende primeiramente da definição de contorno que fomos capazes de lhe dar, e em segundo lugar de sua condição mental no momento.

Ele pode estar tão plenamente ocupado com pensamentos de suas próprias provações e sofrimentos que há pouco espaço para qualquer nova ideia se insinuar, mas nesse caso nosso pensamento simplesmente aguarda o seu momento, e quando por fim sua atenção é desviada, ou a exaustão o força a suspender a atividade de sua própria linha de pensamento, certamente o nosso se insinuará e cumprirá sua missão de misericórdia.

O mesmo se aplica, em seu nível diferente, ao forte sentimento de afeto e amizade que enviamos a uma pessoa que assim sofre; pode ser que no momento ela esteja demasiado ocupada com seus próprios sentimentos, ou talvez demasiado excitada para receber e aceitar qualquer sugestão externa, mas logo chega um momento em que a forma-pensamento fiel pode penetrar e se descarregar, e então nossa simpatia produzirá seu devido resultado.

Há tantos casos em que a melhor vontade do mundo nada pode fazer no plano físico; mas não há caso concebível em que, seja no plano mental ou no astral, algum alívio não possa ser dado por pensamento amoroso, firme e concentrado.

Os fenômenos da cura mental mostram quão poderoso o pensamento pode ser até mesmo no plano físico, e uma vez que ele atua com muito mais facilidade no astral e no mental (Página 249), podemos perceber quão tremendo poder é o nosso, se tão somente o exercermos. Lembremo-nos sempre de pensar em uma pessoa como desejamos que ela seja; a imagem que assim fazemos dela atuará poderosamente sobre ela e tenderá a atraí-la gradualmente para a harmonia consigo mesma.

Fixemos nossos pensamentos nas boas qualidades de nossos amigos, porque, ao pensar em qualquer qualidade, tendemos a fortalecer suas vibrações e, portanto, a intensificá-la. Nunca é correto tentar dominar o pensamento e a vontade de outro, mesmo que seja para o que parece um bom fim; mas é sempre correto apresentar a um homem um alto ideal de si mesmo e desejar fortemente que ele possa em breve ser capacitado a alcançá-lo. Dessa forma, nossa corrente constante de pensamento atuará sempre sobre aqueles que amamos; e devemos lembrar que, ao mesmo tempo, ela atua também sobre nós mesmos, e podemos utilizá-la para treinar o poder do pensamento dentro de nós, de modo que se torne cada vez mais forte e definido. Se conhecemos certos defeitos ou vícios no caráter de um homem, enviemos-lhe pensamentos fortes das virtudes contrárias, para que estas possam, gradualmente, ser incorporadas ao seu caráter.

Nunca, sob circunstância alguma, devemos nos deter naquilo que é mau nele, pois, nesse caso, nosso pensamento tenderia a intensificar esse mal.

Essa é a horrível maldade da fofoca e do escândalo, pois aí temos várias pessoas fixando seu pensamento nas qualidades más de outro, chamando a atenção de outros para esse mal, que talvez não o tivessem observado; e, dessa forma, se o mal já existe, sua tolice o aumenta, e se, como muitas vezes acontece, ele não existe, estão fazendo o melhor para produzi-lo. Quando alcançarmos um estado mais esclarecido de sociedade, as pessoas aprenderão a focar seu pensamento conjunto sobre os outros para o bem, em vez de para o mal; se um homem sofre com o domínio (Página 250) de um vício, elas se esforçarão para realizar fortemente a virtude oposta e então enviarão ondas desse pensamento em direção a ele; pensarão em seus bons pontos e tentarão, concentrando atenção neles, fortalecê-lo e ajudá-lo por meio deles; sua crítica será daquele tipo feliz que agarra uma pérola com tanta avidez quanto nossa crítica moderna se lança sobre uma falha imaginária.

Sensibilidade

Há outra qualidade psíquica que todos nós possuímos em algum grau, e essa é a qualidade de sensibilidade às impressões.

Todos nós recebemos essas impressões às vezes.

Por enquanto elas são imperfeitas e de modo algum sempre confiáveis, mas, no entanto, podem ser notadas e observadas cuidadosamente, e usadas como treinamento para o desenvolvimento de uma faculdade mais perfeita.

Muitas vezes eles podem nos ser úteis para nos dizer onde a ajuda é necessária, onde um pensamento ou palavra amorosa é requerida.

Quando vemos uma pessoa, podemos às vezes sentir irradiando dela a influência de profunda depressão.

Se nos lembrarmos da ilustração em *Man Visible and Invisible* do homem que estava sob a influência da depressão, recordaremos como ele parecia encerrado por ela, quase tão efetivamente quanto o avarento estava encerrado em sua prisão de pensamento autocentrado.

Aqueles que se recordam daquela imagem impressionante verão imediatamente o que o pensamento pode fazer por esse homem.

Ele pode fortalecer suas vibrações e ajudá-lo a quebrar essas barras da prisão, a lançar fora seu terrível peso e a libertar-se da pesada nuvem que o cerca.

Se recebemos a impressão de depressão dele, podemos ter certeza de que há alguma razão para isso, e que esta é uma oportunidade para nós. Uma vez que o homem é, em verdade, uma centelha do Divino, deve haver sempre dentro dele aquilo que responderá ao nosso pensamento calmo e amoroso, e assim ele poderá ser reassegurado e ajudado.

Tentemos colocar diante dele fortemente o sentimento de que, apesar de suas tristezas e problemas pessoais, o sol ainda brilha acima de tudo, e ainda há muito pelo que ele deveria ser grato, muito que é bom e belo no mundo.

Frequentemente veremos a mudança que é produzida, e isso nos encorajará a tentar novamente, pois aprenderemos que estamos utilizando esses poderes psíquicos que possuímos — primeiro nossa sensibilidade em descobrir o que está errado, e depois nosso pensamento para ajudar a corrigi-lo.

Contudo, essa dificuldade da sensibilidade também pode ser mal utilizada.

Um caso em questão seria se nos permitíssemos ficar deprimidos, seja por nossas próprias tristezas e sofrimentos, seja por entrar em contato com a depressão em outros.

O homem sensível frequentemente encontrará muito que lhe é desagradável, especialmente se sua sorte for lançada em uma grande cidade ou no meio do que se chama civilização moderna; contudo, ele deve lembrar que é enfaticamente seu dever ser feliz e resistir a todos os pensamentos de melancolia ou desespero. Ele deve fazer o seu melhor para imitar nos planos superiores a ação no plano físico do sol, que é um símbolo tão glorioso do Logos.

Assim como este derrama sua luz e vida, assim ele deve tentar manter um centro firme, calmo e sereno através do qual a graça e o poder do alto possam ser derramados sobre seu semelhante.

Desta forma, ele pode se tornar, em verdade, um colaborador de Clod, pois através dele e de seu reflexo dessa graça e força divinas, muitos podem ser afetados que, diretamente, não poderiam ser alcançados.

O sol físico derrama sua vida e luz sobre nós; no entanto, pode haver facilmente cavernas ou porões nos quais essa luz não consegue penetrar diretamente; mas um espelho que esteja sobre a terra e ao nível da caverna ou (Página 252) do porão pode refletir esses raios gloriosos de tal maneira que eles alcancem o extremo mais interior e dissipem a escuridão e as trevas.

Assim também acontece, às vezes, que o homem pode se tornar um espelho para a glória divina, e que através dele ela se manifeste àqueles cujos olhos, de outra forma, permaneceriam cegos ao seu brilho.

Problemas e tristezas vêm a todos nós em certos momentos, mas não devemos nos entregar egoisticamente a eles, pois, se o fizermos, inevitavelmente colocaremos em perigo os outros; irradiaremos depressão ao nosso redor e a intensificaremos entre nossos amigos.

Sempre há tristeza e preocupação suficientes no mundo; portanto, não devemos, egoisticamente, aumentá-las lamentando nossa própria parcela de problemas e tristezas, mas sim nos alinhar ao lado de Deus, que quer que o homem seja feliz.

Esforcemo-nos para nos livrar da depressão em nós mesmos, para que possamos irradiar ao menos resignação e calma, mesmo que não alcancemos a plenitude da alegria positiva.

Nessa linha também há um grande e esplêndido trabalho para cada um de nós realizar, e ele está ao nosso alcance, se apenas levantarmos as mãos para empreendê-lo.

Outra maneira pela qual podemos usar mal essa qualificação de sensibilidade é permitir que sejamos tão repelidos pelas qualidades indesejáveis que percebemos nos homens que encontramos, que sejamos incapazes de ajudá-los quando uma oportunidade nos é oferecida. Toda pessoa boa e pura sente um forte senso de repulsão instintiva por aquilo que é grosseiro e mau; e desse fato surgiu muita incompreensão. Se encontrarmos alguém grosseiro e vulgar, sentiremos essa repulsão; mas não devemos concluir que toda vez que a sentimos, necessariamente encontramos algo terrivelmente mau.

(Página 253)

Vibrações Inarmônicas

Se considerarmos o assunto simplesmente do nível material, a razão para a forte repulsão entre o homem de mente elevada e o homem cujos pensamentos e sentimentos são egoístas é simplesmente que suas vibrações são discordantes.

Cada um deles possui dentro de seu corpo astral algo, ao menos, da matéria de todos os níveis do plano astral; porém, utilizaram-na de maneiras muito diferentes.

O homem bom desenvolveu persistentemente o tipo mais sutil de vibrações, que atuam mais prontamente nos tipos mais elevados de matéria astral, enquanto o homem de pensamentos egoístas quase não utilizou essa parte de seu corpo astral, e fortaleceu e intensificou dentro de si tais vibrações que pertencem especialmente ao tipo mais grosseiro de matéria.

Consequentemente, quando esses dois se encontram, suas vibrações são inarmônicas e produzem um forte senso de discórdia e desconforto.

Assim, eles instintivamente se evitam, e é somente quando o homem bom aprende sobre seu dever e seu poder de ajudar que ele sente ser-lhe incumbido tentar, ainda que seja à distância, influenciar seu irmão inarmônico.

Devemos, no entanto, lembrar que duas pessoas que são, em todos os aspectos, igualmente boas e igualmente desenvolvidas podem, não obstante, estar longe de ser harmônicas.

Embora a diferença entre elas possa não ser tão extrema quanto a que exemplificamos, pode, contudo, ser suficiente para produzir um senso de inarmonia e, portanto, de repulsão.

Não é de modo algum seguro decidir que, quando sentimos aversão pela companhia de certa pessoa, essa pessoa seja necessariamente má.

Esse erro tem sido cometido com tanta frequência por pessoas boas e bem-intencionadas que vale a pena enfatizar esse assunto com certa veemência.

É verdade que tal sentimento, quando decidido, indica um (Página 254) grau de inarmonia que torna difícil ajudar essa pessoa pelos meios comuns, assim como quando sentimos à primeira vista uma forte atração por alguém, podemos tomá-la como uma indicação de que ali está alguém a quem podemos ser úteis, alguém que prontamente absorverá de nós e aprenderá conosco. Mas, não obstante, também nos é possível superar o sentimento de repulsão, e onde não há ninguém mais para dar a ajuda necessária, torna-se, naturalmente, nosso dever fazê-lo. Todos, então, devem procurar perceber esses poderes psíquicos que já possuem e, percebendo-os, devem decidir usá-los com sabedoria e retidão.

É verdade que a responsabilidade é grande; contudo, não nos esquivemos dela por esse motivo.

Se muitos estão inconscientemente usando essas coisas para o mal, tanto mais necessário é que nós, que começamos a compreender um pouco, as usemos conscientemente e para o bem.

Acolhamos, então, de bom grado, todos esses poderes, sem nunca esquecer de equilibrá-los com estudo cuidadoso e bom senso comum.

Dessa forma, evitaremos todo perigo de usá-los indevidamente; dessa forma, nos prepararemos para usar outros poderes maiores à medida que nos chegarem no curso de nossa evolução — para usá-los sempre em prol do grande Plano Divino e da ajuda ao nosso próximo.

CAPÍTULO X

VEGETARIANISMO E OCULTISMO

Ao falar (página 255) da relação entre vegetarianismo e ocultismo, talvez seja bom começarmos por definir nossos termos, como temos feito geralmente em outras ocasiões.

Todos sabemos o que se entende por vegetarianismo; e, embora existam várias variedades dele, não será necessário discuti-las.

O vegetariano é aquele que se abstém de comer alimentos cárneos.

Há alguns que admitem produtos animais obtidos sem destruir a vida do animal, como, por exemplo, leite, manteiga e queijo.

Há outros que se restringem a certas variedades de vegetais — talvez frutas e nozes; há outros que preferem ingerir apenas alimentos que possam ser comidos crus; outros não aceitam alimentos que crescem sob a terra, como batatas, nabos, cenouras, etc.

Não precisamos nos preocupar com essas divisões, mas simplesmente definir o vegetariano como aquele que se abstém de qualquer alimento obtido pelo abate de animais — incluindo, naturalmente, aves e peixes.

Como definiremos ocultismo? A palavra deriva do latim *occultus*, oculto; portanto, é o estudo das leis ocultas da natureza.

Uma vez que todas as grandes leis da natureza operam, de fato, no mundo invisível muito mais do que no visível, o ocultismo envolve a aceitação de uma visão muito mais ampla da natureza do que a comumente adotada.

O ocultista, então, é um homem que estuda todas as leis da natureza que pode alcançar ou das quais pode ouvir falar, e, como resultado de seu estudo, ele se identifica (página 256) com essas leis e dedica sua vida ao serviço da evolução.

Como o ocultismo encara o vegetarianismo? Ele o encara com muito favor, e isso por muitas razões.

Essas razões podem ser divididas em duas classes — aquelas que são comuns e físicas, e aquelas que são ocultas ou escondidas.

Há muitas razões a favor do vegetarianismo que se encontram aqui no plano físico e são patentes aos olhos de qualquer um que se dê ao trabalho de examinar o assunto; e estas operarão sobre o estudante de ocultismo ainda mais fortemente do que sobre o homem comum.

Além destas e totalmente para além delas, o estudante de ocultismo conhece outras razões que provêm do estudo daquelas leis ocultas que ainda são tão pouco compreendidas pela maioria da humanidade.

Devemos, portanto, dividir nossa consideração dessas razões em duas partes, tomando primeiro as ordinárias e físicas.

Razões Egoístas a Favor de uma Alimentação Digna — Mesmo essas razões ordinárias podem ser subdivididas em duas classes: a primeira contendo aquelas que são físicas e, por assim dizer, egoístas; e a segunda, aquelas que podem ser descritas como as considerações morais e altruístas.

Primeiro, então, tomemos as razões a favor do vegetarianismo que dizem respeito apenas ao próprio homem e estão puramente no plano físico.

Por ora, deixaremos de lado a consideração do efeito sobre os outros, que é infinitamente mais importante, e pensaremos apenas nos resultados para o próprio homem. É necessário fazer isso porque uma das objeções frequentemente levantadas contra o vegetarianismo é que ele é uma bela teoria, mas cujo funcionamento é impraticável, pois supõe-se que um homem não possa viver sem devorar peixes mortos.

A objeção é irracional e (Página 257) funda-se na ignorância ou na deturpação dos fatos. Eu mesmo sou um exemplo de sua falsidade; pois vivi sem a poluição do alimento cárneo — sem peixe, ave ou ovos — durante os últimos vinte e sete anos, e não apenas ainda sobrevivo, mas estive durante todo esse tempo com uma saúde notavelmente boa.

Nem sou de modo algum peculiar nisso, pois conheço alguns milhares de outros que fizeram a mesma coisa.

Conheço alguns mais jovens que foram tão felizes a ponto de nunca terem sido poluídos pela ingestão de carne durante toda a sua vida; e eles estão distintamente mais livres de doenças do que aqueles que participam de tais coisas.

Certamente há muitas razões a favor do vegetarianismo do ponto de vista puramente egoísta; e coloco isso em primeiro lugar porque sei que as considerações egoístas apelarão mais fortemente à maioria das pessoas, embora espere que, no caso daqueles que estudam Teosofia, possamos supor que as considerações morais que adiante apresentarei os influenciarão de modo muito mais vigoroso.

Queremos o Melhor — Entendo que, na alimentação, como em tudo o mais, todos nós queremos o melhor que está ao nosso alcance.

Desejaríamos trazer nossas vidas — e, portanto, nossa alimentação diária, como parte não insignificante de nossas vidas — para a harmonia com nossas aspirações, para a harmonia com o mais elevado que conhecemos.

Ficaríamos contentes em tomar o que é realmente melhor; e, se ainda não sabemos o suficiente para apreciar o que é melhor, então deveríamos nos alegrar em aprender a fazê-lo. Se pensarmos nisso, veremos que este é o caso em outras áreas, como, por exemplo, na música, na arte ou na literatura.

Fomos ensinados desde a infância que, se quisermos desenvolver nosso gosto musical pelas melhores linhas, devemos selecionar apenas a melhor música, e se a princípio não a apreciamos ou compreendemos plenamente (página 258), devemos estar dispostos a esperar pacientemente e a ouvir até que algo de sua doce beleza desperte em nossas almas, e cheguemos a compreender aquilo que a princípio não despertava resposta alguma em nossos corações.

Se quisermos apreciar o melhor na arte, não devemos encher nossos olhos com os sensacionalistas folhetins de notícias policiais, ou com as hediondas abominações que são erroneamente chamadas de "figuras cômicas", mas devemos olhar e aprender firmemente até que o mistério da obra de Turner comece a se desvelar à nossa contemplação paciente, ou a grande amplitude de Velasquez alcance nosso poder de compreensão.

Assim também na literatura.

Tem sido a triste experiência de muitos que grande parte do melhor e do mais belo se perde para aqueles cuja alimentação mental consiste exclusivamente no jornal sensacionalista ou no romance barato, ou naquela massa espumosa de material residual que é lançada como escória sobre o metal fundido da vida — novelas, seriados e fragmentos, de um tipo que não ensina os ignorantes, nem fortalece os fracos, nem desenvolve os imaturos.

Se desejamos desenvolver a mente de nossas crianças, não as deixamos entregues ao seu próprio gosto inculto em todas essas coisas, mas procuramos ajudá-las a treinar esse gosto, seja na arte, na música ou na literatura.

Certamente, então, podemos buscar o melhor tanto no alimento físico quanto no mental, e certamente devemos encontrá-lo não por mero instinto cego, mas aprendendo a pensar e a raciocinar sobre a questão do ponto de vista mais elevado.

Pode haver aqueles no mundo que não têm desejo pelo melhor, que estão dispostos a permanecer nos níveis inferiores e, consciente e intencionalmente, construir em si mesmos aquilo que é grosseiro e degradante; mas certamente há muitos que desejam elevar-se acima disso, muitos que aceitariam de bom grado e avidamente o melhor se apenas soubessem o que era, ou se sua atenção fosse direcionada para isso. (Página 259) Há homens e mulheres que são moralmente da mais alta classe, mas que foram criados para se alimentar com as hienas e os lobos da vida, e foram ensinados que sua dieta necessária é o cadáver de um animal abatido.

Basta pouco pensamento para nos mostrar que esse horror não pode ser o mais elevado e o mais puro, e que, se alguma vez desejarmos elevar-nos na escala da natureza, se alguma vez desejarmos que nossos corpos sejam puros e limpos, como os templos do Mestre deveriam ser, devemos abandonar esse costume repugnante e tomar nosso lugar entre as hostes principescas que se esforçam pela evolução da humanidade — esforçando-se pelo mais elevado e pelo mais puro em tudo, para si mesmos, bem como para seus semelhantes.

Vejamos em detalhe por que uma dieta vegetariana é enfaticamente a mais pura e a melhor.

Primeiro: Porque os vegetais contêm mais nutrientes do que uma quantidade igual de carne morta.

Isso soará como uma afirmação surpreendente e incrível para muitas pessoas, porque elas foram criadas para acreditar que não podem existir a menos que se contaminem com carne, e essa ilusão é tão amplamente difundida que é difícil despertar o homem comum dela. Deve ficar claramente entendido que esta não é uma questão de hábito, ou de sentimento, ou de preconceito; é simplesmente uma questão de fato concreto, e quanto aos fatos não há, e nunca houve, a menor dúvida.

Há quatro elementos necessários nos alimentos, todos eles essenciais para a reparação e a construção do corpo.

(a) Proteídos ou alimentos nitrogenados; (b) carboidratos; (c) hidrocarbonetos ou gorduras; (d) sais.

Esta é a classificação geralmente aceita entre os fisiologistas, embora algumas investigações recentes tendam a modificá-la até certo ponto.

Agora (Página 260) não há dúvida de que todos esses elementos existem em maior proporção nos vegetais do que na carne morta.

Por exemplo, leite, creme, queijo, nozes, ervilhas e feijões contêm uma grande porcentagem de proteínas ou matéria nitrogenada.

Trigo, aveia, arroz e outros grãos, frutas e a maioria dos vegetais (exceto talvez ervilhas, feijões e lentilhas) consistem principalmente de carboidratos — isto é, de amidos e açúcares.

Os hidrocarbonetos, ou gorduras, são encontrados em quase todos os alimentos proteicos e também podem ser ingeridos na forma de manteiga ou óleos.

Os sais são encontrados praticamente em todos os alimentos, em maior ou menor grau.

Eles são da mais extrema importância na manutenção dos tecidos do corpo, e o que se chama de inanição salina é a causa de muitas doenças.

Às vezes se alega que a carne contém algumas dessas substâncias em maior grau do que os vegetais, e algumas tabelas são elaboradas de modo a sugerir isso; mas, mais uma vez, esta é uma questão de fatos e deve ser encarada desse ponto de vista.

As únicas fontes de energia na carne morta são a matéria proteica nela contida e a gordura; e como a gordura nela certamente não tem mais valor do que qualquer outra gordura, o único ponto a considerar são as proteínas.

Agora, deve-se lembrar que as proteínas têm apenas uma origem; elas são organizadas nas plantas e em nenhum outro lugar.

Nozes, ervilhas, feijões e lentilhas são muito mais ricos do que qualquer tipo de carne nesses elementos, e têm esta enorme vantagem: que as proteínas são puras e, portanto, contêm toda a energia originalmente armazenada nelas durante sua organização.

No corpo animal, essas proteínas, que o animal absorveu do reino vegetal durante sua vida, estão constantemente passando para a desorganização, durante a qual a energia originalmente armazenada nelas é liberada.

Consequentemente, o que já foi utilizado por um animal não pode ser utilizado por (Página 261) outro.

As proteínas são estimadas em algumas dessas tabelas pela quantidade de nitrogênio nelas contido, mas na carne há muitos produtos da mudança tecidual, como ureia, ácido úrico e creatina, todos os quais contêm nitrogênio e são, portanto, estimados como proteínas, embora não tenham valor alimentar algum. Nem é só isso o mal; pois essa mudança tecidual é necessariamente acompanhada pela formação de vários venenos, que são sempre encontrados em qualquer tipo de carne, e em muitos casos a virulência desses venenos é muito grande.

Então, você observará que, se obtém algum nutriente da ingestão de carne morta, você o obtém porque, durante sua vida, o animal consumiu matéria vegetal.

Você recebe menos desse nutriente do que deveria, porque o animal já usou metade dele, e você recebe, junto com ele, várias substâncias indesejáveis, e até mesmo alguns venenos ativos, que são, obviamente, decididamente deletérios.

Sei que há muitos médicos que prescreverão a repugnante dieta de carne para fortalecer as pessoas, e que muitas vezes obterão certo sucesso; embora mesmo nesse ponto eles não estejam de forma alguma de acordo, pois o Dr. Milner Fothergil escreve: "Todo o derramamento de sangue causado pela disposição belicosa de Napoleão não é nada comparado à perda de vidas entre as miríades de pessoas que afundaram em suas sepulturas devido a uma confiança equivocada no suposto valor do caldo de carne." De qualquer forma, os resultados fortalecedores podem ser obtidos mais facilmente do reino vegetal quando a ciência da dieta é devidamente compreendida, e podem ser obtidos sem a horrível poluição e sem todos os concomitantes indesejáveis do outro sistema. Deixe-me mostrar que não estou fazendo afirmações infundadas em tudo isso; deixe-me citar as opiniões de médicos, de homens cujos nomes são bem (Página 262) conhecidos no mundo médico, para que você veja que tenho autoridade abundante para tudo o que disse.

Encontramos Sir Henry Thompson, F.R.C.S., dizendo: "É um erro vulgar considerar a carne, em qualquer forma, como necessária à vida.

Tudo o que é necessário ao corpo humano pode ser fornecido pelo reino vegetal... O vegetariano pode extrair de seu alimento todos os princípios necessários para o crescimento e a manutenção do corpo, bem como para a produção de calor e força.

Deve-se admitir como um fato inquestionável que algumas pessoas são mais fortes e mais saudáveis por viverem desse alimento.

Sei o quanto da dieta de carne predominante não é apenas um desperdício extravagante, mas uma fonte de grave mal para o consumidor." Essa é uma declaração definitiva de um médico bem conhecido.

Então podemos nos voltar para as palavras de um Membro da Royal Society, Sir Benjamin Ward Richardson, M.D.; ele diz: "Deve-se admitir honestamente que, peso por peso, a substância vegetal, quando cuidadosamente selecionada, possui as vantagens mais notáveis sobre o alimento animal em valor nutritivo."

..Eu gostaria de ver um plano de vegetarianismo e frutarianismo colocado em uso geral, e acredito que será. 

O conhecido médico, Dr. William S. Playfair, C.B., afirmou claramente: "A dieta animal não é essencial para o homem"; e encontramos o Dr. F.J. Sytes, B.Sc., Oficial Médico de St. Pancras, escrevendo: "A química não é antagonista ao vegetarianismo, assim como a biologia também não é. A alimentação cárnea certamente não é necessária para fornecer os produtos nitrogenados exigidos para a reparação dos tecidos; portanto, uma dieta bem selecionada do reino vegetal é perfeitamente adequada, do ponto de vista químico, para a nutrição dos homens-" (Página 263) O Dr. Francis Vacher, F.R.C.S., F.C.S., observa: "Não tenho crença de que um homem seja melhor física ou mentalmente por ingerir alimentos cárneos."

O Dr. Alexander Haig, F.R.C.P., médico-chefe de um dos grandes hospitais de Londres, escreveu: "Que é facilmente possível sustentar a vida com os produtos do reino vegetal não necessita de demonstração para os fisiologistas, mesmo que a maioria da raça humana não estivesse constantemente engajada em demonstrá-lo; e minhas pesquisas mostram, não apenas que é possível, mas que é infinitamente preferível em todos os aspectos, e produz poder superior tanto da mente quanto do corpo."

O Dr. M.Y. Coomes, em *The American Practitioner and News* de julho de 1902, concluiu um artigo científico da seguinte forma: "Deixe-me afirmar primeiro que a carne de animais de sangue quente não é essencial como dieta para o propósito de manter o corpo humano em perfeita saúde." Ele prossegue com algumas observações adicionais que citaremos sob nosso próximo título.

O Reitor da Faculdade de Medicina Jefferson (da Filadélfia) disse: "É um fato bem conhecido que os cereais, como artigos de alimentação diária, ocupam um lugar elevado na economia humana; eles contêm constituintes amplamente suficientes para sustentar a vida em sua forma mais elevada. Se o valor dos produtos alimentares de cereais fosse melhor conhecido, seria uma boa coisa para a raça. Nações vivem e prosperam somente com eles, e foi plenamente demonstrado que a carne não é uma necessidade."

Aí você tem uma série de declarações claras, e todas elas são extraídas dos escritos de homens bem conhecidos que fizeram um estudo considerável da química dos alimentos. É impossível negar que o homem pode existir sem essa dieta horrível e, além disso, que há mais nutrição em uma quantidade igual de vegetais do que de carne morta (Página 264).

Eu poderia citar muitas outras passagens, mas as acima mencionadas são suficientes, e são amostras justas do restante.

Menos Doenças

Segundo: Porque muitas doenças graves provêm desse hábito repugnante de devorar corpos mortos.

Aqui novamente eu poderia facilmente fornecer uma longa lista de citações, mas, como antes, contentar-me-ei com algumas.

Dr. Josiah Oldfield, R.RC.S., L.RC.P., escreve: "A carne é um alimento não natural e, portanto, tende a criar distúrbios funcionais.

Como é consumida nas civilizações modernas, está infectada com doenças terríveis (facilmente transmissíveis ao homem), como câncer, tuberculose, febre, vermes intestinais, etc., em uma extensão enorme.

Não há necessidade de nos admirarmos que a alimentação carnívora seja uma das causas mais sérias das doenças que ceifam noventa e nove em cada cem pessoas que nascem."

Sir Edward Saunders nos diz: "Qualquer tentativa de ensinar à humanidade que carne e cerveja não são necessárias para a saúde e a eficiência deve ser boa e deve tender à economia e à felicidade; e, à medida que isso avança, acredito que ouviremos menos sobre gota, doença de Bright e problemas de fígado e rins no primeiro caso, e menos sobre brutalidade, espancamento de esposas e assassinato no segundo.

Acredito que a tendência é para a dieta vegetariana, que ela será reconhecida como adequada e apropriada, e que o tempo não está distante em que a ideia de alimento animal será considerada repugnante para o homem civilizado."

Sir Robert Christison, M.D., afirma positivamente que "A carne e as secreções de animais afetados por doenças carbunculosas análogas ao antraz são tão venenosas que aqueles que ingerem seus produtos tendem a sofrer gravemente — a doença assumindo a forma de inflamação (Página 265) do canal digestivo, ou de uma erupção de um ou mais carbúnculos."

Dr. A. Kingsford, da Universidade de Paris, diz: "A carne animal pode diretamente gerar muitas doenças dolorosas e repugnantes.

A própria escrófula, essa fonte fecunda de sofrimento e morte, provavelmente deve sua origem aos hábitos de alimentação carnívora.

É um fato curioso que a palavra escrófula deriva de scrofa, uma porca."

Dizer que alguém tem escrófula é dizer que tem o "mal dos porcos". Em seu quinto relatório ao Conselho Privado da Inglaterra, encontramos o Professor Gamgee declarando que "um quinto da quantidade total de carne consumida é derivado de animais abatidos em estado de doença maligna"; enquanto o Professor A. Wynter Blyth, F.R.C.S., escreve: "Economicamente falando, a alimentação cárnea não é necessária; e carne seriamente doente pode ser tão preparada a ponto de parecer carne razoavelmente boa.

Muitos animais com doenças avançadas dos pulmões, no entanto, não apresentam à vista desarmada nenhuma aparência na carne que difira do normal." O Dr. M.F. Coomes, no artigo acima citado, observa: "Temos muitos substitutos para a carne que são livres dos efeitos deletérios desse alimento sobre a economia animal - a saber, na produção de reumatismo, gota e todas as outras doenças afins, para não mencionar a congestão cerebral, que frequentemente termina em apoplexia e doenças venais de um tipo ou de outro, enxaqueca e muitas outras formas de dor de cabeça, resultantes do uso excessivo de carne, e frequentemente produzidas mesmo quando a carne não é consumida em excesso.

O Dr. J.H. Kellogg observa: "É interessante notar que homens de ciência em todo o mundo estão despertando para o fato de que a carne de animais como alimento não é um nutriente puro, mas está misturada com substâncias venenosas, de caráter excrementício, que são os resultados naturais (página 266) da vida animal.

O vegetal armazena energia.

É do mundo vegetal - o carvão e a madeira - que se deriva a energia que move nossas máquinas a vapor, puxa nossos trens, impulsiona nossos navios a vapor e realiza o trabalho da civilização.

É do mundo vegetal que todos os animais, direta ou indiretamente, derivam a energia que se manifesta pela vida animal através do trabalho muscular e mental. O vegetal constrói; o animal destrói.

O vegetal armazena energia; o animal gasta energia.

Vários produtos residuais e venenosos resultam da manifestação de energia, seja pela locomotiva ou pelo animal.

Os tecidos ativos do animal só conseguem continuar sua atividade pelo fato de serem continuamente lavados pelo sangue, uma corrente ininterrupta que flui através e ao redor deles, levando embora os produtos venenosos resultantes de seu trabalho tão rapidamente quanto são formados.

O sangue venoso deve seu caráter a esses venenos, que são removidos pelos rins, pulmões, pele e intestinos.

A carne de um animal morto contém uma grande quantidade desses venenos, cuja eliminação cessa no instante da morte, embora sua formação continue por algum tempo após a morte.

Um eminente cirurgião francês observou recentemente que "o caldo de carne é uma verdadeira solução de venenos". Médicos inteligentes em toda parte estão começando a reconhecer esses fatos e a fazer deles uma aplicação prática.

Aqui novamente você vê que não nos falta evidência; e muitas das citações a respeito da introdução de venenos no sistema através da alimentação à base de carne não provêm de médicos vegetarianos, mas daqueles que ainda consideram correto comer com moderação de cadáveres, mas que, no entanto, estudaram até certo ponto a ciência do assunto.

Deve-se lembrar que carne morta nunca pode estar em (página 267) uma condição de perfeita saúde, porque a decomposição começa no momento em que a criatura é morta.

Todos os tipos de produtos estão sendo formados nesse processo de mudança retrógrada; todos eles são inúteis, e muitos são positivamente perigosos e venenosos.

Nas antigas escrituras dos hindus encontramos uma passagem muito notável, que se refere ao fato de que mesmo na Índia algumas das castas inferiores já naquele período primitivo haviam começado a se alimentar de carne.

A declaração feita é que nos tempos antigos existiam apenas três doenças, uma das quais era a velhice; mas que agora, desde que as pessoas começaram a comer carne, setenta e oito novas doenças surgiram. Isso nos mostra que a ideia de que a doença pudesse vir da devoração de cadáveres tem sido reconhecida há milhares de anos.

MAIS NATURAL PARA O HOMEM

Terceiro: Porque o homem não é naturalmente feito para ser carnívoro e, portanto, esse alimento horrível não é adequado para ele.

Aqui novamente deixe-me dar algumas citações para mostrar quais autoridades estão ao nosso lado nesta questão.

O próprio Barão Cuvier escreve: "O alimento natural do homem, a julgar por sua estrutura, consiste em frutas, raízes e vegetais"; e o Professor Ray nos diz: "Certamente o homem nunca foi feito para ser um animal carnívoro". Sir Richard Owen, F.R.C.S., escreve: "Os antropoides e todos os quadrúmanos derivam sua alimentação de frutas, grãos e outras substâncias vegetais suculentas, e a estrita analogia que existe entre as estruturas desses animais e a do homem demonstra claramente sua natureza frugívora."

Outro membro da Royal Society, o Professor William Lawrence, escreve: "Os dentes do homem não têm a menor semelhança com os dos animais carnívoros" (página 268), "e quer consideremos os dentes, as mandíbulas ou os órgãos digestivos, a estrutura humana se assemelha muito à dos animais frugívoros."

Mais uma vez, o Dr. Spencer Thompson observa: "Nenhum fisiologista contestaria que o homem deveria viver de uma dieta vegetariana"; e o Dr. Sylvester Graham escreve: "A anatomia comparada prova que o homem é naturalmente um animal frugívoro, formado para subsistir de frutas, sementes e vegetais farináceos."

A conveniência da dieta vegetariana, é claro, não precisará de argumentos para qualquer um que acredite na inspiração das escrituras, pois será lembrado que Deus, ao falar com Adão enquanto este estava no jardim do Éden, disse: "Eis que vos dei toda erva que dá semente sobre a face de toda a terra, e toda árvore em que há fruto de árvore que dá semente; isso vos será por alimento." Foi somente após a queda do homem, quando a morte entrou no mundo, que uma ideia mais degradada de alimentação veio junto; e se agora esperamos ascender novamente às condições edênicas, devemos certamente começar por abolir o massacre desnecessário realizado para nos fornecer alimentos horríveis e degradantes.

4. Maior Força

Quarto: Porque os homens são mais fortes e melhores com uma dieta vegetariana.

Eu sei o que as pessoas dizem: "Você ficará tão fraco se não comer carne morta." Na verdade, isso é falso.

Não sei se há pessoas que se sintam mais fracas com uma dieta de vegetais; mas sei disto: em muitas competições atléticas recentes, os vegetarianos provaram ser os mais fortes e resistentes – como, por exemplo, nas recentes corridas de ciclismo na Alemanha, onde todos os que alcançaram posições de destaque na corrida eram vegetarianos.

Houve (página 269) muitas dessas provas, e elas mostram que, em igualdade de condições, o homem que se alimenta de comida pura obtém melhores resultados.

Temos que enfrentar os fatos, e neste caso os fatos estão todos de um lado, contra preconceitos tolos e desejos repugnantes do outro.

A razão foi claramente apresentada recentemente pelo Dr. J.D. Craig, que escreve: "O vigor do corpo é frequentemente ostentado pelos carnívoros, especialmente se vivem ao ar livre; mas há esta peculiaridade neles: não têm a resistência dos vegetarianos."

A razão disso é que a carne já se encontra no caminho descendente da mudança retrógrada e, como consequência, sua presença nos tecidos é de curta duração.

O impulso que lhe foi dado no corpo do animal do qual foi extraída é reforçado por outro impulso no segundo corpo, e por essas razões a energia que ela contém é logo liberada, havendo demandas urgentes por mais para ocupar seu lugar.

O carnívoro, então, pode realizar grandes quantidades de trabalho em pouco tempo, se bem alimentado.

Por outro lado, os produtos vegetais são de digestão lenta; contêm todo o estoque original de energia e nenhum veneno; sua mudança retrógrada é menos rápida que a da carne, tendo apenas começado, e portanto sua força é liberada mais lentamente, com menos perda, e a pessoa nutrida por eles pode trabalhar por muito tempo sem alimento, se necessário, e sem desconforto.

As pessoas na Europa que se abstêm de carne são da classe melhor e mais inteligente, e o assunto da resistência foi abordado e minuciosamente investigado por elas.

Na Alemanha e na Inglaterra, uma série de notáveis competições atléticas que exigiam resistência foi realizada entre carnívoros e vegetarianos, com o resultado de que os vegetarianos invariavelmente saíram vitoriosos. (Página 270)

Descobriremos, se investigarmos, que esse fato é conhecido há muito tempo, pois mesmo na história antiga encontramos vestígios dele. Recordar-se-á que, de todas as tribos de gregos, os mais fortes e os mais resistentes, por admissão e reputação universais, eram os espartanos; e a simplicidade de sua dieta vegetal é questão de conhecimento comum.

Pensai também nos atletas gregos — aqueles que se preparavam com tanto cuidado para a participação nos Jogos Olímpicos e Ístmicos.

Se lerdes os clássicos, descobrireis que esses homens, que em sua própria área superavam todo o resto do mundo, viviam de figos, nozes, queijo e milho.

Havia também os gladiadores romanos — homens de cuja força dependiam sua vida e fama; e, no entanto, descobrimos que sua dieta consistia exclusivamente de bolos de cevada e azeite; eles sabiam bem que esse era o alimento mais fortalecedor.

Todos esses exemplos nos mostram que a falácia comum e persistente de que é preciso comer carne para ser forte não tem fundamento algum na realidade; de fato, exatamente o contrário é verdadeiro.

Charles Darwin observou em uma de suas cartas: "Os trabalhadores mais extraordinários que já vi, os trabalhadores das minas do Chile, vivem exclusivamente de alimentos vegetais, incluindo muitas sementes de plantas leguminosas." Sobre os mesmos mineiros, Sir Francis Head escreve: "É comum os mineiros de cobre do Chile Central carregarem cargas de minério de duzentas libras de peso por oitenta jardas perpendiculares doze vezes ao dia; e sua dieta é inteiramente vegetariana – um café da manhã de figos e pequenos pães, um almoço de feijão cozido e um jantar de trigo torrado."

O Sr. F.T. Wood, em suas *Descobertas em Éfeso*, escreve: "Os carregadores turcos em Esmirna frequentemente carregam de quatrocentas a seiscentas libras de peso nas costas, e o capitão um dia me apontou um de seus homens que havia carregado um enorme fardo de mercadorias pesando (página 271) oitocentas libras por uma rampa até um armazém superior; de modo que com essa dieta frugal sua força era extraordinariamente grande."

Sobre esses mesmos turcos, Sir William Fairburn disse: "O turco pode viver e lutar onde soldados de qualquer outra nacionalidade morreriam de fome. Seus hábitos simples, sua abstinência de bebidas intoxicantes e sua dieta vegetariana normal permitem-lhe suportar as maiores dificuldades e existir com os alimentos mais escassos e simples."

Eu mesmo posso testemunhar a enorme força exibida pelos coolies tâmeis vegetarianos do sul da Índia, pois frequentemente os vi carregar cargas que me surpreenderam. Lembro-me de um caso em que estava no convés de um navio a vapor e observei um desses coolies pegar uma enorme caixa nas costas e caminhar lenta mas firmemente por uma prancha até a praia com ela e depositá-la em um galpão. O capitão que estava ao meu lado comentou com surpresa: "Ora, foram necessários quatro trabalhadores ingleses para colocar essa caixa a bordo nos docas de Londres!" Também vi outro desses coolies, depois de ter um piano de cauda colocado em suas costas, carregá-lo sem ajuda por uma distância considerável; no entanto, esses homens são inteiramente vegetarianos, pois vivem principalmente de arroz e água, com talvez ocasionalmente um pouco de tamarindo para dar sabor.

Sobre o mesmo assunto, o Dr. Alexander Haig, a quem já citamos, escreve: "O efeito de me livrar do ácido úrico tem sido tornar minhas forças corporais tão grandes quanto eram há quinze anos; mal acredito que mesmo há quinze anos eu pudesse ter empreendido o exercício em que agora me entrego com absoluta impunidade — com liberdade de fadiga e aflição no momento e de rigidez no dia seguinte.

Na verdade, muitas vezes digo que agora é impossível cansar-me, e relativamente acredito que isso é verdade." Este distinto médico tornou-se vegetariano (Página 272) porque, a partir de seu estudo das doenças causadas pela presença de ácido úrico no organismo, descobriu que a alimentação cárnea era a principal fonte desse veneno mortal.

Outro ponto interessante que ele menciona é que sua mudança de dieta provocou nele uma distinta mudança de temperamento — que, enquanto antes se encontrava constantemente nervoso e irritável, agora se tornou muito mais estável e calmo e menos irado; ele percebe plenamente que isso se deve à mudança em sua alimentação.

Se precisarmos de qualquer evidência adicional, temos à mão no reino animal.

Observaremos que ali os carnívoros não são os mais fortes, mas que todo o trabalho do mundo é feito pelos herbívoros — por cavalos, mulas, bois, elefantes e camelos.

Não descobrimos que os homens possam utilizar o leão ou o tigre, nem que a força desses selvagens comedores de carne seja de todo igual à daqueles que assimilam diretamente do reino vegetal.

5. Menos Paixão Animal

Quinto: Porque a ingestão de corpos mortos leva à indulgência na bebida e aumenta as paixões animais no homem.

O Sr. H.B. Fowler, que estudou e palestrou sobre dipsomania por quarenta anos, declara que o uso de alimentos cárneos, pela excitação que exerce sobre o sistema nervoso, prepara o caminho para hábitos de intemperança em tudo; e quanto mais carne é consumida, mais sério é o perigo de alcoolismo confirmado.

Muitos médicos experientes fizeram experimentos semelhantes e sabiamente agem com base neles em seu tratamento de dipsomaníacos.

A parte inferior da natureza do homem é indubitavelmente intensificada pelo hábito de se alimentar de cadáveres.

Mesmo após uma refeição completa de tão horrível material, o homem ainda se sente insatisfeito, pois ainda está consciente de (Página 273) um vago e desconfortável senso de falta, e consequentemente sofre muito com tensão nervosa.

Esse anseio é a fome dos tecidos corporais, que não podem ser renovados pela matéria pobre que lhes é oferecida como alimento.

Para satisfazer esse vago anseio, ou melhor, para apaziguar esses nervos inquietos de modo que ele não seja mais sentido, recorre-se frequentemente a estimulantes.

Às vezes, bebidas alcoólicas são ingeridas; outras vezes, tenta-se aliviar esses sentimentos com café preto; e em outras ocasiões, usa-se tabaco forte na tentativa de acalmar os nervos irritados e exaustos.

Aqui temos o começo da intemperança, pois na maioria dos casos a intemperança começou na tentativa de aliviar com estimulantes alcoólicos o vago e desconfortável senso de carência que se segue ao consumo de alimentos empobrecidos — alimentos que não nutrem.

Não há dúvida de que a embriaguez e toda a pobreza, miséria, doença e crime a ela associados podem frequentemente ser atribuídos a erros de alimentação.

Poderíamos seguir essa linha de pensamento indefinidamente.

Poderíamos falar da irritabilidade, que ocasionalmente culmina em insanidade, e que hoje é reconhecida por todas as autoridades como um resultado frequente da alimentação errônea.

Poderíamos mencionar uma centena de sintomas familiares de indigestão e explicar que a indigestão é sempre o resultado de alimentação incorreta.

Certamente, porém, já foi dito o suficiente para indicar a importância e a influência de longo alcance de uma dieta pura sobre o bem-estar do indivíduo e da raça.

O Sr. Bramwell Booth, o chefe do Exército da Salvação, emitiu um pronunciamento sobre este assunto do vegetarianismo, no qual fala forte e decididamente a seu favor, dando uma lista de nada menos que dezenove boas razões pelas quais os homens devem abster-se de comer carne.

Ele insiste que uma dieta vegetariana é necessária para a pureza, para a castidade e para o perfeito controle dos apetites e (Página 274) paixões que tantas vezes são a fonte de grande tentação.

Ele observa que o crescimento do consumo de carne entre o povo é uma das causas do aumento da embriaguez, e que também favorece a indolência, a sonolência, a falta de energia, a indigestão, a constipação e outras misérias e degradações semelhantes.

Ele também afirma que eczema, hemorroidas, vermes, disenteria e fortes dores de cabeça são frequentemente provocados pela dieta de carne, e que acredita que o grande aumento da tuberculose e do câncer durante os últimos cem anos tenha sido causado pelo aumento correspondente no uso de alimentos de origem animal.

6. Economia

Sexto: porque a dieta vegetal é, em todos os sentidos, mais barata e também melhor do que a carne.

Na encíclica recém-mencionada, o Sr. Booth apresenta como uma de suas razões para defendê-la que "uma dieta vegetariana de trigo, aveia, milho e outros grãos, lentilhas, ervilhas, feijões, nozes e alimentos similares é mais de dez vezes mais econômica do que a dieta de carne.

A carne contém metade do seu peso em água, que precisa ser paga como se fosse carne.

Uma dieta vegetal, mesmo se permitirmos queijo, manteiga e leite, custará apenas cerca de um quarto do que custa uma dieta mista de carne e vegetais.

Dezenas de milhares de nossos pobres, que hoje têm a maior dificuldade para equilibrar o orçamento depois de comprar alimentos cárneos, poderiam, com a substituição por frutas, vegetais e outros alimentos econômicos, viver confortavelmente."

Há também um lado econômico desta questão que não deve ser ignorado.

Note quantos mais homens poderiam ser sustentados por um certo número de acres de terra dedicados ao cultivo de trigo, do que pela mesma quantidade de terra destinada a pastagem.

Pense também em quantos mais homens encontrariam trabalho saudável na (Página 275) terra no primeiro caso do que no segundo; e creio que começareis a ver que há muito a dizer também deste ponto de vista.

O Pecado da Matança

Até agora temos falado do que chamamos de considerações físicas e egoístas que deveriam levar um homem a abandonar o consumo dessa carne morta e voltá-lo, ainda que apenas por seu próprio bem, para a dieta mais pura.

Pensemos agora por alguns momentos nas considerações morais e altruístas relacionadas ao seu dever para com os outros.

A primeira delas — e esta me parece uma coisa verdadeiramente terrível — é o horrível pecado de matar desnecessariamente esses animais.

Aqueles que vivem em Chicago sabem bem como essa matança incessante e macabra ocorre em seu meio, como alimentam a maior parte do mundo por meio de um abate em massa, e como o dinheiro ganho nesse negócio abominável está manchado de sangue, cada moeda dele. Mostrei claramente, com testemunho irrepreensível, que tudo isso é desnecessário.

A destruição da vida é sempre um crime.

Pode haver certos casos em que seja o menor de dois males; mas aqui é desnecessário e sem sombra de justificativa, pois ocorre apenas por causa da ganância egoísta e inescrupulosa daqueles que cunham dinheiro com as agonias do reino animal para satisfazer os gostos pervertidos daqueles que são suficientemente depravados para desejar tal alimento repugnante.

Lembrai-vos de que não são apenas aqueles que fazem o trabalho obsceno, mas também aqueles que, alimentando-se dessa carne morta, os encorajam e tornam seu crime lucrativo, que são culpados diante de Deus por essa coisa terrível. Toda pessoa que participa desse alimento impuro tem sua parcela na culpa e no sofrimento indescritíveis pelos quais ele foi (Página 276) obtido.

É universalmente reconhecido no direito que *qui facit per alium facit per se* — o que um homem faz por meio de outro, ele o faz a si mesmo.

Um homem dirá frequentemente: "Mas não faria diferença, pois embora você consuma apenas uma ou duas libras por dia, isso com o tempo equivaleria ao peso de um animal."

Em segundo lugar, não é uma questão de quantidade, mas de cumplicidade em um crime; e se você participa dos resultados do crime, está ajudando a torná-lo lucrativo, e assim compartilha da culpa.

Nenhum homem honesto pode deixar de ver que isso é assim. Mas quando as paixões inferiores dos homens estão envolvidas, eles geralmente são desonestos em sua visão e se recusam a encarar os fatos claros.

Certamente não pode haver diferença de opinião quanto à proposição de que todo esse abate horrível e desnecessário é de fato um crime terrível.

Outro ponto a ser lembrado é que há uma crueldade terrível ligada ao transporte desses miseráveis animais, tanto por terra quanto por mar, e há frequentemente uma crueldade terrível no próprio abate.

Aqueles que buscam justificar esses crimes repugnantes vos dirão que se faz um esforço para assassinar os animais da forma mais rápida e indolor possível; mas basta ler os relatos para ver que em muitos casos essas intenções não são cumpridas, e um sofrimento apavorante se segue.

A Degradação do Açougueiro

Ainda outro ponto a ser considerado é a maldade de causar degradação e pecado em outros homens.

Se vocês mesmos tivessem que usar a faca do machado e abater o animal antes de poderem se alimentar de sua carne, perceberiam a natureza repugnante da tarefa e logo se recusariam a realizá-la. As delicadas senhoras (página 277) que devoram sanguinolentos bifes gostariam de ver seus filhos trabalhando como açougueiros? Se não, então não têm o direito de impor essa tarefa ao filho de outra mulher.

Não temos o direito de impor a um concidadão um trabalho que nós mesmos recusaríamos fazer. Pode-se dizer que não forçamos ninguém a assumir esse abominável meio de subsistência; mas isso é mera tergiversação, pois ao comer esse alimento horrível estamos fazendo uma exigência de que alguém se brutalize, de que alguém se degrade abaixo do nível da humanidade.

Vocês sabem que uma classe de homens foi criada pela demanda por esse alimento — uma classe de homens que tem uma reputação extremamente má.

Naturalmente, aqueles que são brutalizados por um trabalho tão impuro como esse provam-se brutais também em outras relações.

São selvagens em sua disposição e sanguinários em suas brigas; e ouvi dizer que em muitos casos de assassinato foram encontradas evidências de que o criminoso empregava o peculiar golpe de faca característico do açougueiro.

Vocês devem certamente reconhecer que aqui há um trabalho indizivelmente horrível, e que se vocês tomam parte nesse terrível negócio — mesmo que apenas ajudando a sustentá-lo — estão colocando outro homem na posição de fazer (não por necessidade de vocês, mas meramente para a gratificação de seus desejos e paixões) um trabalho que vocês sob nenhuma circunstância consentiriam em fazer por si mesmos.

Então devemos certamente lembrar que todos nós esperamos pelo tempo de paz e bondade universais — uma era dourada em que a guerra não existirá mais, um tempo em que o homem estará tão afastado da contenda e da ira que todas as condições do mundo serão diferentes das que hoje prevalecem.

Vocês não acham que o reino animal também terá sua parte nesse bom tempo vindouro — que esse horrível pesadelo de abate em massa (página 278) será removido dele? As nações verdadeiramente civilizadas do mundo sabem muito melhor do que isso; é apenas que nós, do Ocidente, somos ainda uma raça jovem e ainda temos muitas das cruezas da juventude; caso contrário, não poderíamos suportar essas coisas entre nós nem por um dia.

Sem dúvida alguma, o futuro pertence ao vegetariano.

Parece certo que no futuro — e espero que possa ser num futuro próximo — olharemos para trás, para este tempo, com desgosto e com horror.

Apesar de todas as suas descobertas maravilhosas, apesar de sua maquinaria admirável, apesar das enormes fortunas que nele foram acumuladas, estou certo de que nossos descendentes olharão para esta era como uma de civilização apenas parcial e, na verdade, pouco afastada da selvageria.

Um dos argumentos pelos quais provarão isso será, certamente, que permitimos entre nós essa matança generalizada e desnecessária de animais inocentes — que, na verdade, nos alimentávamos dela e ganhávamos dinheiro com ela, e que até criamos uma classe de seres que faziam esse trabalho sujo por nós, e que não tínhamos vergonha de lucrar com o resultado de sua degradação.

Todas essas são considerações que se referem apenas ao plano físico.

Agora deixem-me contar algo sobre o lado oculto disso.

Até o presente, fiz a vocês muitas afirmações — fortes e definidas, espero — mas todas elas são afirmações que vocês podem comprovar por si mesmos.

Vocês podem ler o testemunho de médicos e cientistas bem conhecidos; podem testar por si mesmos o lado econômico da questão; podem ir e ver, se quiserem, como todos esses diferentes tipos de homens conseguem viver tão bem com uma dieta vegetariana.

Tudo o que disse até aqui está, portanto, ao seu alcance.

Mas agora estou abandonando o campo do raciocínio físico comum e levando-os ao nível onde vocês têm, naturalmente, (página 279) de aceitar a palavra daqueles que exploraram esses reinos superiores.

Voltemo-nos então agora para o lado oculto de tudo isso — o oculto.

Razões Ocultas

Sob este título também teremos dois conjuntos de razões — aquelas que se referem a nós mesmos e ao nosso próprio desenvolvimento, e aquelas que se referem ao grande esquema da evolução e ao nosso dever para com ele; de modo que, mais uma vez, podemos classificá-las como egoístas e altruístas, embora em um nível muito mais elevado do que antes.

Espero ter mostrado claramente, na parte anterior desta palestra, que simplesmente não há espaço para argumentação no que diz respeito a esta questão do vegetarianismo; todas as evidências e considerações estão inteiramente de um lado, e não há absolutamente nada a dizer em oposição a elas.

Isso é ainda mais notavelmente o caso quando passamos a considerar a parte oculta de nosso argumento.

Há alguns estudantes que rondam as margens do ocultismo e que ainda não estão preparados para seguir seus ditames até o fim, e portanto não aceitam seus ensinamentos quando estes interferem em seus hábitos e desejos pessoais.

Alguns deles tentaram sustentar que a questão da alimentação pouco importa do ponto de vista ocultista; mas o veredito unânime de todas as grandes escolas de ocultismo, tanto antigas quanto modernas, tem sido definitivo nesse ponto, e elas afirmaram que para todo progresso verdadeiro a pureza é necessária, mesmo no plano físico e em questões de dieta, assim como em assuntos muito mais elevados.

Em palestras anteriores, já expliquei a existência dos diferentes planos da natureza e do vasto mundo invisível que nos cerca; e também tive ocasião de me referir frequentemente ao fato de que o homem possui dentro de si matéria pertencente a todos esses planos superiores, de modo que (Página 280) ele é dotado de um veículo correspondente a cada um deles, através do qual pode receber impressões e por meio do qual pode agir.

Podem esses corpos superiores do homem ser de alguma forma afetados pelos alimentos que entram no corpo físico, com o qual estão tão intimamente ligados? Certamente podem, e por esta razão.

A matéria física no homem está em estreito contato com a matéria astral e mental — tanto que cada uma é, em grande medida, a contraparte da outra.

Existem muitos tipos e graus de densidade entre a matéria astral, por exemplo, de modo que é possível que um homem tenha um corpo astral construído de partículas grosseiras e densas, enquanto outro pode ter um que é muito mais delicado e refinado.

Como o corpo astral é o veículo das emoções, paixões e sensações, segue-se que o homem cujo corpo astral é do tipo mais grosseiro será principalmente suscetível às variedades mais grosseiras de paixão e emoção; enquanto o homem que tem um corpo astral mais fino descobrirá que suas partículas vibram mais prontamente em resposta a emoções e aspirações mais elevadas e refinadas.

O homem que, portanto, incorpora matéria grosseira e indesejável em seu corpo físico está, com isso, atraindo para seu corpo astral matéria de tipo grosseiro e desagradável como sua contraparte.

Todos sabemos que no plano físico o efeito do excesso de carne morta é produzir uma aparência grosseira e pesada no homem.

Isso não significa que apenas o corpo físico se encontra em uma condição desagradável; significa também que aquelas partes do homem que são invisíveis à nossa visão comum, os corpos astral e mental, também não estão em boas condições.

Assim, um homem que está construindo para si um corpo físico grosseiro e impuro está construindo para si, ao mesmo tempo, corpos astral e mental grosseiros e impuros também.

Isso é visível imediatamente ao olho do clarividente desenvolvido.

(Página 281) O homem que aprende a ver esses veículos superiores vê imediatamente os efeitos produzidos nos corpos superiores pela impureza nos inferiores; ele vê imediatamente a diferença entre o homem que alimenta seu veículo físico com alimento puro e o homem que nele coloca essa carne em decomposição repugnante.

Vejamos como essa diferença afetará a evolução do homem.

Veículos Impuros

É claro que o dever de um homem para consigo mesmo é desenvolver todos os seus diferentes veículos o máximo possível, a fim de torná-los instrumentos aperfeiçoados para o uso da alma.

Há ainda um estágio mais elevado no qual essa própria alma está sendo treinada para ser um instrumento adequado nas mãos do Logos, um canal perfeito para a graça divina; mas o primeiro passo em direção a esse elevado objetivo é que a própria alma aprenda a controlar minuciosamente os veículos inferiores, de modo que não haja neles pensamento ou sentimento exceto aqueles que a alma permite.

Todos esses veículos, portanto, devem estar na mais alta condição possível de eficiência; todos devem ser puros e limpos e livres de mácula; e é óbvio que isso nunca poderá ocorrer enquanto o homem absorver no veículo físico constituintes tão indesejáveis.

Mesmo o corpo físico e suas percepções sensoriais nunca podem estar em seu melhor estado, a menos que o alimento seja puro.

Qualquer pessoa que adote uma dieta vegetariana começará rapidamente a notar que seu sentido do paladar e do olfato é muito mais aguçado do que quando se alimentava de carne, e que agora é capaz de discernir uma diferença delicada de sabor em alimentos que antes considerava insípidos, como arroz e trigo.

O mesmo se aplica, em grau ainda maior, aos corpos superiores.

Seus sentidos também não podem ser claros se matéria impura ou grosseira for atraída para eles; (Página 282) qualquer coisa dessa natureza os obstrui e os embota, de modo que se torna mais difícil para a alma usá-los.

Este é um fato que sempre foi reconhecido pelo estudante de ocultismo; você verá que todos aqueles que nos tempos antigos ingressavam nos Mistérios eram homens da mais extrema pureza e, naturalmente, invariavelmente vegetarianos.

A dieta cárnea é fatal para qualquer desenvolvimento real, e aqueles que a adotam estão criando dificuldades sérias e desnecessárias em seu próprio caminho.

Estou bem ciente de que há outras considerações, ainda mais elevadas, que têm maior peso do que qualquer coisa no plano físico, e que a pureza do coração e da alma é mais importante para o homem do que a do corpo.

Contudo, certamente não há razão para não termos ambas; de fato, uma sugere a outra, e o superior deve incluir o inferior.

Já há dificuldades suficientes no caminho do autocontrole e do autodesenvolvimento; é certamente pior que tolice sairmos do nosso caminho para acrescentar outra, e bastante considerável, à lista.

Embora seja verdade que um coração puro fará mais por nós do que um corpo puro, este último certamente pode fazer muito; e nenhum de nós está tão avançado no caminho rumo à espiritualidade que possa se dar ao luxo de negligenciar a grande vantagem que ele nos proporciona. Qualquer coisa que torne nosso caminho mais difícil do que o necessário é enfaticamente algo a ser evitado.

Em todos os casos, esse alimento cárneo, sem dúvida, torna o corpo físico um instrumento pior e coloca dificuldades no caminho da alma, intensificando todos os elementos e paixões indesejáveis pertencentes a esses planos inferiores.

Nem é esse efeito sério durante a vida física o único que temos de considerar.

Se, ao introduzir impurezas repugnantes no corpo físico, o homem constrói para si um corpo astral grosseiro e impuro, temos (página 283) de lembrar que é nesse veículo degradado que ele terá de passar a primeira parte de sua vida após a morte.

Por causa da matéria grosseira que ele incorporou a ele, todos os tipos de entidades indesejáveis serão atraídas para associarem-se a ele, farão de seus veículos seu lar e encontrarão nele uma pronta resposta às suas paixões inferiores.

Não é apenas que suas paixões animais sejam mais facilmente despertadas aqui na Terra, mas também que ele sofrerá agudamente com a manifestação desses desejos após a morte.

Aqui novamente, visto até do ponto de vista egoísta, vemos que as considerações ocultas confirmam o bom senso direto dos argumentos no plano físico.

A visão superior, quando aplicada a este problema, mostra-nos ainda mais vividamente quão indesejável é a devoração de carne, pois ela intensifica dentro de nós aquilo de que mais precisamos nos libertar e, portanto, do ponto de vista do progresso, esse hábito é algo a ser eliminado de uma vez por todas.

O Dever do Homem para com a Natureza

Há também o lado muito mais importante e altruísta da questão — o do dever do homem para com a natureza.

Toda religião ensinou que o homem deve colocar-se sempre ao lado da vontade de Deus no mundo, ao lado do bem contra o mal, da evolução contra a regressão.

O homem que se alinha ao lado da evolução percebe a maldade de destruir a vida; pois sabe que, assim como está aqui neste corpo físico para aprender as lições deste plano, o animal ocupa seu corpo pela mesma razão, para que, a partir dele, possa obter experiência em seu estágio inferior.

Ele sabe que a vida por trás do animal é a Vida Divina, que toda vida no mundo é Divina; os animais são, portanto, verdadeiramente nossos irmãos, ainda que possam ser (página 284) irmãos mais novos, e não temos nenhum tipo de direito de tirar suas vidas para a gratificação de nossos gostos pervertidos — nenhum direito de causar-lhes agonia e sofrimento inenarráveis meramente para satisfazer nossos desejos degradados e detestáveis.

Chegamos a tal ponto com o nosso mal chamado "esporte" e as nossas matanças em massa, que todas as criaturas selvagens fogem da nossa vista. Isso parece a fraternidade universal das criaturas de Deus? É essa a sua ideia da era dourada de bondade sábia que há de vir — uma condição em que todo ser vivo foge da face do homem por causa de seus instintos assassinos? Há uma influência que retorna sobre nós de tudo isso — um efeito que dificilmente se pode perceber, a menos que se seja capaz de ver como isso se apresenta quando observado com a visão do plano superior.

Cada uma dessas criaturas que você tão impiedosamente assassina dessa maneira tem seus próprios pensamentos e sentimentos a respeito de tudo isso; sente horror, dor e indignação, e um intenso, embora inexpresso, sentimento da hedionda injustiça de tudo isso.

Toda a atmosfera ao nosso redor está repleta disso. Recentemente, ouvi duas vezes de pessoas psíquicas que sentiram a terrível aura ou os arredores de Chicago mesmo a muitos quilômetros de distância. Sra.

A própria Besant me contou a mesma coisa anos atrás, na Inglaterra — que muito antes de avistar Chicago, ela sentiu o horror da cidade e o pálio mortal de depressão que descia sobre ela, e perguntou: "Onde estamos, e qual é a razão para que haja essa terrível sensação no ar?" Perceber o efeito com tanta clareza assim está além do alcance da pessoa que não é desenvolvida; mas, embora todos os habitantes possam não estar diretamente conscientes disso e reconhecê-lo como a Sra.

Besant o fez, podem ter certeza de que estão sofrendo com isso inconscientemente, e que essa terrível vibração de (Página 285) horror, medo e injustiça está agindo sobre cada um deles, mesmo que não o saibam. Resultados Invisíveis e Macabros

Os sentimentos de nervosismo e profunda depressão, tão comuns ali, devem-se em grande parte a essa influência terrível que se espalha sobre a cidade como uma nuvem de praga.

Não sei quantos milhares de criaturas são mortas todos os dias, mas o número é muito grande.

Lembre-se de que cada uma dessas criaturas é uma entidade definida — não uma individualidade reencarnante permanente como a sua ou a minha, mas ainda assim uma entidade que tem sua vida no plano astral e ali persiste por um tempo considerável.

Lembre-se de que cada uma delas permanece para derramar seu sentimento de indignação e horror diante de toda a injustiça e tormento que lhe foram infligidos.

Perceba por si mesmo a terrível atmosfera que existe ao redor desses matadouros; lembre-se de que um clarividente pode ver as vastas hostes de almas animais, que sabe quão fortes são seus sentimentos de horror e ressentimento, e como esses sentimentos refluem em todos os pontos sobre a raça humana.

Eles reagem sobretudo sobre aqueles que menos conseguem resistir a eles — sobre as crianças, que são mais delicadas e sensíveis do que o adulto endurecido.

Aquela cidade é um lugar terrível para se criar filhos — um lugar onde toda a atmosfera, tanto física quanto psíquica, está carregada de vapores de sangue e de tudo o que isso significa.

Li um artigo outro dia em que se explicava que o fedor nauseante que se eleva daqueles matadouros de Chicago e se assenta como um miasma fatal sobre a cidade não é, de forma alguma, a influência mais mortífera que sobe daquele inferno cristão para animais, embora seja o hálito de morte certa para o queridinho de muitas mães.

Os matadouros não criam apenas (Página 286) um covil de pestes para os corpos das crianças, mas também para suas almas.

Não apenas as crianças são empregadas no trabalho mais revoltante e cruel, mas toda a orientação de seus pensamentos é dirigida para matar.

Ocasionalmente, encontra-se uma que é sensível demais para suportar as visões e os sons dessa batalha incessante e terrível entre a luxúria cruel do homem e o direito inalienável de toda criatura à sua própria vida.

Li como um menino, para quem um ministro havia conseguido um lugar nesse matadouro, voltava para casa dia após dia pálido e doente, incapaz de comer ou dormir, e finalmente foi até aquele ministro do evangelho do Cristo compassivo e lhe disse que estava disposto a passar fome, se necessário, mas que não podia mais caminhar em sangue por mais um dia.

Os horrores da matança o afetaram tanto que ele não conseguia mais dormir.

No entanto, é isso que muitos meninos fazem e veem dia após dia até se tornarem insensíveis à tirania da vida; e então, um dia, em vez de cortar a garganta de um cordeiro ou de um porco, matam um homem, e imediatamente voltamos nossa sede de matança contra eles, e pensamos que fizemos justiça.

Li que uma jovem que realiza muito trabalho filantrópico na vizinhança dessas casas de pestilência declara que o que mais a impressiona nas crianças é que elas parecem não ter outros jogos senão jogos de matar, que não têm concepção de qualquer relação com os animais exceto a relação do açougueiro com a vítima.

Esta é a educação que os chamados cristãos estão dando a seus filhos no matadouro — uma educação diária em assassinato; e então expressam surpresa com o número e a brutalidade dos assassinatos naquela região.

No entanto, o público cristão continua serenamente fazendo suas orações, cantando seus salmos e ouvindo seus sermões, como se tais ultrajes não estivessem sendo perpetuados contra os filhos de Deus naquele foco de pestilência (Página 287) e crime.

Certamente, o hábito de comer carne produziu uma apatia moral entre nós. Estais fazendo bem, pensais, em criar vossos futuros cidadãos em meio a circunstâncias de tamanha brutalidade como esta? Mesmo no plano físico, este é um assunto terrivelmente sério, e do ponto de vista oculto é, infelizmente, ainda mais sério; pois o ocultista vê o resultado psíquico de tudo isso, vê como essas forças atuam sobre as pessoas e como intensificam a brutalidade e a falta de escrúpulos.

Ele vê que centro de vício e crime vocês criaram, e como a partir dele a infecção se espalha gradualmente até afetar o país inteiro, e até mesmo toda a chamada humanidade civilizada.

O mundo está sendo afetado por isso de muitas maneiras que a maioria das pessoas não percebe minimamente.

Há constantes sentimentos de terror sem causa no ar.

Muitas de suas crianças estão desnecessária e inexplicavelmente amedrontadas; sentem terror de algo que não sabem o quê — terror do escuro, ou quando ficam sozinhas por alguns momentos.

Forças poderosas atuam ao nosso redor, das quais vocês não conseguem dar conta, e não percebem que tudo isso provém do fato de que toda a atmosfera está carregada da hostilidade dessas criaturas assassinadas.

Os estágios da evolução estão intimamente inter-relacionados, e vocês não podem cometer assassinato em massa dessa maneira contra seus irmãos menores sem sentir o efeito terrivelmente entre seus próprios filhos inocentes.

Certamente um tempo melhor há de vir, quando estaremos livres dessa horrível mancha em nossa civilização, dessa terrível reprovação à nossa compaixão e à nossa simpatia; e quando isso vier, descobriremos em breve que haverá uma vasta melhora nesses assuntos, e aos poucos todos nós ascenderemos a um nível mais elevado e seremos libertados de todos esses terrores e ódios instintivos.

(Página 288)

O Tempo Melhor que Há de Vir

Poderíamos todos ser libertados disso muito em breve, se homens e mulheres apenas pensassem; pois o homem comum não é, afinal, um bruto, mas deseja ser bondoso se ao menos soubesse como.

Ele não pensa; mas segue dia após dia, e não percebe que está participando o tempo todo de um crime terrível.

Mas fatos são fatos, e não há como escapar deles; todo aquele que participa dessa abominação, que ajuda a tornar possível essa coisa apavorante, está, sem dúvida, compartilhando a responsabilidade por ela. Vocês sabem que isso é assim, e podem ver que coisa terrível é; mas dirão: "O que podemos fazer para melhorar as coisas — nós, que somos apenas pequenas unidades nessa poderosa massa fervilhante da humanidade?" É somente através de unidades que se elevam acima do resto e se tornam mais civilizadas que finalmente chegaremos a uma civilização mais elevada da raça como um todo.

Há uma Idade de Ouro vindoura, não apenas para o homem, mas também para os reinos inferiores, um tempo em que a humanidade perceberá seu dever para com seus irmãos menores — não destruí-los, mas ajudá-los e treiná-los, para que possamos receber deles, não terror e ódio, mas amor e devoção e amizade e cooperação razoável.

Um tempo virá em que todas as forças da Natureza trabalharão inteligentemente em conjunto rumo ao fim final, não com constante suspeita e hostilidade, mas com o reconhecimento universal daquela Fraternidade que é nossa porque somos todos filhos do mesmo Pai Todo-Poderoso.

Façamos ao menos a experiência; libertemo-nos da cumplicidade nesses crimes terríveis, disponhamo-nos a tentar, cada um em seu pequeno círculo, aproximar aquele brilhante tempo de paz e amor que é o sonho e o desejo sincero de todo homem de coração verdadeiro e (Página 289) pensante.

Ao menos certamente deveríamos estar dispostos a fazer uma coisa tão pequena quanto esta para ajudar o mundo a avançar rumo àquele futuro glorioso; deveríamos nos tornar puros, nossos pensamentos e nossas ações, bem como nosso alimento, para que, pelo exemplo tanto quanto pelo preceito, possamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para difundir o evangelho do amor e da compaixão, para pôr fim ao reinado da brutalidade e do terror, e para aproximar o alvorecer do grande reino da retidão e do amor, quando a vontade de nosso Pai será feita na terra como no céu.

(Página 291)

CAPÍTULO XI

COMO CONSTRUIR O CARÁTER

A própria ideia implícita na construção do caráter é algo novo para muitas pessoas.

Elas geralmente pensam e falam de um homem como nascido com certo caráter e praticamente incapaz de mudá-lo. Às vezes pensam que o caráter de um homem foi alterado por grande dor ou sofrimento, como de fato muitas vezes acontece; mas comparativamente poucas pessoas parecem perceber que é algo que podem tomar em mãos e moldar por si mesmas — algo em que podem trabalhar constantemente com a certeza de obter bons resultados.

No entanto, é verdade que um homem pode mudar a si mesmo de forma inteligente e voluntária, e pode fazer de si mesmo praticamente o que quiser, dentro de limites muito amplos.

Mas naturalmente isso é um trabalho árduo.

O caráter do homem, tal como está agora, é o resultado de suas próprias ações e pensamentos anteriores.

Vocês que estão familiarizados com a ideia da reencarnação, com o pensamento de que esta vida é apenas um dia na vida muito mais ampla, reconhecerão que este dia deve depender de todos os outros dias, e que o homem é agora o que ele próprio se fez por meio do desenvolvimento anterior.

Mas ele viveu através de muitas vidas, e isso significa que ele passou muitos milhares de anos treinando a si mesmo para ser o que é, ainda que tal treinamento tenha sido inconsciente de sua parte e sem qualquer objetivo definido.

Ele estabeleceu, portanto, dentro de si mesmo muitos hábitos decididos.

Todos sabemos como é difícil conquistar o hábito — como é quase impossível livrar-se até mesmo de algum pequeno truque físico de maneirismo, uma vez que se tornou parte de nós mesmos.

Raciocinando das (página 292) pequenas coisas para as maiores, podemos facilmente perceber que, quando um homem tem certos hábitos que vêm se fortalecendo continuamente por milhares de anos, é uma tarefa séria para ele tentar conter seu impulso e reverter as correntes.

Essas linhas de pensamento e sentimento estão soldadas no homem, e se manifestam como qualidades que parecem estar profundamente enraizadas nele.

Agora que ele cedeu a elas por todo esse tempo, parece, do ponto de vista mundano, impossível resistir-lhes; contudo, de modo algum é impossível do ponto de vista do ocultista.

Se, por exemplo, o homem tem o que chamamos de caráter irritável, é porque ele se entregou a sentimentos dessa natureza em vidas anteriores — porque não desenvolveu dentro de si a virtude do autocontrole.

Se um homem tem um caráter estreito, mesquinho e ganancioso, é porque ele ainda não aprendeu as virtudes opostas da generosidade e do desinteresse.

Assim é em todo o percurso; o homem de mente aberta e coração afável construiu dentro de si essas virtudes durante as eras que passaram sobre sua cabeça.

Somos exatamente o que fizemos de nós mesmos.

Contudo, tornamo-nos o que somos sem qualquer esforço especial de pensamento ou de intenção.

Naquelas vidas passadas, crescemos sem estabelecer qualquer objetivo definido diante de nós, e permitimos que fôssemos, em grande medida, criaturas de nosso ambiente e de nossas circunstâncias.

Em alguns casos, podemos ter nos formado intencionalmente segundo o modelo de alguém que admirávamos, e essa pessoa pode ter influenciado nossas vidas amplamente por um tempo.

Mas, obviamente, este nosso herói, a quem copiamos, pode ter tido qualidades más tanto quanto boas; e nesses estágios iniciais é pouco provável que tivéssemos o discernimento para escolher apenas o bem e recusar (Página 293) o mal.

Assim, provavelmente podemos ter reproduzido em nós mesmos tanto as suas qualidades indesejáveis quanto aquelas que eram dignas de imitação.

Você pode ver que isso é assim se observar as ações das crianças na atualidade, pois delas podemos aprender muito sobre as prováveis ações da natureza infantil de nossas almas não desenvolvidas no passado.

Você pode ver como, às vezes, um menino concebe um violento culto ao herói por alguma pessoa mais velha e tenta modelar-se sobre ela.

Suponha, por exemplo, que o objeto de sua adoração seja algum velho marinheiro que possa lhe contar histórias maravilhosas de aventuras em mares tempestuosos e em terras distantes.

O que o menino admira é a coragem e a resistência do homem, e ele o respeita pela experiência e pelo conhecimento que adquiriu em suas peregrinações.

Ele não pode reproduzir imediatamente a coragem, a resistência ou a experiência; mas pode, e de fato o faz prontamente, copiar os traços exteriores de seu amigo marinheiro, e assim imitará fielmente as curiosas expressões náuticas, o mascar de tabaco e o andar balançante.

De maneira muito semelhante, nós também podemos ter sido adoradores de heróis em dias e vidas passados, e podemos ter estabelecido muitos hábitos desagradáveis imitando algum chefe selvagem cuja bravura jactanciosa arrancava nossa admiração.

É provável, no entanto, que esta ideia (de definitivamente tomarmos a nós mesmos em mãos com o propósito de melhorar) tenha ocorrido a poucos de nós antes desta vida.

Não há dúvida de que arrancar velhos maus hábitos e substituí-los por bons significa uma grande quantidade de trabalho e uma grande quantidade de árduo autocontrole.

É uma tarefa séria, e o homem comum não tem conhecimento de qualquer motivo suficientemente poderoso para induzi-lo a tentá-la. Na ausência desse motivo adequado, ele não vê por que deveria se submeter a tanto e tão sério (Página 294) trabalho.

Ele provavelmente pensa em si mesmo como um bom sujeito, no geral, embora possivelmente com uma ou duas fraquezas amáveis; mas reflete que todos têm suas fraquezas, e que as de muitas outras pessoas são muito piores do que qualquer uma que ele observa em si mesmo.

Então ele se deixa levar pela correnteza, sem fazer qualquer esforço.

Antes que se possa esperar que tal homem reverta seus velhos hábitos e se disponha a formar novos, com dor e esforço, ele deve primeiro perceber a necessidade de uma mudança de perspectiva e obter uma visão mais ampla da vida como um todo.

O homem comum do mundo é francamente, cinicamente egoísta.

Não quero dizer que seja intencionalmente cruel ou que seja desprovido de bons sentimentos; pelo contrário, pode muitas vezes ter impulsos bons e generosos.

Mas sua vida, no conjunto, é certamente uma vida egocêntrica; sua própria personalidade é o eixo em torno do qual gira a maior parte de seus pensamentos; ele julga tudo instantânea e instintivamente pela maneira como isso o afeta pessoalmente.

Ou está absorto na busca da riqueza, cego ao lado superior das coisas e à vida espiritual, ou então seu principal objetivo na existência parece ser o gozo físico do momento.

A Vacuidade Irresponsável Média

Para ver que assim é, basta olharmos ao nosso redor para os homens que encontramos todos os dias, ou ouvirmos as conversas que ocorrem nas ruas ou nos vagões de trem.

Em nove em cada dez casos, notaremos que as pessoas falam sobre dinheiro, diversões ou fofocas.

Sua única ideia na vida parece ser o que chamam de "aproveitar bem o tempo", ou, como frequentemente dizem em linguagem ainda mais grosseira e censurável, "se divertir muito" — como se isso fosse o fim e o objetivo da existência de um ser racional (página 295), uma centelha viva feita à Imagem Divina! Fiquei muito impressionado com isto: que a única ideia que muitas pessoas parecem associar à vida é a do prazer sensorial do momento — apenas diversão e nada mais.

Isso parece ser tudo o que conseguem compreender, e parece ser razão suficiente para não se visitar um certo lugar dizer que não há "diversão" ali.

Frequentemente ouvi observação semelhante na França; lá também "s'amuser bien" parece ser o grande dever reconhecido pela maioria, e isso passou a ser uma figura de linguagem comum, de modo que um homem frequentemente escreve a outro: "Espero que você esteja se divertindo bem" — como se o prazer do momento fosse o único negócio importante.

Para ouvir a conversa desses homens e mulheres da era atual, alguém os tomaria por meros insetos de um dia, sem senso de dever, de responsabilidade ou de seriedade; eles não se realizaram nem um pouco como almas imortais que estão aqui com um propósito e têm uma evolução definida diante de si; e assim sua vida é uma de ignorância superficial e vacuidade risonha.

A única vida que parecem conhecer é a vida do momento, e dessa maneira rebaixam-se ao nível dos menos inteligentes dos animais ao seu redor. O homem foi definido como um animal pensante, mas parece evidente que, até agora, essa definição se aplica apenas a parte da raça.

Penso que devemos admitir que a uma ou outra dessas duas classes — os caçadores de dinheiro ou os caçadores de prazer — pertence a maioria das pessoas em nossas raças ocidentais, e que aqueles cujos pensamentos principais na vida são o dever e a busca do desenvolvimento espiritual são apenas uma pequena minoria.

Há muitos deles que têm um reconhecimento do dever em conexão com seus negócios, e consideram (Página 296) que tudo o mais deve ceder a isso — até mesmo seu prazer pessoal.

Você ouvirá um homem dizer: "Eu gostaria de fazer isto, mas tenho meus negócios que exigem atenção; não posso me dar ao luxo de perder tempo com meus negócios." Assim, até mesmo a ideia de prazer pessoal torna-se subordinada à dos negócios.

Isso é, no mínimo, uma certa melhora, embora muitas vezes seja lamentavelmente exagerado, e você encontrará muitas pessoas para quem essa ideia de negócios tornou-se, por sua vez, uma espécie de deus que adoram.

Elas estão em condição de escravidão abjeta a isso, e nunca conseguem escapar de sua influência nem por um momento.

Trazem-no para casa consigo, estão totalmente envolvidas com ele, e até sonham com ele à noite; de modo que sacrificam tudo a esse Moloque dos negócios, e não se pode dizer que tenham tempo para qualquer vida verdadeira.

Ver-se-á que, embora haja aqui uma concepção nascente de dever, ela ainda está apenas no plano físico, e seu pensamento ainda se limita aos assuntos do dia.

Somente no caso de um pequeno número se descobrirá que essa ideia é dominada por uma luz de planos superiores; raramente, de fato, o homem vislumbra um horizonte mais amplo.

Esta concentração da atenção na vida física do dia que passa parece ser uma característica de nossa raça atual, da grande chamada civilização que atualmente existe tanto na Europa quanto na América.

Obviamente, o homem que deseja realizar algo definido no sentido de construir o caráter deve, antes de tudo, mudar esse ponto de vista, pois, caso contrário, não tem motivo adequado para empreender uma tarefa tão severa.

Conversão

Nos círculos religiosos, essa mudança de ponto de vista é chamada de conversão; e se fosse libertada das associações um tanto desagradáveis (Página 297) e hipócritas que geralmente a cercam, essa seria uma boa palavra para expressar exatamente o que acontece ao homem.

Sabemos que em latim *verto* significa "voltar" e *con* significa "junto com", portanto a conversão é o ponto em que o homem se volta de seguir fins egoístas e de lutar contra a grande corrente da evolução Divina, e a partir de então começa a compreender sua posição e a mover-se junto com essa corrente.

Na religião hindu, eles chamam essa mesma mudança pelo nome de *viveka*, ou "discriminação", porque quando isso chega a um homem, significa que ele aprendeu a ver o valor relativo dos objetos e a distinguir, até certo ponto, entre o real e o irreal, de modo que é capaz de perceber que somente as coisas superiores são aquelas dignas de sua atenção.

Na religião budista, outro nome é dado a essa mudança — *manodvaravarjana*, ou "A abertura das portas da mente". A mente do homem, na realidade, abriu suas portas; a discriminação despertou dentro dela e seu dono a trouxe para incidir sobre os problemas da vida.

O homem que está envolto no prazer ainda não abriu sua mente de forma alguma; ele não está pensando sobre a vida de maneira séria, mas está imerso nas correntes inferiores.

O homem de negócios desenvolveu o desejo de aquisição e está curvando todas as suas energias para a ação com esse propósito; mas sua mente também ainda não se abriu para compreender as realidades de uma vida superior.

Essa abertura das portas, essa discriminação, essa conversão, significa a realização de que as coisas que são vistas no plano físico são temporais e de pouca importância em comparação com essas outras coisas que são invisíveis e eternas.

É precisamente isso que é dito na Bíblia, quando nos é dito: "Buscai as coisas que são de cima e não as que são da (Página 298) terra... porque as coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas." Isso não significa que o homem deva abandonar sua vida cotidiana comum, ou que deva renunciar aos seus negócios ou deveres para se tornar o que comumente se chama de homem piedoso ou devoto; mas significa que ele deve aprender inteligentemente a valorizar outras coisas além daquelas que são imediatamente óbvias no plano físico.

Todos nós, em diferentes estágios, temos de aprender a fazer isso; temos de aprender a alargar nosso horizonte.

Como crianças pequenas, por exemplo, valorizamos apenas aquelas coisas que estão próximas de nós, e somos incapazes de olhar muito além do tempo presente, ou de planejar muito para o futuro.

Mas, à medida que envelhecemos, aprendemos pela experiência que às vezes é necessário renunciarmos aos prazeres do momento para que possamos alcançar algo no futuro que seja melhor e maior.

Em primeiro lugar, isso geralmente visa ainda a conquistar algo para nós mesmos; pois é apenas gradualmente que o verdadeiro desapego desperta.

Em muitos casos, a criança pequena passaria todo o seu tempo brincando se lhe fosse permitido, e é motivo de pesar para ela que lhe sejam impostas restrições e que seja compelida a aprender.

No entanto, reconhecemos universalmente que a criança deve aprender, porque sabemos o que a criança ainda não sabe — que esse aprendizado a habilitará a ocupar seu lugar na vida e a ter uma carreira mais plena e mais útil do que seria possível se, em vez de aprender, ela se dedicasse inteiramente às alegrias do momento.

Contudo, nós, que impomos esse aprendizado à criança, estamos nós mesmos fazendo a mesma coisa pela qual censuramos o pequeno, quando consideramos o assunto de um ponto de vista um tanto mais elevado.

Nós também trabalhamos para o momento — para o momento desta única vida, e deixamos de (Página 299) perceber que há algo infinitamente mais grandioso, mais elevado e mais feliz ao nosso alcance, se apenas o compreendêssemos. Trabalhamos apenas para este único dia, e não para o futuro que será eterno.

No momento em que o homem se convence dessa vida superior e do futuro eterno — assim que ele percebe que tem seu papel a desempenhar nisso, naturalmente seu bom senso se afirma, e ele diz a si mesmo: "Se assim é, obviamente estas coisas materiais são de importância relativamente pequena, e em vez de desperdiçar todo o meu tempo, devo aprender a me preparar para esta vida maior no futuro." Aí está, de imediato, o motivo adequado cuja falta anteriormente deplorávamos; aí está o incentivo para aprender a construir o caráter, a fim de se ajustar para aquela outra e mais elevada vida.

Puritanismo

Penso que o Puritanismo, que desempenhou um papel tão proeminente na história tanto da Inglaterra quanto da América, surgiu principalmente como uma reação contra aquela visão da vida da qual eu falava agora há pouco — o mero viver para o gozo descuidado e egoísta do momento.

Acredito que o Puritanismo foi, em si, em grande parte um protesto contra isso, e na medida em que enfatizou a realidade da vida superior e a necessidade de prestar atenção a ela, teve algo de bom. É verdade que também causou muito dano — mais dano do que bem, no geral, porque fez esta coisa terrível: fez as pessoas identificarem religião com acidez e tristeza.

Fez as pessoas pensarem que, para ser bom, é preciso ser miserável; degradou e quase destruiu a ideia do Pai amoroso.

Blasfemou contra Deus ao contar horríveis e perversas falsidades a Seu respeito; deturpou-O como um juiz severo e cruel, um monstro, em vez de um Pai cheio de amor (página 300) e compaixão; e ao fazer isso, distorceu e desfigurou o cristianismo anglo-saxão, e imprimiu-lhe um selo do qual ainda não se recuperou.

Talvez a razão disso seja que cometeu um erro comum — confundiu causa e efeito.

É verdade que um homem que aprendeu a apreciar as alegrias superiores da vida espiritual pouco se importa com aquelas da existência física comum.

Isso não ocorre porque ele perdeu sua capacidade de alegria, mas porque agora percebeu algo tão mais pleno e vasto que, em comparação com isso, o deleite inferior deixou de parecer alegria por completo.

Quando o menino se torna homem, ele superou seus brinquedos infantis; contudo, é capaz de outros prazeres, muito maiores do que aqueles jamais poderiam lhe ter dado.

Assim também o homem que ascende na evolução, de modo que, em vez de meros deleites egoístas, passa a apreciar a alegria muito maior do trabalho altruísta, descobrirá que seus prazeres comuns já não o satisfazem e lhe parecem não mais dignos do esforço de buscá-los.

Isso ocorre porque ele alcançou um ponto de vista mais elevado e conquistou um horizonte mais amplo; mas o resultado no plano físico dá a impressão de que ele deixou de se interessar pelos prazeres físicos inferiores.

Não devemos, contudo, confundir a causa com o efeito, como fizeram os infelizes puritanos, e supor que, ao voltarmos as costas às alegrias do plano físico, tornar-nos-emos instantaneamente homens mais evoluídos, com uma visão mais ampla.

É verdade que, por ter se desenvolvido, o jovem já não se importa com prazeres infantis; não seria verdade que a criança, ao recusar os deleites apropriados à sua idade, tornar-se-ia por isso um adulto.

É bom, então, que percebamos claramente que é enfaticamente uma doutrina falsa e tola a de que, para serem bons, os homens devem ser miseráveis.

Exatamente o (Página 301) oposto é verdadeiro, pois Deus quer que o homem seja feliz, e é certamente seu dever sê-lo; pois um homem infeliz irradia depressão ao seu redor e, assim, torna a vida mais difícil para seus semelhantes.

O Despertar

Como então um homem chega a fazer esse grande esforço de tentar construir seu caráter, tentar fazer algo de si mesmo? O caminho mais seguro e mais satisfatório é aquele que acabamos de indicar.

O homem chega a um conhecimento mais amplo, passa a compreender que há uma vida mais grandiosa e mais elevada; vê que há um grande esquema, e que o homem faz parte desse esquema.

Vendo isso, e apreciando em certa medida o esplendor e a glória do plano, ele deseja tornar-se uma parte inteligente dele — deseja ocupar seu lugar nele, não mais meramente como uma palha arrastada pela tempestade, mas antes como alguém que compreende e deseja tomar sua parte na poderosa obra divina que está sendo realizada.

Há outros cujo despertar vem por uma linha diferente — a linha da devoção, em vez da do conhecimento.

Eles são fortemente atraídos ou por um alto ideal, ou por alguma personalidade elevada; seu amor e admiração são despertados, e por causa desse ideal, por causa dessa personalidade, fazem esforços vigorosos para se desenvolverem.

Quando essa devoção é inspirada pela visão de um ideal esplêndido, é de fato uma coisa gloriosa, e sua ação é praticamente indistinguível daquela do conhecimento espiritual.

Quando a devoção é a uma pessoa, muitas vezes não é menos bela, embora então haja certo elemento de perigo decorrente do fato de que o objeto dessa intensa afeição é humano e, portanto, deve possuir imperfeições.

Às vezes acontece que o devoto se depara subitamente com uma dessas imperfeições, (página 302) e recebe daí um rude choque que pode tender a diminuir ou desviar a devoção.

O alto ideal jamais pode falhar ao homem que nele confia; a pessoa pode sempre falhar, em certa medida ou em algum aspecto, e consequentemente há menos segurança na devoção a um mestre.

Nós, na Sociedade Teosófica, temos tido alguma experiência nessa direção, pois entre nossos estudantes há muitos que se aproximam da verdade por essa estrada da devoção.

Quando a devoção é à Teosofia, tudo corre bem; seu entusiasmo cresce cada vez mais brilhante à medida que aprendem mais da verdade; e não importa quão longe penetrem, ou qual de seus muitos aspectos investiguem, jamais podem ficar decepcionados.

Mas quando a devoção não foi à Teosofia ou aos grandes Mestres que a deram ao mundo, mas a algum de seus instrumentos no plano físico, temos verificado que sua base é menos segura.

Muitos entraram na Sociedade e iniciaram seus estudos com base numa devoção pessoal à sua grande fundadora, Madame Blavatsky.

Aqueles que a conheceram mais intimamente, aqueles que mais se aproximaram de compreender aquela maravilhosa individualidade multifacetada, jamais perderam a fé nela, nem sua profunda e sincera afeição e devoção por ela; mas outros, que a conheceram menos, ficaram perturbados quando leram ou ouviram falar das acusações selvagens levantadas contra ela, ou quando viram o relatório desfavorável de uma sociedade erudita a seu respeito.

Então acontecia frequentemente que, porque sua fé se baseava na personalidade (e numa que não compreendiam), viam-se inteiramente derrubados e abandonavam o estudo da Teosofia para esta encarnação.

Tal ação é obviamente totalmente irracional, pois mesmo que todas as histórias absurdas divulgadas sobre Madame Blavatsky tivessem sido verdadeiras, as poderosas doutrinas da Teosofia (Página 303) permanecem as mesmas, e seu sistema ainda é inatacável; mas a pessoa emocional não raciocina, e assim, quando os preconceitos dessas boas pessoas eram chocados ou seus sentimentos feridos, elas abandonavam a sociedade com fúria, sem perceber que eram elas mesmas as únicas sofredoras por sua insensatez.

A devoção é uma força esplêndida; contudo, sem uma compreensão inteligente daquilo a que a devoção se dirige, ela frequentemente tem levado as pessoas a erros terríveis.

Mas se o homem apreende claramente o poderoso esquema divino da evolução e sente sua devoção despertada por isso, então tudo está bem com ele, pois isso não pode falhar-lhe, e quanto mais ele conhece, mais profunda se tornará sua devoção e mais completamente ele se identificará com ela. Não há medo de investigação minuciosa aí, pois conhecimento mais pleno significa adoração mais profunda, maior admiração, amor mais profundo.

Por essas razões, é melhor para o homem sentir sua devoção pelos ideais do que por personalidades, por mais elevadas que estas possam ser. O melhor de tudo é que ele se baseie na razão e no fato, e argumente daquilo que é cientificamente bem conhecido para as coisas ainda não conhecidas no mundo exterior.

Suas inferências podem às vezes estar erradas, mas ele percebe essa possibilidade e está sempre pronto a mudá-las se uma boa razão lhe for apresentada.

Quaisquer alterações desse tipo em detalhes não podem afetar a base sobre a qual seu sistema se assenta, pois esta não é aceita por fé cega, mas se firma na plataforma segura da razão e do senso comum.

Ele sabe que o poderoso esquema da evolução existe, embora nosso conhecimento dele ainda seja imperfeito; ele sabe que foi colocado aqui com um propósito e que deveria estar tentando fazer sua parte no trabalho do mundo.

Como então pode ele começar a se preparar para assumir essa parte? Aí entra a questão da construção do caráter.

(Página 304)

Um homem se vê como apto ou inapto, conforme o caso; talvez apto em certos aspectos, mas muito prejudicado em outros por características que possui.

Aí está, de imediato, um motivo adequado para ele assumir o controle de si mesmo, quando percebe que sua vida não é apenas para este curto e fugaz período, mas para toda a eternidade, quando vê que as condições dos dias futuros dessa vida mais ampla serão modificadas por suas ações de agora.

Ele reconhece que deve treinar-se de tal modo a ser capaz de realizar essa nobre obra que vê desabrochar diante de si — que não deve desperdiçar seu tempo em ociosidade ou tolice, porque, se o fizer, não poderá sustentar o papel que lhe está destinado.

Ele deve aprender, deve educar-se e desenvolver-se de várias maneiras, a fim de não falhar em sua capacidade de arcar com sua parte no futuro que nos aguarda, na glória que será revelada.

Quanto às etapas pelas quais isso pode ser feito, talvez não possamos fazer melhor do que ouvir as palavras de um dos mais poderosos mestres da Terra, a quem citei em uma palestra anterior.

Vocês se lembrarão de que os homens pediram ao Senhor Buda que enunciasse toda a sua maravilhosa doutrina em um único verso; e ele respondeu com estas palavras memoráveis: — "Cessai de fazer o mal; aprendei a fazer o bem; purificai vosso próprio coração; este é o ensinamento dos Budas." Tomemos a construção do caráter ao longo das linhas indicadas pelas áureas palavras do grande Príncipe Indiano, e vejamos quão completamente sua única frase cobre o trabalho de muitas vidas.

Sabba papassa akaranam

"Cessai de fazer o mal." Olhemos para nós mesmos com cuidado e reflexão, examinemo-nos e vejamos o que há em nós que se interpõe em nosso caminho, que nos impede de sermos caracteres perfeitos.

Conhecemos a meta que (Página 305) nos é apresentada; nós, que lemos os livros teosóficos, sabemos o que ali está escrito sobre os grandes Mestres de Sabedoria — sobre aqueles homens que são quase mais que homens, e sobre sua glória, poder, compaixão e sabedoria.

Não há mistério quanto às qualificações do adepto; os passos do caminho da santidade estão plenamente descritos em nossos livros, com as qualidades que pertencem a cada um deles.

O que os Mestres são, o que o Buda foi, o que o Cristo foi, isso todos nós devemos um dia nos tornar; podemos, portanto, apresentar a nós mesmos o que é conhecido desses caracteres exaltados e, colocando-nos em comparação com eles, veremos de imediato de quantas maneiras ficamos lamentavelmente aquém desse grande ideal.

Lamentavelmente, porém não sem esperança, pois esses grandes Mestres nos asseguram que eles ascenderam das fileiras em que agora labutamos, e que assim como eles são agora, assim seremos no futuro; e se esse futuro está próximo ou distante é uma questão que está inteiramente em nossas próprias mãos, e depende de nossos próprios esforços.

A tentativa de nos compararmos com esses homens perfeitos nos revelará imediatamente a existência de muitas faltas e fraquezas em nós mesmos que há muito desapareceram deles.

Assim, começamos nosso esforço para obedecer ao comando do Buda.

"Cessai de fazer o mal", pondo-nos a trabalhar para erradicar essas qualidades indesejáveis.

Não precisamos procurar longe por elas.

Tomemos, por exemplo, a qualidade da irritabilidade — uma falha muito comum em uma civilização como a nossa, na qual há tamanha pressa e turbilhão constantes, e tanto esforço nervoso excessivo.

Eis um mal proeminente que certamente deve ser expulso.

Um homem muitas vezes pensa de si mesmo como tendo nascido com um organismo nervoso altamente sensível e, portanto, incapaz de deixar de sentir as coisas mais intensamente que outras pessoas; e assim ele expressa essa sensibilidade adicional ( Página 306 ) por meio da irritabilidade.

Esse é o erro que ele comete.

Pode ser verdade que ele seja intensamente sensível; à medida que a raça se desenvolve, muitas pessoas estão se tornando assim. No entanto, o fato permanece de que o próprio homem deve permanecer senhor de seus veículos e não se permitir ser arrastado pela tempestade da paixão.

Perturbação Astral

Essa irritabilidade é vista pelo clarividente como uma propensão à perturbação no corpo astral.

Esse corpo astral é um veículo com o qual o homem se revestiu a fim de que possa aprender através dele. Ele não pode, portanto, cumprir seu propósito a menos que o homem o tenha completamente sob controle.

Como nos dizem os livros indianos, essas paixões e desejos são como cavalos — para nos serem úteis, devem estar sob o controle da mente, que é o condutor; e esse próprio condutor também deve estar pronto para obedecer à mais leve ordem que vem do homem verdadeiro que se assenta na carruagem, dirigindo o movimento desses seus servos.

Pois o homem permitir-se ser influenciado ou varrido de sua base por suas paixões e emoções é permitir que seus cavalos fujam com ele e o levem para onde quiserem, em vez de para onde ele quiser.

Cabe a nós decidir se nos permitiremos ser dominados dessa maneira indigna por esses sentimentos que deveriam ser nossos servos.

Temos o direito e o poder de dizer que isso não será, e que esses cavalos indomáveis serão colocados sob controle.

Pode ser verdade que por muito tempo os deixamos seguir seu próprio caminho, até que ceder a eles, em vez de dominá-los, tornou-se um hábito fixo.

Contudo, aprender a manejá-los é o primeiro passo no caminho ascendente; não há dúvida de que esse passo terá de ser dado, e quanto mais cedo for dado, mais fácil será. (Página 307)

Nunca é tarde demais para começar, e é óbvio que cada vez que o homem cede a si mesmo torna um pouco mais difícil para ele retomar o controle mais tarde.

O homem irritável constantemente se vê sucumbindo a pequenos aborrecimentos e, sob sua influência, dizendo e fazendo coisas que depois ele lamenta amargamente.

Por mais forte que seja sua resolução, repetidas vezes o velho hábito se afirma, e ele descobre que disse ou fez algo sob sua influência antes (como ele diria) de ter tido tempo para pensar.

Ainda assim, se ele continuar a fazer um esforço determinado pelo controle, eventualmente alcançará um estágio em que conseguirá se conter na própria emissão da palavra precipitada e desviar a corrente de seu aborrecimento quando esta estiver em seu ponto mais forte.

Daí até o estágio em que ele se conterá antes de proferir aquela palavra não é um longo passo, e quando isso for alcançado, ele estará próximo da vitória final.

Então ele terá conquistado a expressão externa do sentimento de irritação; e depois disso não achará difícil evitar o sentimento por completo.

Quando isso for feito uma vez, um passo definitivo terá sido dado, pois a qualidade da irritabilidade terá sido arrancada, e terá sido substituída pela qualidade da paciência como uma posse permanente, que o homem levará consigo para todos os seus nascimentos futuros.

Presunção e Preconceito

Os homens têm muitas falhas que mal notam; contudo, se examinarem cuidadosamente e julgarem a si mesmos por padrões suficientemente elevados, não poderão deixar de perceber onde ficam aquém.

Uma das falhas mais comuns de todas é a presunção.

É tão natural para um homem desejar pensar bem de si mesmo, enfatizar em sua mente os pontos nos quais considera que se destaca e atribuir-lhes importância indevida, e ao mesmo tempo passar por cima (Página 308) quase sem pensar nos muitos outros pontos nos quais ele fica aquém de outros homens.

Esta presunção é uma qualidade que precisa ser cuidadosamente vigiada e firmemente suprimida sempre que mostrar a cabeça, pois não é apenas uma das mais comuns de todas, mas também uma das mais difíceis de dominar; quando vencida em uma direção, reaparece sob algum novo disfarce em outra.

Ela é sutil e de longo alcance, e disfarça-se com grande sucesso; contudo, até que seja erradicada, pouco progresso é possível.

Outra erva daninha que deve ser implacavelmente arrancada é o preconceito.

Tão frequentemente somos excessivamente intolerantes com qualquer ideia nova, com qualquer crença que não seja a nossa; somos rígidos, firmes e dogmáticos em certas linhas, e indispostos a ouvir a verdade.

Por exemplo, temos nossos preconceitos quanto ao que chamamos de moralidade, baseados exclusivamente em ideias convencionais; qualquer sugestão que os contrarie, por mais razoável que seja, nos causa tamanho choque que perdemos completamente a cabeça, e nos tornamos raivosos e cheios de ódio, amargos e perseguidores em nossa oposição a ela. Muitos homens que se julgam livres da intolerância por não terem nenhuma crença religiosa especial são tão dogmáticos em suas próprias linhas materialistas quanto o pior fanático religioso poderia ser. Frequentemente, um homem de ciência encara todas as religiões com tolerância complacente, considerando-as algo apenas adequado para mulheres e crianças.

Ele olha de cima, com superioridade divertida, para o horror com que uma seita religiosa considera as opiniões de outra, e pergunta-se por que fazem tanto alarde sobre um assunto que dificilmente pode ter importância séria de um jeito ou de outro; e, no entanto, ao mesmo tempo, ele tem certas ideias fixas com relação à ciência, sobre as quais é tão fanático quanto seus amigos religiosos em seus dogmas.

Não lhe ocorre que há um fanatismo (Página 309) fora da religião, e que na ciência, assim como na fé, a mente de um homem deve permanecer sempre aberta à chegada de nova verdade, mesmo que essa verdade possa derrubar muitas de suas próprias ideias preconcebidas.

Frequentemente, esse vício ou preconceito é uma manifestação sutil daquela presunção à qual me referi anteriormente; o conjunto de ideias que o homem adotou são as suas ideias e, por essa razão, devem ser tratadas com respeito, e qualquer coisa que tenda a conflitar com elas não pode ser considerada por um momento, porque recebê-la seria admitir que ele pode ter se enganado.

Muitos homens trazem dentro de si pequenezas, mesquinharias, estreiteza de mente, cuja existência nem suspeitam; contudo, essas qualidades se manifestarão quando surgirem circunstâncias que as chamem à ação.

Frequentemente, mesmo quando um homem percebe a manifestação de alguma qualidade indesejável em si mesmo, ele a desculpa em certa medida, dizendo que, afinal, é natural.

Mas o que queremos dizer com essa palavra natural? Simplesmente que a maioria da humanidade provavelmente, sob circunstâncias semelhantes, exibiria tal qualidade, e assim o homem no qual ela se manifesta é um homem comum.

Contudo, devemos lembrar que, se estamos tentando tomar-nos em mãos e construir nosso caráter rumo ao elevado ideal que colocamos diante de nós, almejamos elevar-nos acima do homem comum, de modo que o que é natural para ele não será suficiente na vida superior que agora nos esforçamos por viver.

Devemos elevar-nos acima daquilo que é natural para a média da raça, e devemos colocar-nos em uma condição na qual somente o que é reto, bom e verdadeiro seja o curso natural para nós. Devemos erradicar o mal e substituí-lo pelo bem, de modo que seja a expressão deste último que instintivamente se mostre quando agimos sem (Página 310) premeditação.

Se estamos tentando realizar a vida superior, tentando fazer de nós mesmos um canal através do qual a força divina possa derramar-se sobre nossos semelhantes, então aquilo que ainda é natural para a maioria será indigno de nossas mais elevadas aspirações.

Portanto, não devemos desculpar faltas e falhas em nós mesmos porque são naturais, mas devemos nos pôr a trabalhar para tornar natural para nós aquilo que desejamos ter dentro de nós; e esse desenvolvimento também está inteiramente em nossas próprias mãos.

Kusalassa upasampada

Às vezes, o caminho mais fácil para cumprir o primeiro mandamento — “Cessai de fazer o mal” — é começar tentando obedecer ao segundo — “Aprendei a fazer o bem”. Se desejamos conquistar um hábito maligno, às vezes é mais fácil e melhor para nós fazer esforços enérgicos para desenvolver dentro de nós a virtude oposta.

Quais são as qualidades que nos são mais necessárias? Se pudermos examinar a questão sem preconceito, descobriremos que muitas daquelas que contribuem para formar o homem perfeito ainda nos faltam tristemente. Tomemos primeiro a qualidade tão importante do autocontrole.

A maioria de nós é certamente deficiente nesse aspecto, e esse fato se mostra de uma dúzia de maneiras.

A irritabilidade de que falei anteriormente é uma das formas mais comuns pelas quais a falta de autocontrole se manifesta.

Existem outras paixões mais grosseiras, como o desejo do bêbado ou do sensualista, que a maioria de nós já aprendeu a controlar, ou talvez as tenhamos eliminado de nossas naturezas em vidas anteriores.

Mas se ainda restam em nós alguns resquícios dessas paixões mais grosseiras, sob a forma de gula ou sensualidade, nosso primeiro passo deve ser trazer tais desejos sob o domínio da vontade.

Em casos como este, a necessidade é óbvia para todos (Página 311); mas nossa falta de autocontrole pode se manifestar de outras maneiras que não percebemos tão prontamente.

Quando alguma aflição, alguma tristeza ou sofrimento sobrevém a um homem, ele frequentemente se permite ficar extremamente preocupado ou profundamente deprimido por ela. Em vez de manter sua atitude de calma e serenidade, ele se identifica com o veículo inferior e se deixa arrastar.

Ele deve aprender a manter uma posição firme — a dizer a si mesmo: "Estas forças exteriores estão atuando sobre meus veículos inferiores, afetando talvez meu corpo físico ou meu corpo astral, mas eu, a Alma, o verdadeiro Homem, permaneço acima de todas estas coisas; permaneço imperturbável, e não me permitirei ser perturbado ou movido por elas."

A Insensatez de Ofender-se

Outro exemplo dolorosamente comum é a maneira como um homem se ofende com algo que outro diz ou faz.

Se você pensar bem, isso também demonstra uma estranha falta, não apenas de autocontrole, mas de bom senso.

O que o outro homem diz ou faz não pode fazer nenhuma diferença para você.

Se ele disse algo que feriu seus sentimentos, pode ter certeza de que, em nove entre dez casos, ele não teve a intenção de ofender; por que então você deveria se permitir ficar perturbado com o assunto? Mesmo nos raros casos em que uma observação é intencionalmente rude ou maldosa — quando um homem diz algo propositalmente para ferir outro — quão insensato é para esse outro permitir-se sentir-se magoado! Se o homem tinha uma intenção maligna no que disse, ele é muito digno de pena, pois sabemos que, sob a lei da justiça divina, ele certamente sofrerá por sua insensatez.

O que ele disse não precisa, de modo algum, afetar você; se um homem desfere um golpe no plano físico, é sem dúvida desejável que você se defenda contra sua repetição, porque há (Página 312) uma lesão definida; mas no caso da palavra irritante, nenhum efeito real é produzido.

Um golpe que atinge seu corpo físico é um impacto perceptível vindo de fora; a palavra irritante não o fere de maneira alguma, exceto na medida em que você escolha acolhê-la e ferir-se a si mesmo, remoendo-a ou permitindo que seus sentimentos sejam magoados.

O que são as palavras de outro, para que você deixe sua serenidade ser perturbada por elas? São meramente uma vibração na atmosfera; se não tivesse acontecido de você ouvi-las, ou saber delas, teriam elas o afetado? Se não, então obviamente não são as palavras que o feriram, mas o fato de você tê-las ouvido.

Portanto, se você se permite importar-se com o que um homem disse, é você quem é responsável pela perturbação criada em seu corpo astral, e não ele. O homem não fez e não pode fazer nada que possa prejudicá-lo; se você se sente magoado e ferido e, com isso, causa a si mesmo grande transtorno, só tem a si mesmo para agradecer. Se uma perturbação surge dentro de seu corpo astral em referência ao que ele disse, isso ocorre meramente porque você ainda não obteve controle sobre esse corpo; você ainda não desenvolveu a calma que o capacita a olhar, como alma, para tudo isso, seguir seu caminho e cuidar de seu próprio trabalho, sem dar a menor atenção a comentários tolos ou maldosos feitos por outros homens.

Se você alcançar essa calma e serenidade, descobrirá que sua vida é infinitamente mais feliz do que antes.

Não apresento isso a você como a razão pela qual deve buscar esse desenvolvimento; é uma boa razão, verdadeiramente, mas há outra e mais elevada razão no fato de termos trabalho a fazer por nossos semelhantes e de não podermos ser aptos para ele a menos que sejamos calmos e serenos.

É sempre melhor mantermos diante de nós esta (Página 313) mais elevada de todas as razões para o autodesenvolvimento — que, a menos que evoluamos a nós mesmos, não podemos ser um canal apto e perfeito para o poder e a força divinos.

Esse deve ser nosso motivo em nosso esforço; contudo, permanece o fato de que o resultado desse esforço será uma felicidade grandemente aumentada em nosso trabalho.

O homem que cultiva a calma e a serenidade logo descobre a alegria da vida divina permeando toda a existência.

Para o clarividente que pode observar os corpos superiores, a mudança em tal homem é notável e bela de se ver.

O Mal da Agitação Desnecessária

O homem comum é geralmente um centro de vibração agitada; ele está constantemente em condição de preocupação ou problema com algo, ou em condição de profunda depressão, ou então está indevidamente excitado no esforço de alcançar algo.

Por uma razão ou outra, ele está sempre em estado de agitação desnecessária, geralmente por causa da mais mera trivialidade.

Embora nunca pense nisso, ele está o tempo todo influenciando outras pessoas ao seu redor por essa condição de seu corpo astral.

Ele está comunicando essas vibrações e essa agitação às pessoas infelizes que estão perto dele; e é justamente porque milhões de pessoas estão assim desnecessariamente agitadas por todos os tipos de desejos e sentimentos tolos que é tão difícil para a pessoa sensível viver em uma grande cidade ou entrar em qualquer grande multidão de seus semelhantes.

Um exame da ilustração do efeito das várias emoções, mostrado em *Man Visible and Invisible*, nos permitirá imediatamente perceber que um homem em tal condição de agitação deve estar causando grande perturbação no mundo astral ao seu redor, e veremos que outros que por acaso estejam em sua vizinhança não podem permanecer afetados pela influência que dele emana.

O homem que cede à paixão está enviando (Página 314) ondas de paixão; o homem que se permite cair em condição de profunda depressão está irradiando em todas as direções ondas de depressão; de modo que cada um desses homens está tornando a vida mais difícil para todos aqueles que são tão infelizes a ponto de estar perto dele.

Na vida moderna, todo homem tem pequenas circunstâncias que o preocupam, que tendem a despertar irritabilidade dentro dele; todo homem tem, mais cedo ou mais tarde, alguma causa para preocupação e para depressão; e sempre que qualquer um de nós cede a qualquer um desses sentimentos, as vibrações que enviamos certamente tendem a acentuar as dificuldades de todos os nossos vizinhos.

Tais vibrações tornam mais difícil para aqueles ao nosso redor resistir ao próximo acesso de irritabilidade ou depressão que possa lhes sobrevir; se há germes dessas qualidades neles, as vibrações que tão erroneamente nos permitimos enviar podem despertar esses germes quando, de outra forma, teriam permanecido adormecidos.

Nenhum homem tem o direito de cometer esse crime de lançar obstáculos no caminho de seus semelhantes; nenhum homem tem o direito de se entregar à depressão ou de dar vazão à raiva — não apenas porque essas coisas são más para ele e erradas em si mesmas, mas porque causam dano àqueles que o cercam.

Por outro lado, se cultivarmos dentro de nós a serenidade, a calma e a alegria, tornamos a vida mais leve, em vez de mais sombria, para todos aqueles com quem entramos em contato; espalhamos ao nosso redor vibrações suavizantes, facilitamos para nossos vizinhos resistirem à preocupação, ao problema ou ao aborrecimento, e assim ajudamos a erguer os fardos de todos os que estão ao nosso redor, embora possamos nunca lhes dirigir uma palavra.

Todos são melhores porque somos calmos e fortes, porque compreendemos o dever da alma.

Aqui estão, então, algumas qualidades úteis que podemos buscar construir em nós mesmos — as qualidades de (página 315) autocontrole, felicidade e calma.

Aprendamos que é nosso dever ser felizes, porque Deus quer que o homem seja feliz.

Por isso, o homem não deve se deixar levar pelas ondas de pensamento e sentimento ao seu redor, mas deve permanecer firme como uma torre à qual outros possam se agarrar, aqueles que ainda são afetados por essas ondas.

Assim, a força divina fluirá através dele para esses outros, e eles também serão resgatados do oceano tempestuoso da vida e levados ao porto seguro onde desejam estar.

Coragem e Determinação

Outras virtudes que devemos construir em nós mesmos são a coragem e a determinação.

Há muitos homens no mundo que possuem uma determinação de ferro dentro de si sobre certas coisas — uma resolução que nada pode abalar.

Eles resolveram ganhar dinheiro, e o farão — honestamente, se possível, mas de qualquer forma o ganharão; e esses homens geralmente têm sucesso em maior ou menor grau.

Nós, que somos estudantes de uma vida superior, pensamos neles como limitados em sua visão, como compreendendo pouco do que a vida realmente é. Isso é verdade, mas devemos lembrar que eles estão ao menos vivendo na prática aquilo que compreendem.

A única coisa da qual estão certos é que o dinheiro é um grande bem e que pretendem ter bastante dele; e estão lançando toda a sua força nesse esforço.

Nós nos convencemos de que há algo mais elevado no mundo do que ganhar dinheiro, de que há uma vida mais vasta e mais grandiosa, cujo menor vislumbre vale mais do que todo ganho meramente terreno.

Se estamos tão completamente convencidos da beleza da vida superior quanto o homem mundano está da conveniência de ganhar dinheiro, lançar-nos-emos na busca dessa vida superior com exatamente a mesma (página 316) resolução e entusiasmo com que ele se lança na busca do ouro.

Ele não negligencia nenhuma possibilidade; tomará infinitos cuidados para se qualificar a perseguir melhor seu objetivo; não poderíamos nós, muitas vezes, aprender com ele uma lição quanto à concentração e à energia incansável com que ele se devota ao seu objetivo? É verdade que o objetivo em si é uma ilusão, e quando ele o alcança, frequentemente descobre que, afinal, tem pouco valor; contudo, as qualidades que ele desenvolveu nessa luta não podem deixar de ser valiosas para ele quando a luz superior despontar sobre ele e ele for capaz de voltar seus talentos para um uso melhor.

Nesse desenvolvimento da resolução, o estudo da Teosofia muito nos ajuda. O teosofista percebe profundamente a infinidade de trabalho na direção do autodesenvolvimento que se lhe apresenta; contudo, ele nunca pode ficar deprimido, como às vezes o homem mundano fica, pelo sentimento de que está envelhecendo, de que seu tempo é curto, e de que não pode esperar atingir seu fim antes que a morte ponha um ponto final ao seu esforço.

O estudante de ocultismo reconhece que tem a eternidade diante de si para o seu trabalho, e que nessa eternidade ele pode se tornar exatamente o que deseja ser. Não há nada que possa impedi-lo.

Ele encontra ao seu redor muitas limitações que criou para si mesmo em vidas anteriores; contudo, com a eternidade diante de si, todas essas limitações serão transcendidas, seu fim será cumprido, sua meta será alcançada.

Há muitas pessoas ansiosas por saber o que o futuro lhes reserva — tantas que grande número de vigaristas vive desse desejo.

Qualquer astrólogo ou clarividente que pense poder prever o futuro certamente terá um número imenso de clientes; até o mais completo charlatão parece ser capaz de ganhar a vida com uma mera pretensão às artes ocultas ou à previsão.

Contudo, na verdade, ninguém precisa preocupar-se nem um pouco (página 317) com seu futuro, pois ele será exatamente o que ele pretende que seja. O estudante de ocultismo não busca saber o que o futuro lhe reserva; ele diz antes: "Pretendo fazer isto ou aquilo; sei qual será meu desenvolvimento futuro, porque sei o que pretendo fazer dele. Pode haver muitos obstáculos em meu caminho, colocados por minhas próprias ações anteriores; não sei quantos são, nem sob que forma podem surgir; nem mesmo quero saber.

Sejam quais forem, minha resolução é inabalável; seja nesta vida ou em vidas futuras, moldarei minha existência como quiser; e, sabendo isso, sei tudo o que me importa saber sobre o que está diante de mim." Quando o homem percebe o poder divino que reside dentro de si, pouco se importa com as circunstâncias externas; ele decide o que fará; dedica sua energia a isso e o leva a cabo; diz a si mesmo: "Isto será feito; quanto tempo levará não importa, mas eu o farei." Ver-se-á, portanto, que coragem e determinação são virtudes enfaticamente necessárias para o estudante de ocultismo.

A Maior Necessidade de Todas

Acima de tudo, o homem precisa desenvolver a qualidade do altruísmo; pois o homem, como o encontramos atualmente, é por natureza terrivelmente egoísta.

Ao dizer isso, não estamos lançando culpa sobre ele por seu passado; estamos tentando lembrá-lo de que diante dele há um futuro.

O teosofista compreende por que essa falha do egoísmo deveria ser tão comum entre os homens, pois ele percebe qual foi o nascimento e o crescimento da alma no homem.

Ele sabe que o indivíduo foi lenta e gradualmente formado através de eras de evolução e, consequentemente, que a individualidade é muito fortemente marcada no homem.

A alma como um centro (página 318) de força cresceu dentro das muralhas do eu, e sem essas muralhas protetoras o homem não poderia ter sido o que agora é. Mas agora ele alcançou o estágio em que o poderoso centro está definitivamente estabelecido e, consequentemente, ele tem de derrubar esse andaime de pensamento egoísta que o cerca.

Essa casca foi uma necessidade, sem dúvida, para a formação do centro; mas agora que o centro está formado, a casca deve ser rompida, porque, enquanto existir, impede o centro de cumprir seu dever e de realizar o trabalho para o qual foi formado.

O homem tornou-se um sol, do qual o poder divino deve irradiar sobre todos aqueles que o cercam, e essa irradiação não pode ocorrer até que as muralhas do egoísmo tenham sido derrubadas.

Não é de admirar que seja difícil para o homem fazer isso, pois ao livrar-se do egoísmo ele está conquistando um hábito que levou muitas eras para formar.

Ele teve sua utilidade e seu lugar nesses estágios anteriores; como um dos Mestres de Sabedoria certa vez disse: "A lei da sobrevivência do mais apto é a lei da evolução para o bruto; mas a lei do autossacrifício inteligente é a lei do desenvolvimento para o homem." Assim, o homem precisa transcender o que antes era sua natureza e construir em si mesmo a qualidade do desinteresse, a qualidade do amor, para que possa aprender a sacrificar de bom grado o que parece ser seu interesse pessoal pelo bem da humanidade como um todo.

Cuidemos para não compreender mal isso.

Não quero dizer com isso qualquer desenvolvimento de sentimentalismo barato.

Homens novos neste estudo às vezes pensam que se espera deles que atinjam o nível de amar igualmente a todos os seus irmãos.

Isso é uma impossibilidade, mesmo que fosse desejável; e para perceber que assim é, basta voltarmo-nos ao exemplo dos mais elevados dos homens.

Lembrai-vos de que se relata do próprio Jesus que (Página 319) ele tinha seu discípulo amado, São João, e do Buda que ele era mais estreitamente ligado ao discípulo Ananda do que a muitos outros que possuíam maiores poderes e mais elevado avanço.

Não nos é exigido, não é intencionado, que tenhamos o mesmo sentimento de afeição por todos.

É verdade que tal afeição como agora sentimos por aqueles que nos são mais próximos e queridos, nós passaremos a sentir por todos os nossos irmãos homens; mas quando esse tempo chegar, nossa afeição por aqueles que mais amamos terá se tornado algo infinitamente maior do que é agora.

Isso significará que nosso poder de afeição cresceu enormemente, mas não que cessou de ser mais forte em um caso do que em outro — não que todo o mundo se tornou o mesmo para nós.

O que é importante para nós agora é que devemos considerar toda a humanidade, não com hostilidade, mas naquela atitude amigável que está atenta a uma oportunidade de servir.

Quando sentimos profunda afeição ou gratidão por alguma pessoa, vigiamos constantemente por uma oportunidade de fazer alguma pequena coisa por ela para mostrar nossa gratidão, nosso respeito, nossa afeição ou nossa reverência.

Adotemos essa atitude de prontidão para ajudar toda a humanidade; estejamos sempre preparados para fazer o que vier às nossas mãos — sempre atentos a uma oportunidade de servir ao nosso próximo — e consideremos todo contato com outro homem como uma oportunidade de sermos úteis a ele de alguma forma.

Dessa maneira, aprenderemos a construir em nosso caráter essas importantes virtudes do amor e do altruísmo.

Determinação

Outra qualidade necessária é a determinação.

Devemos aprender que o grande objetivo de nossas vidas é nos tornarmos um canal para a força divina, e (Página 320) que esse objetivo deve, portanto, ser sempre o fator determinante em qualquer decisão que tomemos.

Quando dois caminhos se abrem diante de nós, em vez de pararmos para considerar qual deles seria melhor para nós individualmente, devemos aprender a pensar antes qual é o mais nobre, qual é o mais útil, qual trará mais bem aos outros homens.

Quando, nos negócios ou na vida social, damos algum passo que nos parece vantajoso, devemos nos perguntar com toda sinceridade: "Será que esta coisa, que parece trazer-me bem, pode causar algum mal a outra pessoa? Estou obtendo um ganho aparente às custas de uma perda para outro homem? Se assim for, não quero nada com isso; não seguirei por tal curso de ação.

Pois aquilo que traz dano aos meus irmãos não pode ser certo para mim; nunca devo me elevar pisando nos outros." Assim, devemos aprender em tudo a fazer do mais elevado o nosso critério e, firme e gradualmente, construir essas virtudes em nós mesmos.

O processo pode ser lento, mas o resultado é certo.

Sachitta pariyodapanam

Não devemos também esquecer a terceira linha do verso do Buda: "Purificai o vosso próprio coração". Começai com vossos pensamentos; mantende-os elevados e altruístas, e vossas ações seguirão a mesma linha.

O que se requer é uma adaptação inteligente às condições da vida verdadeira.

Aqui, no plano físico, temos de viver de acordo com as leis do plano.

Por exemplo, existem certas leis de higiene, e o homem inteligente adapta-se cuidadosamente a elas, sabendo que, se não o fizer, sua vida será imperfeita e cheia de sofrimento físico.

Todo homem culto sabe que isso é o mais simples bom senso; no entanto, vemos diariamente como é difícil induzir os ignorantes e incultos a cumprir essas (Página 321) leis naturais.

Nós, que as aprendemos, adaptamo-nos a elas como algo natural, e percebemos que, se não o fizéssemos, estaríamos agindo tolamente, e se sofréssemos por tal ação, só teríamos a nós mesmos para culpar.

Nós, que somos estudantes de ocultismo, aprendemos através de nossos estudos muito das condições de uma vida superior e mais grandiosa.

Aprendemos que, assim como existem certas leis físicas que devem ser obedecidas para que a vida física seja vivida com saúde e felicidade, também existem as leis morais dessa vida superior e mais ampla, que também é necessário obedecer se desejamos tornar essa vida feliz e útil.

Tendo aprendido essas leis, devemos usar inteligência e bom senso para viver de acordo com elas.

É com o objetivo de nos adaptarmos a elas que nos observamos com referência a essas qualidades das quais falamos.

O homem sábio as toma uma de cada vez e examina-se cuidadosamente com referência à qualidade que escolheu, para ver onde lhe falta. Ele pensa antecipadamente em oportunidades para manifestar essa qualidade, porém está sempre pronto para aproveitar outras oportunidades inesperadas quando as encontra se abrindo diante de si.

Ele mantém essa qualidade, por assim dizer, sempre no fundo de sua mente, e tenta perseverantemente, dia após dia, e a cada momento do dia, viver à altura de sua mais elevada concepção dela. Se ele assim a mantém firmemente diante de si, logo perceberá uma grande mudança ocorrendo em si mesmo; e quando sentir que se fundamentou completamente nela, de modo que sua prática se tornou um hábito e uma questão de instinto, ele toma outra qualidade e trabalha da mesma maneira com ela.

Nenhuma Introspecção Mórbida

Esse é o método de procedimento, porém devemos ter cuidado (Página 322) ao adotá-lo para não cairmos em um erro comum.

Podemos lembrar que o Buda aconselha seus discípulos a seguirem o Caminho do Meio em tudo, advertindo-os de que os extremos em qualquer direção são invariavelmente perigosos.

Isso também é verdade neste caso.

O homem comum do mundo está adormecido em relação a toda essa questão do cultivo do caráter; sua necessidade jamais despontou em seu horizonte, e ele é totalmente ignorante a respeito dela. Esse é um extremo, e o pior de todos.

O outro extremo encontra-se na constante introspecção mórbida em que algumas das melhores pessoas se comprazem.

Eles estão tão constantemente lamentando suas faltas e falhas que não têm tempo para serem úteis ao próximo; e assim causam a si mesmos sofrimento desnecessário e desperdiçam muita força e esforço, ao mesmo tempo em que fazem pouco progresso.

Uma criancinha que tem um pedaço de jardim para si às vezes está tão ansiosa para ver como suas sementes estão crescendo que as desenterra antes de realmente terem brotado, a fim de examiná-las novamente, e assim efetivamente impede que germinem.

Algumas boas pessoas parecem ser tão impacientes quanto essa criança; estão constantemente se arrancando pelas raízes para ver como estão crescendo espiritualmente, e dessa maneira impedem todo avanço real.

O autoexame e o autoconhecimento são necessários; mas a introspecção mórbida é, acima de tudo, o que se deve evitar.

Frequentemente ela tem sua raiz em uma forma sutil de presunção — uma opinião exagerada da própria importância.

Um homem deve fixar seu rosto na direção certa; deve notar suas faltas e falhas e esforçar-se para se livrar delas; deve notar as boas qualidades que lhe faltam e empenhar-se em desenvolvê-las dentro de si.

Mas, quando tiver formado essa firme resolução e estiver fazendo o seu melhor para colocá-la em prática, ele pode muito bem se esquecer (página 323) de si mesmo por um tempo no serviço ao próximo.

Se ele se lançar em um trabalho sincero e altruísta, no próprio ato de fazer esse trabalho desenvolverá muitas qualidades úteis.

Tendo controlado a mente e os sentidos, que ele pense com frequência nos mais elevados ideais que conhece; que pense no que os Mestres são, no que o Buda é, no que o Cristo é, e que tente moldar sua vida à deles; que trabalhe sempre com esse objetivo em vista, e que tente elevar-se a si mesmo "à medida da estatura da plenitude de Cristo". Lembre-se de que Ele nos disse: "Sede vós perfeitos, como vosso Pai no céu é perfeito." Lembre-se também de que Ele nunca teria pronunciado essas palavras se não fosse possível ao homem cumprir esse mandamento.

A perfeição é possível para nós porque a imortalidade é um fato; temos toda a eternidade diante de nós para trabalhar, e ainda assim não temos tempo a perder; pois quanto mais cedo começarmos a viver a vida do Cristo, mais cedo estaremos em posição de fazer a obra do Cristo e de nos alinharmos entre os salvadores e os auxiliadores do mundo.

CAPÍTULO XII

O FUTURO DA HUMANIDADE

(Página 325) O assunto do futuro que se apresenta diante da humanidade pode ser tratado de várias maneiras; talvez a divisão mais simples que possamos fazer seja falar primeiro do futuro imediato, depois do futuro mais remoto, e então da meta final.

Tanto o futuro imediato quanto o mais remoto podem ser, até certo ponto, uma questão de especulação, ou talvez devêssemos dizer de cálculo; mas a meta final nós conhecemos com absoluta certeza, e essa é a única coisa que realmente importa.

Ainda assim, é bom que tentemos olhar um pouco para frente, para que nós, que somos unidades nessa grande massa da humanidade, possamos participar inteligentemente da evolução que vemos progredir ao nosso redor.

As condições do futuro próximo devem naturalmente desenvolver-se a partir daquelas que vemos hoje; e penso que, ao olharmos ao nosso redor, a menos que sejamos terrivelmente preconceituosos, devemos admitir que, apesar de nossa civilização vangloriada, há muito que é altamente insatisfatório.

A Europa e a América, com algumas das colônias inglesas, incluem entre si os níveis mais elevados já alcançados por esta nossa civilização; no entanto, dificilmente podemos dizer com verdade que em qualquer um desses países a situação seja, de modo algum, aquela que desejaríamos ver. Em todas as direções vemos fracassos lamentáveis, embora em certos assuntos possa haver sucesso e progresso.

A Condição da Religião

(Página 326) Pense na condição, em qualquer um ou em todos esses países, de um dos fatores mais importantes da vida humana – a religião.

Onde quer que olhemos em todo o mundo, encontraremos a religião em uma condição insatisfatória.

Isso pode ser considerado uma afirmação ousada e abrangente, mas penso que o exame mostrará que é verdadeira.

Em todos esses que consideramos os países mais avançados, a religião agora tem pouco domínio sobre as massas do povo.

Em algumas das grandes terras orientais ela ainda exerce influência, mas mesmo lá tornou-se em grande parte tingida de superstição, ou então o povo é ateu e não se importa com nenhuma dessas coisas.

Nos países católicos da Europa, a fé degenerou terrivelmente, e em alguns casos a mais grosseira superstição é quase tudo o que restou dela. Nos países que se orgulham de pertencer a seitas reformadas de vários tipos, a maior parte do povo não presta atenção alguma à religião, e se nos voltarmos para as classes educadas ou para as pessoas cultas em qualquer um desses países, sejam católicos ou sectários, descobriremos que eles são, em sua maioria, céticos em seus hábitos de pensamento.

Às vezes são abertamente céticos também em palavras, mas mais frequentemente professam alguma religião como questão de costume e de respeitabilidade, embora ela não seja de modo algum um fator real ou sério que governe sua vida cotidiana.

Certamente esta não é uma situação satisfatória; pois, a menos que haja algo da natureza da religião ou da filosofia para desviar os pensamentos dos homens do mundo inferior para algo mais grandioso, melhor e mais duradouro, a condição de um país nunca poderá ser o que deveria ser; e se assim for, devemos admitir que, nessa direção, pelo menos, há muito a desejar em todo (Página 327) o mundo.

A religião tem dado em demasia fé em vez de conhecimento; tem-nos dado alguma esperança, talvez, mas nenhuma certeza; tem-nos apresentado dogmas e declarações autoritárias, mas pouco de razão clara, pouco que possa ser definitivamente compreendido; e é por isso que muitas das pessoas mais cultas se veem acreditando nela apenas de forma hesitante, mesmo quando conseguem aceitar suas conclusões.

Condições Sociais

Novamente, se examinarmos as condições sociais do mundo, devemos mais uma vez admitir que as coisas estão longe de ser satisfatórias; pois, embora haja aqueles que avançam para a frente e fazem fortunas enormes, há também massas de pessoas que ainda estão imersas na pobreza e na ignorância.

Isso não ocorre apenas nos países atrasados do mundo, mas em grande medida também mesmo naqueles considerados os mais avançados; de modo que aqueles que tentariam ajudar e reformar ficam aterrorizados diante do espetáculo e não sabem por onde começar.

Em todos os países vemos a sociedade mais ou menos em guerra consigo mesma, raça contra raça, onde há raças diferentes, classe contra classe, trabalho contra capital, e às vezes até sexo contra sexo.

Em toda parte parece haver o choque de interesses em conflito, e assim as pessoas se alinham em lados opostos.

Então a questão do governo também se encontra em condição insatisfatória; pois creio que todos concordarão que não há país no mundo que seja governado, como todo país no mundo deveria ser, unicamente com vistas aos interesses e ao progresso do povo que é governado.

Ao contrário, encontramos por toda parte considerações pessoais e partidárias, e as coisas estão em tal condição que mesmo os mais sábios e os melhores de nossos estadistas não podem fazer muitas coisas que desejariam (Página 328) fazer, e se veem forçados a muitas ações das quais, na verdade, não aprovam.

Todas essas dificuldades surgem da ignorância e do egoísmo.

Se os homens compreendessem o plano da evolução, em vez de trabalharem cada um por seus próprios fins pessoais, todos se uniriam como uma comunidade e trabalhariam harmoniosamente para o bem de todos, com mútua tolerância e indulgência.

É óbvio que, se isso fosse feito, todos esses males cessariam quase imediatamente, ou, pelo menos, poderiam ser removidos em muito pouco tempo.

Mesmo agora há uma forte onda de sentimento no mundo tendendo nessa direção, porque a cada dia um número maior de pessoas começa a compreender até certo ponto e a lutar por uma condição de coisas melhor e mais racional.

Há muitas sociedades e associações que têm por objetivo o melhoramento da condição da humanidade.

Algumas começam por uma extremidade e outras por outra; cada uma aborda a questão de seu próprio ponto de vista e com seu próprio conjunto de remédios, mas ao menos estão se esforçando rumo àquele desenvolvimento do altruísmo que é a única solução verdadeira para todas as nossas dificuldades.

O Trabalho da Teosofia

Nossa própria Sociedade Teosófica é uma dessas organizações, pois se esforça para ajudar a humanidade.

Ela não tem conexão com qualquer forma de política e não tenta agir diretamente de qualquer maneira em relação às condições sociais; seu esforço é antes dissipar a ignorância, apresentar aos homens a verdade sobre a vida e a morte, mostrar-lhes por que estão aqui e que lições têm de aprender, e assim levá-los a compreender e a realizar a grande verdade da fraternidade humana.

Muito trabalho já foi feito nessa direção — trabalho do qual pouco se sabe na América, porque a maior parte dele não foi (Página 329) neste hemisfério.

Embora vocês tenham pessoas de muitas raças diferentes neste país, vocês estão gradualmente fundindo todas elas em uma única raça; de modo que dificilmente se pode dizer que existam antagonismos raciais, exceto, talvez, no Sul, entre brancos e negros.

Na Europa, contudo, ainda há um forte sentimento nacional, e temo que haja muito mal-entendido nacional.

Mas é algo notável e interessante ver uma das convenções da Sociedade Teosófica aqui, na qual estão presentes homens de todas essas raças que tão frequentemente se desentendem e suspeitam uns dos outros.

É agradável e encorajador ver como todos esses homens se encontram como irmãos, como as diferenças e antagonismos raciais desapareceram, e como todos se alegram sinceramente ao se verem.

É impossível evitar a conclusão de que, se a Teosofia se espalhasse gradualmente entre essas várias nações, se a maioria, ou mesmo uma grande minoria, de cada nação compreendesse e aceitasse as ideias teosóficas, qualquer coisa como guerra entre tais nações seria impossível.

Todos eles percebem perfeitamente que os assuntos do plano físico são de importância menor, e que todos os pontos relacionados a ele podem ser facilmente resolvidos se houver boa vontade de ambos os lados e um esforço para descobrir o certo e fazer justiça.

Basta que os homens cheguem a conhecer e a compreender uns aos outros, para que também passem a respeitar uns aos outros.

Um homem de uma nação pode sentir preconceito contra homens de outra nação no abstrato, e pode manter esse preconceito enquanto não conhecer nenhum deles intimamente.

No momento em que ele entra em relação próxima com eles como amigos, ele descobre que eles também são seres humanos com as mesmas boas qualidades e os mesmos defeitos e falhas que seus próprios compatriotas, e inevitavelmente essas descobertas mudam seu (página 330) ponto de vista em relação a eles.

Ele ainda mantém seu patriotismo, seu amor pelo país e suas próprias ideias sobre muitos pontos, mas ele percebe que esses outros também são irmãos e que, embora possa haver muitos pontos em que diferem, há muito mais em que essa fraternidade comum da humanidade os faz concordar.

Aí vocês têm um exemplo vivo do modo como, quando a ignorância é dissipada e um maior conhecimento é alcançado, uma compreensão da fraternidade se segue e muitos perigos e dificuldades são imediatamente removidos.

Seu Trabalho no Oriente

Resultados ainda mais impressionantes do trabalho da Sociedade Teosófica podem ser vistos no Oriente.

Assisti a várias das grandes Convenções da nossa Sociedade em sua sede na Índia; e é algo magnífico ver as dezenas de raças diferentes que ali se reúnem, representando, em alguns casos, religiões que estiveram separadas por milhares de anos.

Esses membros podem provir de raças que têm antagonismos hereditários, ou de fés que se consideram mutuamente heréticas, mas aqui, na Convenção Teosófica, eles se colocam lado a lado, cada um reconhecendo o direito do outro à tolerância e ao tratamento fraterno, cada um admitindo que o outro é, em todos os aspectos, igual a si mesmo.

Lembro-me de quando a biblioteca sânscrita foi inaugurada na sede teosófica de Adyar; o Presidente-Fundador convidou os representantes de todas as grandes religiões a se reunirem e participarem de uma espécie de serviço de consagração ou bênção.

Foi a primeira vez na história, até onde sabemos, em que sacerdotes ou pregadores dessas diferentes fés se encontraram dessa maneira em uma plataforma comum, cada um recebendo o outro como igual, (Página 331) cada um compartilhando, por sua presença, das cerimônias das outras religiões.

Tínhamos ali um Pujari hindu de um dos principais templos; tínhamos dois proeminentes monges budistas do Ceilão; tínhamos Mobeds parses das proximidades de Bombaim, e tínhamos proeminentes muçulmanos da Índia Central; e, no entanto, todos esses homens se uniram em acordo fraternal.

A única grande religião não representada naquela ocasião foi a cristã, e isso não foi culpa do nosso Presidente, pois ele havia enviado convites a cristãos proeminentes para participarem da cerimônia, mas em resposta eles apenas lamentaram que os outros, entre os quais foram convidados a oficiar, fossem pagãos e que, consequentemente, não pudessem comparecer ao lado deles em uma plataforma comum.

As Duas Grandes Igrejas do Budismo

Outro resultado impressionante do trabalho da Sociedade – um trabalho pelo qual crédito especial deve ser dado pessoalmente ao seu incansável Presidente – foi a aproximação das igrejas do Norte e do Sul do Budismo.

Aqui estavam duas seções da grande religião budista, mantendo entre si uma relação um tanto semelhante à da Igreja Católica Romana com a Igreja Grega – divisões que estiveram separadas por muitos séculos, que gradualmente se distanciaram cada vez mais em doutrina e ritual.

Foi o Presidente da Sociedade Teosófica a quem ocorreu a ideia de redigir um documento contendo certos grandes princípios comuns, aos quais ele convidou os chefes de ambas as igrejas a dar o seu assentimento; e ele visitou os diversos países envolvidos, obteve a assinatura de todos os grandes dignitários desse documento comum e, assim, trouxe para uma relação íntima aqueles que antes se consideravam mutuamente com certa dose de desconfiança (Página 332) e suspeita.

Por seus esforços também, jovens estudantes da igreja do norte foram enviados para estudar sob alguns dos principais monges do sul, para que houvesse um número cada vez maior de homens em cada uma dessas igrejas que conhecessem algo direta e praticamente da outra.

Para muitos de vós, tudo isso significa relativamente pouco, porque não tendes ideia da enorme importância dos interesses envolvidos e do número de pessoas implicadas.

Sem dúvida, seria uma realização verdadeiramente maravilhosa reunir o Papa de Roma e o Arcebispo de Cantuária, e induzi-los a reconhecerem-se mutuamente como iguais e como representantes, em todos os sentidos, tão verdadeiros do cristianismo original quanto ele próprio.

No entanto, o que foi alcançado pelo Presidente da nossa Sociedade era, na realidade, um assunto em escala muito maior do que essa, pois o número de adeptos das duas igrejas budistas excede em muito o dos seguidores de todas as diferentes seitas do cristianismo juntas.

De modo que certamente se pode dizer que já esta nossa Sociedade fez algo em prol da promoção do seu primeiro objetivo: a Fraternidade Humana.

As Lições a Serem Aprendidas

Não há país no mundo onde o trabalho da Sociedade não seja necessário, pois em toda terra há muito que este real conhecimento mútuo pode fazer para trazer as diferentes seções da comunidade a uma maior harmonia, para levar os homens a se unirem e a reconhecerem a eterna fraternidade de todos, para conduzi-los todos juntos à busca de elevados ideais e para ensiná-los a discernir o real do irreal, a mostrar-lhes quais objetivos merecem ser seguidos e quais são de importância menor.

O estudo dessas poderosas verdades aumentará (Página 333) não apenas dentro da nossa Sociedade Teosófica, mas também fora dela.

Pouco importa por que nome o chamamos; se o estudo da verdade e o esforço para realizar esses ideais superiores se espalharem pelo país, descobriremos que eles trazem paz, compreensão e bondade amorosa em seu séquito, e então, em breve, veremos surgir uma religião nova e mais grandiosa, que todos poderão aceitar com igual liberdade.

Há muitas lições que podemos aprender com a história.

Os principais países da terra pensam de si mesmos como encarnando uma grande e avançada civilização, e tendemos a imaginar que nunca antes no mundo houve algo como o conhecimento que agora possuímos.

Em certas linhas, talvez, isso possa ser verdade; contudo, houve outras civilizações poderosas que surgiram, floresceram e desapareceram por sua vez.

Sua história é uma imagem da nossa, e seu destino um dia também nos alcançará, por mais improvável que isso nos pareça agora.

Na magnífica civilização da Atlântida, atingiu-se um nível de prosperidade universal para todos que certamente ainda não alcançamos, e essa condição, no caso deles, era estável e durou milhares de anos.

Mas àquela grande raça também veio a prova que vem a todas as nações, quando a verdade mais plena gradualmente se revela a elas, e quando seu povo chega a conhecer a possibilidade de poderes superiores ao plano físico.

A nação da Atlântida abusou desses poderes; a maioria ali escolheu o caminho do egoísmo e não do altruísmo, e assim a Atlântida pereceu.

Estamos agora repetindo a parte inicial de sua história; estamos aumentando em riqueza e prosperidade, e gradualmente tendemos para a dominação mundial que foi detida pela Atlântida.

Muitos entre nós estão agora começando a obter vislumbres, pelo menos, desses (Página 334) poderes superiores; e o conhecimento deles e a posse deles se espalharão constantemente entre nós. Assim, estamos repetindo de perto a história da Atlântida; e a questão para nós é se, tendo assim reproduzido a parte inicial dela, vamos seguir seu exemplo na parte final — se, após repetir a glória e a expansão do império mundial, vamos também repetir a desgraça e a queda.

Se isso acontecerá com a civilização atual do mundo ou não, depende em grande parte dos homens de hoje, dos homens que estão aqui no início da nova ordem das coisas.

A Preparação do Nosso Futuro

Especialmente na América, vislumbres de desenvolvimento psíquico são comuns; e, sem dúvida, formarão uma característica da grande nova raça que surgirá da mistura de muitas nações que ali está ocorrendo.

Estamos, na verdade, auxiliando no nascimento de uma nação, e devemos lembrar que o nascimento de uma nação tem muitos pontos em comum com o nascimento de uma criança.

Sabemos que o futuro da criança depende em grande parte do pensamento e do caráter daqueles que a cercam em seus primeiros anos, tanto antes quanto depois do momento de seu nascimento.

Da mesma forma, os homens dos dias atuais têm seu papel a desempenhar na fundação dessa nova raça, na preparação do futuro que nos aguarda.

Nessa preparação, nós, que estudamos as verdades da Teosofia, temos nosso papel a desempenhar.

Se compreendemos algo dessas verdades superiores, se entendemos a necessidade de ideais elevados e espirituais, agora é o momento de tentarmos difundir esse conhecimento da verdade e apresentá-lo de maneira sensata àqueles que podem compreendê-lo, sempre que a oportunidade se oferecer.

Devemos oferecer-lhes essa crença superior, baseada não em dogmas ou livros sagrados (Página 335), mas em razão sólida e bom senso, raciocinando firmemente, passo a passo, das coisas claramente conhecidas e reconhecidas pela ciência àquelas que, por enquanto, são conhecidas apenas por poucos.

Se conseguirmos fazer isso, ajudaremos a assegurar para este futuro imediato um desenvolvimento do bem e não do mal.

Devemos lembrar que é o poder do nosso pensamento, o poder da nossa ação, bem como o poder da nossa palavra, que produzirá efeito nessas questões.

Nunca houve maior necessidade de difusão do conhecimento, pois na ignorância atual dos homens há um perigo real e iminente.

Temos, no futuro imediato, a possibilidade de uma luta séria; temos todos os elementos de uma possível comoção social, e não temos nenhuma religião com influência suficiente sobre o povo para conter o que pode se desenvolver em um movimento selvagem e perigoso.

Até agora, a filosofia é o estudo de poucos apenas, e a ciência, que tanto fez por nós e alcançou tantos triunfos, não pode deter o perigo que nos ameaça. A única coisa que pode impedi-lo é a difusão do conhecimento, para que os homens entendam o que é realmente melhor para eles e percebam que nada pode ser bom para um que seja contra o interesse do todo.

O Desenvolvimento Deve Vir

Que a mudança e o desenvolvimento devem vir é certo; a única questão é como virá — como a nova ordem substituirá a antiga com o mínimo de atrito e o mínimo de sofrimento possível.

A ciência material e filosófica deve ser aperfeiçoada, até que toda força natural seja subjugada ao serviço do homem; o conhecimento crescerá até rasgar o véu de todo segredo nos campos ilimitados da verdade até então desconhecida; a economia social idílica (Página 336) seguirá na esteira do refinamento individual até que não reste nada pelo que lutar, e quase nada pelo que suspirar; pois em todo o mundo, tristeza, sofrimento e morte desnecessários não serão mais conhecidos.

O espectro esquálido da doença repugnante será sepultado para sempre pelo poder despertado da ciência fisiológica, de modo que os homens morrerão apenas na plenitude de seus dias, e poderão muito bem ser habilitados a condensar em uma encarnação tal desenvolvimento que hoje se estende por duas ou três.

O monstruoso espectro da guerra impiedosa será ferido pela espada flamejante do poder intelectual; o sórdido demônio do trabalho árduo e infrutífero, com seus demônios acompanhantes de fome, degradação e morte moral, será acorrentado pelo poderoso braço da responsabilidade moral, e os seres humanos não serão mais tratados como um pouco inferiores aos animais do campo.

A educação penetrará as profundezas viscosas da pobreza e elevará até o mais humilde da raça humana às fileiras de homens que se respeitam e se contêm, os que sabem.

Tudo isso certamente virá; à medida que o senso de dever se espalha entre os homens, isso tirará o homem rico de seu isolamento egoísta para empregar os talentos que lhe foram dados para ajudar e elevar seus semelhantes; os extremos de riqueza e pobreza serão igualmente impossíveis, pois a vida mais simples e mais pura deve tomar o lugar de todas as complicações desnecessárias atuais.

Isso está em nosso futuro, e espero que seja o futuro próximo; mas como virá depende em grande parte da extensão em que a luz da verdade pode ser espalhada pelo mundo agora. Não há tempo a perder, pois as forças de descontentamento e perigo crescem diariamente, e a qualquer momento uma faísca pode acender uma conflagração, cuja extensão nenhum homem pode prever.

O Futuro Mais Distante

(Página 337) Podemos falar com maior certeza sobre o futuro mais distante do que sobre aquilo que está mais imediatamente iminente.

O estudo das eras primitivas da humanidade e a comparação de suas condições com o estado de coisas dos dias atuais nos mostra a direção em que a evolução está se movendo; de modo que não pode haver dúvida de que, após um considerável lapso de tempo, qualidades que agora apenas começam a despontar estarão plenamente desenvolvidas, e todas as condições da sociedade serão radicalmente transformadas por isso.

Não pode haver incerteza quanto a isto; mas os passos intermediários pelos quais devemos passar não são tão claramente definidos.

Frequentemente tive ocasião de falar sobre a posse, pelo homem, dos corpos astral e mental, e do desenvolvimento, dentro de alguns de nós, dos sentidos desses corpos, de modo que se tornaram o que comumente se chama de clarividentes.

Aqueles que possuem essas faculdades agora são aqueles que voltaram sua atenção especialmente para elas, seja nesta vida ou em alguma existência anterior; mas as faculdades são a herança de todo ser humano, e a raça está se movendo firmemente em direção ao seu desenvolvimento mais completo.

Expliquei no capítulo final de *O Outro Lado da Morte* como o homem que deseja o uso dessas faculdades pode proceder para desdobrá-las dentro de si mesmo.

Esse processo, no entanto, é apenas uma aceleração do que a natureza está gradualmente fazendo por todos nós; e não está longe o tempo em que uma considerável porção das raças superiores da humanidade as possuirá naturalmente e sem qualquer esforço especial.

Na América temos evidência notável de que esta afirmação é verdadeira, pois a proporção de homens e mulheres parcialmente psíquicos é muito maior aqui do que em qualquer uma das nações mais antigas, com exceção, talvez, (Página 338) de algumas das raças menores e distintamente célticas, como os montanheses da Escócia.

Deve haver muitos entre meus ouvintes ou leitores que sabem por sua própria experiência que o que estou dizendo é verdadeiro, e deve haver muitos mais que o sabem pelo testemunho de parentes ou amigos que já possuem essas faculdades em maior ou menor grau.

Embora para a maioria da humanidade tais faculdades venham apenas gradualmente, devemos lembrar que elas virão com rapidez cada vez maior, porque quanto mais amplamente forem conhecidas, e quanto mais estiverem no ar, mais fácil será para aqueles em quem já estão próximas da superfície desenvolvê-las.

Pensemos então na época em que a maioria dos homens das raças avançadas possuirá tais dotes, e vejamos que diferença isso fará em suas vidas.

Naturalmente, o desenvolvimento da visão astral virá primeiro.

Para o clarividente avançado e treinado, a posse da visão astral é algo pequeno, pois ele pode alcançar mais alto do que isso e tem poderes muito mais extensos à sua disposição.

Mas, para a maioria das pessoas, a posse mesmo dessa faculdade mudaria toda a face da vida.

Lembro-me de uma vez ter ouvido a Sra.

Besant falar sobre esse assunto; e ela explicou que havia três grandes caminhos paralelos, por assim dizer, ao longo dos quais os homens progrediriam — as sendas do Poder, da Sabedoria e do Amor.

Ela disse que, se alguém examinar essas três sendas, pode facilmente ver por si mesmo que diferença será feita em cada uma delas quando as faculdades superiores do homem forem desenvolvidas.

Sob esses três títulos, ela agrupou as várias atividades através das quais os poderes do homem poderiam se manifestar.

Sob o título do amor, por exemplo, agrupa-se tudo o que pertence ao aspecto religioso da vida — nossa devoção para com aqueles que estão acima de nós, para com os (Página 339) Grandes Seres, e para com a Divindade, e também, por outro lado, nosso amor, simpatia e ajuda para com aqueles que estão ao nosso redor ou atrás de nós na evolução.

No lado da sabedoria da evolução do homem, temos seu desenvolvimento ao longo das linhas da ciência, da filosofia ou da arte — desenvolvimentos atualmente talvez um tanto rudimentares, mas que serão construídos em um conhecimento mais pleno e mais perfeito à medida que o tempo avança. Sob o lado do poder do desenvolvimento do homem, vem toda a questão do governo e da organização em todos os seus aspectos.

Em todas essas linhas de progresso, estamos apenas no começo; e, no entanto, embora verdadeiramente não tenhamos avançado muito, parece que em todas elas estamos chegando a muros sem saída, além dos quais é difícil enxergarmos nosso caminho.

Mesmo na ciência, cujos triunfos têm sido tão grandes, parecemos estar chegando, em muitas direções, quase ao limite do que nos é possível. A ciência começa com o estudo do material e, naturalmente, sua tendência é ser materialista.

No entanto, ela constantemente se vê transcendendo o material; como o Sr. Fullerton observou bem: "Mal entramos no exame de qualquer fenômeno antes de chegarmos às fronteiras do invisível.

Tentamos o estudo das forças expansivas do vapor."

Contudo, o vapor é um vapor, visível apenas quando é resfriado pela atmosfera mais fria.

Procuramos descobrir o que é a eletricidade, aprender sua natureza real, se é uma corrente ou uma vibração.

Contudo, em sua realidade única, ela escapa ao olhar mais perspicaz, e somente podemos examinar seus efeitos à medida que se manifestam no campo da manifestação.

Luz, calor, gravitação, afinidade química, o que sabemos deles em sua essência, como os conhecemos de algum modo, exceto quando emergem do mundo oculto e produzem algum efeito no mundo da matéria? A própria vida percebemos apenas em suas atividades; o que ela é, a força invisível (Página 340) que varre o mundo e atravessa todas as coisas, não podemos definir; somente quando suas consequências se revelam palpavelmente é que nos damos conta de sua presença.

E assim acontece com todos os objetos perceptíveis aos sentidos.

Mas percorremos muito pouco caminho em nosso exame antes que os sentidos sejam transcendidos, a fronteira do invisível seja alcançada, e o exame se encerre em impotência. (Provas da Teosofia, p.2)

O Efeito do Desenvolvimento Astral

Vejamos então como o desenvolvimento da consciência astral afetaria a humanidade nesses diversos aspectos de sua evolução.

Atualmente, uma grande parcela de nosso povo ainda está totalmente incerta quanto a existir algo além do material; e uma parcela muito maior não tem crença real em nada além do material, mesmo que professe tê-la. Essa incerteza e esse ceticismo prático desapareceriam necessariamente de imediato se uma grande proporção de homens possuísse as faculdades do plano astral.

Toda a questão da sobrevivência do homem após a morte, com tudo o que dela depende, não seria mais passível de debate, pois homens vivos veriam constantemente ao seu redor aqueles a quem chamamos de mortos.

Não poderia mais haver qualquer ceticismo quanto à existência do grande Poder Divino, pois Sua ação seria claramente visível aos homens de muitas maneiras.

Nenhum homem que seja clarividente, que possua uma visão devidamente desenvolvida dos planos superiores, pode jamais ser ateu.

Não é que ele veja o próprio Deus, pois como vossas escrituras vos dizem: "Ninguém jamais viu a Deus"; mas ele vê por todos os lados evidências tão diretas de um plano grandioso, de um poder tremendo exercido por uma inteligência transcendente, que lhe é impossível duvidar da existência da Divindade dirigente.

Muitas das coisas sobre as quais (página 341) os homens agora discutem serão então questões de conhecimento, embora sem dúvida ainda haja muito espaço para especulação com relação a outras e mais elevadas questões.

A mudança também será grande com relação ao que a Sra. Besant chama de lado amoroso da evolução do homem.

Nossa relação e nossa obrigação para com inteligências maiores que as nossas, para com os grandes mestres do passado e do presente, serão inquestionáveis, porque veremos e perceberemos seu poder e influência.

Quando voltamos nosso pensamento na outra direção e pensamos em nossa influência sobre aqueles que nos cercam e sobre aqueles que estão abaixo de nós, vemos novamente que enorme diferença necessariamente se fará quando houver abundância de atividade e de ajuda inteligente, quando todo homem que alcançou essa visão souber usá-la ao lidar com seus semelhantes, porque ele pode ver o que eles pensam e o que sentem, e portanto não estará mais trabalhando às cegas.

Um médico saberá o que há de errado com seu paciente sem precisar fazer experimentos, e assim poderá prescrever exatamente o que for necessário para sua recuperação.

Os homens trabalharão inteligentemente para ajudar seus semelhantes, e assim todos os seus esforços serão muito melhor direcionados do que podem ser agora.

Pense no que isso fará por nós na educação de nossos filhos quando tivermos professores que possam ver e compreender.

Agora, inevitavelmente aplicamos métodos de educação de maneira um tanto frouxa, não compreendendo plenamente quão grandes são as diferenças entre as almas que vêm até nós nesses corpos jovens.

Mas então, com a visão superior, virão a inteligência e o discernimento, de modo que nenhuma criança será colocada no lugar errado, num lugar que não lhe convém; mas em cada caso, aqueles que forem responsáveis por sua instrução e orientação verão precisamente para o que ela é apta e saberão exatamente o que ela pode fazer. O mestre-escola daquele dia futuro (página 342) observará os germes dentro de seus alunos enquanto se desdobram, e trabalhará para reprimir o mal e desenvolver o bem.

Podemos ver quanto avanço poderia ser alcançado dessa maneira, mesmo numa única geração, se pensarmos em todas as pessoas que conhecemos, e como elas seriam diferentes se todas as qualidades indesejáveis que possuem fossem eliminadas, e todas as boas enormemente fortalecidas.

Uma sociedade ideal como essa poderia ser trazida à existência e poderia ser universalmente estendida em duas ou três gerações, se pais e professores fossem capazes de ver e agir inteligentemente.

Mesmo agora, sem o desenvolvimento da visão astral, há muito que pode ser feito, se pais e tutores e professores apenas lerem e aprenderem por si mesmos sobre essas coisas.

No lado da sabedoria da evolução humana, essa nova visão provocaria uma mudança maravilhosa.

Como já disse, há agora muitas limitações para o homem científico em quase todas as direções.

Ele aperfeiçoou, refinou e especializou seus instrumentos a um grau maravilhoso de perfeição, e ainda assim o máximo que pode alcançar fica aquém de muito do que precisa saber.

Ele fala sobre e trabalha com seus átomos e suas moléculas, e ainda assim nenhum homem vivo jamais viu, por meio de qualquer instrumento científico, um átomo ou uma molécula.

Essas coisas podem ser vistas pela visão clarividente desenvolvida — não me refiro à clarividência comum, como aquela que é frequentemente anunciada nos jornais, mas à clarividência definitivamente treinada, ou melhor, a uma aplicação especial dessa visão.

Esse poder de magnificação aparentemente sempre foi compreendido no Oriente — pelo menos encontramos referência à posse desse poder em alguns dos primeiros livros hindus.

Por seu meio, os vários átomos e moléculas postulados pela ciência podem ser vistos não meramente como hipóteses, mas como fatos.

Eis então uma grande (Página 343) possibilidade diante do químico do futuro.

Ele não apenas teorizará, mas, ao misturar seus diversos produtos químicos, observará as combinações e as mudanças e, portanto, compreenderá muito mais claramente o que está fazendo.

Como dissemos antes, o médico então diagnosticará por visão direta, e não por mera inferência de sintomas externos.

Agora, em muitos casos, ele administra seus medicamentos meramente para neutralizar esses sintomas externos, e espera que os resultados de pelo menos alguns deles possam ser satisfatórios; então ele será capaz de ver o efeito de cada droga em vários casos e poderá observá-lo e testá-lo plenamente.

Outro departamento em que certamente se fará uma grande diferença é a psicologia.

Agora os homens argumentam muito sobre o grau em que a consciência é desenvolvida nos animais e como ela funciona em diferentes estágios da evolução humana.

Então não haverá necessidade de discutirem sobre tais assuntos, porque poderão ver como a consciência funciona, e estará em seu poder identificar-se por um momento com a consciência de um animal, para que possam saber o que ela é e como agem suas estranhas limitações.

O aumento do nosso conhecimento não pode deixar de ser maravilhoso, e, no entanto, é certo que isso deve acontecer, pois está diretamente alinhado com o desenvolvimento que já nos chegou e porque os poderes pelos quais será alcançado já se desdobraram para alguns de nós. Há muitos entre nós que viram homens realmente altamente desenvolvidos — aqueles a quem chamamos de Mestres de Sabedoria; e vemos que eles possuem todas essas qualidades das quais falamos.

O que eles são agora, todos nós seremos em breve; e, consequentemente, não estamos adivinhando ou especulando quando falamos desse futuro mais remoto, mas estamos descrevendo o avanço inevitável da raça humana.

(Página 344) No campo da filosofia, os fatos mais simples substituirão muitas das teorias dos dias atuais.

Sem dúvida, nossos metafísicos continuarão a discutir sobre assuntos muito acima de qualquer coisa que mesmo essa visão superior possa ver; mas, de qualquer forma, terão uma base definida, um fundamento a partir do qual iniciar suas teorias, e isso não pode deixar de fazer uma diferença considerável para eles.

Outro lado do nosso conhecimento que será revolucionado será o estudo da história, pois uma das faculdades pertencentes a esses planos superiores é o poder de olhar para trás, para os registros do passado.

Atualmente, devemos confiar-nos nas mãos do historiador, que pode ser ignorante ou equivocado e é quase necessariamente mais ou menos parcial.

Então seremos capazes de olhar para trás, à vontade, para esses registros da memória Divina, que mostram tudo o que foi feito, dito ou pensado em todo o mundo, de modo que, em vez de ouvir apenas um relato imperfeito de um lado da história, seremos capazes de viver à vontade entre as civilizações de centenas de milhares de anos atrás e ver sua ação e funcionamento tão clara e vividamente quanto aquilo que se passa ao nosso redor. A psicometria nos mostra, mesmo agora, que isso é uma possibilidade, e é certo que essa será a maneira pela qual a história futura será escrita, de modo que saberemos, em vez de vagamente adivinhar.

Nossos amigos religiosos discutem muito sobre o céu e o inferno, e têm um medo terrível deste último; na verdade, às vezes quase pareceria que também têm medo do primeiro, pela maneira como se esforçam para evitar ir para lá.

No futuro, não serão possíveis questões ou disputas sobre essas condições, porque o homem verá por si mesmo que não existe inferno, embora também veja que aqueles que vivem uma vida má estão, por esse fato, acumulando para si resultados indesejáveis (Página 345) e um tempo desagradável na vida astral.

As glórias do mundo celestial também estarão abertas à sua visão, e ele perceberá que o homem precisa apenas de um desenvolvimento de faculdades para colocá-lo imediatamente, aqui e agora, em meio a toda a bem-aventurança que essa vida maravilhosa pode dar.

Assim também com muitos pontos sobre os quais os homens discutem em religião — sobre a exatidão verbal das histórias evangélicas e de outras partes do que se chama história sagrada; naqueles dias os fatos serão óbvios, e não haverá mais espaço para argumentação.

Que mudança também se dará em nossas concepções de arte e música! Para o artista daquele dia haverá muito mais cores e muito mais matizes de cor do que aqueles que agora conhecemos, pois o conhecimento dos planos superiores traz, como um de seus primeiros resultados, o poder de apreciar diferentes tonalidades.

A música daquele dia será acompanhada de cor, assim como os estudos de cor serão acompanhados de som harmonioso; pois som e cor são dois aspectos de todo movimento ordenado, de modo que uma magnífica peça tocada no órgão será acompanhada por um esplêndido espetáculo de cor luminosa, e assim outro interesse será acrescentado ao deleite da música gloriosa, e uma vantagem adicional será desse modo desfrutada pelos estudantes de música e arte.

Uma grande mudança também se dará no lado do poder do desenvolvimento do homem; toda a questão de governo e organização se assentará sobre uma base diferente.

Os homens verão então o efeito no plano astral de muitas de suas ações no plano físico, e assim muito do que agora é feito sem pensar se tornará uma impossibilidade.

Não poderia haver possibilidade do abate de animais para alimentação, por exemplo, se os homens fossem capazes de ver os resultados no plano astral que esse abate produz.

O (Página 346) crime que os homens chamam de esporte seria abolido se eles fossem capazes de ver o que realmente estão fazendo.

É necessário um desenvolvimento tão ligeiro para mudar toda a face daquilo que chamamos civilização, e mudá-la grandemente para melhor.

A Faculdade do Plano Mental

Contudo, a maior parte disso de que falei é apenas uma etapa do desenvolvimento, e a primeira etapa.

A maior parte disso, e em muitas linhas muito mais do que isso, resultaria do desdobramento da mera visão astral no homem; porém, acima e além disso, jaz o plano mental.

Tentei dar uma vaga ideia disso quando falei do mundo celestial; ainda assim, sei bem quão aquém todas as palavras físicas devem ficar na tentativa de descrever o esplendor do plano mental, de modo que, agora, tal como ocorria há dois mil anos, a única declaração satisfatória que se pode fazer acerca desse mundo celeste é que "Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus preparou para aqueles que o amam". E lembrai-vos, isso significa para todos, porque todos os homens amarão o divino assim que conhecerem o divino.

É somente porque são ignorantes, porque não podem ver, que alguns agora trabalham para aquilo que erroneamente consideram seus interesses separados, em vez de seguir a linha da vontade Divina.

Eles apenas precisam ver e conhecer, e então a seguirão e cooperarão inteligentemente com ela.

Deve-se lembrar que, nesse futuro distante, a vida do plano mental será parte, e a parte principal, de nossa vida diária.

Atualmente, a maioria daqueles que são capazes de desfrutar da visão do mundo celestial só pode alcançá-la quando o corpo físico está em condição de (Página 347) transe.

Essa não é a única maneira pela qual isso pode ser visto, mas estamos tão acostumados a prestar atenção aos sentidos do corpo físico e às impressões recebidas através deles, que, enquanto estes nos pressionam, não estamos livres para ouvir os sussurros dos mundos superiores.

Mas chega a todo homem, no curso de sua evolução, um tempo em que ele possui suas faculdades astrais juntamente com as físicas, e as tem à sua disposição o tempo todo.

Assim, sempre que encontra um amigo, ele vê seu corpo astral bem como seu corpo físico; e é apenas uma questão de um passo adiante na evolução poder ver também o corpo-mental.

Quando esse poder chega ao homem, o plano mental se abre para ele, de modo que, mesmo enquanto caminha pela Terra e participa de seus afazeres diários, ele vive verdadeiramente no céu, pois seus poderes são seus, seu conhecimento é seu, sua bem-aventurança é sua.

Isso será verdade para cada um de nós — não para todos de início, nem para todos simultaneamente, porque todos os homens não serão iguais em seu desenvolvimento então, assim como não o são agora.

Há almas mais jovens e almas mais velhas, e aqueles que pertencem hoje às raças selvagens podem, nessa época, ter se desenvolvido até nosso nível atual; mas nós não teremos ficado parados durante o período intermediário, e assim teremos alcançado um nível muito mais elevado do que este.

Essas coisas estão hoje ao alcance apenas daqueles que estudaram especialmente para desenvolver essas faculdades, mas nessa época elas estarão nas mãos da maioria dos homens educados e cultos das raças avançadas.

Os poucos que detêm esses poderes agora são, por assim dizer, os olhos para o restante da raça, e usam seus poderes apenas a serviço de seus irmãos, e nunca para ganho privado.

O homem que evoluiu até esse ponto sabe que nada pode ser um ganho para um, a menos que esteja também em harmonia com o avanço de todos.

Ele sabe (Página 348) que não existe algo como um ganho privado às custas de outro homem.

Consequentemente, ele começa a ver que a única vantagem verdadeira é aquele ganho que ele compartilha com todos; que cada avanço que ele faz no caminho do progresso ou desenvolvimento espiritual é algo conquistado não apenas para si mesmo, mas para os outros.

Se ele adquire conhecimento e autocontrole, certamente obtém muito para si, mas não tira nada de ninguém.

Ele pode transmitir seu conhecimento aos outros e, ainda assim, não perder nada; de fato, quanto mais de seu conhecimento ele repassa dessa maneira, mais provável é que adquira mais para si.

Se um homem mantém o canal de sua mente sempre aberto e deixa seu conhecimento fluir através dele para o benefício dos outros, então o caminho está aberto para que novo conhecimento constantemente se derrame de cima, assim como um fluxo de água passa por um cano aberto, e ele é sempre mantido limpo e puro.

Mas se o conhecimento flui para o homem e não é repassado, então esse homem rapidamente se torna como a extremidade do cano da qual não há saída, na qual a água se torna estagnada e está sujeita a se entupir com todo tipo de sujeira e impureza.

Dessas verdadeiras riquezas, quanto mais doamos, mais temos para nós mesmos; e conquistá-las é a única aquisição de riquezas verdadeiramente útil, se ao menos pudermos compreendê-lo.

Possibilidades Ainda Mais Elevadas

Assim vemos como o desenvolvimento prosseguirá.

O estudante teosófico sabe que, além e acima mesmo do plano mental, existe aquele reino ainda mais elevado que chamamos de búdico, onde a perfeita unidade da humanidade é vista.

Ali, o homem pode conhecer, não por mera apreciação intelectual, mas por experiência definida, o fato de que a humanidade é uma fraternidade por causa da unidade espiritual que subjaz a tudo isso.

Aqui, embora ele ainda seja ele mesmo (Página 349) e sua consciência seja sua, ela se expandiu em tão perfeita simpatia com a consciência dos outros que ele percebe que é verdadeiramente apenas parte de um todo poderoso.

Ele vê como a evolução desse todo progride constantemente, e como ele deve trabalhar para esse fim sem qualquer pensamento de si mesmo como entidade separada, pois isso é meramente uma ilusão pertencente a esses planos inferiores.

Quando percebemos essa única coisa, conhecemos também o esplêndido avanço que deve vir ao homem, pois vemos como isso conduz para cima, em direção àquele objetivo final, quando o próprio homem será como Deus, pois a consciência de cada homem se expandirá naquela consciência Divina e será um centro de amor, luz e glória, o organizador, governante e doador de vida de um sistema, o criador de evoluções ainda por vir.

Esse é o futuro que se apresenta diante de nós, e ainda assim nem mesmo isso é o objetivo final.

É o objetivo destinado a nós ao final desta etapa em nossa evolução; contudo, o progresso não termina com isso.

O que se encontra além, em reinos ainda mais elevados da Divindade, não sabemos agora, mas saberemos um dia.

Nenhuma palavra pode descrever, nenhum pensamento pode alcançá-lo, e ainda assim esse futuro é certo.

A única coisa que não é certa é quanto tempo levaremos para conquistá-lo; contudo, já estamos a caminho dele agora, e está nas mãos dos homens de hoje apressar nosso progresso em direção a ele. Pois somos desta humanidade que está progredindo — apenas uma pequena parte dela, verdadeiramente, mas não sem poder e não sem responsabilidade; e se inteligentemente cumprirmos nossa parte no trabalho de hoje, podemos fazer muito para apressar a chegada desse esplendor que é tão maior do que palavras humanas podem dizer.

Isto, ao menos, podemos fazer; cada um de nós pode tornar-se um centro e esforçar-se por difundir o conhecimento da verdade através do seu pensamento, palavra e ação; pode manter-se firme, calmo e sereno, (página 350) pode conservar diante de si o ideal superior e nunca permitir que seja arrastado por ondas de paixão ou por pensamentos de egoísmo.

Pode dedicar-se seriamente ao estudo dessas verdades superiores, para que compreenda plenamente como melhor trabalhar por elas.

Que ele tente fazer o que nós, nesta Sociedade Teosófica, estamos fazendo; que ele tente avançar e auxiliar o mundo colocando essas verdades diante dos homens, ajudando assim a aproximar o tempo em que todos os homens se compreenderão mutuamente, porque compreendem o poderoso sistema do qual fazem parte.

Este futuro glorioso de que falamos não é mero sonho de um poeta ou de um extático; é uma certeza acima de toda dúvida; é uma certeza porque esta evolução é a vontade de Deus para o homem, e o Seu reino virá, e a Sua vontade será feita, na terra assim como no céu.

CAPÍTULO XIII

A TEOSOFIA NA VIDA DIÁRIA

(Página 351) No decorrer desta série de palestras, falamos de muitos assuntos diferentes do ponto de vista teosófico; em alguns casos, explicando por meio da Teosofia questões que de outra forma parecem envoltas em obscuridade; em outros, dizendo-vos como vários assuntos de interesse religioso aparecem quando vistos através das lentes teosóficas, com o conhecimento adicional que a Teosofia nos proporciona. Agora temos de considerar como este mesmo conhecimento teosófico nos afeta na vida diária.

Como tereis visto nas palestras anteriores, a Teosofia nos dá um ponto de vista definido a partir do qual podemos considerar tudo; é uma teoria clara e coerente da vida, um sistema de filosofia através do qual podemos contemplar todos os diferentes problemas que se nos apresentam, com a esperança de poder resolvê-los, compreender o que significam e que papel desempenham em relação às nossas vidas.

É evidente que, em nossos estudos de assuntos superiores, isso nos dará uma grande vantagem; mas como isso nos afetará na rotina um tanto monótona da vida cotidiana? Descobrimos que isso produz uma grande mudança; na verdade, as diversas maneiras pelas quais a Teosofia altera nossa atitude em relação ao mundo, em relação aos nossos semelhantes e em relação à nossa evolução são tantas, o assunto todo é tão vasto, e a diferença que a Teosofia faz àqueles que absorvem seus ensinamentos é tão fundamental, que posso apresentar-vos apenas os pontos principais em uma palestra como a que se pode proferir em uma única noite.

Se, no entanto, pensardes com cuidado, (Página 352) vereis que cada um desses pontos abre uma linha de pensamento, e cada uma dessas linhas tem muitos ramos.

O Senso de Proporção

A dificuldade está em saber por onde começar e o que incluir, mas talvez possamos tomar como nosso primeiro grande ponto a visão mais ampla e mais calma que provém desse conhecimento.

O homem que apreende os princípios fundamentais da Teosofia começa a ver tudo em proporções diferentes e, necessariamente, aprende a ser muito menos pessoal em sua visão dos assuntos.

Meramente manter as ideias teosóficas de maneira vaga, como grande parte da fé teológica moderna é mantida, seria de utilidade comparativamente pequena; mas se um homem realmente apreende o ensinamento, se ele é vívido e vivo para ele, isso certamente significa uma grande alteração em toda a sua atitude.

Ele descobrirá que quase nada do que antes aparecia em sua vida deixou de ter sua visão muito mudada e grandemente ampliada; em todos os sentidos, sua base de pensamento e de vida foi tornada diferente pelo ensinamento da Teosofia.

O ponto de vista do homem comum é geralmente limitado e pessoal.

Não estou pensando em um homem definitivamente egoísta — alguém que é sem escrúpulos na busca de seus próprios fins e que empurraria seu interesse pessoal sem considerar danos diretos e óbvios aos outros.

Esse é um homem inconfundivelmente egoísta, e o homem comum é menos egoísta do que egocêntrico.

Ele vê tudo primeiramente conforme isso o afeta, e não costuma, como regra, olhar natural e instintivamente além de si mesmo para ver como isso afeta a comunidade em geral.

Se essa ideia lhe ocorre, é apenas como um pensamento secundário, e cada problema se apresenta a ele, antes de tudo, simplesmente com referência a si mesmo.

Essa atitude não pode deixar de ser transformada para o estudante de Teosofia; ele percebe intensamente (página 353) a irmandade da humanidade, vê vividamente que somos todos espiritualmente unos nos planos superiores, e que, portanto, mesmo aqui neste mundo físico, nossos verdadeiros interesses devem ser fundamentalmente unos e os mesmos.

Já vimos em outras palestras que o único ganho verdadeiro para o homem é aquilo que ele pode compartilhar com todos os seus irmãos sem, com isso, perder nada para si mesmo; e também consideramos como a radiação de seus pensamentos e sentimentos afeta os de seus semelhantes.

Disso também podemos ver que, se um homem consegue conquistar uma qualidade maligna em si mesmo e desenvolver a virtude oposta, ele necessariamente ajuda aqueles ao seu redor a trilhar o mesmo caminho.

Enquanto ele se entregava a algum pensamento ou sentimento errôneo, as vibrações que emanavam dele agiam constantemente como tentações para outros homens, tornando mais difícil para eles controlarem sentimentos semelhantes em si mesmos.

Agora que ele obteve a vitória sobre essa falha, as vibrações que emanam dele têm tendência oposta e, consequentemente, ajudam o homem que sofre sob a mesma dificuldade e o fortalecem em seus esforços para obter domínio sobre ela. Assim, é verdadeiro, e não mera figura de linguagem poética, dizer que cada vitória que um homem conquista sobre si mesmo é também uma vantagem para todos os seus irmãos.

Ao elevar-se, ele elevou o todo — ligeiramente, é claro, mas não imperceptivelmente.

Esse senso de uma irmandade subjacente, esse sentimento de que ele é parte de uma comunidade, nunca o abandona.

E, portanto, antes de embarcar em qualquer curso de ação, ele considera como isso afetará os outros ao seu redor.

Ele percebe vividamente que seus hábitos, seus pensamentos e seus sentimentos não são tão exclusivamente de sua conta quanto a maioria das pessoas pensa, porque afetam os outros para o bem ou para o mal (página 354), e assim ele vê que há uma responsabilidade em tudo isso da qual o homem comum jamais cogita.

Veremos que isso introduz um novo fator em sua vida e torna impossível considerá-la de outra forma que não seja séria.

Não quero dizer que ele se sentirá triste em relação à vida; pelo contrário, ele será especialmente sereno, calmo e alegre.

Mas, junto com sua serenidade e felicidade, não haverá frivolidade.

Ele não pode deixar de ter a sensação de que a vida em que estamos engajados é um assunto sério, de que há vastas possibilidades nela que estão ao nosso alcance realizar, e de que ela tem objetivos definidos que não temos o direito de negligenciar.

Muitas vezes encontramos homens desperdiçando suas vidas e se perguntando o que fazer para matar o tempo; enquanto que, na realidade, deveríamos antes nos perguntar como nos será possível encontrar tempo suficiente para fazer tudo o que está à espera de ser feito.

Pois nosso dever nunca termina enquanto houver uma pessoa que possamos alcançar que não esteja ajudada, que não esteja sendo assistida em seu progresso.

Ao nosso redor, oportunidades nos aguardam em muitas direções diferentes; e quando um homem vê isso, quando ele sabe o que a vida realmente é, ele não pode deixar de levá-la a sério.

Ele vê que nenhum de seu tempo pode ser desperdiçado impunemente, pois o tempo todo ele está dando à luz pensamentos, e esse pensamento não apenas reage sobre si mesmo, mas também influencia constantemente os outros.

Quando ele compreende isso, será um homem muito mais feliz do que quando dedica toda a sua vida à busca do entretenimento; porque verá as coisas em sua devida proporção e, portanto, será calmo em meio à tristeza e aos problemas, justamente por causa de seu ponto de vista mais amplo, justamente porque percebe tão profundamente que tudo está nas mãos de um Poder eterno e benéfico.

Justiça e Perspectiva

(Página 355) O ponto de vista pessoal do homem comum traz consigo, como consequência necessária, uma falta de perspectiva em relação às suas dificuldades e tristezas pessoais.

Uma pequena dificuldade, muitas vezes por estar tão próxima dele, avulta de tal modo que obscurece todo o horizonte, de maneira que ele é incapaz de ver que a luz do Amor divino ainda inunda o mundo, mesmo que uma nuvem escura possa ter se assentado sobre ele.

Porque ele está sofrendo, tudo o mais parece alterado; toda a vida assume um aspecto sombrio, e ele acredita ser vítima de algum infortúnio especial, que foi escolhido como joguete de influências malignas; enquanto que, na realidade, a dificuldade é apenas uma questão pequena, mas está tão próxima dele que parece, aos seus olhos, maior do que tudo o mais.

Tal atitude é impossível para um homem que estudou o sistema teosófico e se percebe como parte do todo.

Ele sabe que, sob a lei infalível da justiça divina, se o sofrimento lhe sobrevém, é porque é necessário para a sua evolução, em consequência de ações que cometeu, de palavras que proferiu, de pensamentos aos quais deu abrigo em dias anteriores e em vidas passadas; e assim a ideia inteira de injustiça, ligada ao sofrimento, é removida dele.

Esse sentimento de injustiça constitui, em muitos casos, grande parte do sofrimento do homem.

Muitos homens comparam-se instintivamente com os outros, de modo que, quando qualquer problema ou tristeza lhes sobrevém, inclinam-se a resmungar e a dizer a si mesmos: "Por que tudo isto deve cair sobre mim? Ali estão meus vizinhos, que sei não serem melhores do que eu, e no entanto prosperam; não perderam seus amigos nem suas fortunas, não sofrem de má saúde; não tiveram todas as dores que (página 356) estão se acumulando tão rapidamente sobre mim." E assim sentem que são tratados injustamente, e ressentem-se disso, e essa atitude tinge todos os seus hábitos de pensamento; tornam-se homens insatisfeitos, descontentes, e em vez de suportar seus problemas com paciência, estão sempre em estado de irritação, tornando-se amargurados e tirando o pior de tudo, em vez do melhor.

Todo esse sentimento, tudo isso que é tão tristemente comum no mundo, é varrido pelo ensinamento teosófico; pois o estudante percebe que, se seus amigos ou conhecidos estão em circunstâncias melhores do que as suas, então ou é porque mereceram assim estar, ou então é que a sua evolução no momento presente não torna necessário para eles, nem benéfico para eles, que o problema e a tristeza que acumularam para si mesmos estejam em atividade imediata.

Assim, ele encara seus problemas filosoficamente, avalia-os pelo seu verdadeiro valor e resolve fazer desses frutos de seu mau agir no passado uma oportunidade para o bem no presente, suportando-os nobremente e sem queixas, e desenvolvendo sob a sua ação as virtudes da determinação, coragem e resistência.

Um Dito Obscuro

Há ainda outra consideração que a Teosofia nos apresenta, que ajuda a tornar a tristeza mais fácil de suportar.

Você pode lembrar-se de um texto estranho que nos diz que "Aquele a quem o Senhor ama, Ele castiga." É difícil, sem uma explicação teosófica, aceitar ou extrair qualquer sentido de tal texto.

Geralmente as pessoas tentam explicar isso atribuindo alguma vaga ideia de vantagem ao sofrimento em si; dizem que é bom para uma pessoa que ela sofra, e que quando Deus ama particularmente alguém, Ele consequentemente faz com que essa pessoa passe por grandes tristezas, a fim de que ela desenvolva mais rapidamente qualidades elevadas.

É verdade que tais qualidades como coragem e resistência podem ser incidentalmente desenvolvidas através do sofrimento, como já dissemos; mas não é verdade que a Divindade exiba capricho nesse assunto, e imponha esse sofrimento a um e não a outro, como que por favoritismo.

Nenhum sofrimento pode sobrevir a qualquer homem, exceto aquele que é o resultado de sua própria ação; e, no entanto, há uma verdade oculta por trás desse estranho texto, que tentarei explicar.

Aqueles que estudaram as escrituras orientais lembrar-se-ão de que nelas essa lei de Causa e Efeito é chamada pelo nome de Karma.

Essa palavra sânscrita karma é um substantivo verbal, significando literalmente "fazer"; mas na filosofia oriental ela possui três matizes de significado, importantes de serem compreendidos por qualquer um que deseje ter uma compreensão abrangente dos ensinamentos orientais.

Primeiro, às vezes significa simplesmente ação; segundo, significa o resultado da ação, a reação sobre o agente que, mais cedo ou mais tarde, invariavelmente e inevitavelmente se segue; terceiro, significa a lei da natureza sob a qual essa reação ocorre — a lei de Causa e Efeito, ou o reajuste do equilíbrio, que opera nos mundos mental e moral exatamente como na mecânica.

Eles nos dizem que o karma é de três tipos.

Primeiro: Há o Samchita, ou karma "acumulado" — toda a massa que ainda permanece atrás do homem, ainda não trabalhada — todo o saldo não pago da conta de débito e crédito.

Segundo: Há o Prarabdha, ou karma "iniciado" — a quantidade atribuída ao homem no começo de cada vida — seu destino, por assim dizer, para aquela vida.

Terceiro: Há o Kriyamana karma, aquele que nós estamos agora, por nossas ações na presente vida, criando para o futuro.

Descobriremos que essa divisão oriental nos será útil em nossos esforços para compreender o assunto.

A primeira variedade descrita é evidentemente o resultado de todos os pensamentos e ações anteriores do homem, tanto bons quanto maus, que paira sobre ele e aguarda para entrar em operação.

Este é o destino autoimposto que torna sua vida e seu ambiente tais como são, de acordo com suas vidas e ações anteriores.

Em certo sentido, pode ser considerado uma dívida que ele tem de pagar; contudo, é uma dívida demasiado grande para ser paga em uma única vida, pois em nossas existências anteriores é quase certo que tenhamos feito, no conjunto, uma proporção maior de mal do que de bem; no período selvagem de nossa evolução, necessariamente fomos ignorantes e, portanto, é provável que nossas ações tenham sido egoístas e violentas, e elas devem ter deixado como resultado muito daquilo que é altamente indesejável.

É por isso que o arranjo indicado no segundo tipo de Karma é uma necessidade.

Porque a dívida é demasiado grande para ser paga de uma vez, uma certa proporção dela é atribuída ao homem em cada vida — uma proporção razoável, com um justo equilíbrio entre o bem e o mal, de modo que ele não seja sobrecarregado e esmagado, mas tenha a oportunidade de abrir caminho pela vida, ainda que com luta, elevando-se assim sempre do inferior ao superior.

Nunca devemos esquecer que o objetivo do esquema é a evolução do homem e que, consequentemente, todos os arranjos se destinam a favorecer essa evolução.

Nenhum homem, portanto, recebeu jamais mais provações do que pode suportar, embora às vezes possa ser tentado a pensar o contrário; pois se esse fosse realmente o caso, a evolução estaria trabalhando para derrotar a si mesma, o que é inconcebível.

O Equilíbrio do Bem e do Mal

(Página 359) Uma vez que o homem está continuamente pagando cada vez mais dessa dívida que jaz atrás dele, chega um momento em que a maior parte do mal já foi expiada, quando ele se aproximou do equilíbrio entre os resultados maus e bons de sua história passada.

Esse ponto não foi alcançado pela maioria dos homens; e, no entanto, há alguns que estão mais próximos dele do que podemos pensar, ainda que as vidas dos homens estejam longe de ser perfeitamente puras, nobres ou altruístas.

Isso pode parecer estranho a muitos; mas devemos levar em consideração um fato que, felizmente para nós, é proeminente em nossa evolução — que, em igualdade de condições, o bem é sempre uma força maior do que o mal, e comparativamente pouca energia do lado do bem muitas vezes contrabalança uma grande quantidade desviada para os níveis inferiores do mal e do egoísmo.

A razão para isso é simples quando compreendemos a física dos planos superiores.

Tudo o que pertence ao bem, tudo o que é elevado, puro e nobre, expressa-se através das vibrações mais altas e mais rápidas.

Tomemos, por exemplo, o corpo astral do homem, que é o veículo de seus desejos, suas paixões e suas emoções.

Esse corpo astral é uma coisa complexa, pois é construído de muitos tipos diferentes de matéria astral.

Se um homem tem dentro de si apenas desejos e emoções elevados e altruístas, ele colocará em vibração principalmente a matéria mais refinada desse corpo astral; se, ao contrário, seus desejos, emoções e paixões são grosseiros e egoístas, quase todos eles se expressarão nas partes mais baixas, densas e grosseiras desse veículo astral.

Observe o resultado que se segue.

Supondo que o homem tivesse uma quantidade igual de desejo bom e mau, o desejo bom seria consideravelmente mais poderoso, porque ( Página 360 ) atua nessa matéria mais sutil, onde as vibrações são muito mais rápidas, onde a força é muito mais penetrante e duradoura, porque a matéria através da qual ele tem de abrir caminho é de caráter menos grosseiro.

A vida do homem comum contém muito do que não podemos aprovar, muito que é grosseiro e egoísta.

Contudo, creio que ela contém sempre também algo que é bom, algo que é nobre, algo que é realmente elevado e verdadeiro; e isso, embora comparativamente pouco, é uma força que atua com tal atividade nos planos superiores que contrabalança plenamente a grosseria e o egoísmo; e assim, de tal vida, não surge alguma regressão, como se poderia esperar, mas uma certa quantidade de progresso.

A vida comum do homem comum (que não é de modo algum particularmente espiritual, mas tem ainda assim seus bons pontos) quase certamente o levará um pouco mais adiante ao seu fim do que ele estava em seu início; de modo que há progresso em quase toda vida, mesmo para o homem que ainda é comparativamente pouco desenvolvido do ponto de vista espiritual.

Segue-se disso que, no momento em que um homem realmente começa a se disciplinar e a ter pensamento espiritual profundo e forte, o bem em sua vida prepondera enormemente sobre o mal, e ele começa a fazer rápido progresso.

A verdadeira compreensão disso muda o aspecto da vida para todos nós.

Não podemos mais desesperar do mundo ou da evolução, quando percebemos como essa evolução está operando.

Vemos que força estupenda existe por trás disso; quão irresistível é a lei de Deus, que sempre avança em direção ao bem; e não apenas chegamos a isso por dedução, mas vemos que mesmo agora, neste período em que o homem ainda não é altamente desenvolvido quanto à espiritualidade, há um progresso constante, ainda que possa ser muito lento.

Vemos quão cedo e (Página 361) quão facilmente, quando as pessoas começam a compreendê-lo, esse lento progresso pode transformar-se em um rápido movimento para a frente, quão cedo a humanidade pode ser arrastada por uma maré irresistível na direção da alta espiritualidade, quão cedo pode ser elevada acima mesmo daquilo que consideraríamos hoje níveis avançados de pensamento.

Vendo isso, veremos também que, para tomar parte nesse rápido progresso, é necessário que eliminemos o quanto antes todo o mal que ainda permanece como resultado de nossas ações anteriores.

Se ainda temos uma dívida a pagar como resultado de males passados, então quanto mais cedo pagarmos essa dívida, mais cedo estaremos livres para fazer esse rápido progresso e para nos dedicarmos a ajudar outros homens.

A Explicação do Texto

Agora, talvez possamos compreender a explicação daquele texto curioso.

Suponhamos que uma pessoa esteja tão avançada que reste apenas uma quantidade suficiente de karma maligno para esta vida e para a próxima; seria obviamente a melhor coisa que poderia lhe acontecer que o restante desse mal ou sofrimento, que naturalmente pertenceria à próxima vida, lhe fosse dado agora nesta, para que pudesse atravessá-lo e estar pronto para começar naquela próxima vida sem ser obstruído por quaisquer circunstâncias ou condições malignas.

Às vezes acontece que um homem de pensamento espiritual, de vida limpa, pura e altruísta, encontra uma quantidade extraordinária de sofrimento sobre si, desproporcional, aparentemente, a quaisquer méritos seus que ele conheça, e desproporcional ao que parece recair sobre seus vizinhos.

Quando assim é, ele pode razoavelmente consolar-se com este pensamento: que, por estar (Página 362) vivendo uma vida melhor que a de outros, por estar elevando-se um pouco à frente de seus semelhantes, os Senhores do Karma o consideraram apto a suportar mais daquilo que está atrás dele do que de outro modo lhe teriam destinado.

Eles podem ter originalmente lhe dado uma quantidade de dívida a ser paga que o homem comum pudesse suportar em uma vida sem se curvar ou quebrar sob o peso.

Eles o encontram agora como mais que o homem comum, um pouco mais forte e mais sábio e melhor do que esperavam; então dizem, em efeito: "Aqui está alguém que está prestes a se tornar um magnífico canal para a força divina; resta apenas um pouco mais de sua dívida; deixemo-lo ter a oportunidade de pagá-la aqui e agora, para que em sua próxima vida ele possa ter a enorme vantagem de não ser impedido por quaisquer circunstâncias malignas, para que então possa ser colocado na melhor condição de usar da mais alta maneira todo o poder e a força para o bem que ele está desenvolvendo nesta vida."

Esse é o verdadeiro significado da ideia de que "O Senhor castiga a quem ama"; e isso só pode acontecer no caso de um homem que já está de certo modo desenvolvido, que fez a escolha definitiva do bem em vez do mal, e colocou sua afeição nas coisas do alto e não nas coisas deste mundo.

Quando essa verdade é reconhecida, vemos imediatamente quão pequenos se tornam nossos problemas.

Alegramo-nos em tê-los e em suportá-los, nós os tomamos e os usamos como uma lição e uma oportunidade, porque entendemos por que vieram; e se houver mais do que o habitual, até mesmo esse fato está a nosso favor e não contra nós. Eis um exemplo da vantagem que começamos imediatamente a obter de uma compreensão real de qualquer assunto do ponto de vista teosófico.

A Destruição do Medo

(Página 363) Outro resultado valiosíssimo do estudo teosófico é a ausência do medo.

Muitas pessoas estão constantemente em condição de ansiedade ou preocupação com uma coisa ou outra; temendo que isto ou aquilo lhes aconteça, que esta ou aquela combinação possa falhar, e assim permanecem o tempo todo em estado de inquietação.

A maior parte de seu medo é totalmente desnecessária, e a maioria das coisas temidas nunca se realiza; mas, não obstante, o fato permanece de que inúmeras pessoas estão constantemente se causando grande sofrimento desnecessário dessa maneira.

O mais grave de tudo para muitas pessoas é o medo da morte.

Suponho que a maioria dos homens mal sabe quão disseminado é esse medo. Um grande número de pessoas parece tê-lo sempre em mente como um terror que as assombra perpetuamente — uma espada de Dâmocles suspensa sobre suas cabeças, pronta para cair sobre elas a qualquer momento.

Todo esse sentimento é varrido para o homem que compreende o ensinamento teosófico.

Quando percebemos a grande verdade da reencarnação, quando sabemos que muitas vezes já deixamos de lado corpos físicos, então veremos que a morte não é para nós mais do que o sono — que, assim como o sono vem entre nossos dias de trabalho e nos dá descanso e revigoramento, assim também entre esses dias de labor aqui na terra que chamamos de vidas, vem a longa noite da vida astral e celestial para nos dar descanso e revigoramento e para nos ajudar em nosso caminho.

Para o teosofista, a morte é simplesmente o deixar de lado, por um tempo, deste manto de carne.

Ele sabe que é seu dever preservar essa vestimenta corporal o máximo que puder, para obter toda a experiência que puder; mas quando chega o momento de depô-la, ele o fará com gratidão, porque sabe que a próxima etapa será mais agradável do que (Página 364) esta.

Assim, ele não terá medo da morte, embora perceba que deve viver sua vida até o fim determinado, porque está aqui com o propósito de progredir, e esse progresso é a única coisa importante.

Veja que diferença isso faz na concepção de vida de um homem; o importante não é ganhar tanto dinheiro, não é obter tal ou qual posição; a única coisa importante, quando realmente a compreendemos, é cumprir o plano divino.

Para isso estamos aqui, e tudo o mais deve ceder lugar a isso. Basta que compreendamos os fatos, e todo medo cessa imediatamente.

A Apoteose do Senso Comum

Acima de tudo e antes de qualquer coisa, a Teosofia é uma doutrina de senso comum.

Ela nos apresenta, até onde podemos conhecê-los, os fatos sobre Deus e o homem e as relações entre eles; e então nos instrui a levar esses fatos em consideração e agir em relação a eles com razão ordinária e senso comum.

Isso é tudo o que ela pede de qualquer homem no que diz respeito à vida.

Ela lhe sugere regular sua vida de acordo com essas leis de evolução que lhe ensinou.

Isso é tudo, e ainda assim significa muito; pois dá ao homem um ponto de vista totalmente diferente e uma pedra de toque para testar tudo — seus próprios pensamentos e sentimentos, e suas próprias ações em primeiro lugar, e então aquelas coisas que se apresentam diante dele no mundo exterior a si mesmo.

Ele aplica sempre este critério: a coisa é certa ou errada? Ajuda a evolução adiante ou a dificulta? Se um pensamento ou sentimento surge dentro de si, ele pode ver imediatamente por este teste se é algo que deve encorajar.

Se for para o maior bem do maior número, então tudo está bem; se puder dificultar ou causar dano a qualquer ser em seu progresso, então é mau e deve ser evitado.

O mesmo (Page 365) raciocínio se aplica se ele for chamado a decidir sobre algo exterior a si mesmo.

Se desse ponto de vista a coisa for boa, ele pode apoiá-la conscientemente; se não, então não é para ele.

Pois o homem que vê a verdade dessa maneira não considera a questão do interesse pessoal em absoluto, e pensa apenas no bem da evolução como um todo.

Isso dá ao homem um ponto de apoio definido, um critério claro, e o livra da dor da indecisão e da hesitação.

A Vontade de Deus é a evolução do homem; portanto, tudo o que ajuda essa evolução deve ser bom; tudo o que se opõe a ela e a atrasa, isso deve ser errado, mesmo que tenha a seu favor todo o peso da opinião pública e da tradição imemorial.

É verdade que ao nosso redor vemos infrações da Lei Divina ocorrendo, mas sabemos que a lei é muito mais forte do que as pequenas vontades daqueles que a desobedecem ignorantemente; sabemos que, trabalhando em conformidade com a lei, trabalhamos para o futuro, e que, embora no momento presente nossos esforços possam não ser apreciados, o futuro nos fará justiça.

Portanto, pouco nos importa o julgamento daqueles que ainda não compreendem, pois nosso conhecimento das leis que governam nos permite trabalhar na direção certa.

Não apenas todo o medo da morte é removido por esta doutrina, mas nossa visão da vida como um todo, tanto deste lado do túmulo quanto do outro, é transformada, esclarecida e tornada razoável.

Percebemos que esta vida terrena é apenas uma pequena parte de uma vida maior, e que, embora seja verdade que ela tem sua importância especial por ser o tempo de semeadura do qual a vida após a morte é a colheita, ainda assim é apenas um curto período em comparação com a vida no mundo celestial; portanto, suas tristezas são apenas tristezas evanescentes; na pior das hipóteses, suas lutas logo terminam, (Page 366) enquanto o que pode ser obtido dela, embora não seja eterno, é enorme em proporção ao tempo nela gasto.

Aqueles que conhecem o ensinamento teosófico sobre a morte não serão enganados por essa frase convencional, "a vida terrena". Expliquei em *O Outro Lado da Morte* que os mortos não estão distantes para além das estrelas, mas estão aqui ao nosso redor o tempo todo; portanto, quando falamos da vida terrena, é apenas um termo convencional que significa a vida neste corpo físico, porque estamos igualmente na vizinhança e na atmosfera da terra após a morte, assim como estávamos antes.

A única diferença é que não estamos amarrados a ela, não estamos ligados à terra em nossos pensamentos, sentimentos e aspirações.

Descartamos o corpo físico e, portanto, podemos ascender a reinos de existência mais elevados e mais sutis, e dessa maneira podemos ser considerados simbolicamente mais distantes da terra, mesmo que, de fato, e no que diz respeito ao espaço, não tenhamos feito movimento algum.

A visão ortodoxa comum da vida após a morte não é, como se apresenta, uma visão razoável; mas no ensinamento teosófico vemos uma ascensão coerente e gradual do homem, evoluindo primeiro através de seu corpo físico, depois através do astral, depois através do mental, até que ele se eleve novamente ao ego ou ao verdadeiro eu.

A teoria é, no mínimo, razoável e implica que as mesmas grandes leis prevalecem acima como abaixo, e é certamente mais clara do que aquela que nos apresenta uma mudança súbita do mundo conhecido, operando sob leis que até certo ponto compreendemos, para outro do qual nada se sabe e no qual nenhuma lei parece operar, como aquelas que aqui conhecemos como leis da natureza.

Na Teosofia, trazemos um evangelho mais grandioso, pregamos um credo mais santo do que esse; sustentamos que a natureza é um todo magnífico, e que nos planos superiores e espirituais, bem como nos inferiores (página 367) e físicos, a vontade de Deus está sempre se expressando em uma lei invariável, justa, nobre e útil em toda parte — após a morte, tanto quanto antes.

Sem Preocupações Religiosas

Outro ponto que ganhamos com nossos ensinamentos teosóficos é que não temos mais quaisquer medos, preocupações ou problemas religiosos.

Talvez se pense que essas coisas não dizem respeito à maioria da humanidade; mas, se chegarmos a conhecer algo da vida interior das pessoas mais devotas e religiosas, descobriremos que há muita dor e aflição relacionadas a ela. Muitas de nossas pessoas mais nobres e melhores estão constantemente se preocupando, constantemente em introspecção mórbida, constantemente temendo se, no final, não poderão de alguma forma ser rejeitadas; se não ficarão aquém, de algum modo que mal compreendem, das exigências que sua fé lhes impõe.

Tudo isso é varrido para longe quando percebemos que o progresso rumo ao mais alto é a Vontade Divina para nós; que não podemos escapar desse progresso; que tudo o que surge em nosso caminho e tudo o que nos acontece tem a intenção de nos ajudar nessa direção; que nós mesmos somos os únicos que podemos atrasar nosso avanço.

Quando realmente sabemos disso, que diferença faz na perspectiva da vida! Não mais nos afligimos e tememos por nós mesmos; seguimos em frente e fazemos o dever que está mais próximo, da melhor maneira que podemos, confiantes de que, se fizermos isso, tudo estará bem para nós, sem que estejamos perpetuamente nos examinando e nos preocupando.

É verdade que nos é dito no sábio provérbio grego: "Conhece-te a ti mesmo". É verdade que é nosso dever conhecer a nós mesmos e conhecer nossos próprios pontos fracos; mas isso também deve ser feito segundo a razão e segundo o bom senso e, como dissemos antes, não devemos ser como (Página 368) aquelas criancinhas que, quando plantam um jardim, estão sempre arrancando suas plantinhas para ver o quanto estão crescendo.

É exatamente isso que tantas pessoas boas estão sempre fazendo — estão sempre se arrancando pelas raízes para ver como estão progredindo, em vez de se contentarem tranquilamente em cumprir seu dever e tentar ajudar seus semelhantes na jornada, sabendo que o grande Poder Divino por trás as impulsionará lenta e firmemente e fará por elas tudo o que pode ser feito, desde que seus rostos estejam firmemente voltados na direção certa, desde que façam tudo o que razoavelmente podem.

Outra questão diz respeito à condição e ao destino daqueles que amamos, depois que eles se vão de nossa vista.

Tem havido muito sofrimento terrível e desnecessário porque as pessoas se preocupavam com a condição de seus filhos, de seus pais, daqueles que mais amavam, porque estavam sempre incertas sobre o que exatamente era exigido, que condições obscuras deviam cumprir para alcançar essa elusiva salvação e ter certeza de que a possuíam. Essa salvação é considerada por um grande número de cristãos como dependente inteiramente de alguém acreditar ou sentir que está salvo.

É uma espécie de salvação por histeria, por assim dizer; um homem está salvo porque pensa que está salvo, porque se sente assim — uma ideia muito estranha.

A Certeza da Evolução

Nós, na Teosofia, estamos livres, seja para nós mesmos ou (o que é ainda mais importante) para aqueles que amamos tão profundamente, de todo esse problema acerca de ser salvo; sabemos que não há nada do que ser salvo, exceto da ignorância e do erro; que não há ira de Deus (frase ímpia que é) da qual devamos tentar escapar; que o mundo não é governado por algum tipo de demônio onipotente (página 369) que está sempre à espreita para apanhar suas infelizes criaturas, para lançá-las em sofrimento eterno por desobedecerem a leis que são praticamente incapazes de cumprir plenamente em seu atual ambiente e estágio de evolução.

Percebemos que tudo isso é uma fábula infantil, e que é também uma fábula perversa e blasfema; sabemos que, ao contrário, o mundo é governado por um Poder grandioso e benéfico cuja Vontade é a evolução do homem; que o impele sempre adiante e para cima ao longo do curso que todos devem seguir, mais cedo ou mais tarde, e quanto mais cedo melhor, pois a Vontade Divina é que o homem cresça.

O que é nossa fraca vontade para que possa jamais prevalecer contra Aquela? Não podemos deixar de evoluir; não podemos deixar de nos tornar cada vez melhores; a única questão é: devemos nos lançar neste grande esquema Divino e trabalhar de boa vontade com a Grande Lei que nos trouxe aqui? Se assim for, então não apenas o progresso será fácil para nós, mas poderemos ser de grande ajuda em auxiliar nossos semelhantes em seu avanço ao longo deste caminho ascendente; em ajudar a evolução em vez de impedi-la.

Se, ao contrário, nos colocarmos vã e inutilmente a lutar contra essa Vontade Divina, ainda assim seremos arrastados adiante, mas ao custo de muito sofrimento, e em vez de sermos úteis aos que nos cercam, impediremos aqueles que são infelizes o bastante para cair sob nossa má influência.

O homem mau, assim como o bom, deve, por fim, passar do estágio humano de evolução para um estágio para nós presentemente inconcebível.

A diferença é apenas que ele se dá muito mais trabalho no caminho; sua vontade, que se ergue contra o Divino, tem de ser quebrada repetidas vezes, até que ele perceba que deve tomar parte na grande obra pela humanidade.

Portanto, não há questão de salvação.

A única questão é que o sistema seja explicado ao homem, que ele seja induzido a compreendê-lo (página 370), para que possa lançar-se inteligentemente no plano e trabalhar com a grande Força Divina, em vez de contra ela. É fácil ver que diferença enorme essa concepção faz na vida.

Muitas das melhores pessoas entre nós são perpetuamente dominadas pelo sentimento da dor, do sofrimento e da miséria do mundo; veem o homem lutando e guerreando em todas as direções contra o bem e o verdadeiro; veem tanto mal que temem que nada possa ser feito com o mundo; quase desesperam do Poder Divino; e disso talvez tenha surgido a terrível blasfêmia de que o Cristo, o Salvador da humanidade, só consegue salvar um mero punhado, e é obrigado a confessar o fracasso permitindo que novecentos e noventa e nove de cada mil sejam capturados por seu suposto inimigo! Uma ideia curiosa e indigna; mas as pessoas não a percebem. Alguns antes exultam no pensamento egoísta de que apenas poucos serão salvos (contanto, entenda-se, que eles estejam entre esses poucos). A verdade é sempre muito mais grandiosa do que qualquer concepção humana dela; e bem podemos dizer que o verdadeiro Cristo dentro de nós é o Salvador de todos; mas é de todos, e não apenas de poucos.

Este é um plano, não de salvação ocasional e parcial, nem mesmo de "esperança eterna", como disse o Cônego Farrar, mas de certeza eterna.

Sabemos que todos devem, no fim, estar ao lado do Divino.

Não há como escapar disso, porque essa é a Sua vontade.

Ora, isso remove de imediato de nosso horizonte toda a incerteza que cerca a religião.

Na Teosofia, não esperamos que sejamos salvos; sabemos que o avanço e o ganho eternos virão para todos; que o progresso é uma necessidade e é a lei imutável do Universo; e que, se fizermos o melhor que pudermos nas circunstâncias em que nos encontramos, estaremos, de pequena forma, ajudando a impulsionar esse eterno (página 371) progresso da humanidade como um todo.

E assim, todos aqueles que compreendem a coisa a fundo são infinitamente mais felizes e mais contentes do que aqueles que ainda tateiam naquela condição comum e verdadeiramente irreligiosa de incerteza.

Vemos nosso caminho claramente diante de nós. Somos falíveis e humanos, como os outros homens, e muitas vezes deixamos de nos elevar àquilo que sabemos; muitas vezes caímos pelo caminho; muitas vezes cometemos erros, exatamente como as outras pessoas fazem; mas esta vantagem, ao menos, temos — que sabemos o que fazer; temos a coisa toda clara diante de nós; e não nos tornamos vítimas do desespero porque nos acontece, como aos outros, cair às vezes.

Embora um homem, tendo estabelecido uma meta diante de si, possa cair mil vezes no caminho até ela, ainda assim não seria apenas inútil, mas também insensato e errado desesperar-se, porque cada homem deve sempre avançar a partir de onde está; não adianta tentar assumir a posição de outra pessoa.

Se ele cai, levanta-se novamente; segue em frente mais uma vez.

Não importa quantas vezes ele caia, ainda assim deve se levantar e seguir de novo, porque essa estrada de progresso tem de ser trilhada.

Portanto, não adianta sentar e dizer "não posso". Teremos de fazê-lo em um momento ou outro, e quanto mais cedo começarmos, melhor será para nós — não apenas porque será mais fácil agora do que se deixarmos o esforço para mais tarde; mas principalmente porque, se fizermos o esforço agora, se conseguirmos progredir um pouco, se nos elevarmos a um nível mais alto, então estaremos em posição de estender uma mão amiga àqueles que ainda não alcançaram um degrau tão alto da escada quanto nós conquistamos.

Dessa forma, podemos participar da grande obra divina da evolução — cada um de nós, porque cada pessoa tem sua própria posição e suas próprias oportunidades; não importa quão baixo seja seu estado atual, há alguém ainda mais abaixo, alguém a quem ele (página 372) pode estender uma mão amiga, alguém a quem ele pode ser útil.

Assim, em qualquer estágio da evolução em que estejamos, podemos sempre ser de alguma utilidade na posição em que então nos encontramos.

Aqui temos toda uma massa de considerações mostrando-nos a grande vantagem que obtemos dessa visão teosófica da vida.

Novamente, um homem tem algum pensamento que está constantemente em sua mente, que perpetuamente lhe ocorre.

Pela doutrina teosófica, ele percebe que está construindo ao seu redor uma forma-pensamento que reagirá constantemente sobre ele, que tenderá a estabelecer vibrações semelhantes às suas no seu corpo mental, e assim a se fazer lembrar dele repetidas vezes, a se intensificar, a se tornar um hábito tão arraigado que ele em breve achará quase impossível descartá-la ou livrar-se dela. Sabendo disso, ele vê a imensa importância de controlar seu pensamento, para que possa sempre se cercar do bem e não do mal; de formas-pensamento que o ajudem em sua jornada ascendente, e não o impeçam ou o arrastem para trás.

E disso tudo decorre também que nada é sem importância para ele.

Ele aprende que deve ser exato e cuidadoso nas pequenas questões tanto quanto nas grandes; ele vê que, embora o homem mundano muitas vezes deixe de lado os assuntos menos importantes, como pensa — embora tal homem possa dizer a si mesmo: "Este trabalho não está bem feito, mas não importa, serve; temos que nos virar com isso" — ele percebe que o estudante de ocultismo não pode se dar ao luxo de adotar essa postura; que tudo o que fizer, deve fazer com perfeição; como os cristãos vos dizem: "como para o Senhor, e não como para os homens". E isso é verdade, porque ele não o faz para que outras pessoas vejam; ele o faz bem para que seja bem feito; para que a coisa à qual ele pôs a mão seja uma obra perfeita, ou tão perfeita quanto ele possa torná-la. Ele não pode se dar ao luxo de negligenciar (página 373) os pequenos detalhes da vida, mas estes também, na medida em que os realiza, devem ser bem e cuidadosamente feitos, e exatos, puros e verdadeiros.

Assim, vemos que toda a sua vida é moldada pelo seu conhecimento teosófico.

Nossa Atitude Para com a Humanidade

Voltemo-nos agora para considerar a atitude que ele se vê compelido a adotar para com seus semelhantes.

Ele sabe que todos são verdadeiramente um só; que num plano superior, onde o espaço e o tempo e a forma, como os conhecemos aqui embaixo, não existem, há uma verdadeira fraternidade espiritual.

Há mais do que uma fraternidade, há uma unidade; e uma vez que todos são um nesses planos espirituais superiores, todos são verdadeiramente irmãos aqui embaixo neste plano, por mais que isso possa parecer pouco, por mais que seja pouco reconhecido, onde a raça guerreia contra a raça; onde o credo odeia o credo; onde classes e castas estão sempre em luta, umas contra as outras; onde a competição é desenfreada; onde a desonestidade tantas vezes toma o lugar do trato justo.

No entanto, quando ele uma vez percebe essa unidade espiritual acima, sabe que também neste mundo, em verdade real, o interesse de um nunca pode se opor ao interesse de todos; que nenhum ganho verdadeiro pode ser obtido por um homem que não seja feito em nome e em prol de toda a humanidade; que o progresso de um homem deve ser um pequeno alívio do fardo de todos os outros; e que o avanço de um homem nas coisas espirituais significa um avanço leve, porém não imperceptível, para a humanidade como um todo; que todo aquele que suporta tristeza e sofrimento nobremente em sua luta rumo à luz está aliviando um pouco do pesado fardo da tristeza e do sofrimento de seus irmãos também.

Quando ele reconhece essa fraternidade, não meramente como uma esperança acalentada por homens desesperançados, mas como um fato que se segue em série científica de todos os outros fatos; quando ele vê isso (Página 374) como uma certeza, quão diferente deve ser sua atitude para com todos aqueles ao seu redor — uma atitude sempre de prestatividade, sempre da mais profunda simpatia; uma compreensão de que nada que entre em conflito com o interesse superior deles pode jamais ser a coisa certa para ele fazer, ou pode jamais ser bom para ele de qualquer maneira.

Tudo isso lhe confere uma visão mais elevada e mais ampla; e para ele os problemas da vida parecem muito menos complicados, e muito mais esperançosos e claros do que parecem ao homem comum.

Assim, sua atitude para com seus semelhantes será sempre de uma das mais amplas tolerância e caridade.

Tolerância, porque sua filosofia lhe mostra que pouco importa o que um homem acredita, desde que ele seja um homem bom e verdadeiro; caridade, porque seu conhecimento mais amplo lhe permite fazer concessões para muitas coisas que o homem comum não compreende.

O padrão do estudante de ocultismo quanto ao certo e ao errado é sempre mais elevado do que o do homem menos instruído, porém ele é muito mais gentil do que este em seu sentimento para com o pecador, porque compreende mais da natureza humana.

Ele percebe como o pecado apareceu ao pecador no momento de sua prática, e assim faz mais concessões do que o homem que é ignorante de tudo isso.

Ele vai além da tolerância, da caridade, da simpatia; ele sente amor positivo pela humanidade, e isso o leva a adotar uma posição de prestatividade sempre vigilante.

A criança que ama profundamente sua mãe está sempre atenta a uma oportunidade de fazer alguma coisinha por ela — algo que ela sabe que a agradará ou lhe poupará trabalho.

É exatamente essa atitude de observar a oportunidade de ajudar que o ocultista adota para com seus semelhantes.

Ele percebe que todo contato com os outros é uma oportunidade dessas.

Quando um novo amigo entra em sua vida, quando uma criança nasce em sua família, quando um empregado (Página 375) torna-se membro de seu lar, ele imediatamente começa a considerar o que pode fazer por eles e como pode ser uma influência útil em suas vidas.

A Teosofia lhe traz tanto conhecimento adicional que dificilmente há algum caso em que ela não o capacite a dar conselhos ou ajuda.

Não que fosse sábio estar perpetuamente impondo suas opiniões às pessoas; essa é uma política pobre e sem tato; de fato, é um dos erros mais comuns cometidos pelos não instruídos.

Se o homem comum por acaso tem uma opinião definida, seja sobre questões religiosas, políticas ou sociais, ou sobre qualquer um dos outros assuntos de discussão comum, ele está para sempre se esforçando para impor essa opinião aos outros e fazê-los pensar exatamente como ele.

O teosofista sabe que tudo isso é um tolo desperdício de energia e, portanto, recusa-se a discutir.

Se alguém deseja dele uma explicação ou conselho, ele está mais do que disposto a dá-lo; contudo, não tem nenhum desejo de converter qualquer outra pessoa ao seu próprio modo de pensar.

Há muitos casos em que ele não pode, com vantagem, dizer qualquer coisa, mas sua vida ao menos mostra a vantagem de seu credo e é o maior de todos os testemunhos da verdade da Teosofia; porque os homens dizem: "Aqui está alguém que é calmo e sereno em todas as tribulações; aqui está um homem que é sempre prestativo; que está sempre pensando, não em si mesmo, mas nos outros.

Qual é a fé, qual é a crença que o faz agir assim? Certamente deve ser bem digna de nosso exame e de nossa consideração." E assim, pelo exemplo de uma vida nobre, conduzimos outros ao mesmo porto seguro de paz que nós mesmos alcançamos.

Mesmo aqueles que ele encontra apenas casualmente não são negligenciados.

Como mencionei em uma palestra anterior, mesmo ao viajar em uma carruagem de trem ou em um ônibus, a oportunidade de fazer algum bem pode surgir.

Ele pode ver um homem (Página 376) preocupado ou em tristeza, e pode enviar-lhe um pensamento útil e encorajador, e observá-lo animar-se sob sua influência.

O resultado nem sempre é imediatamente aparente, contudo o pensamento amigável fez seu trabalho, e nunca deveríamos esquecer que esse trabalho pode ser maior do que o remetente sabe.

O infeliz estranho pode ter estado à beira do desespero, e apenas esse pensamento encorajador pode tê-lo salvo da insanidade ou do suicídio.

Pense que diferença isso faria para nós se todos encarássemos a vida desse ponto de vista — se a percorrêssemos procurando oportunidades de fazer o bem — perguntando, não "O que posso ganhar?", mas "O que posso fazer?" Tal existência é muito mais interessante, infinitamente mais plena e mais ampla do que a do infeliz que está o tempo todo envolvido em ideias estreitas de ganho ou perda pessoal, circunscrito pelo horizonte limitado de seus próprios problemas e tristezas mesquinhos.

Controle do Pensamento

Ainda outro ponto.

O ocultista, em sua relação com seus semelhantes, tem constantemente em mente essa busca do controle do pensamento da qual falei.

Ele sabe que cada pensamento ao qual dá nascimento não termina consigo mesmo, mas afeta muitos outros também.

Ele percebe que as vibrações que emite de seu corpo mental estão se reproduzindo nos corpos mentais de outros ao seu redor; que ele é uma fonte de saúde mental ou de doença mental para todos com quem entra em contato.

Considere a condição de um homem que é uma fonte de pensamento maligno.

Tome um caso simples; suponha que seja apenas um homem que é uma fonte de pensamento baixo e sensual.

Esse homem sabe que, em condições ordinárias, não deve permitir que esses pensamentos baixos e animais seus encontrem vazão em palavras; não deve mostrar aos seus amigos ou à comunidade (página 377) seu sentimento interior em ação, mas muitas vezes ele não percebe que até mesmo seu pensamento é uma mancha de peste; que ele está percorrendo o mundo como um centro de contágio moral.

É exatamente a mesma coisa, e exatamente o mesmo crime, como seria para um de nós, que contraiu alguma doença infecciosa, continuar a andar entre seus semelhantes, com a doença oculta, espalhando as sementes da pestilência por todos os lados.

Sabemos que isso é um crime; sabemos que nossas leis certamente tratariam com rigor um caso como esse se pudessem alcançá-lo. É um crime ainda pior para um homem andar espalhando veneno moral e infecção moral, porque isso é mais insidioso, mais devastador e mais difícil de erradicar do que qualquer doença física poderia ser.

Especialmente, esse é um fato a ser lembrado por qualquer pessoa que tenha, de alguma forma, a ver com crianças.

Seja ele pai, professor ou tutor, se seu destino o colocar na presença de uma criança, é então seu dever, enfaticamente, vigiar não apenas suas palavras e seus atos, mas também seus pensamentos.

Seria um homem mau, como todos admitiríamos, aquele que cedesse a palavras ou atos irados diante de uma criança.

A presença da criança seria um fator de contenção.

Mas o que não percebemos é que nossos pensamentos diante das crianças têm igual poder; que os corpos infantis são plásticos e podem ser facilmente curvados e moldados.

Um ginasta, por exemplo, pode pegar uma criança pequena e treiná-la para fazer todos os tipos de coisas com seus jovens membros plásticos, coisas que você ou eu não conseguiríamos agora treinar a nós mesmos para fazer, por mais que tentássemos.

Assim como o corpo físico da criança é plástico e facilmente moldável, também o é seu corpo astral — suas paixões, sentimentos e emoções; também o é seu corpo mental — todo o reino de seu pensamento.

Sempre que através de qualquer pessoa adulta passa uma onda de (Página 378) raiva ou uma emoção sensual, certamente isso age imediatamente sobre os plásticos corpos astrais de quaisquer crianças que estejam, por infortúnio, em sua vizinhança; excita nelas uma vibração sincrônica, uma predisposição à raiva ou à sensualidade, ou ao que quer que seja. Pode não ser capaz de imediatamente evocá-la nelas, mas inicia a vibração em seus veículos astrais, de modo que na próxima vez que qualquer causa ativa se aproxime delas, essa vibração possa ser mais facilmente despertada novamente.

Da mesma forma, a pessoa cujos pensamentos são ambiciosos, egoístas ou mundanos é também uma fonte de influência maligna; e se houver crianças por perto, certamente seus plásticos corpos mentais serão impressionados por isso; estarão absorvendo tudo como uma esponja absorve água; e embora sejam jovens demais para reproduzir isso diretamente agora, a semente lançada dará fruto no devido tempo.

Felizmente, isso é igualmente verdadeiro para os bons pensamentos.

A pessoa que envolve seus filhos com um halo constante de amor e afeição desenvolverá o amor e a afeição nas crianças.

A pessoa cujos pensamentos são nobres e altruístas e que cuida para que nenhum pensamento egoísta ou indigno jamais se aproxime de seu filho está, no mínimo, fazendo o seu melhor para elevar pensamentos altos, santos e nobres na mente dessa criança, tão logo ela seja capaz de vibrar em resposta a eles.

É uma visão terrível para qualquer um que tenha a visão clarividente de ver todas essas belas almas infantis e auras infantis brancas, e então, alguns anos depois, ver como elas foram manchadas, sujadas e obscurecidas pelos pensamentos egoístas, impuros e profanos dos adultos ao seu redor.

Somente o clarividente sabe quão enorme e rapidamente os caracteres infantis melhorariam se apenas os caracteres adultos fossem melhores.

Aí temos novamente um assunto de vasta importância; um (Página 379) sobre o qual já escrevi em outro lugar — o de nossa relação com as crianças; nossos deveres para com elas, e a maneira como agimos sobre elas, quer queiramos ou não; mas isso não faz parte do nosso presente assunto.

Ainda assim, vemos aí novamente que diferença fundamental o ensinamento teosófico faz a um homem; como ele percebe suas responsabilidades e quão cuidadoso, portanto, ele deve se tornar até mesmo quanto aos seus pensamentos e sentimentos mais íntimos, não apenas por seu próprio bem, mas também pelo de seus semelhantes.

Em cada relação da vida, essa ideia de auxílio se faz presente. Por exemplo, temos ao nosso redor um vasto reino animal, frequentemente trazido a uma relação próxima conosco. Por que é trazido a essa relação? Apenas para nos oferecer uma oportunidade de fazer algo por ele; pois lembrem-se de que esses animais também são nossos irmãos, embora sejam irmãos mais jovens; é a mesma Vida Divina que os anima, embora seja uma onda mais recente, uma emanação menos desenvolvida; ainda assim, eles são nossos irmãos, e devemos a eles também um dever fraternal — de pensar e agir de modo que nossa relação com eles seja sempre para o seu bem e não para o seu mal.

Não há razão para que o cavalo e outras criaturas não trabalhem para o homem, porque nesse trabalho sua inteligência e devoção são despertadas; sempre desde que não haja crueldade, nem excesso de trabalho, nada que possa impedir a evolução do animal, mas apenas aquilo que possa ajudá-la. O trabalho pode ser feito, e bem feito, mas o animal deve ser sempre tratado com bondade; ele deve ser sempre encorajado a desenvolver sua inteligência e seu sentimento de amor e devoção para com seu mestre.

Em muitos casos, o homem abusou de sua relação com o reino animal; ele o governou pelo medo, não pelo amor; torturou muitas das criaturas que o servem; treinou-as em maus hábitos para satisfazer (Página 380) suas próprias paixões malignas e sua sede de crueldade.

Ele tomou um animal nobre como o cão e o degradou abaixo do nível do lobo do qual ele evoluiu; ensinou-o a caçar, não por causa do alimento, mas pelo puro prazer de matar, o que nenhum animal selvagem faz; e assim criou nele um instinto de destruição que levará muitas eras e muito sofrimento para erradicar.

Nunca deveríamos desenvolver em qualquer animal as qualidades malignas do medo, da ferocidade ou do ódio, mas sempre a inteligência, a devoção e o amor.

Em todos os casos e com todas as formas de vida, nosso dever é ajudar e tentar aproximar a idade de ouro em que todos se compreenderão mutuamente e todos cooperarão na obra gloriosa que está por vir.

Finalmente, devemos considerar tudo do ponto de vista superior e não do inferior; sempre que encontrarmos uma luta acontecendo dentro de nós — essa "lei dos membros guerreando contra a lei da mente", como diz São Paulo — devemos lembrar que nós mesmos somos o superior, e que aquilo que é o inferior não é o eu real, mas meramente uma parte descontrolada de um de seus veículos.

Nunca devemos nos identificar com o inferior, mas sempre com o superior; devemos ficar ao seu lado, percebendo que a alma é o homem verdadeiro, em vez de adotar a atitude invertida que se mostra em nossa expressão comum quando falamos de "minha alma", como se este corpo fosse o eu, e a alma algo que lhe pertencesse. Muito mais verdadeira é a forma de expressão hindu: "Meu corpo está cansado; meu corpo está com fome." Por mais estranho que nos soe, essa forma de palavras representa a verdade, e a nossa está inteiramente errada.

Isso mostra quão longe o senso geral do tempo se afastou do verdadeiro conhecimento, quando falamos da alma como um apanágio do corpo, em vez de perceber que o corpo é apenas uma expressão parcial da alma; (Página 381) um instrumento que deve ser governado pela alma e mantido em ordem por ela, e não permitido, como um cavalo indomável, fugir de seu senhor.

Estas são algumas das maneiras pelas quais descobrimos que nossa crença afeta nossa vida cotidiana; isto é algo do que ganhamos com a Teosofia.

Aprendemos que esta grande lei da evolução, que é uma expressão da Vontade e Vida e Ser Divinos, é, contudo, algo em que nós mesmos podemos tomar nossa humilde parte; que não há um só de nós que não possa ser um canal para o seu poder; não há um só de nós que não possa ajudar na grande obra que se nos apresenta. E assim aprendemos a estar sempre atentos às oportunidades de ajudar; sempre prontos a oferecê-la nas direções mais inesperadas e às pessoas mais improváveis; porque percebemos que ajudar neste magnífico esquema de evolução é ser um cooperador com Deus, um colaborador com o propósito do Logos; e isto consideramos ser a mais alta honra e o maior privilégio que jamais pode caber à sorte do homem.

CAPÍTULO XIV

O EVANGELHO DA SABEDORIA

(Página 383) A palavra evangelho está geralmente associada a uma forma particular de fé apenas, a uma história particular de interesse inesgotável; então você pode talvez pensar que seu uso no ensino teosófico é um tanto estranho.

Creio que, se você se lembrar do verdadeiro significado da palavra, perceberá que ela não deveria ser tão monopolizada, pois afinal o evangelho é apenas a "boa nova", ou a boa notícia.

A Teosofia também tem suas boas novas a trazer-lhe; não as boas novas da salvação, de fato, mas as boas novas ainda maiores de que não há nada do que ser "salvo", exceto de seu próprio erro e ignorância, de que não há ira divina da qual você deva escapar, mas que o mundo inteiro avança em uma ordem poderosa e gloriosa rumo a um fim maior do que a mente humana pode conceber.

Isto não é um sonho poético, não é um mero voo da imaginação, mas uma certeza que pode ser vista e conhecida, que pode ser examinada cientificamente por aqueles que se derem ao trabalho de se preparar para tal investigação.

Essa é uma parte das boas novas, ou do evangelho, que a Teosofia tem a trazer-lhe.

A tradução de nosso nome Teosofia é Sabedoria Divina, e no sentido mais verdadeiro esta sabedoria divina tem seu evangelho a trazer a você e a todos.

Aqueles de nós que têm estudado esta filosofia maravilhosa por muitos anos sabem quão verdadeiramente ela tem sido um evangelho para nós, pois mudou toda a nossa vida, ensinou-nos como viver e como morrer, ensinou-nos a compreender qual é o vasto esquema do qual a humanidade forma (Página 384) apenas uma pequena parte.

O mundo inteiro está mudado para nós por causa desse conhecimento e dessa compreensão mais ampla.

Que há pecado, tristeza e sofrimento no mundo, todos sabemos bem; parece tão sórdido, tão lastimável, tão universal, que muitos daqueles cujos corações estão cheios de amor, piedade e desejo de servir sentem o desespero surgir dentro de si quando olham ao redor e veem a condição do mundo como é hoje.

Se não tivéssemos a chave para o significado de tudo isso, pareceria de fato que as coisas são desesperadoras e que não há nada a ser feito, mas quando uma vez temos a chave, começamos a compreender, e tudo assume um aspecto diferente.

Os grandes Mestres de Sabedoria e Compaixão, que tanto desejam servir a esta humanidade órfã, nos dão um verdadeiro evangelho, a boa nova do alto; pois nos dizem: "Elevai-vos acima de tudo isto, contemplai-o como um todo, e então o compreendereis; não olheis de baixo para cima, do avesso da vida, mas elevai-vos acima dela aos planos superiores do pensamento e da consciência, e olhai para baixo e compreendei; e então verdadeiramente vereis que há boas novas, boas novas para todos."

Já vistes as grandes corredeiras do Niágara? Imaginem a condição de algum minúsculo inseto arrastado em meio às palhas e fragmentos naquele torrente fervilhante! Pensem como ele ferve, espuma e se agita ao redor, e pensem como aquele minúsculo inseto consideraria tudo aquilo.

Para ele, aquele mundo de luta e tensão pareceria naturalmente tudo o que existia e tudo o que poderia existir, e enquanto a água se precipitava para frente e para trás entre as rochas, ele às vezes sentiria a si mesmo sendo irresistivelmente carregado para cima, fora de seu curso natural, contra a corrente descendente.

Contudo, se vos colocardes nas margens daquela magnífica garganta e olhardes para baixo, para aquele maravilhoso redemoinho de água abaixo, vereis que o tempo todo uma corrente majestosa está carregando toda a massa em uma direção, e que embora possa haver (Página 385) redemoinhos onde parte da água parece estar correndo para trás por um tempo, na realidade os redemoinhos, as palhas e o inseto estão todos sendo varridos constantemente para frente por aquela torrente tremenda.

Exatamente assim é a visão da luta, da tristeza e dos problemas deste mundo que se abre diante da visão do homem que eleva sua consciência a um plano superior.

Ele vê o que vos parece ser o mal e observa como ele aparentemente se comprime contra a grande corrente do progresso; e, no entanto, vê que o avanço impetuoso da lei divina da evolução através do mundo é como aquela torrente que tudo prevalece, e que, em comparação com ela, todas essas pequenas correntes retrógradas de luta e tensão são como o pequeno redemoinho na superfície do vasto rio, e que, mesmo parecendo fluir para trás, estão na realidade sendo sempre arrastadas para a frente.

Mas para ver isso precisamos da visão superior, precisamos nos elevar acima do redemoinho do mundo inferior, devemos transcender a ignorância daquela mente que nunca é estável.

Essas coisas exigem a sabedoria que vem do Divino, e é por isso que a Sabedoria Divina da Teosofia nos traz a boa nova de que tudo está bem; não apenas que tudo estará bem em algum futuro distante, mas que mesmo agora, neste momento, em meio a toda a luta, a corrente onipotente ainda flui, e assim tudo está bem porque tudo se move em perfeita ordem e com perfeita certeza.

O pecado, a dor e o sofrimento existem; não estou sugerindo que essas coisas sejam uma ilusão, embora saiba que essa teoria foi defendida por muitos.

É verdade que, se olharmos do plano do espírito, veremos quão pequeno é tudo isso em comparação com a vida maior; contudo, no plano físico é real, e enquanto dura, é sofrimento e é dor; e o homem que (página 386) vê com maior clareza qual é a grande verdade que jaz por trás de tudo isso é também o homem cuja simpatia é a mais forte, cuja compreensão de seu irmão mais fraco é a mais clara e a mais plena, a mais piedosa e a mais indulgente.

De fato, como disse um escritor francês: "Tout comprendre, c'est tout pardonner" — compreender tudo é perdoar tudo.

O homem que compreende é aquele que mais plenamente simpatiza; ele percebe que evangelho sublime essa sabedoria lhe trouxe, e o que ela também trará a esses pobres sofredores quando eles puderem elevar-se à sua compreensão.

Não há departamento de nossa vida em que essa boa nova não nos auxilie, nenhum momento de nossa existência em que ela não nos ensine algo.

Nós mesmos podemos moldar nossas próprias vidas quando compreendemos as leis sob as quais vivemos.

Mesmo que fosse apenas para nossa própria vantagem, seria necessário que compreendêssemos essa lei; mas quando uma vez vemos o esquema transcendente do Logos, quando uma vez a realidade e a verdade de tudo isso se imprime em nossa visão, esquecemo-nos de nós mesmos e de nossos interesses mesquinhos, de nossas dores e de nossos sofrimentos.

Elevamo-nos acima de todo pensamento de nós mesmos por completo, pois vemos a grande, gloriosa, onipenetrante, onicompreensiva, onisatisfatória e sustentadora vida, e ela nos fascina com a Divindade e o poder de tudo isso.

Quando uma vez vemos isso, não pensamos mais em nós mesmos para sempre, pois nosso pensamento se elevou a um nível mais alto, e toda a nossa força é derramada no serviço de nossos semelhantes.

Devemos ver por nós mesmos, devemos ter a Sabedoria Divina da Teosofia dentro de nós, esse evangelho deve entrar em nossos corações; e então, de fato, nos tornaremos pregadores desse evangelho, quer queiramos ou não.

Pois quando nós mesmos conhecemos essa coisa, ainda que nunca pronunciemos uma palavra a outros homens, nossas próprias vidas mostrarão (Página 387) o evangelho em que acreditamos, pois a alegria e a glória de tudo isso brilharão através de nós, e nossa vida será perfeita felicidade para nós mesmos, e um centro de luz solar e bênção para os outros.

Lembrai-vos de que já vivemos antes, e que nessas vidas passadas houve muito de mal, assim como (esperamos) muito de bem.

Porque nesse passado colocamos causas em movimento, devemos no presente suportar seus resultados, pois causa e efeito são apenas os polos positivo e negativo — dois lados da mesma coisa e, portanto, parte um do outro.

O efeito não apenas segue a causa; ele é, na verdade, uma parte da própria causa, e assim, se tristeza ou sofrimento nos sobrevêm, sabemos que este é um destino que nós mesmos criamos.

Vede que diferença isso faz em nossa atitude diante dele. Ainda sofremos, mas sabemos que esta é uma dívida que devemos pagar e, portanto, resolvemos quitar essa conta e não cometer mais tais erros.

Sabemos que nossas vidas estão em nossas próprias mãos, que não somos mais escravos das circunstâncias, mas homens livres, felizes e jubilosos na certeza do esquema Divino.

As dores dos outros ainda nos afetam, mas, junto com nossa profunda simpatia por eles, sentimos dentro de nós a alegria e o poder que vêm do conhecimento de que podemos ajudar, de que não somos mais esmagados diante desses grandes problemas da vida.

Quando vemos nossos semelhantes, temos algo novo a dizer-lhes, podemos agora explicar-lhes as coisas, podemos esclarecer suas dificuldades, podemos compartilhar com eles nosso próprio evangelho de sabedoria.

Para eles, como para nós, o conhecimento removerá dificuldades e lhes mostrará que cada dor que nos chega não é apenas o pagamento de uma dívida remota, mas também uma grande oportunidade para nós agora.

Do mal de outrora podemos fazer um bem presente, porque podemos tomar essas (página 388) provações, problemas e sofrimentos e, pela maneira como os recebemos, transformá-los em degraus para a vida superior, e ao suportá-los podemos desenvolver muitas das qualidades que compõem o homem divino do futuro — um futuro ainda muito distante, mas já ao nosso alcance no momento em que começamos a compreender.

Permitam-me repetir que, quando falamos deste grande esquema, não estamos confiando em fé cega de qualquer espécie, nem estamos pedindo que aceitem algo como questão de fé.

Estamos apenas apresentando-lhes os resultados de investigação, que muitos de nós sabemos serem verdadeiros por meio de pesquisa pessoal.

Vocês podem pensar: — “Como pode qualquer homem saber o que é o esquema divino, como pode qualquer homem penetrar nos conselhos de Deus e saber o que Ele quer?” É verdade, entre essa estupenda vida divina e qualquer consciência nossa há uma distância que não pode ser medida, no entanto, nós mesmos somos centelhas dessa mesma chama divina.

Muito, muito longe, incalculavelmente abaixo dessa poderosa Inteligência está a mais alta inteligência nossa, e, no entanto, em cada degrau da escada entre nós e Ele estão homens — homens como nós, embora tão enormemente superiores a nós — até os grandes Mestres, e além deles, por mais impossível que pareça às nossas mentes finitas.

Eles estão em cada etapa do caminho, de modo que vemos que aqueles que agora estão aos pés de Deus foram outrora homens como nós, e que nós, que agora olhamos de baixo, do pé da gloriosa escadaria, também um dia estaremos onde eles estão.

Essas coisas nós vemos, e para vê-las não é preciso grande estudo nem desenvolvimento anormal.

Muito do que vos dizemos na Teosofia baseia-se no que é visto com faculdades superiores àquelas do corpo físico, e assim, para vós, depende da investigação de alguns homens treinados que desenvolveram dentro de si essa visão (Página 389) superior; mas esta mais poderosa de todas as verdades, a gloriosa certeza da evolução universal, mal necessita da abundância de testemunho que a clarividência se apressa a depositar em seu altar.

Verdadeiramente, aqueles que têm o poder de ver nos planos superiores concordarão de imediato com esta afirmação que fiz, de que podem discernir essa poderosa corrente em movimento — não que possam vê-Lo, o Deus que se oculta por trás de tudo, mas que em cada ponto de suas investigações reconhecem os sinais em todas as direções de Sua ação e de Seu poder, de modo que a convicção é impelida em suas mentes de que a Força existe, e de que uma poderosa Inteligência está, de fato, por trás de toda manifestação.

A evidência dos investigadores treinados é avassaladora quanto a essa suprema certeza, esse evangelho da Sabedoria.

Mas, verdadeiramente, mal necessitamos sequer desse testemunho.

Pois mesmo a partir do plano físico pode-se ver os diferentes estágios do homem; pode-se ver que há mestres, há homens desenvolvidos que se elevam rumo aos grandes Iniciados, e além deles o Cristo e os Budas, e então ainda mais alto e mais alto, para além do nosso alcance.

Mesmo aqueles que ainda não possuem a faculdade clarividente verão que deve haver, que há de fato, para além de tudo isso, uma hierarquia de seres ainda mais desenvolvidos.

Sabemos que há uma evolução, pois a vemos passo a passo à medida que se eleva através dos reinos inferiores até o homem, e podemos ver que o homem que conhecemos, o homem da vida comum de todos os dias, não pode ser o fim dessa evolução.

Sabemos pela história que houve homens maiores e obviamente muito mais desenvolvidos; e não é apenas no passado, mas também hoje, que eles existem.

Serão eles, por sua vez, o fim? Não, há ainda Outros mais elevados e maiores; e assim, por simples raciocínio, vemos que essa maravilhosa escada da qual falei deve existir.

Para aqueles que podem ver um pouco mais longe, o testemunho é avassalador (Página 390) de que os elos superiores dessa grande cadeia existem, pois Eles podem ser vistos e conhecidos e amados.

Apresentamos, portanto, sem hesitação, a nossos semelhantes este glorioso evangelho, mostrando-lhes e assegurando-lhes o que ele fez por nós, e esperando que, para eles, como para nós, esta grande filosofia possa provar ser um caminho de salvação — não de algum demônio imaginário exterior a eles, mas da ignorância interior.

Pois essa é o único obstáculo que se apresenta ao homem, o limite com o qual ele se cercou; mas é uma casca terrível, e até que ele a rompa, até que comece a compreender, verdadeiramente ele sofre muito.

Contudo, a espessura dessa casca é feita pelo próprio homem, e tão logo ele saiba disso, ele se dedica inteligentemente a rompê-la e a impedir a construção de mais quaisquer muros ao redor do eu.

Ele tem tudo em suas próprias mãos, sob seu próprio controle.

Há o mais grandioso dos futuros estendendo-se diante dele, uma evolução de magnitude incalculável, cuja glória não tem fim, que se estende muito além da visão até mesmo do mais elevado clarividente.

Verdadeiramente, essa é uma boa nova de fato, esse é um evangelho veraz — não uma mera interpretação de algo que possa ter outro significado, não uma mera suposição, mas uma perfeita certeza divina, algo que resistirá ao exame, que podeis tomar e investigar por vós mesmos.

Quanto mais vos aprofundardes na Teosofia, mais certos vos tornareis de que esta afirmação é verdadeira, de que somos, na realidade, parte deste vasto esquema ordenado.

Há muitas maneiras pelas quais esta boa nova nos afeta, muitas outras direções nas quais não posso tocar agora, em que nossas vidas são revolucionadas pela compreensão dessas coisas: vasta é, de fato, a mudança que a Teosofia traz à vida do homem que a apreende e a vive. Lembrai-vos, não digo que tal (Página 391) mudança venha a um homem porque ele se filia à Sociedade, ou porque lê dois ou três livros teosóficos; mas digo que o homem que, compreendendo este grande ensinamento, tenta viver a vida que ele prescreve, descobrirá que o que escrevi é verdadeiro.

É tão certo agora quanto nos dias antigos que aqueles que fazem a vontade do Pai que está nos céus conhecerão da doutrina se ela é verdadeira.

Ainda é verdade que o homem que quer conhecer a verdade deve viver a vida.

Não é meramente olhando para a Teosofia de fora que seu evangelho pode ser conhecido; o homem deve obedecer a esse evangelho, e então ele se tornará parte dele, então ele derramará sua glória sobre ele e sobre aqueles ao seu redor.

Então ele perceberá que é seu dever ser feliz, e não se deixará levar por qualquer problema ou tristeza que possa lhe sobrevir, porque sabe que seus pés estão firmes.

Muito trabalho teosófico pode assim ser realizado inconscientemente, além do nosso trabalho exterior ativo, e aumentará à medida que nosso poder e nosso conhecimento aumentarem.

Somos preenchidos de alegria e paz por causa do nosso estudo e da nossa leitura, e inconscientemente espalhamos ao nosso redor essas vibrações de alegria, de felicidade e confiança que estão famintas por compreender a vida da qual se veem parte.

Você pode ajudá-los, você que sabe; pode compartilhar com eles o seu evangelho de sabedoria; e fique bem certo de que, ao compartilhá-lo, ele se tornará para você muito mais do que jamais foi antes.

Realize a coisa para si mesmo primeiro, pois isso é uma necessidade, mas lembre-se de que somente ao transmiti-la aos outros ela pode dar seu verdadeiro e mais elevado fruto.

Se você sabe estas coisas, não as sabe para seu próprio benefício, mas para o benefício desses outros ao seu redor.

É por isso que a luz superior chegou até você, e se você encontrou dentro de si o poder de responder a ela e assimilá-la, então ela chegou até você (Página 392) para que você possa ser útil — não para que você guarde a luz para si mesmo, mas para que através de você, como centros, a luz do sol possa brilhar sobre todo este vasto mundo — para que vocês mesmos sejam sóis em menor escala, refletindo a glória do grande Sol Divino.

Assim, por sua reflexão, você pode trazer a luz da vida d'Ele para atuar em seu próprio nível de uma maneira que, sem você, não poderia ter sido feita.

Você sabe como um espelho pode refletir a luz do sol em um canto escuro onde os raios diretos não podem entrar; da mesma forma, há muitos homens que, por sua própria ignorância e seu próprio egoísmo, se excluíram temporariamente do poder de apreciar a esplêndida luz do alto.

Lá está a gloriosa luz do sol sempre se derramando, mas ainda assim um homem pode se fechar em sua própria casa, longe dessa santa radiância; mas você que a recebe, você que vive nela, pode refleti-la em cantos que os raios diretos não podem alcançar, e assim pode levar essa glória e essa alegria a lares que, sem sua ajuda, teriam permanecido sem calor e sem iluminação.

Há verdadeiramente um evangelho em tudo isto, que nos ensina a nunca esquecer que, embora o lado exterior da vida possa parecer monótono e pesado, há sempre o fogo divino a brilhar interiormente; a lembrar que "a alma das coisas é doce, o coração do ser é repouso celestial; mais forte que a dor é a Vontade; o que é bom passa a melhor, e a melhor, ao ótimo." Assim, esta bem-aventurança celestial, que está além da tristeza e do sofrimento, tornar-se-á para vós a realidade sempre presente, até que aprendais a olhar através da miséria e ver a sua causa – e não apenas ver a causa, mas (muito além disso) o esgotamento desse mal através deste sofrimento temporário, e a glória que há de vir, as magníficas qualidades que tudo isto está a desenvolver no homem.

Assim, este evangelho tornar-se-á uma realidade viva para vós.

Assim, embora (página 393) vos compadeçais cada vez mais profundamente, descobrireis que tendes dentro de vós o poder de ajudar, de confortar e de salvar, porque sabeis, porque tendes este evangelho nos vossos corações, e assim podeis comunicar a sua luz aos outros.

Então lhes direis uma vez mais, nas palavras dos maiores mestres indianos: "Não vos queixeis, nem choreis, nem oreis, mas abri os olhos e vede; a luz está toda ao vosso redor, se apenas removerdes a venda dos vossos olhos e olhardes; ela está sempre convosco, tão maravilhosa, tão gloriosa, tão além de tudo o que o homem jamais sonhou ou pediu em orações, e ela é para todo o sempre."

A   313 -Agitação, o mal da   126 -Alquimia, a possibilidade de   055 -Mistérios Antigos   379 -Reino animal, o   360 -Antídoto do desespero   375 -Argumento, a futilidade do   119 -Arnold, Sir Edwin, poema de   340 -Desenvolvimento astral, efeito do   306 -Astral, perturbação do   141 -Astral, o mundo do   231 -Astrologia   233 -Atlântida, o exemplo da   234 -Atlântida, o exemplo da   127 -Átomo, o último   013 -Atitude da Teosofia em relação à religião   115 -Atitude da Teosofia em relação à religião   373 -Atitude em relação à humanidade, nossa   294 -Vacuidade irresponsável comum   301 -Despertar, o   B   359 -Equilíbrio entre o bem e o mal   133 -Ball, Sir Robert, citação   137 -Baraduc, experimentos do Dr.   015 -Princípios Básicos de   353 -Irmandade do Homem, a   373 -Irmandade do Homem, a   071 -Buda, a vida de   113 -Ensinamento de Buda sobre o Ego   077 -Budismo   098 -Budismo em Burma   331 -Budismo, as duas grandes igrejas do   093 -Monges budistas   099 -Monges budistas   C   133 -Vapores de cálcio no sol   312 -Calma e serenidade   314 -Calma e serenidade   030 -Causa e efeito, a lei de   368 -Certeza da evolução, a   371 -Certeza da evolução, a   291 -Caráter, como construir   212 -Encantamentos   377 -Crianças, nossa relação com   035 -Cristianismo, ensinamento secreto no   043 -Cristianismo, ensinamento secreto no   049 -Cristianismo, ensinamento secreto no   233 -Clarividência   237 -Clarividência   239 -Clarividência, mau uso da   364 -Senso comum, a apoteose do   307 -Presunção e preconceito   376 -Controle do pensamento   296 -Conversão   315 -Coragem e determinação   364 -Critério, um invariável   D   047 -Deificação   048 -Deificação   360 -Desespero, o antídoto do   363 -Destruição do medo, a   301 -Devoção, desenvolvimento por   082 -Dhammachakkappavattana Sutta   119 -Dhammapada, o   297 -Discriminação   264 -Doença causada por comer cadáveres   388 -Esquema divino, o   301 -Dever da felicidade   315 -Dever da felicidade   E   340 -Efeito do desenvolvimento astral   113 -Ego, o ensinamento de Buda sobre o   073 -Iniciações egípcias   089 -Nobre Caminho Óctuplo   195 -Essência elemental   039 -Vida eterna   313 -Mal da agitação   310 -Mal, como conquistar   368 -Evolução, certeza da   371 -Evolução, certeza da   234 -Exemplo da Atlântida   333 -Exemplo da Atlântida   137 -Experimentos do Dr. Baraduc   152 -Experimentos de Reichenbach   F   047 -Fé, uma definição de   183 -Falsa concepção de Deus

- Destino dos ímpios   363
- Medo, a destruição do   223
- Destemor como proteção   103
- Cinco preceitos, os   311
- Tolice de se ofender, a   195
- Forças da Natureza não reconhecidas   200
- Forças da Natureza não reconhecidas   205
- Forças, tipos de   088
- Quatro Nobres Verdades   375
- Futilidade da argumentação   234
- Futuro da humanidade   325
- Futuro da humanidade   334
- Futuro da humanidade   337
- Futuro da humanidade   349
- Futuro da humanidade   390
- Futuro da humanidade   G
- Ganho, o único verdadeiro   347
- Ganho, o único verdadeiro   353
- Ganho, o único verdadeiro   373
- Ganho, o único verdadeiro   132
- Gama de vibrações   216
- Deuses tribais   359
- Bem e mal, o equilíbrio do   052
- Evangelho da Teosofia   383
- Evangelho da Sabedoria   249
- Fofoca, a maldade da   317
- A maior necessidade de todas   H
- Felicidade, o dever da   301
- Felicidade, o dever da   315
- Felicidade, o dever da   142
- Vida celestial, a   280
- Corpos superiores, efeito da comida sobre os   131
- Corpos superiores, os sentidos   207
- Água benta   291
- Como construir caráter   310
- Como vencer o mal   172
- Como pensamos   234
- Humanidade, o futuro da   325
- Humanidade, o futuro da   334
- Humanidade, o futuro da   337
- Humanidade, o futuro da   390
- Humanidade, o futuro da   373
- Humanidade, nossa atitude em relação à   I
- Vibrações inarmônicas   253
- Interpenetração   146
- Introspecção mórbida   322
- Invocação do mal   216
- Irritabilidade   J
- Dia do Julgamento, o relato de Cristo sobre o   031
- Justiça e perspectiva   355
- Kalama Sutta   K
- Karma, a aceleração do   086
- Karma, três tipos de   361
- Reino dos céus   357
- Reino dos céus   037
- Kundalini   042
- Limites da ciência   069
- Lista de assuntos de palestras   L
- Magia   339
- Magia negra   010
- Magia evocatória   193
- Magia invocatória   217
- Magia na religião   201
- Magia menor   213
- Magos, tipos de   206
- Simpatia magnética   218
- Mahamangala Sutta   202
- O dever do homem para com a natureza   163
- Mantras   108
- Matéria, os estados da   283
- Medianimidade   212
- Plano mental, a faculdade do   125
- Fenômenos mesméricos   232
- Mesmerismo, fundamento do   346
- Mesmerismo, fundamento do   165
- Mesmerismo, fundamento do   151
- Métodos dos monges   233
- Cura mental   235
- Cura mental   058
- Cura mental   178
- Cura mental   185
- Cura mental   233
- Cura mental   235
- Cura mental   304
- Motivo para o autocontrole   097
- Orações muçulmanas   069
- Mistérios, símbolos empregados nos   055
- Mistérios, os antigos   072
- Mistérios, os egípcios   061
- Mistérios, os maiores   064
- Mistérios, os menores   063
- Mito de Narciso   062
- Mito de Prosérpina   N
- Narciso, mito de   063
- Espíritos da natureza   197
- Éter nervoso, o   159
- Circulação nervosa, a   158
- Nirvana   094
- Nobre Caminho Óctuplo   O
- Cerimônias Obeah   089
- Ocultismo, uma definição de   216
- Ofensa, a tolice de se ofender   255
- Progresso em uma vida comum   311
- Treinamento oriental   360
- Nossa relação com as crianças   228
- Quiromancia   377
- Pancha Sila, o   231
- Perfeição, a possibilidade da   103
- Fenômenos mesméricos   029
- Frenologia   165
- Cerimônia Pirit, a   231
- Sólidos platônicos   105
- Brinquedos de Baco   070
- Venenos em peixes mortos   070
- Poder do pensamento, o   266
- Poder do pensamento, o   182
- Poder do pensamento, o   240
- Poder do pensamento, o   246
- Poder do pensamento, o   372
- Oração   214
- Preconceito e presunção   307
- Progresso em uma vida comum   360
- Proporção, o senso de   352
- Prosérpina, o mito de   063
- Poderes psíquicos, o uso e abuso dos   227
- Poder psíquico inconsciente   240
- Psicometria   233
- Puritanismo   299
- Escola pitagórica, a   071
- Fundamento do mesmerismo   R
- Razoabilidade de   151
- Reichenbach, experimentos de   364
- Reencarnação   152
- Reencarnação, explica desigualdades   020
- Reencarnação, o testemunho de Cristo sobre a   023
- Relíquias, a filosofia das   021
- Religião, a condição atual da   211
- Religião, por que ela muda   326
- Preocupação religiosa destruída   019
- Resistência ao mal   367
- Sacrifício de sangue   223
- "Salvação", assim chamada   S
- "Salvação", assim chamada   217
- Sangha, a   030
- Biblioteca Sânscrita, a abertura da   038
- Esquema divino, o   090
- Ciência, os limites da   330
- Ensinamentos secretos do Cristianismo   388
- Ensinamentos secretos do Cristianismo   339
- Ensinamentos secretos do Cristianismo   035
- Autocontrole, o motivo para o   043
- Autoexame   049
- Senso de proporção   304
- Sensibilidade   304
- Sensibilidade, a natureza da   352
- Serenidade e calma   250
- Serenidade e calma   157
- Seriedade da vida, a   312
- Concentração   314
- Abate, a atmosfera do   354
- Abate, o pecado do   319
- Açougueiros, a degradação dos   284
- Condições sociais   275
- Guias espirituais   276
- Estados da matéria   327
- Assuntos de palestras, lista de   230
- Sofrimento do mundo   125
- Sol, vapores de cálcio no   010
- Simpatia magnética   385
- Tabelas de vibrações   T
- Talismãs   133
- Telepatia   135
- Telepatia   210
- Telepatia   169
- Testemunho de Cristo sobre a Reencarnação   175
- Atitude teosófica em relação à religião   233
- Atitude teosófica em relação à religião   021
- Ponto de vista teosófico, o   013
- Teosofia, uma barreira contra o materialismo   115
- Teosofia, princípios básicos da   117
- Teosofia, na vida cotidiana   014
- Teosofia, o evangelho da   015
- Teosofia, razoabilidade da   351
- Teosofia, o trabalho da   052
- Teosofia, o trabalho da   364
- Teosofia, o trabalho da   328
- Controle do pensamento   330
- Formas-pensamento   331
- Pensamento, o poder do   376
- Pensamento, o poder do   244
- Pensamento, o poder do   182
- Pensamento, o poder do   240
- Pensamento, o poder do   246
- Pensamento, o processo do   372
- Pensamento, a responsabilidade do   171
- Tisarana, o   243
- Deuses tribais   102
- Trindade, o dogma da   U
- Átomo último, o   216
- Poderes psíquicos inconscientes   050
- Forças não reconhecidas da natureza   127
- Mundo invisível, o   240
- Altruísmo   195
- Uso e abuso dos poderes psíquicos   200
- Vacuidade dolorosamente comum   123
- Vegetarianismo e Ocultismo   317
- Vegetarianismo, razões para o   227
- Vegetarianismo, razões para o   255
- Vegetarianismo, razões para o   256
- Vegetarianismo, razões para o   259
- Vegetarianismo, razões para o   264
- Vegetarianismo, razões para o   267
- Vegetarianismo, razões para o   268
- Vegetarianismo, razões para o   272
- Vegetarianismo, razões para o   274
- Vibrações, a gama de   279
- Vibrações inarmônicas   132
- Vibrações, tabela de   253
- Fluido vital, o   135
- Cerimônias vodu   159
- Por que a religião muda   W
- Ímpios, destino dos   216
- Sabedoria, o evangelho da   019
- Trabalho da Teosofia, o   369
- Trabalho da Teosofia, o   383
- Trabalho da Teosofia, o   328
- Mundo, o sofrimento do   330
- Mundo invisível, o   331
- Mundo, o sofrimento do   385
- Mundo invisível, o   123